1. O início do fim
Estou aqui sentado, com a visão turva e a boca seca. Doem-me as costas nesta posição de esperar alguém chegar. Queria, sinceramente, levantar-me e ir embora, ou mesmo deitar-me e ir para algum lugar. Mas aqui ficarei, nesta posição, esperando alguém chegar.
Olho pela janela suja e espero algum pássaro pousar. Ontem apareceu um pardalzinho, um filhote que aprendeu a voar há poucos dias. Como eu sei? Não sei, mas tive tempo suficiente para imaginar. Acho que minha tosse o afugentou, nem deu tempo para escutar alguma nova canção.
Durante muito tempo, eu quis ser livre como um pássaro. Voar pelo céu azul e respirar o ar puro. Isso foi durante um tempo curto, até começar a estudar Filosofia. Ela retirou de mim o encanto burro do mundo. Descobri que pássaros são presos em sua condição e não têm outra opção a não ser voar.
A Filosofia tirou de mim o encanto pela vida e me deu maços de cigarro. Por um tempo era um cigarro em cada período, depois um maço, e depois parei de contar...
...Pausa para tossir e procurar ar...
Perdi por um instante a visão da janela. Pequenas luzinhas aparecem em minha visão. Gosto delas. É Natal durante um pequeno tempo, mesmo sem presente. Talvez porque, neste momento, eu só tenha passado. O futuro, que era um devir, agora nem é um desejo. Trata-se de uma desesperança.
Escuto passos e paro de fitar a janela. Meu peito ainda está pesado, e a respiração machucaria a alma se eu não a tivesse vendido para ter meus últimos dias de despedidas. Quando a Morte voltar para me buscar, estarei mais leve e não um fardo a ser puxado. Quero caminhar de cabeça erguida ao seu lado.
Por enquanto, fico esperando alguém chegar...
Nos últimos dias tem sido assim: pessoas chegando, todas muito familiares; trazem seus sorrisos, suas lágrimas, seus silêncios, suas muitas ou poucas palavras. Cada qual traz consigo o que consegue carregar e, sinceramente, leva muito pouco de mim se comparado a tudo o que deixa aqui. Sinto que todas querem deixar seus ressentimentos mais leves, como se eu pudesse desfazer alguma culpa pelas ausências de outrora.
Logo eu, o sujeito mais ausente na vida daquelas pessoas que eu tanto amei e que, talvez, se não estivesse preso em meu próprio desespero por minutos de felicidade, as teria amado mais. Sigo escutando os passos; não sei se são de pessoas ou de expectativas minhas de que sejam as minhas pessoas.
Olha eu sendo possessivo. Um sorriso tolo aparece no meu rosto...
Se foi...
Sinto o gosto da secreção na minha boca. Não sei se cuspo ou se devo engolir. Escolho a segunda opção para não ver a cor do muco. Se for avermelhado como nos últimos dias, a Morte chegará mais rápido do que as horas que eu tenho para ofertar às minhas pessoas.
Então, eu só fico aqui sentado, esperando. Minha visão está turva e minha boca segue ressecada. Depois de tanto tempo nesta posição, até mesmo suspirar dói. Tomo medicamentos a cada seis horas para não sentir doer mais, então eu sei que dói muito, mas não sinto toda a dor que meu corpo carrega.
Meu corpo não é o mesmo de outros tempos; repousa em si o acúmulo dos anos e de tantas histórias que vivi e de outras de que nem me recordo mais. Vivi meus quarenta e nove anos como ninguém poderia ter vivido. Tive momentos marcantes.
Lembro-me de um seminário sobre o Tempo. Essa invenção humana que tanto nos oprime. Se não tivéssemos criado o tempo, apenas passearíamos na vida e não nos preocuparíamos com o contar das horas, dos dias, das semanas, dos anos e das décadas. Não haveria sentimento de tempo perdido. Haveria apenas a vida. Uma pessoa levantou a mão e questionou:
— Professor! Como saberíamos se o que estamos vivendo é um tempo de felicidade?
Lembro-me de ter sorrido. Um calouro, provavelmente. Não prestou um segundo de atenção nas minhas palavras ou, certamente, não as entendeu.
— Olha, meu jovem! Não vivemos o tempo. O tempo vive em nós. Então, sua pergunta deveria ser se o seu tempo é um tempo de felicidade. Se a resposta for sim, provavelmente você está em um tempo de alienação e, por isso, a felicidade é mais acessível. Nós, sujeitos do conhecimento, temos em nós o tempo de angústia, de melancolia. Quando sorrimos, é um deboche da ignorância. Veja, não estou dizendo que você é um ignorante em um tom pejorativo, estou apenas o alertando para seguir assim. Tranque o curso de Filosofia e vá ser feliz.
