Capítulo 1: O Leão de Istambul
O despertador tocou às seis da manhã. Yldirim Demirhan abriu os olhos sem hesitação, projetou o corpo para fora da cama e calçou as sapatilhas de treino antes que o cérebro lhe sugerisse mais cinco minutos de sono. Disciplina. Era isso que o mantinha de pé quando o resto da sua vida era, admitidamente, uma sucessão de decisões questionáveis.
O ginásio da mansão ocupava uma ala inteira do rés-do-chão. Espelhos do chão ao teto, equipamentos de última geração, uma janela panorâmica que dava para os jardins onde a mãe cultivava as suas roseiras premiadas. Quarenta minutos de passadeira, depois pesos. Supino, agachamento, peso morto. O corpo respondia com a mesma obediência que os seus subordinados na Demirhan Holding — e o resultado estava à vista: um metro e noventa e três de altura, atlético, musculado, os ombros largos e o abdómen definido por anos de trabalho constante.
Ao fim de uma hora, Yldirim observou o seu reflexo no espelho com uma satisfação tranquila. O suor escorria-lhe pela testa, o cabelo preto colado à pele, os olhos azuis — herança do pai — a brilharem com aquela intensidade que fazia os adversários hesitarem nas reuniões e as mulheres esquecerem que estavam comprometidas. Estava em forma. Estava no controle. Era assim que gostava de começar o dia.
Às sete e meia, depois do duche, entrou na sala de jantar com o cabelo ainda húmido e um fato Armani cinza-escuro que lhe assentava como uma segunda pele. A mesa estava posta para nove. A mãe, Sibel, já ocupava o seu lugar, o vestido azul-marinho impecável, a postura de uma sultana que comandava o seu pequeno reino com mão de ferro e coração de manteiga.
— Bom dia, anne.
— Bom dia, meu filho. Dormiste bem?
— Como um bebé.
Os irmãos foram chegando. Aras, o de trinta anos, pontual como um relógio suíço, já com o telemóvel na mão e o sobrolho franzido para algum relatório. Kerem, o de trinta e quatro, desgrenhado, a camisa meio aberta, os olhos ainda toldados pela noite anterior. Elif, a mais nova, vinte e cinco anos, entrou como uma brisa suave num vestido cor de lavanda, a doçura em pessoa.
Cem, trinta e seis anos, amigo desde os tempos da escola, cabelo castanho claro permanentemente despenteado, atirou-se para a cadeira ao lado de Kerem. Os dois formavam uma dupla caótica que estava sempre a tramar qualquer coisa. Baran, trinta e oito, o gigante de quase dois metros, entrou em silêncio e ocupou o seu lugar sem fazer barulho. Emre, o equilibrado, impecavelmente vestido, já pronto para o trabalho, fechou o grupo.
— Ontem foi épico — anunciou Kerem, servindo-se de simit.
— Épico é pouco — concordou Cem. — Foi histórico.
— O que aconteceu? — perguntou Elif, embora o seu sorrisinho enigmático sugerisse que já sabia metade da resposta.
— O teu irmão mais velho bateu todos os recordes.
— Kerem — advertiu Sibel.
— É verdade! Bebidas, dança, números de telefone. Três. Três números de telefone numa noite. O abi estava imparável.
Yldirim sorriu para o prato. A noite anterior fora, de facto, gloriosa.
O clube chamava-se Ruby. Ficava em Bebek, à beira-mar, com janelas enormes que davam para o Bósforo. A mesa VIP no mezanino estava reservada, como sempre. Garrafas de champanhe que custavam mais do que o salário mensal de um empregado médio. Copos de cristal. Luzes que mudavam de cor ao ritmo da música.
Yldirim entrou como quem entra na própria casa. O segurança cumprimentou-o pelo nome. O gerente apareceu em trinta segundos para lhe dar as boas-vindas. As cabeças viraram-se. Era sempre assim. Aos trinta e sete anos, Yldirim Demirhan não passava despercebido em lado nenhum.
— Sangue novo — murmurou Cem, percorrendo a sala com os olhos de um caçador. — Hoje preciso de sangue novo.
— Ali — disse Kerem, apontando com o queixo. — Canto esquerdo. Morena de vestido vermelho. E não está sozinha.
