UM HOSPEDE
Final de semana chegou finalmente; essa semana foi um tédio total. Vou aproveitar que hoje é sexta e me divertir muito na balada, quero sair beijando muitos garotos. Hoje vou extravasar.
Essas palavras ecoavam nos meus pensamentos no instante em que abri os olhos, como se eu estivesse falando em voz alta para alguém que me escutasse. Acordei com o corpo leve, ansioso para o dia, e estiquei o braço até a mesa de cabeceira para pegar o celular. A tela acendeu — nenhuma notificação do WhatsApp. Revirei os olhos, sentindo um aperto leve no peito. Por favor, será que ninguém lembrou que eu existo? Cadê um “bom dia”? Amigos egoístas esses que eu tenho.
Abri o aplicativo de pegação, e havia uma mensagem ali: “Loiro com local”. Ao menos alguém me deu um bom dia, não é mesmo? Sorri sozinho, me sentindo um pouco idiota por brigar com os próprios pensamentos. Não respondi. Me sentei na beira da cama, esticando o corpo, e fui até o banheiro. Levantar e tomar banho é um costume que eu tenho; se não faço isso, parece que a sujeira do dia anterior fica grudada em mim — não que eu seja do tipo fanático por limpeza, longe disso.
Fiquei diante do espelho, observando-me: 1,65 m de altura, pele branca, olhos e cabelos castanhos, e o aparelho nos dentes que eu odeio com todas as forças. Um pedaço de metal que me impede de comer várias coisas, é horrível. Passei a mão pelo rosto, respirei fundo e abri o registro do chuveiro. A água gelada me despertou de vez.
— André, vem tomar café, eu sei que já acordou, escutei o barulho do chuveiro. — A voz da minha mãe ecoou pelo corredor, firme e carinhosa ao mesmo tempo.
Ah, é… esse é meu nome: André. É um pouco estranho ficar soando o nome no pensamento, não sei se vocês já tiveram essa impressão. Estou fazendo isso de novo, não é? Falando sozinho como se tivesse alguém me escutando. Às vezes crio umas paranóias na minha cabeça; devo ser louco, só pode.
Terminei o banho, me vesti com uma calça de moletom e uma camiseta larga, peguei o celular e corri para a cozinha. Minha mãe estava sentada à mesa, os olhos grudados na televisão, assistindo ao Mais Você — aquele programa sem graça da Ana Maria Braga, que só gente velha assiste. Uma caneta na mão e um caderninho aberto na frente dela, a testa franzida em concentração.
— Tira o olho da TV, dona Carmen. — Falei, parando ao lado da mesa e sorrindo de canto.
Ela me olhou de relance, sem largar a caneta.
— Cala a boca, eu estou tentando anotar essa receita.
Soltei uma risada baixa, pegando o leite na geladeira.
— Mãe, estamos no século XXI, existe internet, é tão mais rápido e prático. — Enchi meu copo e coloquei o pão na torradeira.
Ela bufou, jogando a caneta em cima da mesa com um estalo seco.
— Aff, não consegui marcar todos os ingredientes, culpa sua, fica me atrapalhando. Esse negócio de internet aí é coisa para jovem, já estou velha, não sei mexer nessas coisas.
— Eu já falei para a senhora que eu ensino a senhora mexer. — Sentei-me, passando manteiga no pão com calma.
Ela se levantou da mesa, resmungando baixinho, e foi até o fogão.
— Eu não tenho paciência para aprender essas coisas não. Depois você entra aí na sua internet e marca a receita para mim. Pretendo fazer um jantar gostoso hoje.
Parei com o copo de leite a caminho da boca, curioso.
— Por quê? Hoje é algum dia especial que eu ainda não estou sabendo?
Ela virou-se para mim, limpando as mãos no avental, e sorriu de um jeito que já conhecia bem.
— Não, seu primo Ricardo vai vir morar com a gente.
— O quê? — Quase cuspi o leite, engasgando com a surpresa.
— Ele só vai ficar por alguns meses, e pretende estudar na mesma faculdade que você. — Fechei a cara por dentro. Eu odeio Ricardo. Ela continuou, sem notar meu mau humor: — Arrume o seu quarto.
— Por quê? — Olhei para ela, franzindo a testa.
— Você quer que ele durma onde? Na sala? — Fez uma careta, como se a ideia fosse absurda.
