Do Brasil às Estrelas by Guilherme at Inkitt
Customize readability
Aa

Do Brasil às Estrelas

All Rights Reserved ©

Summary

1978. A festa de São João na pequena Prado, Bahia, deveria ser apenas mais uma noite de forró, milho cozido e alegria. Mas, para a família Magalhães, aquela data marcaria o fim de suas vidas como humanos comuns. ​Após uma estranha luz azul riscar o céu e silenciar a cidade, quatro crianças — Zé, Larissa e os gêmeos Pedrinho e Juninho — são sequestradas da segurança da Terra. O que começa como uma busca desesperada por entender o que aconteceu transforma-se em um pesadelo intergaláctico

Status
1mo ago
Chapters
1
Rating
n/a
Age Rating
18+

Capítulo 1: Naquela Praia Distante

Prado é uma pequena cidade localizada no sul baiano. É bem característica da América do Sul, com as casas coloridas, janelas grandes e acabamento em madeira. É praiana, e sua vegetação envolve palmeiras e um aglomerado de porções da Mata Atlântica. Ali vivem pessoas de todas as etnias: pretos, pardos, brancos e indígenas. Como não ser assim? O Brasil é um país diversificado, cheio de tradições, povos e manifestações culturais. Hoje é dia de São João na terra de Jorge Amado, então as pessoas estão vestidas a caráter. A cidade está cheia, pois junho é época de férias escolares, então as famílias aproveitam para visitar seus entes queridos. O habitual são as férias de verão, mas o inverno brasileiro é marcado por temperaturas amenas e brisa fresca. O sol não some, o que torna o tempo agradável.

24 de junho de 1978

São 20h e o pequeno Zé se arruma para comemorar a festa na pracinha central. Ele está em um quarto, bem bagunçado por sinal, olhando para o espelho e penteando o cabelo. O quarto azul deixa-o contente, já que azul é a cor masculina. José de Nunes Magalhães adorava se sentir homem, forte, poderoso. Ele apenas esqueceu que azul não definia seu gênero. Ele também se esqueceu de que tinha apenas 13 anos, então não era forte e muito menos poderoso. Por que crianças querem tanto crescer depressa? Talvez seja a ilusão de uma nova liberdade.

Dalva chama o garoto:

— Zéeeee, vem pra sala, estamos colocando retalhos na calça.

— Eu não quero, mãe — gritou o garoto. — Isso é mais brega que chapéu de palha!

— É, Dalva, ele chegou na adolescência. Como dizia dona Zinha, agora ele se tornou um rebelde — disse uma mulher que estava ao seu lado na sala. As duas estavam sentadas no sofá, colocando retalhos nas roupas das outras crianças da casa.

— Se fosse mãe, já tinha puxado ‘nois’ pelas ‘orea’.

— Em mim mesma, não! Sempre amei os retalhos no meu vestido!

José apareceu na sala.

— Tia Joana, a senhora deve ter passado muita vergonha. Como é que se põe retalho em vestido? Vestido ‘nera’ pra ser chique?

— Você me respeite, seu moleque! Dalva, ele não era assim. Isso são modos de uma criança!?

Dalva olhou para os olhos verdes do menino como quem olha pra uma professora injusta.

— Você tá ficando doido? Pede desculpas pra sua tia.

— Mas, mãe, eu só falei a minha opinião... Desculpa, tia Jô.

Joana assentiu com a cabeça. Depois de muito pelejar, Zé deixou sua mãe colocar os retalhos. Em minutos, estava um caipira de primeira.

— Jô, chama os meninos pra cá. Vou me arrumar e já venho também — disse Dalva.

Joana subiu as escadas que ficavam no fim do corredor, que logo dava pra a cozinha. Foi até o quarto de sua filha Larissa e falou:

— Amor, vamos? Vou chamar Juninho e Pedrinho.

— Mãe, Junin e Pedrin saíram com tio Maurício e painho.

— Oxente, eu arrumei vocês e eles saíram? Vão bagunçar a roupa. Ai meu Deus, destá que um dia eu ainda fico louca.

— Mainha, eu acho que eles foram comprar bombinha. Logo, logo estão aí.

— Oh, vou descer e me arrumar. Você vai pra sala que Zé tá lá todo pronto.

— Tá bom.

Larissa pegou uma tiara prateada e colocou sobre seus cabelos loiros. Ela era uma garota de 13 anos, loira dos olhos azuis. Usava naquela noite um vestido rosa. Não era um vestido bem característico de São João, mas ela se sentia bem nele. Era magrinha, mas comia feito uma leoa.

Acho importante descrever essa família. Vamos lá.

