A Noite que Destruiu um Reino
O Reino de Valtheria era conhecido por seus imensos jardins, seus castelos de pedra branca e pela aparente paz que reinava entre seus habitantes.
No centro daquele reino erguia-se o majestoso Castelo Real, cercado por muralhas altas, fontes cristalinas e milhares de flores coloridas que perfumavam o ar durante todo o ano.
Ali viviam o rei, sua esposa, a rainha, e o único filho do casal.
Seu nome era Príncipe Darius.
Desde pequeno, Darius era um menino gentil, educado e extremamente apegado à mãe.
A rainha dedicava cada momento livre ao filho.
Ela lia histórias para ele antes de dormir, ensinava-lhe boas maneiras, caminhava ao seu lado pelos jardins e fazia questão de abraçá-lo sempre que podia.
— Meu pequeno príncipe... — dizia ela com um sorriso doce, acariciando seus cabelos. — Não importa o quanto você cresça... sempre será meu maior tesouro.
Darius sorria de volta e a abraçava com força.
— Eu amo você, mamãe.
Ela fechava os olhos por alguns segundos, emocionada.
— E eu amo você muito mais.
O rei, diante deles, também parecia um pai exemplar.
Abraçava a esposa, elogiava sua bondade e dizia amá-la diante de toda a corte.
Para qualquer pessoa que observasse aquela família...
...eles pareciam perfeitos.
Mas ninguém imaginava o que realmente se escondia atrás das portas do castelo.
Certa manhã, um mensageiro chegou às pressas.
— Majestade! Lady Helena, sua grande amiga, encontra-se gravemente adoentada.
A rainha imediatamente levantou-se.
Seu semblante demonstrava preocupação.
— Preciso vê-la.
Ela olhou para o rei.
— Ficarei esta noite em sua casa. Ela não deve enfrentar essa doença sozinha.
O rei sorriu calmamente.
— Claro, minha querida. Faça o que considera certo.
A rainha aproximou-se do marido e deu-lhe um beijo na testa.
Depois ajoelhou-se diante de Darius.
Segurando delicadamente o rosto do filho entre as mãos, sorriu.
— Comporte-se, meu príncipe.
— Vou sentir sua falta...
Ela o abraçou demoradamente.
— Amanhã estarei de volta.
— Promete?
— Prometo.
Ela beijou sua testa e entrou na carruagem.
Darius ficou acenando enquanto ela desaparecia pela estrada.
Mal sabia ele...
...que aquela seria a última vez que veria sua mãe feliz.
Quando a noite caiu, o castelo mergulhou no silêncio.
As tochas iluminavam fracamente os corredores de pedra.
Os criados recolhiam-se aos seus aposentos.
Tudo parecia tranquilo.
Até que o rei começou a agir de maneira diferente.
Ele caminhou lentamente pelos corredores, olhando para os lados para garantir que ninguém o observava.
Parou diante de uma das empregadas do castelo.
Era uma jovem que trabalhava ali havia alguns anos.
— Está tudo bem, Majestade? — perguntou ela, um pouco nervosa.
O rei abriu um sorriso discreto.
— Venha comigo.
Ela hesitou.
— Mas...
— Ninguém vai descobrir.
A empregada abaixou a cabeça, insegura, antes de segui-lo.
Os dois desapareceram pelos corredores do castelo.
Já passava da meia-noite.
O pequeno Darius despertou lentamente.
Ainda sonolento, esfregou os olhos.
— Mamãe...?
Ao perceber que estava sozinho, levantou-se da cama.
Seus pequenos pés caminharam descalços pelo frio piso de mármore.
O castelo permanecia silencioso.
Enquanto caminhava pelo corredor, um som vindo do quarto do rei chamou sua atenção.
A porta estava apenas entreaberta.
Curioso, Darius aproximou-se devagar.
Seu coração batia forte.
Ele espiou pela pequena abertura.
Naquele instante...
