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Abduzi, engravidei e casei com um gordinho

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Summary

Mateus Piccoli, ou simplesmente Piccoli, levava uma vida comum até ser misteriosamente abduzido por uma alienígena que precisava de um humano geneticamente compatível para um experimento secreto. Por uma série de acidentes científicos, Piccoli acaba grávido de uma criança híbrida capaz de mudar o equilíbrio entre a Terra e sua civilização alienígena. Enquanto governos e extraterrestres tentam capturá-lo, a alienígena responsável pelo sequestro se apaixona pelo seu "experimento". Piccoli, inicialmente revoltado, acaba correspondendo. Para proteger a criança e escapar das autoridades, os dois decidem se casar. O que começa como um casamento de conveniência transforma-se em uma relação genuína, cheia de diferenças culturais, confusões familiares e situações completamente absurdas. No fim, Piccoli descobre que ser abduzido, engravidado e casado com uma alienígena talvez tenha sido a coisa mais normal que poderia ter acontecido com ele.

Genre
Fantasy
Author
Vinicyus
Status
Complete
Chapters
1
Rating
n/a
Age Rating
13+

Cap

Mateus Piccoli tinha três certezas na vida: segunda-feira era um dia desnecessário, seu celular sempre descarregava no pior momento possível e nada realmente interessante acontecia depois da meia-noite.

Naquela madrugada, descobriu que estava errado sobre a terceira.

Piccoli dormia tranquilamente quando uma luz azulada atravessou a janela de seu quarto. Não era exatamente uma luz comum. Ela não iluminava os móveis; parecia atravessá-los, como se a própria matéria tivesse decidido, por alguns segundos, tornar-se transparente.

Ele abriu os olhos.

— Que droga...

Sentou-se na cama, ainda sonolento. No canto do quarto havia uma figura.

Alta. Feminina. Pálida demais para ser humana. Os olhos brilhavam com uma tonalidade violeta, e um estranho conjunto de símbolos luminosos flutuava ao redor de seus braços.

Piccoli encarou a criatura.

A criatura encarou Piccoli.

Os dois ficaram em silêncio.

— Se você for um ladrão — murmurou ele —, saiba que eu não tenho dinheiro.

A alienígena inclinou a cabeça.

— O espécime está consciente.

— Espécime?

Ela tocou um pequeno dispositivo preso ao pulso.

— Confirmado. Mateus Piccoli.

Piccoli piscou.

— Como você sabe meu nome?

— Seu planeta possui sistemas de identificação extremamente rudimentares.

— Isso não respondeu.

— Não era necessário.

Antes que pudesse formular outra pergunta, o quarto inteiro desapareceu.

Quando acordou novamente, estava deitado sobre uma superfície metálica, cercado por equipamentos que pareciam ter sido projetados por alguém que odiava profundamente a simplicidade.

Acima dele havia um teto transparente. Do outro lado, estrelas.

Muitas estrelas.

Piccoli levantou-se de um salto.

— EU ESTOU NO ESPAÇO?!

A alienígena, sentada diante de uma série de painéis, respondeu sem sequer olhar para trás:

— Tecnicamente, sim.

— Você me sequestrou!

— Correto.

— Isso é crime!

— Na Terra, aparentemente.

— E onde estamos?

Ela finalmente se virou.

— A aproximadamente cento e vinte milhões de quilômetros do seu planeta.

Piccoli ficou pálido.

— Você me sequestrou e me levou para o espaço?!

— Foi uma simplificação necessária.

— Necessária para quem?!

Ela o observou por alguns segundos.

— Para a ciência.

Piccoli passou a mão pelo rosto.

— Eu sabia que devia ter comprado uma porta melhor.

A alienígena se chamava Aelyra. Ela fazia parte de uma civilização chamada Vaelari, milhares de anos à frente da humanidade. Sua missão era encontrar um organismo humano geneticamente compatível com um experimento biológico secreto.

Milhares de pessoas haviam sido analisadas à distância.

Milhares foram descartadas.

E então os computadores encontraram Mateus Piccoli.

— Mas por que eu? — perguntou ele.

Aelyra consultou os dados.

— Compatibilidade genética excepcional.

— Sou saudável?

— Não exatamente.

Piccoli franziu a testa.

— Então o quê?

Ela hesitou.

— Você possui uma combinação extremamente rara de características genéticas.

— Isso parece importante.

— É.

— E o que vocês pretendem fazer comigo?

Aelyra permaneceu em silêncio.

Piccoli apontou para ela.

— Esse silêncio foi muito suspeito.

