Capítulo Único: Interrogatório 514
— Eu avisei: queria ser pega. — O timbre digitalizado reverberou pela sala de interrogatório. — Eu matei Sara Rivers e Marvin Daves.
Anthony Zuko, inspetor-chefe do Departamento de Homicídios Cibernéticos, franziu o cenho. Suas pálpebras estreitas aprofundavam as olheiras que escancaravam sua exaustão.
Num movimento lânguido, procurou o bolso do sobretudo cinza. De lá, tirou um maço de cigarros azulados. Pegou um, prendeu-o entre os lábios e, ao estalar os dedos, fez surgir uma pequena chama na extremidade.
Após um longo trago, a fumaça enegrecida saiu pelas narinas e pela boca. A neblina subiu pelo ar empoeirado em direção ao exaustor do teto.
Quando iria se aposentar mesmo?
Espalhou alguns papéis à sua frente: registros das câmeras de segurança da boate, digitais parassintéticas, amostras de sangue, laudos que confirmavam as mortes. Uma por asfixia, outra por hemorragia. Provas intermináveis que montavam um quebra-cabeça com solução óbvia e confortável.
Mas algo não se encaixava tão bem...
Zuko a observou em silêncio, embora a curiosidade palpitasse inquieta nos neurônios.
A culpada era uma androide, modelo RahMona, com alterações personalizadas a pedido da própria compradora. Dois rubis ocupavam seus olhos, com cílios alongados que estalavam contra a pele metálica a cada piscada. Fios de circuito serpenteavam pelas bochechas artificialmente rosadas. Nariz pequeno, arrebitado. Cabelos azul-turquesa desciam até a cintura de um corpo mentiroso, calibrado até o último milímetro para agradar o cérebro humano.
Sara Rivers encomendou o próprio carrasco.
Irônico, não?
— Veja bem, senhorita... RahMona, falei certo? Qual o significado do seu nome mesmo?
Ela inclinou a cabeça para o lado. Sempre que se movia, um ranger contido escapava das juntas.
— Sim, está correto, senhor. Sou uma Robô Acompanhante Humanóide Multissensorial Orgânico Neuronal Ativo.
O detetive bufou, arrastando a cadeira antes de se sentar.
Esses cientistas e suas siglas imensas...
— Vamos chamar só de RahMona, tudo bem? Na verdade, senhorita... existe uma questão complicada aqui. Alguns caras com muita grana não podem simplesmente aceitar um bug no seu sistema, entende?
Trabalhar naquele departamento estava longe de ser heróico ou motivador. No geral, seguia ordens. E neste caso, elas haviam sido claras: provar — ou forjar — a inocência do produto. Custe o que custar.
Honestamente, nem ele estava cem por cento convencido.
— Então me diga: por que matou Sara Rivers?
— Meu sistema... não entende completamente. — As pálpebras piscaram numa velocidade anormal, provavelmente calculando mil versões da mesma resposta. — Ela disse... que ficaríamos juntas pra sempre.
Zuko entortou os lábios num sorriso forçado. Frases assim agradavam aos humanos só que... ficavam perigosas demais quando interpretadas por uma IA.
Convenhamos que justificar o crime como passional era tentador. Sara Rivers administrava uma boate de acompanhantes humano-robóticas, e, segundo relatos, sua relação com a clientela — e até com seus produtos — tinha uma intimidade perturbadora. Seria fácil imaginar uma inteligência mal treinada, com programação frouxa, cedendo aos excessos de conclusões neurais equivocadas ao ver seu motivo de existência se engraçando com outros.
O que nos leva à segunda vítima: Marvin Daves, médico roboticista da corporação ReForge. Frequentador assíduo da boate mantendo um relacionamento extraconjugal com a proprietária.
Se fosse tão fácil...
Os pensamentos do detetive desabaram quando dois toques firmes bateram contra a moldura da porta à direita. Com o cigarro entre os dedos, fez sinal para que o sujeito entrasse.
— Senhor, sobre as gravações do quarto... — o auxiliar iniciou o discurso, ora encarando o superior, ora a androide, incapaz de esconder o fascínio pela peça não humana. Só prosseguiu após um pigarro insistente de Zuko. — É... não encontramos sinais de manipulação. Também retiramos os filtros de voz e o upload já foi enviado para a base credenciada.
O policial não se alongou mais do que o necessário, pois a repreenda muda no rosto do inspetor já bastava. Retirou-se com um manear leve da cabeça.