...o mundo do pequeno príncipe começou a desmoronar.
Seu pai estava abraçando outra mulher.
Os dois trocavam gestos de carinho como se fossem marido e mulher.
Darius arregalou os olhos.
Seu rosto perdeu completamente a cor.
— N... não...
Lágrimas começaram a surgir antes mesmo que ele percebesse.
Levou uma das mãos até o peito.
Sentia uma dor estranha.
Uma dor que nunca havia conhecido.
Sem fazer barulho, afastou-se da porta.
Correu pelos corredores segurando o próprio choro.
Entrou em seu quarto.
Fechou a porta.
Sentou-se no chão, abraçando os joelhos.
As lágrimas escorriam sem parar.
— O papai... fez a mamãe chorar?
Ele não entendia exatamente o que havia visto.
Mas entendia que aquilo era errado.
Muito errado.
Passou o restante da noite acordado.
Pensando.
Chorando.
Sem saber o que deveria fazer.
Até tomar uma decisão.
Contaria tudo à mãe.
Na manhã seguinte, assim que a carruagem da rainha atravessou os portões do castelo, o pequeno Darius correu apressado pelo grande salão.
Seus olhos ainda estavam vermelhos pela noite mal dormida.
Ele ignorou completamente o rei.
Passou por ele sem sequer levantar o olhar.
Ao ver a mãe descendo da carruagem, correu em sua direção.
— Mamãe!
A rainha abriu um sorriso caloroso e se ajoelhou para recebê-lo.
— Meu pequeno príncipe!
Os dois se abraçaram com força.
Ela logo percebeu que havia algo errado.
Darius tremia.
Sua respiração era irregular.
Seu pequeno corpo parecia carregar um peso muito maior do que uma criança deveria suportar.
Ela segurou delicadamente seu rosto.
— Darius... o que aconteceu?
O menino olhou rapidamente para o rei, que observava tudo do alto da escadaria principal.
Sem responder, segurou a mão da mãe.
— Vem comigo... por favor.
Intrigada, ela permitiu que ele a conduzisse até os jardins floridos do castelo, onde o perfume das rosas misturava-se ao vento suave da manhã.
Quando tiveram certeza de que estavam sozinhos, Darius começou a contar, com a voz trêmula, tudo o que havia visto durante a madrugada.
Falou da porta entreaberta.
Do pai.
Da empregada.
Dos gestos de carinho que testemunhara.
Enquanto o filho falava, a expressão da rainha mudava completamente.
A tristeza tomou conta de seus olhos verde-esmeralda.
Logo depois, veio a incredulidade.
E, por fim, uma profunda indignação.
Ela permaneceu alguns segundos em silêncio.
As lágrimas começaram a escorrer por seu rosto.
Mesmo assim, respirou fundo e enxugou-as.
Então segurou delicadamente os ombros do filho.
— Obrigada por me contar a verdade.
Ela beijou sua testa.
— Você fez o que era certo.
A rainha levantou-se.
Sua postura agora era firme.
Ela caminhou rapidamente em direção ao castelo.
Darius, preocupado, correu atrás dela.
Ao entrar no grande salão, ela encontrou o rei.
Ele permanecia sentado em seu trono, aparentando tranquilidade.
— Precisamos conversar.
O rei levantou lentamente o olhar.
— Sobre o quê?
A rainha o encarou sem hesitar.
— Nosso filho viu você com a empregada.
Por alguns segundos, o salão ficou completamente silencioso.
Os criados pararam de trabalhar.
Os guardas permaneceram imóveis.
O rei levantou-se devagar.
Seu semblante mudou completamente.
A máscara do marido amoroso desapareceu.
— Então foi isso...
A rainha aproximou-se.
— Como você foi capaz?
A discussão aumentou.
As vozes ecoavam por todo o salão.
Darius observava tudo alguns metros atrás da mãe, assustado.
Ela exigia explicações.
O rei, tomado pela raiva, perdeu completamente o controle.