Todos no ambiente sorriram. Falar a verdade em tom de deboche é uma arte para poucos, e eu era um desses poucos. Encontrei um lugar no sarcasmo e chamei isso de felicidade durante muito tempo, ignorando que a felicidade é um breve momento entre momentos de tristeza. E esses momentos duraram muito tempo em mim.
Mas sabe o que mais me incomoda no tempo? O barulho do relógio de parede. É um barulho arrastado, interminável e conscientizador. Mantém a lembrança das horas passando e da imobilidade em que me encontro. Queria correr agora, pois nunca corri antes, nem quando estava prestes a perder o ônibus. Se o havia perdido, havia um motivo desconhecido e, então, caminhava até o próximo ponto, esperando ultrapassá-lo mesmo em passos arrastados e intermináveis.
Olho fixamente para ele e penso: em uma era digital, quem troca as pilhas deste velho conhecido? Olho fixamente, e é sempre neste maldito horário que as pessoas começam a chegar; nunca é uma hora antes, minutos ou mesmo segundos. É sempre depois.
O depois virou o meu devir. São quatro horas da tarde e ninguém chegará exatamente neste horário. Será no depois. Algumas vezes é um minuto; outras tantas, passados...
Quem virá hoje?
Não foi o jovem pássaro. Nem mesmo será a chuva que tenta limpar as vidraças em vão. Um raio de sol tenta ultrapassar o vidro quase opaco devido ao pó da cidade que se acumula.
Escuto passos. Não são os passos de outrora. Esses são conhecidos, usando as velhas rasteirinhas pretas de sempre. Escuto o som familiar de passos firmes e pesados. Poderia ser outra pessoa hoje, mas a Morte tem minha alma sequestrada e é ela quem vai liberando as pessoas das quais eu preciso me despedir.
Como fazer isso?
Não tinha pensado até agora. Nunca fui de despedidas, sempre fui embora ou deixei ir embora. Não precisei dar explicações ou justificativas. Algumas vezes, nem adeus foi necessário.
Como se faz isso?
Os passos estão mais próximos. Como nunca antes, sinto-me desesperado. Ou melhor, sinto-me despreparado. Um jovem aprendiz chegando a um primeiro emprego sem um supervisor para dizer aquilo que é possível ou não.
Agora, o pensamento que vem é se eu fui um sujeito possível dentro de tantas possibilidades...
Quais eram as minhas possibilidades? Agora, nem faz mais sentido pensá-las, pois nunca fez. Os passos arrastados e familiares me arrastam para este lugar desconhecido. O que fazer com aquilo que não sei como fazer?
Se pelo menos eu tivesse um último cigarro. Um velho amigo em dias de ansiedade. Meu Deus...
Não. Quero dizer: Sim!
Sinto o ar entrando devagar agora, aliviando um pouco os últimos segundos que me restam. Consigo ver melhor a porta aberta e o corredor amarelado pelas luzes. Olho para a janela mais uma vez e lá fora está cinza. Fico pensando neste contraste de cores e, de repente, o barulho dos passos se interrompe.
Os olhos castanhos dela, idênticos aos meus. O cabelo curto, pintado de um amarelo sem vida, tentando esconder o que há de vida nos tons prateados que ganharam espaço sobre o que um dia foi castanho. São olhos cansados. A boca de lábios grossos, como os meus, arqueados para baixo, faz-me questionar se houve sorriso algum dia ali.
O vestido florido. A rasteirinha preta nos pés. Unhas por fazer. Nas mãos envelhecidas com unhas roídas, uma sacolinha de plástico, dessas de mercado. O que ela teria trazido desta vez?
Seus olhos procuram a poltrona verde como se fosse a primeira vez que estivesse ali. Até agora não me olhou, como se eu fosse tão objeto como o restante das mobílias. Com certeza, ela não queria estar ali comigo. Os outros, tão cheios de vida, devem estar esperando no carro. Ela desce e eles sobem, como uma dança antiga que sempre dançamos juntos, ainda que separados.
Repousa a bolsa plástica sobre a mobília e, ao que tudo indica, tem um pote de plástico dentro. Senta-se e se ajeita. Fecha os olhos enquanto eu acompanho o comportamento cerimonioso com os meus. Tudo isso para fazer uma oração, como se pedisse forças para aturar mais um dia comigo...
Minha tosse. Antes a minha vida. Tudo como sempre aconteceu na nossa relação: eu tirando-a daquilo que realmente importava. Sinto-me um sujeito ranhento agora. Pensando em tudo o que relatei até aqui e em como sempre gostei de ser vítima de tudo. Ser herói da minha própria vida nunca esteve no campo das possibilidades.
— Como você está? — finalmente ela conseguiu olhar nos meus olhos.
Finalmente...