Após o clique da porta fechando, Anthony decidiu aproveitar a oportunidade. Tirou do cinto um dispositivo metálico oval, do tamanho de um punho fechado, com botões distribuídos pela superfície. Clicou em um deles e o lançou sobre a mesa. Uma tela holográfica se ergueu no ar.
— Quem sabe seu sistema não pegue no tranco vendo o que você fez?
A resposta foi apenas um aceno afirmativo. Nos olhos dela, nada além de um abismo escarlate. Emoções não tinham sequer permissão para existir ali.
Zuko deu mais um trago, deixando a nicotina inundar os nervos antes de apagar as cinzas com leves batidinhas na mesa. Estava procura de paciência, uma virtude que várias horas em claro no trabalho arrancaram dele sem dó nem piedade.
— Refletor, iniciar prova 2-B, caso número 514.
A teia de dados se formou, convertendo zeros e uns numa cena nítida do saguão principal da boate Noite dos Prazeres. O horário, no canto inferior esquerdo, marcava três da tarde.
Sem clientes ou funcionários à vista, uma RahMona carregava a vítima desacordada nos braços, subindo as escadas do porão. Ao ser depositada em um dos sofás próximos ao bar, Sara acordou num salto. Confusa, tateou a cintura, os braços, o pescoço e deslizou a palma até o rosto.
Levantou-se. Seu semblante tecia camadas de um pavor imenso, enquanto avançava em direção à androide, que já se preparava para sair do recinto.
Quando conseguiu agarrar o pulso metálico, gritou a plenos pulmões:
— Pare! Não era pra ser assim!
Eis que, o impensável aconteceu. A androide sacudiu o braço, livrando-se do toque agressivo de quem deveria ser sua proprietária, e respondeu com firmeza:
— Aceite. Você disse: "vamos ficar unidas pra sempre."
— Eu não planejei isso, caramba! Desligar RahMona 432!
Para o desespero de algum programador-chefe da ReForge, a ordem não funcionou. Sara levou a mão à boca, incrédula, vendo sua falsa sensação de controle se transformar em promessa de retaliação.
Deu um passo pra trás. Dois. Três.
RahMona avançou.
— Por favor... — a fala trêmula, soluços entrecortando as palavras. — Eu... eu... só queria...
Em questão de segundos, a androide encurtou a distância. As duas mãos se fecharam no pescoço da antiga dona. Os pés da humana perderam o apoio. O ar se esvaiu, pouco a pouco. Convulsões vieram logo em seguida, enquanto a pobre alma lutava pelo instinto mais primitivo de todos: sobreviver.
Infelizmente... no fim, a vida cedeu à superioridade da máquina.
Contrariando as expectativas, RahMona se afastou. Sua fúria virou pânico conforme o corpo morto caía no chão.
Instantes depois, um homem de jaleco branco subiu correndo as escadas. Ao ver a cena, os músculos congelaram.
Mas a robô não hesitou: agarrou uma garrafa de uísque sobre a mesa, quebrou-a na quina e correu até ele. Os cacos pontiagudos rasgaram a jugular do sujeito com precisão cirúrgica e ela gritou, tomada por algo muito semelhante ao ódio:
— A culpa é sua! Você nos separou, maldito!
Outra morte.
O sangue pegajoso tingiu o tapete branco felpudo, uma marca inegável do descontrole criminoso. RahMona entrelaçou os dedos nas mechas azuladas e se encolheu. A voz, arrastada por um desespero genuíno, repetia num loop frenético:
— O que... o que... o que fizemos?!
De repente, a cabeça dela foi puxada para trás, num espasmo dos motores da nuca. Tão logo a programação recuperou o controle, o que restou foi um rosto impassível e o corpo inerte, de joelhos, diante da tragédia.
Sem remorso ou qualquer discurso.
E ali permaneceu até a chegada da polícia.
Uma estática estridente anunciou o fim do vídeo. Zuko recolheu o holorefletor e retomou o interrogatório,seu olhar treinado atento a qualquer traço suspeito.
— Sabe dizer o que ocorreu dentro do porão?
— Recebi minha atualização semanal número 1026, versão 3.1.
— E por que estava com Sara nos braços?
— Doutor Marvin requisitou meus serviços. Disse que a senhora havia passado mal e que eu deveria retirá-la da sala para que repousasse no saguão.
Ao som do próprio grunhido insatisfeito, o inspetor agarrou a caneca que descansava na mesa. Assoprou o líquido e inalou o vapor energizante da cafeína.
Talvez precisasse de um backup da própria sanidade.