Em um impulso, empurrou a rainha com força.
Ela perdeu o equilíbrio e caiu.
Sua cabeça bateu violentamente contra o piso de pedra do salão.
— MAMÃE!
O grito de Darius ecoou pelo castelo inteiro.
Ele correu desesperado até ela.
Segurou sua mão.
Chamou seu nome repetidas vezes.
Os médicos reais foram chamados às pressas.
Enquanto eles tentavam salvá-la, Darius permaneceu do lado de fora do quarto, com as mãos trêmulas e os olhos fixos na porta, recusando-se a acreditar que perderia a pessoa que mais amava no mundo.
As portas do quarto se abriram lentamente.
O médico abaixou a cabeça.
Sua expressão dizia tudo antes mesmo que qualquer palavra fosse pronunciada.
— Sinto muito... fizemos tudo o que estava ao nosso alcance.
O silêncio tomou conta do castelo.
O reino havia perdido sua rainha.
Darius permaneceu imóvel.
Seus pequenos dedos ainda seguravam a mão fria da mãe, como se esperasse que ela despertasse a qualquer instante e voltasse a sorrir para ele.
Mas isso nunca aconteceu.
As lágrimas escorriam silenciosamente por seu rosto.
Foi ali que doce, belo príncipe Darius iria mudar completamente. Anos de passaram, Darius tinha 10 anos e estava no jardim quieto e pensativo, pensando na mãe, foi aí que ele lembrou de uma lembrança com a sua mãe.
Alguns anos atrás, quando Darius podia tocar e abraçar sua mãe. Darius tinha 7 anos, era uma tarde de primavera.
O céu estava completamente azul.
O jardim do castelo estava coberto por rosas, lírios e jasmins que balançavam suavemente com o vento.
A rainha caminhava de mãos dadas com o pequeno Darius.
Ela era uma mulher de beleza marcante.
Seus longos cabelos eram negros como a noite, de um preto tão profundo que pareciam absorver a luz ao seu redor. Aquela característica vinha de uma antiga maldição que carregava desde antes de conhecer o rei.
Seus olhos possuíam um verde intenso, semelhante ao brilho das mais puras esmeraldas.
Darius havia herdado completamente sua aparência e quem os observava dizia que pareciam duas almas moldadas pela mesma luz.
Enquanto caminhavam pelo jardim, a rainha sorriu para o filho.
— Você sabe por que gosto tanto de conversar com você?
Darius inclinou a cabeça, curioso.
— Porque eu faço muitas perguntas?
Ela riu baixinho.
— Também...
Ela ajoelhou-se diante dele e acariciou delicadamente seus cabelos.
— Mas principalmente porque você nunca se contenta com respostas simples.
Era verdade.
Desde muito pequeno, Darius possuía uma enorme sede de conhecimento.
Gostava de estudar mapas antigos, observar as estrelas, aprender história, treinar espada, ler livros e descobrir qualquer coisa nova.
Sempre queria evoluir.
Sempre queria entender o mundo um pouco mais.
Nunca aceitava permanecer igual ao dia anterior.
A rainha admirava isso.
— Nunca perca essa vontade de aprender.
Ela apontou delicadamente para o peito do filho.
— O maior poder que existe começa aqui dentro.
Darius sorriu.
— Eu quero ficar cada vez mais forte... mais inteligente... quero descobrir tudo o que existe no mundo.
Ela respondeu com orgulho.
— E eu acredito que conseguirá.
Os dois continuaram caminhando até uma parte mais silenciosa do jardim.
A rainha olhou discretamente para os lados, certificando-se de que ninguém os escutava.
Depois aproximou o rosto do filho.
— Vou lhe contar um segredo que pouquíssimas pessoas conheceram durante toda a história deste reino.
Os olhos de Darius brilharam imediatamente.
— Um segredo, mamãe?
Ela assentiu.
