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Um Susto

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Summary

Um menino se percebe no inferno após uma noite de sono, convencendo-se a si mesmo que morrera. Após um momento de grande tristeza, porém, vem-lhe uma alegria misteriosa.

Status
Complete
Chapters
1
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n/a
Age Rating
16+

Capítulo 1

À minha querida Beatriz…

Era uma noite de sábado. Heitor viveu o dia tranquilamente, assim como todos os outros até agora, isto é, achando que na manhã do próximo dia, estaria aqui, nesta terra, para viver mais um dia. Contudo, teve ele uma grande surpresa: Morreu!

A morte veio pegar aquilo que é dela, a saber, a vida do homem sobre esta terra.

Heitor não esperava por aquilo; passava em seus pensamentos a possibilidade da morte, mas aquilo apenas acontecia com os outros. Ele, Heitor, era imune. Era inabalável, não em suas ideias, pois ele acreditava que aconteceria um dia, mas não acreditava com A maiúsculo; falo daquela crença que move montanhas, que faz um homem fazer um ato definitivo, pois com todo o seu ser acredita na efetividade de uma ação. Exatamente aquilo que faz o homem, faz porque teve um quê de crença singular, diferente de todos os outros? Ora, um pecador que diz acreditar no inferno, mas não cansa de cometer pecados mortais, acredita ele mesmo no inferno?

Pois bem, meu caro leitor, tal era a crença de Heitor naquela realidade fatal, universal e necessária, certa como aquele princípio metafísico que diz “A não pode ser não-A ao mesmo tempo e sobre o mesmo aspecto”.

Aconteceu um milagre, no entanto. Sabemos que milagres são acontecimentos que não seguem o fluxo natural da existência. É um quebrar a lei da vida. Heitor viu-se arrebatado em espírito, contemplando o seu próprio cadáver, pois quando a alma sai do corpo, não há senão um corpo sem alma, sem anima, sem algo para animar aquele pedaço de matéria que tem o seu valor.

Ao contemplar-se já sem vida, como algo que não era um homem, pois este é, necessariamente, alma e corpo, viu-se em um lugar que confirmava todas as “histórias” e “picuinhas” ouvidas nas Missas que frequentava com muito tédio e indiferença. Não sei se posso chamar aquele lugar de “lugar”, pois este último pede materialidade como condição necessária de quaisquer entidades. Se não o fosse pela fé, declarando a corporeidade do Cristo ascenso ao céu, assim como da Virgem Maria gloriosa no paraíso, seria estranho compreender a corporeidade antes da ressurreição dos corpos. É certo, porém, que, ordinariamente, as almas estão à espera do juízo final, onde as mesmas iriam como ímãs aos corpos e ficariam unidas para sempre, segundo as escolhas livre e conscientemente feitas neste breve período de arco temporal: a vida.

Todos os sofrimentos provindos de seus respectivos sentidos envolviam a sua alma nervosamente. Não se conseguia discernir um estado sem sofrimento, pois era um verdadeiro sofrimento contínuo. A paz e a alegria da ordem parecia uma agradável distopia, uma doce lembrança, uma história de ficção.

Eternidade... Oh! Como um estalo, a explosão de um balão, entendeu o que era a eternidade, ou se me permite, entendeu praticamente a eternidade. Esperava um fim para o que vivia, mas como 2 + 2, não tinha dúvidas: sofria e sofreria para sempre por causa de um miserável prato de lentilhas em um instante entre duas eternidades.

O diabo era peculiarmente diferente de Deus. Carregava consigo um cinismo radical. Deus era misericórdia; o diabo? Zombaria e agradecimentos.

Via como em sua vida terrena vangloriava-se dos pecados cometidos, pois estes davam pseudovantagens, assim como quando achamos que fizemos um ótimo negócio, mas não percebemos a taxa de juros altíssima oculta entre as cláusulas mal lidas por uma astigmática. Observava o futuro triunfo daqueles que permaneciam em suas falsas desvantagens. Ora, não provava Kant a existência de Deus com tal ideia?

Passou na alma de Heitor, como uma intuição angélica, própria das formas puras, um teatro das suas escolhas que agora pareceram tão estranhas e sem sentido. Percebia claramente a idiotice, a caducidade e o vazio de todos os prazeres ilícitos.

Tratava-se apenas de um fato nu e cru: aceitação. Essa era a sua condição eterna, irreparável, sem volta e indelével alcançada com mornos e frescos sentimentos que davam o seu existir, como eviterno, angústia suprema e abismal.

Consciência e liberdade… O peso desses entes são sem limites!

De súbito, Heitor abriu os olhos com uma satisfação indescritível, assim como quando fazemos algo de errado e, misteriosamente, recebemos uma segunda chance. Percebeu que tudo não passara de um pesadelo, ou talvez um sonho. Quem sabe esse momento dentro de uma morte débil através de sua imaginação, não seja para muitos um despertar para a vida.

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