PRÓLOGO — MARCO ZERO
Eu morri numa terça-feira.
Não vou entrar em detalhes. Foi rápido, foi burro, e a última coisa que passou pela minha cabeça não foi minha família nem o sentido da vida — foi que eu tinha deixado a louça na pia. Vinte e três anos de existência e o resumo é esse.
Depois teve o branco.
Não é um lugar. Eu sei porque tentei olhar em volta e não havia volta para olhar. Sem chão, sem cima, sem corpo — o que é péssimo, porque quando não se tem corpo não se tem para onde levar as mãos, e eu queria muito estar segurando alguma coisa.
Então uma coisa enorme reparou em mim.
Não foi uma voz. Se tivesse sido uma voz eu teria achado normal, porque morri e vozes do além estão dentro do previsto. O que aconteceu foi pior: a resposta simplesmente apareceu dentro de mim, do jeito que a gente lembra o próprio nome. Sem palavra, sem som, sem aviso. Chegou como fato.
*Você serve.*
— Ótimo — eu disse, sem boca. — Serve para quê?
E ele me mostrou.
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Vi uma mulher ajoelhada.
Estava num campo aberto, sob um céu que não era o de nenhum lugar que eu conhecesse — três luas e uma cicatriz de luz atravessando tudo, o rastro de alguma coisa grande que tinha caído. Havia um homem no chão à frente dela. Não dava para saber há quanto tempo, porque ela não estava chorando. Já tinha passado da parte de chorar. Estava só ajoelhada, com as mãos abertas sobre os joelhos, esperando alguém dizer o que se faz agora.
Aquele homem não devia ter morrido ali. Eu soube disso do mesmo jeito que soube todo o resto: chegou pronto. Ele tinha mais coisas para fazer. Tinha um caminho inteiro pela frente, escrito com data e hora, e uma promessa no fim dele — a promessa de que os dois ficariam bem.
Alguém, em outro lugar, tinha feito uma escolha errada. Não ali. Não com eles. A três sistemas de distância, numa vida que não encostava naquela em ponto nenhum. E mesmo assim a coisa vazou, atravessou tudo o que havia no meio e chegou nele.
E depois começou a parte silenciosa.
Uma colônia inteira parou de ser mencionada. Ninguém morreu, ninguém gritou; simplesmente ninguém mais falava dela. Um nome de família saiu das bocas. Uma rota de navegação encolheu, e os pilotos que a usavam a vida inteira passaram a fazer a volta sem estranhar, sem lembrar que existia um caminho reto. Não era destruição. Era esquecimento com forma de destruição, e sendo muito mais educado.
Doeu. Não em mim — na coisa enorme que estava me mostrando aquilo. Ela sentia cada pedaço apagar do mesmo jeito que a gente sente um dente.
— Você não pode consertar isso sozinho? — perguntei.
*Não tenho mãos.*
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Aí veio a explicação, e essa foi a parte em que eu quis rir e não tinha com o quê.
Aquilo tudo — os três sistemas, as luas, a mulher ajoelhada — era uma série de livros. Algumas histórias correndo ao mesmo tempo, cada uma com seus protagonistas, seu problema e seu final já escrito. As pessoas viviam sem saber. Para elas era só a vida, que é exatamente o que a vida parece para todo mundo, o tempo todo, inclusive para mim numa terça-feira de louça suja.
E as histórias se tocavam. Era por isso que um erro numa vazava para outra. Era por isso que um homem que devia envelhecer tinha virado peso no colo de alguém.
Não havia ninguém lá dentro capaz de arrumar aquilo, porque não havia ninguém lá dentro que fosse livre. Cada alma daquele universo estava escrita em alguma página, e página não se corrige sozinha.
Precisava de alguém de fora. Alguém sem página nenhuma.
— Deixa eu adivinhar — falei. — Eu.
*Você.*
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O corpo apareceu na minha frente como quem mostra a mercadoria.
Rapaz. Uns vinte e poucos, magro, cara comum, morto havia pouco. Nome: Eon Pi.
— É homem — eu disse.
*É vazio.*
— Isso não é a mesma pergunta. Eu sou mulher. Vinte e três anos, um metro e sessenta e pouco, cabelo até o meio das costas, uma cicatriz no joelho de quando eu tinha nove. Eu tinha um corpo inteiro. Esse aí não é ele.
*Eu sei o que você era.*
— Então arruma outro.
*Não existe outro.*
*Ele nunca foi citado. Em nenhuma história, em nenhuma linha, por ninguém. Fabricam-se armas naquele universo inteiro e ninguém, lendo, jamais perguntou quem as fabricou. A família dele constrói metade do que atira, e nenhum livro sabe o sobrenome. É o único vazio do tamanho certo.*
Eu fiquei um tempo em silêncio, considerando o fato de que a minha grande qualificação para o cargo era ser exatamente tão irrelevante quanto um rapaz morto de quem ninguém sente falta.