— Debaixo deste castelo existe um lugar muito antigo... muito mais antigo do que qualquer rei que já governou estas terras.
Ela fez uma pequena pausa.
Sua voz tornou-se quase um sussurro.
— No subsolo do reino existe um corredor medieval, escuro e silencioso. Apenas algumas tochas antigas iluminam aquele caminho de pedra. No fim dele... encontrei uma enorme porta branca.
Darius arregalou os olhos.
— Uma porta?
— Sim.
Ela respirou fundo.
— Foi por acaso que a encontrei. Desde o instante em que me aproximei dela, senti uma energia tão pesada que parecia sufocar o próprio ar. O silêncio daquele lugar... parecia estar vivo.
O menino permaneceu completamente atento.
— O que tem do outro lado?
Ela balançou a cabeça lentamente.
— Não sei. E, sinceramente, espero nunca descobrir.
Ela segurou delicadamente as mãos do filho.
— Darius... quero que me prometa uma coisa.
— O quê?
— Nunca procure essa porta.
Ele piscou, confuso.
— Mas por quê?
Ela desviou o olhar por um instante.
— Porque sinto que ela não é aberta há incontáveis séculos... e acredito que existe um motivo para isso. Há algo naquele lugar que não deveria ser despertado.
Darius ficou ainda mais curioso.
— Ninguém tentou abrir?
— Muitos tentaram. Reis, guerreiros, sábios e estudiosos chegaram até ela ao longo dos séculos. Nenhum conseguiu atravessá-la. Alguns nem sequer suportaram permanecer diante dela por muito tempo.
O príncipe permaneceu em silêncio por alguns segundos.
Depois perguntou, quase sem conseguir esconder a curiosidade.
— Como você sabe tudo isso?
Sua mãe sorriu de leve.
— Porque, muito antes de me tornar rainha... na verdade, fui uma feiticeira.
Os olhos de Darius brilharam ainda mais.
— Você... era uma feiticeira?
Ela riu suavemente.
— Sim. Estudei magia durante muitos anos. Aprendi antigos feitiços, símbolos, runas e encantamentos que quase ninguém conhece hoje. Foi graças a esse conhecimento que consegui sentir a verdadeira natureza daquela porta.
Ela voltou a encará-lo.
— Também descobri algo que poucos saberiam reconhecer. Meus ancestrais deixaram registros de que aquela porta foi selada por uma bruxa extremamente poderosa. Se alguém com tamanha magia decidiu trancá-la... então havia uma razão.
Darius permaneceu completamente fascinado.
— Então existe magia lá dentro?
Ela suspirou.
— Talvez. Ou talvez exista algo ainda pior.
Ela acariciou o rosto do filho.
— É justamente por isso que quero que você fique longe daquele lugar. Nunca desça até aquele corredor. E, acima de tudo... jamais tente abrir aquela porta.
O menino abaixou a cabeça.
— Tudo bem, mamãe.
Ela sorriu, aliviada, e o abraçou com carinho.
— Obrigada, meu pequeno príncipe.
Na verdade, depois da morte de sua mãe, aquela conversa nunca saiu da mente de Darius.
Quanto mais o tempo passava, mais aquelas palavras despertavam sua curiosidade.
Se a porta era tão perigosa... por que existia?
Quem a havia construído?
O que uma bruxa tão poderosa precisou prender atrás dela?
Essas perguntas jamais encontraram resposta.
Sempre que tinha algum tempo livre, Darius caminhava silenciosamente pela enorme biblioteca do castelo.
Procurava livros antigos sobre magia, feitiçaria, runas, símbolos e histórias esquecidas pelo tempo.
Lia cada página com atenção.
Nem sempre compreendia tudo.
Mas prometia a si mesmo que, um dia, entenderia.
Porque, acima de tudo, Darius acreditava que sempre havia algo novo para aprender... e, no fundo de seu coração, nunca conseguiu esquecer a misteriosa porta branca escondida sob o castelo.