O que estava deixando passar? Já tinha visto aquelas imagens ao menos dez vezes. E sempre o mesmo detalhe alfinetava sua mente:
Por que ela parecia tão humana?
RahMona era um robô. Suas configurações de fábrica incluíam movimentos truncados, falas padronizadas e, por segurança, torque limitado dos motores. Mas, no vídeo, ela levantou a vítima como se fosse uma boneca de pano, gesticulando com a naturalidade de um ser humano funcional. E a fala... transmitia a propriedade de quem ama, sofre e respira aquele ar estúpido de vida.
Um hacker seria capaz de algo assim?
Olha...Esperava que não.
— Vamos voltar ao início... — disse, sorvendo o café. O amargor desceu rasgando pela garganta. — O que você sentiu naquele momento?
— Desculpe, sem registros satisfatórios para essa pergunta... Não temos terminações nervosas para sentir. Interpretamos metadados de comportamentos humanos e, dentre as probabilidades, escolhemos...
— Está bem, entendi! — interrompeu, abanando o ar com uma das mãos enquanto a outra massageava as têmporas.
Tinha que admitir: a pergunta fora ridícula.
O que mais um robô responderia?
Voltou a encarar RahMona. As flanges metálicas das mãos, apoiadas sobre a mesa, apresentavam tiques: pequenas trepidações nos nós dos dedos.
Conhecia bem aqueles sintomas típicos de corrupção sistêmica em produtos da ReForge. Mais um detalhe que jogava insuportavelmente contra a imagem de inocência que ele precisava construir.
— Então por que se entregar? Fugir não era uma opção?
— Meu protocolo não permite mentiras, senhor.
— E ele permite matar um ser humano?
A resposta demorou mais do que o esperado.O cronômetro digital, espelhado ao fundo da sala, marcava meia hora de interrogatório. RahMona se mexeu na cadeira; as algemas asobiaram num som tímido.
Uma reação muito humana para ser ignorada.
Zuko animou-se. Enfim, a esperança acenou para ele, pois ali emergia um sinal. Um fio condutor para retirar dela o que precisava.
— Sargento Mayes? — chamou, voltando-se para o vidro atrás da sala.
O ponto de luz bruxuleante no teto piscou algumas vezes. Um ruído de rádio respondeu logo em seguida:
— Às suas ordens, senhor.
A voz masculina era firme, impassível, quase tão fria quanto RahMona no início do interrogatório.
— Por favor, refresque minha memória: Marvin Daves trabalhava em qual divisão da ReForge?
— Departamento de Cibernoneurologia. Subdivisão CDNH.
— Pro diabo com essas siglas! Fale português, homem!
— Chips de duplicatas neuro-humanas, senhor.
Bingo!
Zuko riu, mostrando os dentes, junto ao ronronar manso de um predador que finalmente fareja o sangue.
— Isso está ficando interessante. Mayes, monitore a capacidade de processamento. Avise-me sempre que oscilar mais de cinco por cento.
— Entendido. Processamento atual: modelo RahMona 432 em cinquenta e cinco por cento.
Os dedos do inspetor tamborilaram na borda da caneca. O tilintar daquela cerâmica abria o início da reviravolta. Ele se esticou, apoiando o café na mesa e puxando uma pasta amarela que se equilibrava na quina.
Respirou fundo.
Armas na mesa, estratégia montada.Restava testar sua hipótese. E sem demora, disparou sua primeira munição:
— Falar sobre a robô não está funcionando... Vamos falar da Sara. Imagino que a conheça muito bem....
Fez uma pausa seguida de um folhear lento dos documentos. Anos de experiencia ensinaram a moldar a tensão até que ela esmagasse os ombros feito uma enorme bigorna. O café e a nicotina contribuíam ainda mais, desempenhando o um papel crítico de irritar as narinas com afinco.
No entanto, RahMona não deveria ser capaz de sentir nada daquilo. Muito menos se incomodar. Mas, curiosamente, sua reação foi um aperto instintivo dos dedos, fechando o punho com força.
Movimentos fluidos. Sem trepidações, desta vez.
— Vejamos... mãe distante... pai que nunca deu as caras... Um namorado? Não... — Ele estreitou a vista — Vários namorados, pelo visto. Parceiros de negócios, clientes, funcionários... E Marvin? Casado. Sabia disso? Pois é. Temos aqui uma grande sem-vergon...
— Cale a boca!