— E depois? Quando acabar, eu volto a ser eu?
*Não. O corpo é esse. Não tem outro, não vai ter, e você vai envelhecer dentro dele.*
Aquilo doía mais do que eu estava disposta a admitir na frente de um universo.
— Tá. E eu ganho o quê?
Porque tem essa. Eu podia estar morta, podia estar no branco, podia estar conversando com um universo com dor de dente — mas ninguém sai fazendo faxina de graça em enredo dos outros por bondade. Bondade eu nunca tive nem quando estava viva.
A coisa enorme não demorou nada.
*Uma história sua.*
— Explica.
*Você não está em página nenhuma. Ninguém escreveu você, ninguém nunca vai. Terminado o serviço, eu escrevo: nome, lugar, gente que lembre de você, um fim garantido. Você deixa de ser buraco e passa a ser alguém.*
Fiquei quieta o tempo necessário para não responder de cabeça quente.
— Deixa eu ver se entendi. Eu passo sabe-se lá quantos anos empurrando os outros de volta para o trilho deles, e o meu prêmio no fim é ganhar um trilho meu. Com data. Com fim marcado. Escrito por você.
*Sim.*
— Isso não é prêmio. É coleira com laço.
Não teve resposta. E foi aí que eu aprendi uma coisa sobre a coisa enorme: quando ela está errada, ela não discute. Só espera.
— E se eu disser não?
*O branco.*
— Então não é proposta.
*É. O branco também é uma opção. Você não vai escolher ela.*
Não ia mesmo. Mas eu ainda tinha alguma coisa nas mãos, porque ele precisava de mim e a lista dele de gente sem página tinha exatamente um nome.
— O que mais você tem?
*Nada que você queira.*
— Tenta.
E ele demorou. Foi a única vez em toda aquela conversa que ele demorou.
*Tempo.*
— Tempo.
*Você tinha vinte e três anos e uma pia cheia. Não ia ter mais nada. Terminado o serviço, o corpo é seu e os anos são seus, e eu nunca escrevo uma linha a seu respeito. Nenhum destino, nenhum rumo certo, ninguém para te corrigir quando você errar. Você vive. Vive torto, se quiser.*
— Sem história.
*Sem história. É a única coisa que eu tenho e não uso.*
Eu aceitei.
Aceitei rápido, e aceitei sabendo exatamente o que estava comprando. Não foi impulso. Era preço claro por coisa clara, e preço claro eu nunca soube recusar.
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Depois vieram as histórias.
Todas. De uma vez. Não como leitura — como lembrança. Eu não li os livros daquele universo; eu passei a lembrar deles, cada nome, cada morte marcada, cada coisa horrível que ainda ia acontecer com gente que ainda estava tomando café.
Junto veio a regra, e a regra é o que estraga tudo:
*Enquanto a história estiver certa, você não encosta. Mesmo sabendo. Mesmo com data e nome.*
— Você está me dizendo que eu vou saber de tudo e vou ter que assistir?
*Sim.*
— E se eu não gostar?
*Você vai fazer mesmo assim.*
Antes que eu conseguisse responder, o branco fechou.
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Acordei com o cheiro de metal quente e o barulho de alguma coisa muito grande passando muito perto, do jeito que só passa quem tem permissão para isso.
O teto era baixo. O ar tinha gosto de filtro velho. Eu levantei uma mão — uma mão de verdade, larga, pesada, com um calo idiota no dedo indicador que não era meu e que eu não sabia explicar — e fiquei olhando para ela um tempo.
Depois levei essa mão até a nuca, para prender o cabelo, do jeito que eu fazia desde os doze anos sempre que precisava pensar.
Não tinha cabelo. Tinha três dedos de nada e um pescoço que era largo demais, e a minha mão ficou ali parada no ar, sem serviço, esperando ordem de uma pessoa que não existia mais.
Tudo bem. Depois eu choro. Coloquei na lista.
Do lado de fora, alguém gritou um nome.
— Eon! Eon Pi!
Levei três segundos para entender que estavam chamando a mim.
— É — falei, com uma voz que era grave e não era minha, e que já saiu do jeito errado, porque a única coisa que sobreviveu inteira à viagem foi o meu senso de humor. — Pi. Como o número.
Que não termina nunca.
Igual à lista que eu já tinha na cabeça: nome, data e hora de cada coisa horrível marcada para acontecer com gente que, naquele exato momento, ainda estava tomando café.