Dalva é casada com Maurício, ambos têm seus 40 anos. José é o filho unigênito dos dois. Joana é casada com Josias, e Larissa é a única filha mulher do casal. Os pais de Lari são mais novos (cerca de 30). Josias Júnior, apelidado de Juninho, é irmão gêmeo de Pedro; eles foram adotados por Joana e Josias. Os gêmeos têm 10 anos. São bem traquinos e vivem pregando peça na avó Itália. A propósito, dona Ita, como é conhecida, está viajando para visitar outros parentes. Ela é uma senhora de 70 anos.

Dalva e Maurício têm a pele parda, cabelos pretos e olhos castanhos-escuros. Dalva foi ao salão esses dias, deixou o cabelo curto. Maurício é alto, tem bigode e usa o cabelo um pouco parecido com o de Elvis Presley (na medida em que se encaixe no padrão de cortes brasileiros). Joana é branca, tem os olhos azuis que foram passados por genética à Larissa, assim como seus cabelos loiros. Ela usa um cabelo médio, um pouco abaixo dos ombros. Josias é um homem preto, bonito, elegante e inteligente. Ele sustenta a casa com seu trabalho na oficina. Maurício também ajuda, enquanto as irmãs Dalva e Joana cuidam dos afazeres domésticos. Itália tem vitiligo; nasceu parda, mas no auge de sua vida, pareceu até que foi feita de neve.

E sobre os garotos: José tem olhos verdes e cabelo marrom; é da altura que se espera para um garoto de 13 anos. Juninho e Pedrinho são idênticos. São de ascendência indígena. Na casa, não é muito falado sobre como eles chegaram até a adoção.

Essa é uma parte da família Magalhães. Todos moram na mesma casa. É mais barato, mais sustentável, só requer um pouco de colaboração.

Dalva saiu do seu quarto. Usava uma camisa quadriculada laranja, calça jeans e bota.

José ficou maravilhado com a beleza de sua mãe:

— Mamãe, olha pra você!!

— Deixa de ser besta, menino — respondeu Dalva.

— Mainha, você é a mulher mais bonita do Brasil todin.

— Obrigada, meu filho.

Os dois se abraçaram, até serem interrompidos.

— Zé, seu moleque, diz agora que eu tô brega, vai!

Tia Joana apareceu na sala, colocou a mão no batente e completou:

— Eu sou poderosa, meu amor.

Zé ficou deslumbrado com sua tia. Diferente da história dos retalhos, tia Joana parecia uma agropaty. Não sei onde ela arrumou aquele vestido marrom com mangas curtas. Seu chapéu branco, daqueles que donos de fazenda usam, reluzia no ambiente.

— Joana do céu, você tá parecendo uma modelo. Tá parecendo Vera Fischer — Dalva a exaltou

— Dalvinha, quem é Vera perto de mim, meu amor? — as duas riram — Obrigada, irmã, você também está um arraso.

Os homens da casa chegaram.

— Todos prontos? — perguntou Josias.

— Vocês saem sem avisar e chegam nessa autarquia?

— Deixe de besteira, Jôjô, meu amor.

Os gêmeos se aproximaram de Zé e anunciaram:

— Olha as bombinha, Zé — Pedrinho se apressou.

— Eu trouxe o pião.

Larissa estava curiosa com os fogos dos meninos, então se aproximou.

— O que tem aí, três patetas?

— Não é da sua conta — responderam os três.

— É verdade, mas pode ser da conta de mãe e tia Dalva.

Os meninos não pensaram duas vezes em mostrar as bombas de São João.

Cerca de 15 minutos se passaram, os maridos se arrumaram e a família partiu para a praça.

Prado tinha a praça principal com uma igreja no meio. A praça era de terra, perfeita pra poeira subir. Os moradores não se importavam, muito menos os visitantes. Fazer contato com a terra era importante. Fazia bem. Bem fazia mesmo ao povo da cidade grande. Estavam enjoados do asfalto.

Quando chegaram, depararam-se com atrações incríveis. Tinha uma roda-gigante velha, porém muito bonita. Um palco para os artistas e barraquinhas de comidas típicas. Se conheço bem Larissa, ela vai correr em cinco segundos para a barraca do milho amanteigado.

Ela saiu em disparada.

— Larissa, espera a gente! — gritou seu pai, ao mesmo tempo em que dava dois passos.

Ela já não escutava, seus ouvidos eram apenas das músicas de Chitãozinho e Xororó que tocavam no som.

— Deixa ela ser feliz, Josias. Menina nova é assim mesmo — Maurício falou ao amigo.

— Rapaz, ela pode ser feliz perto de mim. Larissa é muito nova ainda.

A festa continuou, cheia de vida, alegria, música e dança. Os meninos foram pra rua ao lado, onde queimaram seus fogos. Lá pelas 22h, o locutor anunciou que a banda Lenha de Fogueira ia subir no palco. Houve gritos e aplausos. Em cidade pequena, bandas regionais fazem sucesso. Só não faziam para a vida de José, que resolveu sair de perto dos Magalhães e foi dar uma volta.