Yldirim seguiu a direção do olhar do irmão. A morena era, de facto, notável. Cabelo preto, liso, a cair em cascata sobre os ombros nus. Vestido justo, daqueles que sugeriam tudo sem mostrar demasiado — a arte da insinuação levada à perfeição. Pernas longas, cruzadas com elegância. Saltos de agulha. Batom escuro. Quando se riu de algo que a amiga disse, mostrou dentes perfeitos.
— Chama-se Derya — murmurou Kerem, sempre bem informado. — Trabalha em relações públicas. Veio com uma amiga. A loira.
— A loira é minha — declarou Cem.
— Desde quando és tu que decides?
— Desde que o abi fica sempre com a melhor. Hoje há duas boas. Uma para ele, uma para mim. Tu ficas a ver.
— Isso é injusto.
— A vida é injusta.
Yldirim nem se deu ao trabalho de intervir. Recostou-se no sofá de couro, o copo de champanhe apoiado nos dedos, e observou. Não era pressa que movia um predador experiente. Era paciência. As mulheres aproximar-se-iam. Era uma questão de tempo. O perfume caro, o fato de marca, a aura de poder que o rodeava como um campo magnético — tudo conspirava para que ele não precisasse de dar o primeiro passo.
Derya olhou na sua direção. Primeiro, um olhar casual, como quem varre a sala. Depois, um segundo olhar, mais demorado. Yldirim sustentou-lhe o olhar e ergueu ligeiramente o copo, um brinde silencioso.
Ela sorriu. Ele também.
Dez minutos depois, Derya levantou-se e dirigiu-se ao bar. Sozinha. O vestido vermelho abraçava-lhe as curvas com uma precisão quase cirúrgica. Os saltos faziam-na balançar ligeiramente, um movimento de ancas que era difícil de ignorar. Yldirim deixou passar um minuto exato — nem muito cedo, nem muito tarde — e seguiu-a.
— Champanhe? — ofereceu, encostando-se ao balcão ao lado dela.
— Aceito.
O barman serviu duas taças. Yldirim reparou nos detalhes: o perfume doce, talvez demasiado doce, mas que combinava com o vestido vermelho e com a boca que sorria abertamente. Os olhos castanhos amendoados, pintados com um eyeliner preciso. As unhas pintadas de vermelho, a fazerem jogo com o vestido. O batom escuro que deixava uma marca no copo.
— Yldirim — apresentou-se.
— Derya. — Ela apertou-lhe a mão com firmeza. A pele era macia. — És o dono disto?
— Do clube? Não. Da noite? Talvez.
— Que resposta modesta.
— Não sou homem de falsas modéstias.
Conversaram. Ela trabalhava em RP, geria a imagem de três marcas de luxo. Ele disse que era CEO de uma empresa de logística — a verdade, mas sem os detalhes que assustavam. Falaram de viagens. Ele conhecia meio mundo. Ela sonhava conhecer a outra metade. Riram-se. Ela tocou-lhe no braço quando ele fez uma piada. O toque demorou-se um segundo a mais do que o necessário.
À uma da manhã, dançaram. O corpo de Derya movia-se bem, colado ao dele, os braços à volta do seu pescoço, o perfume doce a envolvê-los como uma nuvem. Yldirim pousou as mãos na cintura dela. A carne era firme sob o tecido. Derya ergueu o rosto e olhou-o nos olhos. Os lábios entreabertos. O convite silencioso.
— Queres sair daqui? — perguntou ele.
— Para onde?
— Tenho um sítio.
O apartamento secreto ficava no lado asiático de Istambul. Ninguém conhecia a sua existência — nem os irmãos, nem os amigos, nem a mãe que rezava pela sua alma. Era um espaço minimalista: paredes brancas, sofá de couro preto, uma cama king-size com lençóis de seda egípcia. Uma janela panorâmica dava para o Bósforo. Lá fora, as luzes da cidade piscavam como um segundo céu.
Derya entrou, os olhos a brilharem.
— Isto é incrível.
— É funcional.
— Funcional? — Ela riu. — Um sítio destes não é funcional. É um refúgio.
Yldirim fechou a porta. Aproximou-se dela com a calma de um predador que sabe que a presa não vai fugir. Derya correspondeu, erguendo-se nos saltos altos para lhe passar os braços à volta do pescoço. A diferença de alturas era notável — ela era alta, mas ele ainda a ultrapassava em mais de dez centímetros.
O primeiro beijo foi lento, experimental. Depois, aprofundou-se. Yldirim sentiu o sabor do champanhe misturado com algo mais doce — o batom dela, provavelmente. As mãos dele desceram-lhe pelas costas, sentindo a curva da coluna, a textura do vestido. Derya inclinou a cabeça para trás, oferecendo-lhe o pescoço. A pele era quente. O perfume doce intensificava-se.