— O experimento já começou.

Nesse instante, todas as luzes da nave ficaram vermelhas.

Um alarme ensurdecedor ecoou pelo corredor.

Aelyra empalideceu.

— O que aconteceu?

Ela correu até o painel.

Seus olhos se arregalaram.

— Isso é impossível.

— O quê?

Ela olhou para Piccoli.

Pela primeira vez desde que o havia sequestrado, parecia genuinamente assustada.

— Seu corpo iniciou uma reação que não estava prevista.

— Que reação?

Aelyra olhou novamente para os instrumentos.

Então disse, quase num sussurro:

— Reprodução.

Piccoli ficou imóvel.

— ...como é?

Aelyra apertou vários comandos.

Nada mudou.

— Piccoli...

— Sim?

— Você está grávido.

O silêncio que se seguiu foi absoluto.

Piccoli olhou para ela.

Depois para o próprio corpo.

Depois novamente para ela.

— Eu quero voltar para a Terra.

Aelyra assentiu lentamente.

— Eu também.

E, pela primeira vez, os dois concordaram em alguma coisa.

O problema era que voltar para a Terra seria consideravelmente mais complicado do que simplesmente apertar um botão.

Aelyra descobriu isso três horas depois, quando recebeu uma transmissão criptografada da frota Vaelari.

A mensagem era curta.

O experimento havia sido detectado.

A criança não deveria existir.

E, sobretudo, Piccoli não deveria sobreviver.

— Excelente — disse Piccoli, sentado no chão da nave. — Fui sequestrado, engravidei e agora alguém quer me matar.

Aelyra olhou para ele.

— Tecnicamente, ninguém confirmou que deseja matá-lo.

— Você acabou de dizer que minha sobrevivência é inconveniente.

— Sim.

— Então normalmente isso significa que alguém quer me matar.

Ela pensou por alguns segundos.

— Sua interpretação é razoável.

A partir daquele momento, tudo mudou.

Aelyra deixou de tratar Piccoli como um objeto de pesquisa. Desativou os sistemas de contenção e entregou-lhe acesso aos compartimentos da nave. Pela primeira vez, explicou toda a verdade.

O experimento não havia sido criado para produzir uma criança.

Era uma tentativa de criar uma ponte biológica entre duas espécies.

O organismo formado dentro de Piccoli, porém, havia ultrapassado todas as previsões. A criança possuía material genético humano e Vaelari, mas também apresentava uma terceira sequência desconhecida, aparentemente criada pela própria interação entre os dois códigos genéticos.

Era algo novo.

E aquilo assustava os Vaelari.

— Então meu filho é uma aberração? — perguntou Piccoli.

Aelyra respondeu imediatamente:

— Não.

Ele a encarou.

— Você respondeu rápido.

— Porque não acredito nisso.

Foi a primeira vez que Piccoli percebeu que havia algo diferente na voz dela.

Não era preocupação científica.

Era preocupação pessoal.

A fuga começou naquela noite.

Aelyra desviou a nave para uma rota proibida, apagou os identificadores e enganou três estações militares. Em determinado momento, uma patrulha Vaelari quase os interceptou.

Piccoli segurou-se numa parede enquanto a nave fazia uma curva impossível.

— Você sabe pilotar isso?!

— Sim.

— Então por que está tremendo?

— Porque normalmente não faço isso enquanto estou sendo perseguida pela minha própria espécie.

— Ah.

— Está com medo?

Piccoli olhou para ela.

— Estou apavorado.

Aelyra sorriu discretamente.

— Eu também.

Foi a primeira vez que Piccoli viu aquele sorriso.

E, contra toda lógica, gostou dele.

Semanas se passaram.

A nave entrou no sistema solar.

A Terra apareceu diante deles, azul e silenciosa.

Piccoli deveria ter sentido apenas alívio.

Mas, naquele momento, percebeu que não queria simplesmente fugir.

Queria entender Aelyra.

Queria saber quem ela era quando não estava trabalhando.

Queria ouvir sobre seu mundo, sua infância, sua família.

E Aelyra parecia igualmente interessada em descobrir quem era o homem que ela havia sequestrado.

Ela descobriu que Piccoli era extremamente teimoso.

Piccoli descobriu que Aelyra não entendia sarcasmo.

Aelyra descobriu que humanos comiam três refeições por dia.

Piccoli descobriu que os Vaelari consideravam refeições uma prática cultural antiquada.

Ele ficou horrorizado.

— Vocês não comem?

— Absorvemos nutrientes.