— Mas e o quarto da Bruna? — Perdi a vontade de tomar café, colocando o copo com o resto de leite em cima da mesa, sem ânimo nenhum.
— Ricardo é homem, não vou deixar ele dormir no quarto da sua irmã. Cruzou os braços, firme.
— E eu que tenho que dividir meu quarto com aquele chato. — Resmunguei baixinho, baixando o olhar.
— Eu escutei, viu, André? É para tratar ele muito bem. — Pegou o copo sujo e foi em direção à pia, com um tom que não admitia resposta.
Voltei para o meu quarto com passos lentos, o peso da notícia já me abatendo. Teria que arrumar tudo, esconder minhas coisas, fechar cada detalhe que não podia ser visto. Meu primo não pode saber que sou gay, aliás, ninguém pode. Minha mãe é super de boa, mas se meu pai — machista como ele é — descobrir que tem um filho gay, ele me mata. E Ricardo é o sobrinho favorito dele, todo metido a machão, pega muitas garotas… Já estou até vendo meu pai dizendo: “Siga o Ricardo como exemplo, filho.” Dois idiotas.
Coloquei uma música alta para espantar os pensamentos ruins e comecei a ajeitar o quarto, dobrando roupas, organizando a escrivaninha, certificando-me de que nada ficasse exposto. Não quero que ninguém fique mexendo nas minhas coisas.
A porta se abriu sem bater.
— André? — Minha mãe apareceu no vão, olhando o ambiente. — Deixa um espaço no guarda-roupa para seu primo.
— Tá, mãe. — Forcei um sorriso, sem olhar muito para ela.
— E nada de sair hoje à noite, viu? — Falou com um tom irônico, já saindo.
— O quê? — Desliguei a música de uma vez, a voz saindo mais alta do que pretendia.
— Foi o que você ouviu. Todos nós vamos dar atenção a seu primo para que ele se sinta bem recebido. — Sorriu, como se estivesse fazendo um favor.
— Ah, vou ter que ficar servindo de babá? — Falei, sentindo o rosto esquentar de raiva.
— Não fale assim com sua mãe. Assim que seu pai chegar do trabalho, vai ir buscar ele no aeroporto, e não é para me desobedecer.
— Eu já tenho dezessete anos. — Resmunguei baixinho, virando-me de costas.
— Eu escutei de novo. — Gritou do lado de fora do quarto, e ouvi seus passos se afastando.
Sacudi a cabeça, impaciente. Ela tem um ouvido muito aguçado, escuta toda vez que eu resmungo. Além de estragar minha privacidade, ele vai estragar meu final de semana. Primo, você nem chegou e eu já te odeio.
Terminei de arrumar tudo, e o celular tocou. Me joguei de costas na cama, olhando o teto, e atendi:
— Qual é a boa de hoje, migo? — Era Tainá, minha melhor amiga, a voz animada do outro lado da linha.
— Miga, hoje vou ter que servir de babá para um idiota que está pra chegar. — Falei, arrastando as palavras, todo desanimado.
— Que idiota? Conheço? Me conta esse babado! — Ela falou com tanta energia que quase podia vê-la gesticulando.
— Sossega a periquita, ele é um mala. — Rir um pouco me fez bem.
— É gatinho, pelo menos? — O tom dela mudou, cheio de curiosidade.
— Não sei, miga. Faz tempo que não vejo ele, aliás, faz muito tempo. Ele era o patinho feio da família, não deve ter mudado muita coisa não. — Comecei a rir, imaginando o menino que conhecia.
— Coitado… Então hoje vou ter que ir para a balada sozinha? — Ela também desanimou, bufando ao telefone.
— Cadê as suas outras amigas? — Franzi a sobrancelha, sentindo pena dela.
— Elas têm namorados e estão acorrentadas a eles. Você é o único amigo solteiro que tenho, e sabe que amo ir em balada gay. As baladas hétero são muito sem graça, só toca sertanejo universitário. — Bufou de novo. — Hoje o tema vai ser “baile de máscaras”. Já estou com a sua fantasia aqui.
— Eu sei, amiga, mas não vai dar.
— Bom amigo, depois eu te ligo então, podemos marcar outra coisa.
— Espere aí. — Sussurrei, levantando depressa. Fui até a porta, verifiquei o corredor vazio e tranquei a porta com cuidado. — Me espera na porta da balada, lá pela uma hora?
— Mas e seu primo? — Ela riu, pegando a deixa na hora.