— Não te vou fazer promessas — murmurou ele, os lábios contra a orelha dela.
— Não preciso de promessas.
— Precisas de quê?
— Disto.
As alças do vestido vermelho deslizaram pelos ombros. O tecido caiu no chão como uma bandeira que se rende. Por baixo, renda preta que contrastava com a pele morena. Yldirim demorou-se a apreciar a imagem — era um conhecedor, e uma mulher bonita merecia ser apreciada.
— És linda — disse.
— Sei.
— Modesta.
— Não sou de falsas modéstias.
Ele riu. Ela também. Depois, não houve mais palavras.
Levaram-se um ao outro com a urgência de dois estranhos que sabiam que aquilo era exatamente o que parecia: um encontro sem passado e sem futuro. As mãos dele exploraram cada centímetro de pele. As unhas dela arranharam-lhe as costas, deixando marcas que desapareceriam em horas. Os lençóis de seda emaranharam-se. O som da respiração acelerada encheu o quarto. A cama rangeu sob o peso dos dois corpos.
Quando acabaram, ficaram deitados lado a lado, os corpos ainda quentes, a respiração a normalizar. Derya apoiou a cabeça no peito dele. O suor colava-lhe o cabelo à testa. Yldirim passou-lhe os dedos pelas costas, distraidamente, traçando círculos na pele.
— Isto é teu? — perguntou ela, olhando para o teto.
— O quê?
— O apartamento. É teu?
— Sim.
— Vives aqui?
— Não. Uso-o para momentos privados.
— Encontros — traduziu ela, sem ressentimento.
— Sim.
Derya riu, uma gargalhada curta e sincera.
— Pelo menos és honesto.
— Sempre.
— A maioria dos homens mente. Promete mundos e fundos. Ligações, relações, vamos jantar amanhã. Tu não. Gosto disso.
— Para quê mentir? Os dois sabemos o que queremos.
— E o que queres tu?
— Isto. — Ele virou-se para ela, os olhos azuis a brilharem na penumbra. — Uma noite. Sem expectativas. Sem pressão. Apenas prazer. Simples.
— Simples — repetiu ela. — Sim. É bom de vez em quando.
Fez-se silêncio. Derya fechou os olhos, e por um momento Yldirim pensou que ela adormecera. Mas depois ela falou de novo, a voz mais baixa:
— Houve uma altura em que eu queria mais. Um marido, uma família. Coisas assim.
— E agora?
— Agora? Agora contento-me com noites simples.
Yldirim não respondeu. O relógio na mesa de cabeceira marcava quatro e meia. Lá fora, a primeira luz da madrugada começava a despontar sobre Istambul. Derya adormeceu. Yldirim ficou acordado mais um pouco, os olhos postos no teto, a mente vazia. O corpo ainda vibrava com os resquícios do prazer. Sentia-se bem. Satisfeito. Vivo.
Às cinco e meia, Derya despertou. Vestiu-se em silêncio, ajeitou o cabelo com os dedos, calçou os saltos. Yldirim observava-a da cama, o lençol enrolado na cintura, o tronco nu exposto. Os músculos do peito e do abdómen ainda brilhavam de suor seco. As marcas das unhas dela já estavam a desaparecer.
— Obrigada — disse ela.
— Porquê?
— Pela honestidade. É rara.
— É o mínimo.
Ela sorriu, inclinou-se e beijou-o na testa — um gesto estranhamente terno para uma despedida sem regresso. Depois, saiu pela porta dos fundos, os saltos na mão, uma mensagem no telemóvel que ele talvez respondesse e talvez não.
Yldirim tomou um duche frio, vestiu-se e regressou à mansão Demirhan a tempo de treinar antes do pequeno-almoço.
— E a Derya? — insistiu Cem, na manhã seguinte, enquanto barrava manteiga no pão. — Vais vê-la outra vez?
— Talvez.
— "Talvez" significa não.
— Significa talvez.
Kerem soltou uma gargalhada.
— Abi, tu és um caso perdido. Não te apegas a nada. És como um gato de rua. Apareces, comes, desapareces.
— Que metáfora horrível — comentou Elif.
— Mas é verdade. O Yldirim não se apega. Nunca se apegou. Nem à Derya, nem à Aslı da semana passada, nem àquela modelo italiana do mês passado, a...
