Capítulo 1 - A loba esquecida
ANORA
O grande salão permanecia mergulhado em um silêncio tão profundo que Anora conseguia ouvir cada gota de água escorrendo do pano entre seus dedos. Ajoelhada sobre o piso de pedra, ela esfregava a mesma mancha havia vários minutos, embora seus braços já tremessem e sua visão estivesse turva. Não podia parar. Naquela casa, qualquer sinal de cansaço era tratado como desobediência, e toda desobediência recebia um castigo.
Aos dezenove anos, Anora conhecia melhor a dor do que qualquer outra coisa.
O vestido largo que cobria seu corpo estava rasgado nas costas e manchado de sangue. O tecido áspero colava-se às feridas abertas sempre que ela se inclinava, arrancando de seus lábios uma respiração curta. Horas antes, a Luna da alcateia a havia espancado porque uma travessa escapara de suas mãos. A porcelana quebrada fora considerada mais valiosa do que a ômega ajoelhada diante dela.
Sob as camadas de roupas velhas, havia enchimentos presos ao redor de sua cintura, dos quadris e dos braços. Trapos enrolados deformavam seu corpo e faziam com que parecesse muito maior do que realmente era. Ela também espalhava cinzas sobre a pele e mantinha os cabelos presos em um emaranhado opaco. Era sua única proteção.
Seus cabelos, quando limpos, eram brancos, atravessados por fios prateados que brilhavam sob a luz. Os olhos possuíam um azul-celeste intenso, quase luminoso. O rosto delicado parecia esculpido por mãos divinas: feições angelicais, nariz fino e levemente arrebitado, lábios suaves e olhos grandes, marcantes demais para serem completamente escondidos.
O Alfa Andrei tomava qualquer mulher que despertasse seu interesse. Não importava se ela consentia, chorava ou já possuía alguém. Anora ouvira histórias suficientes para saber o que aconteceria caso ele descobrisse o corpo oculto sob seus trapos. Preferia suportar o desprezo dele a atrair seu desejo.
Anora mergulhou o pano no balde e tentou torcê-lo. Seus dedos inchados mal obedeciam. Como ainda não havia despertado sua loba, seu corpo se curava lentamente, deixando-a mais fraca e vulnerável do que os demais membros da alcateia.
O som de passos atravessou o corredor.
Ela baixou imediatamente a cabeça e continuou esfregando o piso, embora suas mãos tivessem começado a tremer.
Andrei entrou no salão.
Era um homem de beleza impressionante, alto, de ombros largos e feições fortes. Os cabelos escuros estavam perfeitamente penteados, e os olhos carregavam a segurança cruel de quem jamais ouvira uma recusa.
Ele caminhou até Anora e parou diante dela.
— Olhe para mim.
Anora ergueu o rosto devagar.
O olhar de Andrei percorreu suas bochechas sujas, demorando-se nos olhos azuis que nem mesmo as cinzas conseguiam apagar. Por um instante, algo perturbador brilhou na expressão dele. Depois, seus lábios se curvaram em repulsa.
— É uma pena — murmurou Andrei. — Um rosto tão bonito desperdiçado em uma criatura tão gorda e sebosa.
Anora permaneceu calada.
Andrei abaixou os olhos e observou a mão dela apoiada no chão. Sem qualquer aviso, colocou a bota sobre seus dedos.
A pressão veio devagar.
Anora sentiu os ossos comprimirem-se contra a pedra. Uma dor aguda atravessou sua mão e subiu pelo braço, mas ela não gritou. Prendeu o ar, cerrou os dentes e manteve os olhos fixos no chão. Sabia que ele esperava uma reação. Se gritasse, ele pisaria com mais força. Se implorasse, ele sorriria.
Andrei aumentou a pressão.
As unhas de Anora rasparam o piso. Lágrimas queimaram seus olhos, porém ela se recusou a deixá-las cair diante dele. As feridas em suas costas se abriram quando ela tentou sustentar o próprio peso com o outro braço.
— Nada? — perguntou Andrei, inclinando-se sobre ela. — Nem mesmo um gemido?
Anora ficou imóvel.
A bota esmagou seus dedos por mais alguns segundos que pareceram intermináveis. Então ele afastou o pé. O alívio foi imediatamente substituído por uma pulsação dolorosa.
Andrei soltou uma risada baixa.
— Você é tão sem graça quanto é nojenta.
Ele segurou o balde com a ponta da bota e o virou.
A água suja espalhou-se pelo salão, atingindo o vestido de Anora, seu rosto e seus cabelos. O líquido gelado penetrou as rasgaduras do tecido e queimou suas feridas. Ela cambaleou, apoiando a mão machucada no chão molhado, mas ainda assim não chorou.
— Veja o que fez — disse Andrei, como se a culpa fosse dela. — O salão está imundo outra vez.
Anora levantou os olhos apenas o suficiente para enxergar as botas dele.
— Limpe tudo de novo. E, quando terminar, lave os corredores. Talvez trabalhar sem parar ajude você a perder essa gordura repugnante. Sinceramente, Anora, olhar para você me dá náuseas.
Ela engoliu o gosto de sangue na boca.
— Sim, Alfa.
Os passos de Andrei desapareceram pelo corredor, deixando para trás apenas o eco de sua crueldade.
Anora permaneceu imóvel.
Esperou até ter certeza de que estava sozinha. Somente então seus ombros cederam.
O primeiro soluço escapou baixo, quase silencioso. Depois veio outro. Ela cobriu a boca com a mão que ainda conseguia mover, tentando abafar o choro, como se até sua dor precisasse permanecer escondida. As lágrimas abriram caminhos claros pela sujeira de seu rosto e caíram na água espalhada pelo chão.
Doía respirar. Doía se mover. Doía continuar viva naquele lugar.
Anora ergueu o rosto para a grande janela no alto do salão. Além do vidro, a lua cheia dominava o céu, enorme e brilhante, banhando a noite com uma luz prateada que lembrava os fios escondidos em seus cabelos.
Durante anos, ela pedira ajuda à Deusa da Lua. Pedira que sua loba despertasse. Que alguém a encontrasse. Que aquela vida terminasse antes que não restasse nada dentro dela.
Nenhuma resposta jamais veio.
Com os dedos latejando e as costas cobertas de sangue, Anora abraçou o próprio corpo e fitou a lua através das lágrimas.
— Quando isso vai acabar? — sussurrou, com a voz quebrada. — Eu não aguento mais.
A lua continuou brilhando.
Distante. Bela. Silenciosa.
E Anora, ajoelhada na água suja, chorou como se estivesse finalmente perdendo a última esperança de ser ouvida.








