UM POUCO NÓS
— Eu já te falei um milhão de vezes pra não colocar roupa suja no chão do banheiro, Pedro! — minha mãe gritava. A voz dela ecoava pelo corredor dos quartos.
Revirei os olhos, encarando o teto por um segundo.
— Eu sei, mãe! — gritei de volta.
— Você é igual ao seu pai! — ela retrucou, ainda mais alto.
Soltei um riso sem humor, passando a mão no rosto.
— E você não deixa eu esquecer isso.
Meu pai traiu minha mãe com a vizinha. Os dois moram juntos aqui ao lado. Ela odeia meu pai… e, às vezes, eu sinto que me odeia também. Porque todos os dias ela faz questão de me lembrar que eu sou igual a ele.
Às vezes eu penso em ir morar com meu pai… mas o que ele fez foi errado. Muito errado. E eu jamais perdoaria.
— Teu quarto tá cheiroso, mano.
A voz do Mayke surgiu na porta. Eu virei o rosto na hora.
Mayke Oliveira. Meu melhor amigo desde sempre.
E, porra… ele é lindo. O sorriso, o olhar, o jeito. Cada detalhe nele parece ter sido feito pra me desestabilizar.
Mas ele namora a Camila, a patricinha, ela é filha de um empresário da cidade, ele é dono do supermercado mais famoso daqui.
— Você aqui? — falei, já sorrindo sem perceber.
— A gente vai lá?
Ele entrou sem pedir, como sempre, e se jogou na minha cama, relaxado.
— A Camila tá um saco hoje.
O short de jogador que ele tava usando subiu um pouco quando ele deitou. A coxa dele ficou completamente à mostra.
— O que aconteceu? — perguntei, tentando manter o tom normal.
Mas eu já tinha olhado.
E ele percebeu.
— Porra! — ele começou a rir, passando a mão no rosto. — Meu melhor amigo ser gay é foda.
Balancei a cabeça, rindo também, tentando disfarçar.
— Tu vem com um short desse tamanho e eu não posso olhar?
Ele me encarou com um sorriso de canto, provocando.
— Tu me pagava muito, né? Na real.
— Vai se fuder. Eu jamais te pegaria — respondi rápido demais. — Me dá até ânsia só de imaginar. Tanto cara gostoso por aí.
Ele levantou um pouco a camisa, mostrando a barriga,se exibindo.
— Pô, eu sou gostoso.
Eu ri alto, desviando o olhar.
— Hahaha… se você fosse o último homem da Terra, eu até viraria hétero.
Ele riu também, tranquilo, como se aquilo fosse só mais uma brincadeira.
— Por isso somos amigos.
Engoli seco.
— É por isso — respondi.
Ele se levantou da cama, batendo as mãos nas pernas.
— Então, vai querer ir comigo ou não?
— Vamos, ué. Só que, se seus amigos ficarem de graça pro meu lado, eu saio de lá.
Ele soltou um riso curto.
— É lugar de macho, né? Tu fica secando os caras.
— Vai se fuder de novo.
Peguei uma camisa no guarda-roupa. Tirei a que eu estava usando e coloquei outra rápido, tentando não pensar no fato de que ele tava me olhando.
A gente saiu do quarto. Minha mãe tava deitada no sofá, mexendo no celular.
— Vou dar uma volta com o Mayke — falei, me aproximando. Dei um beijo no rosto dela. — Eu te amo.
Ela olhou pra mim, mais calma.
— Vê se não demora. Mamãe também te ama.
Ela nunca mais arrumou ninguém depois de tudo. Vive sozinha. Às vezes eu me sinto culpado de sair.
— Tua mãe é muito daora — Mayke disse, abrindo o portão.
Olhei pra trás por um segundo.
— Ela é perfeita.
Fomos andando até o campo de futebol perto de casa. Mayke jogava com os meninos do bairro.
Eu odeio futebol.
Mas ele diz que quando eu vou, dá sorte.
E, bom… também não é como se fosse um sacrifício. Os meninos… ajudam bastante com aqueles shortinhos apertados, e as vezes tem o time com camisa e o time sem camisa.
Chegando lá, me sentei na arquibancada.
— Me dá sorte. O primeiro gol vai ser pra você — ele disse, sorrindo.
— Para de enviadar o futebol — respondi, rindo.
Ele apontou pra mim, fingindo indignação.
— Sou macho, cê sabe.
Inclinei a cabeça, encarando ele.
