As Cinzas De Henry by LexSilvas at Inkitt
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As Cinzas De Henry

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Summary

Na Inglaterra do século XIX, onde aparências valem mais que verdades, Henry precisa escolher entre obedecer às regras ou seguir o próprio coração. Com apenas sete dias para se casar, ele decide arriscar tudo em um plano ousado: transformar seu antigo amante Victor em sua noiva Victoria diante de toda a sociedade. Mas entre olhares, suspeitas e memórias de um amor que nunca morreu, a linha entre mentira e sentimento começa a desaparecer. E amar, naquele tempo, pode custar muito mais do que ele imaginava.

Genre
Lgbtq
Author
LexSilvas
Status
Complete
Chapters
9
Rating
n/a
Age Rating
16+

Introdução: Cartas à Henry

As Cinzas De Henry

Lex Silvas

17/02/26


Norwich, quinta-feira, 6 de fevereiro de 1820


⊱━━━━━━━━━━━━━ ✉ ━━━━━━━━━━━━━⊰

“Meu caro irmão Henry,

É com o mais profundo pesar que lhe comunico o falecimento de nosso estimado pai. Ele expirou na noite de quarta-feira, em seu leito, após uma árdua luta contra o tifo.

Rogo-lhe que venha sem demora a Norwich para que possamos juntos prestar-lhe as últimas honras. Nossa mãe encontra-se inconsolável e necessita de seu apoio e presença.

Com afeto e devoção, Sua irmã, Charlotte”

⊱━━━━━━━━━━━━━ ✉ ━━━━━━━━━━━━━⊰


E foi com essa breve carta em mãos que minha história teve início — ou melhor, minha perdição. Voltar a Norwich é para mim um tormento, pois nada mais resta lá desde o incêndio que, há tantos anos, levou meu querido amigo Kiefe. Refugiei-me em Londres desde então, incapaz de suportar a dor da perda. Agora, contudo, o destino me obriga a regressar: meu pai, já debilitado há longo tempo, finalmente sucumbiu à enfermidade que o consumia, e cabe a mim velar-lhe o corpo e honrar-lhe a memória.

Meu nome é Henry Conrad Brown. Tenho vinte e dois anos e nasci em Norwich, filho de uma família abastada. Não somos lordes nem nobres, mas estamos longe da rusticidade dos camponeses. Meu pai possuía terras férteis, que arrendava a pequenos agricultores, e disso provinha nosso conforto. Devo admitir que nunca nos faltou nada. Quando manifestei o desejo de estudar e abrir meu próprio negócio longe dali, ele não apenas aprovou, como custeou minha viagem e meus primeiros passos. Assim, estabeleci-me em Londres, onde mantenho uma modesta loja de tecidos no coração da cidade.

Agora, porém, tudo isso deve ser deixado para trás. Carrego comigo apenas algumas malas, e o peso que me acompanha não é o de roupas ou pertences, mas o da memória e da obrigação filial. Chego de diligência, o som das rodas de madeira ainda ecoando em meus ouvidos, e sinto que cada passo que me aproxima de Norwich é também um passo em direção ao passado que tanto temi revisitar.

Sou um jovem de porte elegante, de estatura mediana, com cabelos escuros sempre bem penteados e olhos de um tom profundo de cinza, que muitos dizem carregar a melancolia de minha alma. Meu semblante é marcado por certa gravidade, como se cada lembrança do passado tivesse deixado uma sombra em meu olhar. Trago no rosto traços firmes, o nariz reto e a boca que raramente se curva em sorriso, pois a vida me ensinou cedo o peso da perda.

Há em mim a compostura de quem foi educado para a respeitabilidade, mas também a inquietação de quem guarda segredos que não se dissipam com o tempo. Carrego comigo uma expressão que oscila entre a seriedade e a saudade, como se cada instante fosse atravessado por memórias que insistem em não se calar.

Desço da diligência e encontro já à minha espera uma carruagem menor, conduzida por um dos criados mais antigos de nossa casa, enviado por ordem de minha mãe. Entro no coche e, enquanto as rodas começam a girar sobre o caminho irregular, retiro do bolso a carta de minha irmã e a releio, como se buscasse confirmar aquilo que ainda me parece irreal. O perecimento do patriarca da família.

Não sei o que encontrarei naquelas terras, pois parti de Norwich ainda rapaz, mal tendo completado dezesseis anos. Desde então, mantive apenas o fio tênue das cartas que nos ligavam, tentando acompanhar à distância o destino de minha família. Agora, o retorno me pesa como um fardo inevitável.

A viagem se estende por campos que me são ao mesmo tempo familiares e estranhos, e cada curva do caminho traz à tona lembranças que julgava enterradas. Por fim, após longo percurso, avisto a colina onde se ergue minha antiga casa. O casarão, imponente e silencioso, parece observar minha chegada com a mesma gravidade que sinto em meu coração.

Mal desço da carruagem, vejo minha irmã correr em minha direção. Charlotte, com seus quinze anos, envolve-me num abraço caloroso, e por um instante sinto o peso da viagem se dissipar. Seu rosto ainda guarda a delicadeza da infância, mas já revela traços de mocidade; os cabelos castanhos caem soltos sobre os ombros e seus olhos claros brilham com a emoção do reencontro. Há nela uma alegria genuína, misturada à saudade, que me faz recordar o tempo em que deixei Norwich e a vi pela última vez.