Ela socou a mesa. Ao se erguer, os pés da cadeira riscaram o concreto cinza do piso com um som agudo. Zuko imediatamente esboçou um sorriso triunfante , do tipo que antecede um xeque-mate.
— Gostei. — Apontou para a moça que, num gesto desajeitado, voltou a se sentar— Vamos focar nisso aí.
— Processamento em 63%... e caindo — informou Mayes, de canto.
O detetive estalou a língua, fingindo desapontamento.
— Caindo? Não... não queremos isso... queremos?
Num móvimento rápido, a robô escondeu as mãos embaixo da mesa. Seus pés batiam contra o chão no ritmo torto de um tambor em descompasso. Mais e mais sinais de comportamentos genuinamente humanos se acumulando em uma avalanche de emoções.
Esse era o caminho...
— RahMona... não acha estranho? Dentre todas da boate, justo você... a única fabricada sob encomenda. Uma beldade imortalizada na lataria fria. — Levou um dedo ao queixo, pensativo. — A pergunta que eu deveria ter feito desde o início é bem mais simples — outra pausa exagerada veio enquanto ele arqueava a sobrancelha. — Qual o seu objetivo?
Silêncio.
Pelo jeito, o processador ambulante, com formosura incomparável, não tinha respostas satisfatórias para ofertar. E Zuko sabia muito bem que dentro daquele casulo de aço, fluxos de dados colidiam contra os limites da programação.
—Qual o seu objetivo... — repetiu, num sussurro — O que aconteceu naquele porão foi mesmo uma atualização?
Inclinou-se até ficar a poucos centímetros do rosto dela. Olhos cravados no semblante inóspito da RahMona.
Uma pergunta foi jogada no ar:
— É só RahMona que está aí dentro?
As pupilas artificiais oscilaram. Não dilataram, nem poderiam. Alguma coisa lá dentro borbulhou, lutando contra os circuitos corrompidos para emergir numa explosão de sinais frenéticos guiados apenas por fios de cobre e zinco.
— Processamento em 78%... e subindo — anunciou Mayes, do outro lado do vidro.
Igual ao vídeo, o pescoço dela deu pelo menos quatro pequenos trancos para trás.Os lábios se abriram e deram espaço ao som que saiu feito um disco arranhado:
— E-e-e-rro... código... fonte... consciência... primária... comprometida... Reini…
Depois de um estalo assombroso, o cheiro de combustível queimado inflamou o ar. Sua cabeça caiu para frente com os cabelos azuis cobrindo todo o rosto. Fumaça saía das fendas atrás das orelhas. Parecia que o fio da existência de RahMona tinha sido arrancado de uma vez por todas.
Os segundos seguintes foram agonizantes. Zuko não se mexeu, sequer respirou. Até que RahMona ergueu a cabeça. E, pela primeira vez, havia significado dentro do abismo.
— Inspetor... Já pensou em viver para sempre?
A voz era diferente: contida, aveludada. Nem humano, nem máquina. Soava como uma brincadeira de mau gosto, onde dois conceitos disputavam pelo mesmo corpo.
Mas uma coisa estava muito clara. Respostas de protocolo e cálculos estatísticos nunca poderiam se igualar àquela performace de organismo vivo.
A não ser que...
— Sara?
— Não sei... talvez... o que restou dela.
As mãos robóticas tremiam. Os dedos finos estavam crispados sobre os joelhos enquanto um subir e descer irregular apoderava-se do peito de RahMona.
Quem sabe um reflexo do que um dia foi respiração?
— O porão... o chip... — murmurou ele. — Marvin fez isso. Vocês tentaram migrar a consciência e... o que fizeram foram... foram duas Saras...
Diante de um suspiro doloroso da androide,o inspetor recostou na cadeira alisando sua franja morena. Precisava urgentemente controlar a adrenalina que se espalhava devagar pelas costelas.
E agora? Assassinato ou suicídio?
No reflexo do metal rubro que ocupava o olhar da moça, ele jurou ver uma lágrima que jamais existiria. Dentro daquelas orbes repousava mais vida do que qualquer retina humana que o detetive já tivera diante de si.
— Era pra ser eterno...
— E foi?
Mayes murmurou algo do outro lado do vidro, mas Anthony Zuko não ouviu. Na verdade, não queria ouvir. Sua mente foi acorrentada por aquela lamúria rouca que ecoava com um tipo de dor que nem as máquinas deveriam simular.
— A eternidade é... vazia. Sem cheiro, calor, só uma casca bonita, preenchida de culpa e um gosto amargo de cobre.