— Tô vendo, Mayke. Dedicando gol pra mim.
Ele riu.
— Você é meu amigo, carai.
— Vai logo! — falei, fingindo irritação.
Ele saiu correndo pro campo. Mas, mesmo no meio dos outros, ele olhava pra mim.
Mais de uma vez.
Se ele soubesse…
Acenei, desejando sorte.
— Ele não me avisou que ia jogar hoje.
A voz da Camila me fez virar o rosto.
Ela se sentou ao meu lado.
— Oi, Mila — falei, dando um beijo no rosto dela. — Ele disse que vocês estavam meio brigados.
Ela suspirou, olhando pro campo.
— Teu amigo é teimoso demais.
— O que rolou?
— Nada.
Olhei pra ela de lado.
— Mila?
Ela ficou em silêncio por um segundo.
— Ele não quer me deixar fazer intercâmbio. E é o sonho do meu pai.
— E por que ele não vai junto?
A pergunta saiu… mas doeu. Porque ele ir embora seria… perder ele.
Ela riu.
— Ele jamais deixaria a família dele
Assenti devagar.
— Mila… eu não sei nem o que dizer.
Ela virou o rosto pra mim.
— Eu vou convencer ele a ir comigo, Pê.
Fiquei em silêncio.
Um grito cortou o ar.
Mayke tinha feito um gol.
Meu coração acelerou na hora.
Por um segundo… eu achei que ele ia me procurar.
Mas não.
Ele olhou pra ela.
E ela se levantou, correndo até ele.
Eu sorri.
Porque, mesmo assim… eu sabia.
Aquele gol era pra mim.
Peguei o celular, tentando me distrair.
— Será que falta muito?
— Mayke ama isso, né? — falei.
— Eu odeio vir aqui.
— Ah, eu acho legal… — murmurei. — E você devia achar também. Já que você é o amuleto da sorte dele.
Ela virou rápido pra mim.
— Sou?
— Claro — falei, ainda olhando pro celular. — Foi só você chegar e ele fez gol. Ele mesmo já me disse isso várias vezes.
Ela abriu um sorriso.
— Ele nunca me disse isso.
Dei de ombros.
— Pra mim, ele fala direto.
Ela voltou a olhar pro campo, em silêncio.
Finalmente.
Depois de um tempo, o jogo acabou. Ela correu até ele.
Eu só observei.
Um dos meninos começou a subir a arquibancada. Veio direto na minha direção.
Sentou ao meu lado.
Suado, ele tirou a camisa e passou no rosto.
— E aí? — ele perguntou.
— Oi… — respondi, meio sem graça.
— Por que você não joga?
— Não é muito minha praia.
— Amigo do Mayke?
— Sou. Desde criança.
Ele sorriu de lado.
— Bastante tempo, então.
— Pois é.
Ele inclinou a cabeça.
— Pode olhar pra mim. Eu não mordo.
Respirei fundo e virei o rosto.
— Assim? — sorri.
Ele sustentou meu olhar.
— Gostei.
Franzi a testa, confuso.
— Gostou?
Ele se levantou devagar.
— Quero te ver aqui de novo.
— Por quê?
Ele deu um meio sorriso.
— Porque eu quero, ué.
Olhou pro campo.
Mayke e Camila estavam vindo.
— Até mais.
— Até…
Fiquei ali, sem entender nada.
O que acabou de acontecer?
— Amigo, que gato! — Camila comentou.
— O que esse cara queria? — Mayke perguntou, bravo.
— Não sei — respondi, rindo. — Mas eu gostei da sensação.
— Arrasando corações — Camila brincou.
Mayke não riu.
— Toma cuidado, hein.
Olhei pra ele.
— Vixi… virou meu pai agora?
Camila riu.
— É, Mayke… parece até que ficou com ciúmes.
Ele soltou o ar, irritado.
— Que ciúmes, Camila. Esses caras são foda.
Cruzei os braços.
— Eu sei me cuidar.
Ele ficou me olhando por um segundo,
Mayke, às vezes, agia como um irmão mais velho.
Ou como se fosse meu pai.
E isso me incomodava.
Mas aquele garoto…
Ele despertou alguma coisa.
E eu não sabia se isso era bom, mas eu quero descobrir.





![Unworthy of Love [MXM / BXB / GAY]](https://cdn-gcs.inkitt.com/vertical_storycovers/ipad_c27baa328af6a032eb9b1bf412797399.jpg)