— Isso não é vida.

— É eficiente.

— Eficiência não é felicidade.

Aelyra ficou pensativa.

Talvez aquela fosse a primeira lição humana que realmente a afetara.

Quando finalmente pousaram na Terra, esconderam a nave em uma região isolada.

Piccoli respirou o ar terrestre como se fosse a coisa mais maravilhosa do universo.

— Casa.

Aelyra observou-o.

— Você sentiu falta daqui?

— Muito.

Ela baixou os olhos.

Piccoli percebeu.

— Ei.

— Sim?

— Você também pode ficar.

Aelyra ergueu o rosto.

— Na Terra?

— Se quiser.

Ela sorriu.

— Quero.

O problema seguinte era explicar tudo para a família.

A mãe de Piccoli abriu a porta e encontrou o filho desaparecido havia semanas acompanhado por uma mulher desconhecida, vestida com roupas terrestres claramente escolhidas às pressas.

Ela olhou para Piccoli.

Depois para Aelyra.

Depois novamente para Piccoli.

— Quem é ela?

Piccoli respirou fundo.

— Mãe...

— Sim?

— Essa é Aelyra.

— Namorada?

Silêncio.

Piccoli olhou para Aelyra.

Aelyra olhou para Piccoli.

— Mais ou menos — respondeu ele.

A mãe estreitou os olhos.

— Mais ou menos?

Piccoli engoliu seco.

— É complicado.

— Ela é estrangeira?

— Bastante.

Aelyra, sem compreender a gravidade da situação, acrescentou:

— Sou de outro planeta.

A mãe de Piccoli ficou parada.

Piccoli fechou os olhos.

— Eu sabia que isso ia acontecer.

Alguns minutos depois, a família inteira estava na sala.

Ninguém sabia o que dizer.

Até que alguém finalmente perguntou:

— Então vocês estão juntos?

Piccoli olhou para Aelyra.

Ela segurou sua mão.

— Estamos — respondeu.

E dessa vez não havia hesitação.

O casamento começou como uma necessidade.

A existência da criança já havia atraído atenção demais, e os documentos terrestres não tinham nenhuma categoria apropriada para a situação. Um casamento permitiria que Aelyra tivesse proteção legal e que Piccoli fosse reconhecido como responsável pela criança.

Era apenas burocracia.

Pelo menos era o que diziam.

A cerimônia aconteceu discretamente.

Piccoli usava um terno simples.

Aelyra vestia branco, mas incorporava discretos elementos Vaelari, formando um traje que parecia simultaneamente vestido, uniforme cerimonial e obra de engenharia.

Quando chegou o momento dos votos, Piccoli improvisou.

— Eu não planejei nada disso.

Aelyra sorriu.

— Eu também não.

— Você me sequestrou.

— Sim.

— Me colocou numa nave.

— Sim.

— E, de alguma maneira, acabamos aqui.

Ela apertou sua mão.

— Eu faria tudo diferente se pudesse.

Piccoli ficou em silêncio.

— Mas faria?

Aelyra pensou.

— Não sei.

Ele sorriu.

— Eu também não.

Então disse:

— Mas ficaria com você.

Aelyra respondeu:

— Eu ficaria com você.

O casamento deixou de ser uma estratégia.

Tornou-se uma escolha.

Meses depois, a criança nasceu.

Não houve explosões.

Não houve invasão alienígena.

Não houve batalha interplanetária.

Houve apenas uma pequena criatura híbrida, saudável, com os olhos de Aelyra e o rosto de Piccoli.

O mundo nunca soube exatamente o que aconteceu.

Os governos receberam explicações cuidadosamente elaboradas.

Os Vaelari recuaram.

E Piccoli finalmente conseguiu algo que considerava mais importante do que qualquer segredo científico: uma vida normal.

Ou, pelo menos, uma versão bastante particular dela.

Anos depois, sentado na varanda de sua casa, Piccoli observava sua filha brincar enquanto Aelyra consertava um pequeno dispositivo antigravitacional na cozinha.

Um vizinho passou pelo portão.

— Piccoli! Como você conheceu sua esposa?

Ele ficou em silêncio por alguns segundos.

Olhou para Aelyra.

Ela sorriu.

Piccoli então respondeu:

— É uma história complicada.

O vizinho riu.

— Sério?

Piccoli olhou para o céu.

— Ela me abduziu.

— E depois?

Piccoli olhou para a filha, depois para a esposa.

Sorriu.

— Depois eu descobri que, às vezes, o caminho mais absurdo é justamente o que leva você para casa.

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