Capítulo 01 ☠
☠ᶠᶸᶜᵏ YOU 𓀐𓂸
O assoalho de madeira da Engenharia estava frio sob as solas dos meus sapatos, mas a sensação não se comparava ao gelo que sempre carreguei no peito.
Eu estava parado na escuridão do corredor lateral, onde as câmeras não alcançavam e a luz da lua filtrava apenas o suficiente para desenhar sombras longas e distorcidas.
Lá estava ele. Pedro Mendes.
A mochila pendurada no ombro, o cabelo ligeiramente bagunçado pelo vento frio de outono, o rosto concentrado na tela do celular. Tão ingênuo. Tão certo.
“Seu mundo certo não combina com o meu.”
Pode ser que o mundo de Pedro seja feito de horários, notas e finais de semana previsíveis. O meu é construído de rachaduras, segredos e uma escuridão onde ele jamais ousaria pisar.
E é exatamente por isso que eu o quero.
Essa diferença é o que me atrai. A pureza dele é a tela perfeita para a minha arte.
Eu senti o músculo do meu braço pulsar sob a luva de couro. Eu poderia pegá-lo agora. Apenas alguns passos... um movimento rápido... e ele seria meu.
“Eu vou roubar você pra mim e tem que ser agora.”
Mas onde estaria a graça? Eu não sou um ladrão qualquer. Eu sou um colecionador. Preciso da alma dele, da rendição dele. E para isso, o jogo tem que ser lento, calculado. O medo é a melhor preliminar.
Tirei o celular do bolso e digitei a mensagem que enviaria em dez segundos. Eu o observei digitar algo no dele, o polegar deslizando hesitante. Ele estava tenso, mas não sabia o porquê. Apenas sentia a minha presença invisível, como um calafrio na nuca.
Um sorriso sombrio se abriu no meu rosto, escondido pela escuridão. O medo dele me alimenta.
“Meu mundo errado não combina com o seu. Mas eu tenho um final feliz pra essa nossa estória.”
O final feliz é a mentira que conto para ele. O final feliz é eu ter você. E vai ser em breve.
[Mensagem enviada.]
Pedro parou de repente, olhando ao redor, os olhos grandes e castanhos percorrendo o corredor. Ele não me viu. Mas ele sentiu o peso da minha vigilância, o calor da minha obsessão.
O jogo começou.

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Os corredores da Universidade Federal de Engenharia eram um labirinto de concreto frio, cheiro de café requentado e ambição não dita.
Para Pedro Mendes, dezoito anos recém-completados, o lugar parecia mais um templo imponente onde ele era apenas um intruso miúdo.
Ele apertou os livros contra o peito enquanto caminhava. O campus estava vibrando com o burburinho noturno: grupos de veteranos riam alto perto das cantinas, e outros calouros, mais ousados, já socializavam com desenvoltura. Pedro era tímido, preferindo a segurança do anonimato. Olhava para o chão, tentando se misturar ao máximo, sentindo-se irrevogavelmente deslocado entre tantos rostos confiantes e desconhecidos.
"O que eu estou fazendo aqui?" pensou, sentindo a mesma pontada de ansiedade que o acompanhava desde o primeiro dia de aula.
Ao passar por uma coluna, onde a luz fraca de um spot de segurança piscava, o celular vibrou na sua mão. Era uma notificação do Instagram. Ele esperava uma mensagem da mãe ou de algum colega de sala sobre a matéria.
Mas o que apareceu foi uma solicitação de mensagem privada de um perfil completamente estranho.
O nome do usuário era simples, direto e perturbador: Stalker.
Pedro parou de respirar.
A foto de perfil era uma imagem de close-up: um homem musculoso, com a pele bronzeada reluzindo sob uma luz escura, mas o rosto era totalmente oculto por uma máscara negra de tecido. Não havia postagens, nem seguidores, nem seguidos. Apenas a palavra e a imagem.
Com o coração acelerando, ele clicou. Havia uma única mensagem, enigmática e sem saudação:
"Você anda pelos corredores da forma errada, Pedro. Seu mundo é muito previsível. Isso vai ter que mudar, e tem que ser agora."
As palavras atingiram Pedro com a força de um soco. Como ele sabia o seu nome? Como ele sabia que ele estava... pelos corredores?
Pedro girou o corpo, varrendo o corredor vazio com os olhos assustados. Não havia ninguém.
Apenas o eco distante de uma risada e a porta de vidro fumê que dava para o estacionamento.
Ele estava sozinho. Mas de repente, a certeza de que estava sendo observado o fez paralisar. Ele sentiu o frio de antes, mas agora era diferente, mais denso. Era a sensação de ser a caça.
A sensação de ser caçado ainda vibrava na nuca de Pedro.
Ele estava paralisado, o celular colado na mão, o nome Stalker e a mensagem sombria gravados em sua retina. Ele não havia notado que se encostara na lateral da coluna, justo na passagem que dava acesso à escadaria de emergência.
— Meu querido, você tá bloqueando a passagem. Que coisa ridícula.