— Olá, Charlotte — digo, apertando-lhe as mãos. — É um consolo imenso poder revê-la. Você está uma moça já.

Ela me olha com os olhos marejados, mas o sorriso insiste em permanecer.

— Olá, meu irmão, querido — responde ela. — Estava com tantas saudades de você. Faz tanto tempo que não o vejo, que quase esqueci como é ouvir sua voz.

Aquele reencontro, simples e sincero, traz à tona memórias da infância que julgava perdidas. O calor de sua presença suaviza a dor que me acompanha, e percebo que, apesar dos anos de distância, o laço entre nós permanece intacto.

Entro na casa acompanhado de Charlotte. O casarão ergue-se sobre a colina com sua fachada austera, as janelas altas refletindo a luz pálida da tarde. O corredor principal, revestido de madeira escura, guarda o silêncio pesado que só as casas de luto conhecem. Cada quadro pendurado nas paredes parece observar minha chegada, como testemunhas mudas de um passado que não se apaga.

— Onde está nossa querida mamãe? — pergunto, tentando disfarçar a inquietação. — Espero que não esteja indisposta.

— Está com o senhor Smay — responde Charlotte. — Discutindo sobre os espólios de papai. Não me deixou entrar no escritório. Disse que sou muito nova para tais assuntos.

Seguimos até o escritório, o aposento que sempre fora domínio de meu pai. A porta pesada se abre com dificuldade, revelando o ambiente carregado: estantes repletas de volumes encadernados, a escrivaninha robusta coberta de papéis, e o relógio de pêndulo marcando o tempo com uma cadência grave.

Minha mãe está sentada, o semblante cansado e austero. Ao lado dela, o senhor Smay, advogado da família, segura documentos com expressão solene.

— Henry, meu querido filho. Que bom revê-lo — diz minha mãe levantando-se com dificuldades.

Eu me aproximo e tomo-lhe as mãos com um beijo suave.

— Que bom que veio, senhor Brown — diz ele, levantando-se. — Estava aqui conversando com sua mãe sobre a fortuna de seu pai.

— Meu pai ainda nem foi enterrado e já estão discutindo herança — respondo indignado. — Isso não me parece ser algo do seu feitio, mamãe.

Ela ergue os olhos para mim, firme: — Não seja tão insolente, filho. O assunto é de grande importância, e eu jamais estaria aqui se não fosse.

— Onde está o papai? — pergunto, sentindo o coração apertar.

— Em seus aposentos, sendo velado por sua tia Ofélia e seus primos — responde ela. — Vieram de longe para isso.

— Eu gostaria de vê-lo, se não se importam — digo.

O senhor Smay intervém com voz grave: — Sente-se, senhor Brown. Temo que o assunto é de extrema urgência. Seu pai pode esperar.

Olho para minha mãe, sem compreender o que tudo aquilo significa, e acabo por me sentar ao lado do advogado, desconfortável com aquela situação.

— O que é tão importante assim? — pergunto. — Imagino que seja algo que não pode esperar que eu chore pelo meu pai querido.

Minha mãe suspira, com um tom de desdém inesperado: — Seu pai querido nos ferrou.

— Mamãe! — exclamo, chocado com tamanha franqueza. — Graças ao bom Deus que Charlotte não está aqui pra ouvir você falando assim.

— Me desculpe, filho, mas não há outra palavra. Seu pai fez um novo testamento antes de morrer e pediu que outro advogado, não o senhor Smay, o validasse — diz ela.

O advogado ajeita os papéis e fala com solenidade: — Espero que esteja pronto para ouvir as notícias. Temo que elas afetaram a sua vida consideravelmente.

— Digam logo — peço quase implorando. — Nunca gostei de suspense.

— Seu pai lhe deixou tudo — diz ele. — A casa, as terras, os títulos.

Por um instante, sinto alívio.

— Isso parece ótimo. Não sei por que tanta comoção. Assinarei os papéis para deixar a senhora e Charlotte responsáveis por tudo. Se a preocupação é essa? Pois não seja!

Minha mãe, porém, balança a cabeça: — Eu agradeço, querido. Mas você conhece bem seu pai. Ele não faria as coisas tão fáceis assim para nós.

— O que quer dizer com isso? — pergunto.

Ela me entrega o documento. Ao abrir o papel, sinto o peso da herança cair sobre mim como uma sentença.


⊱━━━━━━━━━━━━━ ✉ ━━━━━━━━━━━━━⊰

Eu, Edward Brown, em pleno uso de minhas faculdades, declaro e faço saber que, após meu falecimento, todos os meus bens — incluindo a casa, as terras e os títulos — serão legados a meu filho Henry Brown.

Contudo, estabeleço como condição irrevogável que o referido herdeiro deverá contrair matrimônio no prazo máximo de sete dias após minha morte. Caso tal condição não seja cumprida, os bens e títulos aqui descritos serão transferidos à administração do meu sobrinho Jonathan Brown, até que se cumpra o disposto ou, em sua falta, revertam em benefício da comunidade local.

Firmo este documento de minha própria vontade, diante de testemunhas, para que se cumpra conforme minha última determinação.

Edward Brown

Assinado em Norwich, no dia 18 do mês de janeiro do ano de Nosso Senhor 1820.

⊱━━━━━━━━━━━━━ ✉ ━━━━━━━━━━━━━⊰


Ao ver aquilo eu só grito de desespero: — Ele fez o que?

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