— Foda-se meu primo, ele não vai estragar minha noite.
— Isso aí, amigo! Te espero lá, vou levar sua fantasia.
— Ok!
Desliguei o celular, me joguei de novo na cama e fiquei olhando para o teto, montando planos para a noite que viria, sorrindo sozinho. As horas foram passando devagar.
Mais tarde, estava deitado no sofá da sala, sem camisa, só de cueca samba-canção, assistindo à televisão, quando a porta da frente se abriu. Meu pai entrou, carregando uma mala grande na mão, o rosto cansado do trabalho.
— Vem me ajudar aqui, garoto. — Falou, me olhando com aquele jeito sempre sério.
Levantei depressa e fui até ele, pegando a mala pesada e levando até o sofá. Quando voltei para a porta, parei de repente. Lá estava ele. Ricardo.
Parado na soleira, olhando para mim. Era alto, ombros largos, olhos verdes brilhantes e uma boca rosada emoldurada por um sorriso que me parou o coração. Ele me olhava de cima a baixo, devagar, como se estivesse analisando cada detalhe.
— Primo? Primo? — Estalou os dedos diante do meu rosto, rindo levemente. — Está tudo bem?
— Oi? Está sim. — Recuperei-me depressa, mas senti o rosto queimar ao perceber que eu estava só de cueca. Que vergonha.
Ele deu um passo à frente, os braços abertos, e me abraçou forte. Seu cheiro era bom, fresco, envolvente.
— Vem cá me dá um abraço. Quanto tempo a gente não se vê.
Fiquei parado, sentindo o abraço, sem saber onde colocar as mãos. Esse é Ricardo? Como assim? Cadê aquele menino estranho que usava óculos fundo de garrafa? Cadê aqueles aparelhos “freio de burro”? Cadê aquele menino magrelo? Ele mudou tudo.
— Vai colocar uma roupa, menino. — Minha mãe falou, aparecendo na porta e olhando para Ricardo, que ainda não tirava os olhos de mim.
— Me desculpa. — Olhei para ele, sorrindo sem jeito, e fui em direção ao quarto.
— Fica suave, primo. Sou de boa com essas coisas. — Ouvi ele dizer, com aquele sorriso que parecia não ter mudado de lugar.
Entrei no quarto e fechei a porta, apoiando as costas nela. O cheiro dele havia ficado em mim. Respirei fundo, tentando organizar os pensamentos. Não demorou muito e ele apareceu, carregando as malas, parado na porta.
— Onde coloco? — Perguntou, olhando ao redor do cômodo.
— Separei aquela parte do guarda-roupa para você. — Falei, sem dar muita bola, apontando com o queixo.
Ele deixou as malas no chão e se virou para mim, o sorriso de sempre.
— E aí, tem pegado muita mina? — Aquele jeito “machão” não tinha mudado nada.
— Estou sossegado. — Sorri, seco.
— Quero pegar muita mina nesse ano de faculdade. — Falou com confiança demais, óbvio que se achava o garanhão.
— Que bom pra você. — Sentei-me na beira da cama, sem animação nenhuma. — Quer uma ajuda com a roupa?
— Não. — Sentou-se ao meu lado, de repente, e começou a me olhar de um jeito que me incomodou.
— O que foi? — Perguntei, estranhando a atenção.
— Você mudou bastante, nem parece aquele garotinho que brincava comigo. — Sorriu, sincero de um jeito que me pegou de surpresa.
— Você também mudou. — Sorri de volta, irônico. — Bom, as regras são as seguintes: não invade o meu espaço, que eu não invado o seu. Não mexa nas minhas coisas sem pedir, ok? E o principal: não mexa no meu celular.
— Tudo bem, a casa é sua, estou aqui como um hóspede. — Riu, sem graça, coçando a nuca.
— Obrigado… — Peguei meu celular e me levantei, indo em direção à porta.
— Primo? — Gritou antes que eu saísse.
Parei no vão, olhando para trás.
— O que foi?
— Obrigado, por ter deixado eu ficar no seu quarto.
— Eu não tive escolha. — Sorri, meio amargo, e saí.
Caminhei pelo corredor, pensando. Sei que poderia estar sendo um pouco mau, mas como eu disse, não quero amizade com ele. Não quero meu pai me comparando a ele, é só isso. Sei que ele não tem culpa, mas esse vai ser o único jeito de ter o meu espaço.