O menino caminhou até a praia. Tirou seus sapatos, colocou-os no chão e sentou em cima. Olhando pro mar, naquela noite fria de inverno, ele percebeu que estrelas brilhavam no horizonte. Era lindo, simplesmente calmo. Trazia uma energia que acalmava o pequeno Zé.

O plano era ficar ali até que aquela banda horrível terminasse sua apresentação. O tempo foi passando, mas nada do vocalista fechar a matraca.

Ele olhou ao redor, viu algumas palmeiras na extensão da areia; estavam carregadas de coco. Observou ao sul o início da Mata Atlântica que vivia ali.

“Será que tem lobisomem?”

“Será que Matinta Pereira mora ali?”

“Não, tia Edna falou na aula de português que ela mora no Amazonas...”

Seus pensamentos se dissiparam por alguns instantes. Ele não achara respostas para suas perguntas. Se bem que ele nem se importava com elas.

José ficou entediado em minutos. Quis voltar pra casa, mas percebeu que o tédio também reinaria lá.

Em dado momento, ele pensou o suficiente pra dizer em voz alta:

— Bom, talvez ainda tenha sobrado um pião com os meninos.

Como se uma luz iluminasse sua mente, ele sorriu. Pra melhorar, a banda anunciava a sua despedida. Zé olhou para trás e não pensou duas vezes antes de bater em retirada. Aquela praia ficava a cerca de 50 metros de distância com a maré baixa, tornando possível ver as luzes da praça, mesmo dali.

Não entendam mal, é normal uma criança florescer o tédio em festas de adultos. Tipo, quem da idade dele gosta de dançar forró? O garoto preferia ir ao fliperama, assistir a um filme na matinê do senhor Juca ou tomar banho de mar.

No primeiro momento de sua locomoção, um barulho parecido com o de fogos de artifício foi ouvido. Ele olhou para o céu, em direção à cidade, mas não havia nenhum sinal de foguete, além da queima de lenha. Quando olhou para trás, aí sim viu o sinal de foguete. Algo estava caindo do céu. Uma luz azul. Entretanto, quem estaria soltando fogos de artifício em mar aberto? Ainda mais naquela distância. Não havia barcos por perto.

— Ué — falou em tom estranho.

Quanto mais ele fixava os olhos na luz, mais era perceptível o aumento dela. Em instantes, parecia um objeto. Ele era grande. Não que Zé fosse um nerd, mas ele sabia o que era uma parábola e aparentemente a coisa fez uma no céu noturno. O objeto se aproximava mais e mais. Não era tão veloz no início, porém, conforme sua aproximação, dava pra perceber que estava em uma velocidade fascinante.

Bom, José não cometeu o erro dos personagens do cinema do senhor Juca. Ele correu. Quanto mais corria, mais parecia que não saía do lugar. O medo faz coisas, como diz dona Ita. Nesse momento, a praça da festa parecia estar a quilômetros de distância.

Foi como um flash, de repente, o corpo do menino parou. Ele não conseguia se mexer.

Foi ali, naquela praia distante, que tudo começou.

Let Guilherme know what you thought about this chapter!
Love this

0

Love this

Funny

0

Funny

Spicy

0

Spicy

Suspenseful

0

Suspenseful

Emotional

0

Emotional

Profound

0

Profound

Heartwarming

0

Heartwarming

Shocking

0

Shocking

Good Writing

0

Good Writing

Compelling Plot

0

Compelling Plot

Great Character

0

Great Character

Strong Dialog

0

Strong Dialog

Further Recommendations

Silver's Second Chance

Beth Willyoung: This is definitely a great site all the rest make you read and pay this one is the most legitimate site.

Read Now
Married by Fate

Fiona Walker: What a lovely story, I thoroughly enjoyed it.

Read Now
The Easter Bunny

Mia: Really nice story

Read Now
Hit and Run

Sarah: Hey! I really enjoyed your story. It made me wonder how you actually write. Are you someone who plans everything in advance, or do you discover the story as the chapters unfold?

Read Now
Between the Whistle and the Quiet (Book #1 in The Reapers & Roses Series)

IsadoraTorrez: I enjoy this genre so it caught my eye while searching for books to read. The characters are portrayed so well,with real emotions and problems. I love that the little boy brought Madi and Luca together and in spite of the traumatic event that happened to Madi, this book is a feel-good book filled wi...

Read Now
Bound to the Bear

Sara Hutchinson: I love the storyline of this book, the plot is good. I love Toby and Christa, however, there is very little confrontation between the two of them, they never argue or disagree about anything. Whenever Toby and Christa reflect back on the past, the reflection seems long, reliving every single event t...

Read Now
Light at the End of the Track

Sarah: Not a totally original plot but well handled. I think Lucas would have been much more persistent possibly demanding legal access to his son.

Read Now
The Mate he couldn't have

ImdnsoLq: The emotions expressed by the leads were beautiful. The agony,hury,love they showed is very nice.

Read Now