A Mulher
Á minha querida Beatriz...
Ela é amada?
Essa pergunta responder-te-ei com uma experiência vital a fim de que tu mesmo penses e reflitas deveras sobre a pergunta formulada que, de alguma forma, realiza a nossa existência.
Há três anos, estava a bater com uma enxada a terra de um vasto campo com pequenas graminhas e diversas plantas. Era eu mesmo o dono de todo esse patrimônio. Mas, apesar de comandar esse vasto campo de terra fértil, não explorava os meus colonos, mas respeitava-os e valorizava-os dando-lhes o justo e, além disso, quando faziam por merecer, ultrapassava o justo nas recompensas e no tratamento para com os meus companheiros, nem digo-te servos ou proletários, mas meus amigos.
Era eu o primeiro a chegar ao campo; não desejava que os meus amigos sentissem que eu os usava e os explorava. Importava-me com eles. Se havia algum alimento em casa, trazia para o campo a fim de partilhá-lo. Não era fácil; em minha vontade, aparecia tendências de egoísmo, mas lutava contra eles. Acreditava firmemente que aqui está o “trabalho que edifica o homem”: um trabalho justo e santo.
Um certo dia, quando estava a caminhar em direção ao meu local de trabalho, passou uma senhorita, andando lentamente com um chapéu de palha a esconder o seu rosto. Carregava um lenço ao colo. Percebi que ela desejava esconder-se do sol que lançavam os seus raios fortes sobre ela. Não consegui ver o seu rosto, nem mesmo os braços. Vi apenas um pedaço da perna próximo ao calcanhar quase todo ocultado por uma sandália singela e deveras feminina. A razão de esconder-se assim era a sua pele alva como a neve. Um médico advertiu-a para que não ficasse exposta ao sol, caso contrário, correria risco de contrair câncer de pele.
Era ela filha de Ronaldo, um amigo que trabalhava aqui em minha fazenda, pois, como disse-lhes, não considero-o um simples proletário. Ronaldo era um pai admirável. Cumpria com a maioria dos seus deveres de chefe de família. Criou sua filha como uma verdadeira princesa, ensinando-a o modo de crescer como mulher. Não tinha muito dinheiro, mas colocava o pão diário na mesa. Desta forma, foi a menina observando a humildade de seu pai e, a partir de seu exemplo, aprendeu a via para ser humilde.
Antônia era o seu nome. Uma aura de pureza exalava dela. Nunca troquei um simples “A” com ela, mas não tinha dúvidas: ela era um anjo de Deus. Havia algo de mulher nela que a fazia diferentes de todas as outras. Sua forma de andar era delicada; seu jeito de saldar esplêndido. Tudo era feminino ao extremo, chegava a contradizer Aristóteles quando este dizia que a virtude está no meio termo.
Ainda não havia visto o seu rosto. Este era um mistério velado para mim. Desconhecia totalmente. Que é essa parte do corpo que, quando oculta, deforma o homem e apaga sua identidade? Encontraria a resposta para tal pergunta? Não sabia se era possível.
Um dia após encontrar-me com ela, perguntei ao Ronaldo qual era o seu nome, como que para iniciar um assunto em que ela seria o motivo. Na verdade, conhecia o nome dela, pois escutara pessoas chamando-a no campo, mas queria, apesar disto, perguntá-lo.
— Ou, meu amigo, como se chama tua filha?
— Antônia.
— felicito-te pela criação.
— Obrigado, respondeu Ronaldo todo humilde.
— Quantos anos têm?
— Dezoito, patrão.