A voz era aguda, com uma nota de tédio e impaciência.
Pedro sobressaltou-se, voltando à realidade com um sobressalto de vergonha. Ao seu lado, parados com uma postura de superioridade estudada, estavam dois alunos.
Uma moça negra de cachos volumosos e lábios pintados de vinho olhava para ele por cima do ombro, os braços cruzados. Ao lado dela, um rapaz de cabelo verde-fluorescente e maquiagem impecável, que não se deu ao trabalho de esconder o sorriso zombeteiro.
Pedro recuou instintivamente, pedindo desculpa com um balbuciar inaudível, mas não foi rápido o suficiente.
— Ah, é o calouro da Engenharia, não é? Aquele que passa o tempo todo no canto — o rapaz de cabelo verde debochou, sem fazer perguntas, apenas afirmações cruéis. Ele olhou para a garota ao seu lado. — Aposto que estava lendo sobre a última prova.
A moça revirou os olhos com escárnio.
— Por Deus, tem que ter muito complexo de inferioridade para se comportar assim. Parece um ratinho acuado, não consegue nem andar direito — ela disparou, avaliando Pedro de cima a baixo. O olhar dela parou na mochila apertada e nos livros contra o seu peito. — Dá licença. Se a sua ansiedade está alta, o problema é seu, mas a gente quer passar.
A humilhação apertou a garganta de Pedro. Ele sentiu o rosto esquentar, não por raiva, mas pela vergonha esmagadora de ser exposto. Seu corpo, normalmente invisível, agora era o centro de um palco de zombaria.
Ele conseguiu se desvencilhar da coluna, abrindo um caminho apressado para que os dois passassem. Eles o ignoraram no segundo seguinte, seguindo em frente enquanto riam de algo irrelevante, deixando Pedro sozinho no corredor, com as duas hostilidades — a ameaça digital e o escárnio real — colidindo em seu peito.
Ele não era apenas invisível. Ele era patético. E, de repente, o Stalker e sua promessa de "mudar" seu mundo não parecia a pior coisa do mundo. Pelo menos o Stalker o via.
Pedro disparou para a escada, querendo apenas fugir.
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Pedro se jogou na cama do seu minúsculo dormitório. O cheiro de móveis novos e produtos de limpeza não conseguia disfarçar a opressão que sentia. Ele tinha corrido da universidade, o pânico de ser ridicularizado se misturando ao pavor daquela mensagem do Stalker.
"Seu mundo é muito previsível."
Ele pegou o celular de novo, o dedo pairando sobre o ícone do Instagram.
Tinha bloqueado o perfil, é claro, mas a curiosidade — ou talvez uma atração mórbida — o forçava a checar. Ele buscou o nome. O perfil Stalker tinha sumido, mas... havia uma nova DM, enviada antes do bloqueio, que ele não tinha visto.
Ele abriu a conversa. A primeira mensagem enigmática estava lá, mas uma nova havia chegado alguns minutos depois:
Stalker: :Você tenta parecer tão inocente e correto, não é, Pedro? A verdade é que você é muito safado. E você gosta de controle. Ou melhor, de perder o controle."
O ar escapou dos pulmões de Pedro. Ele se sentou na cama, sentindo as mãos suarem. O Stalker estava descrevendo a dualidade que Pedro lutava para esconder.
A terceira mensagem veio a seguir, e essa o atingiu como um choque elétrico, não de medo, mas de pura e avassaladora excitação:
Stalker: " Eu sei o que você pensa nas madrugadas frias, calouro. Você quer sentir a força. Quer estar de joelhos, com os pulsos presos acima da cabeça. Quer o cheiro do couro e a sensação fria de uma corda apertando, mas não o suficiente para doer. Apenas para lembrar que você é dele e que não tem para onde ir. Que o seu corpo obedece a um desejo que você nunca admitirá em voz alta."
Oh !
O corpo de Pedro reagiu antes que sua mente pudesse processar. Um calor insuportável subiu pelo seu pescoço.
Ele fechou os olhos, tentando afastar as imagens que a descrição vívida havia invocado: a escuridão, a submissão, a rendição ao desejo. Era a sua fantasia mais secreta, aquela que ele mal se permitia ter em sonhos.
Ele voltou a abrir os olhos, confuso, o êxtase se misturando ao terror.
Como?
Não havia como aquele estranho saber disso. Ninguém sabia. Ele nunca havia conversado com ninguém sobre sua sexualidade, muito menos sobre seus desejos mais particulares.
Não havia pistas, não havia histórico de pesquisa, nada. Era um pensamento que ele guardava a sete chaves, uma falha secreta em seu "mundo certo".
Pedro agarrou os próprios braços, a confusão nublando sua mente. O Stalker não estava apenas o observando; ele parecia estar dentro da sua cabeça. E a pior parte? No meio do pânico, uma voz em sua mente sussurrava, baixa, mas clara: Quem é você, afinal, que me enxerga assim?
Ele estava apavorado. Mas, perigosamente, excitado.