— Já chega, Kerem — interrompeu Sibel. — Estamos a tomar o pequeno-almoço.
— Eu só estou a constatar factos.
Yldirim não se defendeu. Era verdade. Gostava de mulheres. Gostava do jogo, da conquista, do prazer sem amarras. Não havia trauma, não havia vazio existencial, não havia carência afetiva. Havia simplesmente um homem que gostava de variedade e que não via razão para se privar disso. O mundo estava cheio de mulheres bonitas, e ele tinha os meios e o charme para as conquistar. Era a sua natureza. Mudar seria mentir a si próprio — e Yldirim Demirhan podia mentir em negociações, mas nunca a si mesmo.
— Confiar em ti — disse Sibel, olhando-o com uma expressão que misturava exaspero e afeto — é como confiar num gato a tomar conta de um aquário.
— Essa frase nunca envelhece, anne.
— Nem tu.
— Maalesef.
Mustafa entrou na sala com o jornal financeiro debaixo do braço e o ar grave de quem tinha algo importante a anunciar. Ocupou a cabeceira, beijou a esposa na testa, e fez um gesto quase impercetível aos empregados para que se retirassem.
Yldirim reparou no gesto. Um mau presságio.
— Baba?
— Hoje não vais para o escritório — anunciou Mustafa, a voz grave a ecoar na sala. — Pelo menos não de manhã. Tenho uma reunião importante e quero que estejas presente.
— Uma reunião? Com quem?
— Com um velho amigo. Sergei Romanov. E com a filha dele.
— A filha? — Kerem inclinou-se para a frente, os olhos a brilharem de curiosidade. — Que idade tem?
— Dezoito.
— Ah! — Kerem bateu na mesa. — Sangue novo!
— Kerem — advertiu Sibel.
— O quê? É verdade. O abi precisa de conhecer pessoas novas. Alguém que o faça assentar. Uma boa menina russa, educada, prendada...
— Ela não vem para casar contigo — interrompeu Mustafa, secamente.
— Ainda bem. Prefiro as mais experientes.
— Kerem!
— Estava a brincar, anne.
Mustafa ignorou a troca e fixou os olhos azuis no filho mais velho. O mesmo azul. A mesma intensidade. Durante um longo momento, pai e filho mediram-se em silêncio, como dois leões a avaliarem o território um do outro.
— O Sergei é um dos nossos parceiros mais importantes — disse Mustafa. — A relação entre as nossas famílias tem de ser fortalecida. Ele tem uma filha única. Tu és o meu herdeiro. Façam as contas.
O garfo de Yldirim parou no ar.
— Que contas?
— As contas de uma aliança.
— Baba, não estarás a sugerir...
— Não estou a sugerir nada — Mustafa levantou-se e ajeitou o casaco. — Estou a informar. Às onze, no meu escritório. Os Romanov estarão cá. E tu estarás presente.
Deu meia-volta e saiu da sala, deixando um rasto de silêncio atrás de si.
Kerem foi o primeiro a falar.
— Abi... Acho que te vão casar.
— Cala-te, Kerem.
— Com uma russa de dezoito anos.
— Cala-te.
— Isto é melhor que uma novela.
— Kerem, juro por Deus...
— Cuidado — riu-se Kerem, imitando uma voz grave —, são russas. Dizem que as russas são fogosas.
Cem explodiu numa gargalhada. Até Baran, a montanha silenciosa, esboçou um sorriso. Aras abanou a cabeça, preocupado. Elif observava tudo com os seus olhos perspicazes, um sorrisinho enigmático a bailar-lhe nos lábios, como se já soubesse algo que os outros não sabiam.
Yldirim passou a mão pelo cabelo, frustrado. Lá fora, o sol erguia-se sobre os minaretes de Istambul. O dia prometia ser longo.
E a sua vida, que até então era exatamente como ele gostava — livre, desimpedida, preenchida por encontros fortuitos em apartamentos secretos e mulheres que saíam sorrindo pela porta dos fundos —, estava prestes a sofrer um abalo sísmico.
Mas isso, ele ainda não sabia.
Sözlük (Glossário):
Abi — irmão mais velho (usado também informalmente para homens mais velhos, em sinal de respeito ou familiaridade)
Anne — mãe
Baba — pai
Maalesef — infelizmente
Simit — pão turco em forma de argola, coberto com sementes de sésamo









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