Parte 1: Se não fosse assim…
09/11/25
“Um homem tem que fazer o que um homem tem que fazer.” Essa era a frase favorita do meu pai. Ele dizia isso sempre que queria justificar alguma besteira: trocar o carro por um maior, sair no soco com o vizinho, ou simplesmente abrir mais uma cerveja às dez da manhã. Cresci ouvindo isso como se fosse um mantra viril, uma espécie de código de honra masculino. Mas acho que essa frase não se aplica a sexo com homens. O que me aconteceu sem ser algo planejado, mesmo. Ontem à noite, depois de litros de álcool, muita maconha e uma conversa que começou com “você parece tenso”, essa frase voltou à minha cabeça com um gosto estranho. Porque, veja bem, eu fiz o que um homem tem que fazer. Só que com outro homem. E agora, com a ressaca me esmagando e a memória embaçada, eu me pergunto: será que meu pai aprovaria? Será que ele entenderia que, às vezes, o que um homem tem que fazer é encarar o próprio desejo — ou o próprio medo — sem se esconder atrás de frases feitas? Não sei. Só sei que hoje, na reuniãozinha da firma, vai ter água, refrigerante e distância segura do tal do Lance Jackson. Porque se tem uma coisa que um homem tem que fazer, é evitar repetir o que não está pronto pra entender.
Meu nome é Gabriel Kim. Trinta anos. Ou só Gabe, pros íntimos. Ou “toma essa, Gabe”, como meu cérebro insiste em repetir, como um eco sujo da noite passada. Lance Jackson. Aquele nome agora mora num canto escuro da minha cabeça, com luz de neon piscando e cheiro de vodka barata. Então esquece. Nada de Gabe. Me chamem de Gabriel. Mais formal, distante, limpo. Ou melhor, talvez seja hora de um nome novo. Tyrone? Kyle? Qualquer coisa que não tenha sido gemido por um homem enquanto eu estava fora de mim — fora de mim no sentido mais literal possível. A verdade é que eu não lembro direito. E o pouco que lembro, eu preferia não lembrar. Mas a memória tem garras. E a vergonha, dentes. E agora, cada vez que olho no espelho, vejo um homem que não reconheço. Cabelo escuro, bagunçado. Olheiras fundas. Pele pálida de quem dorme mal e pensa demais. O rosto que eu vejo parece mais velho do que trinta. A expressão é de quem perdeu alguma coisa que não sabe nomear. Talvez tenha sido o controle. Talvez tenha sido a ilusão de que eu sabia quem eu era. Talvez tenha sido só a paz.
Voltando a mim, sem essas lembranças horríveis. Meu nome é Gabriel Kim. Trinta anos. Filho de imigrantes coreanos que vieram pra cá com a promessa de futuro e acabaram vendo esse futuro ser destruído por políticas contra imigrantes cada vez mais contraditórias. Meu pai era um homem sábio. Morreu jovem num acidente de carro. E eu cresci tentando entender o que isso significava entre os silêncios da nossa casa, entre os jantares com arroz, kimchi e ressentimento. Ou só Gabe, pros íntimos. Ou “Toma essa, Gabe”, como meu cérebro ainda insiste em repetir, pra me lembrar do que eu permiti que fizessem comigo. Eu não consigo nem fazer uma apresentação decente sem ser lembrado constantemente do meu erro da noite anterior.Talvez tenha sido só o controle que eu perdi. Talvez tenha sido a ilusão de que eu sabia quem eu era. Talvez tenha sido só a paz mesmo.
Eu preciso admitir — mesmo que isso me dê náusea — que o maldito do Lance, de certo ângulo e com álcool suficiente no sangue, até parece uma garota. Problema resolvido. Meu cérebro, sempre criativo na hora errada, achou que eu tava só me dando bem mais uma vez com uma mulher linda, gostosa, daquelas que aparecem só quando a gente já passou do ponto. No fim, fui enganado. Enganado a dormir com um homem. Os lábios dele até que são decentes. E a bunda… a bunda é uma armadilha. Redonda, firme, quase cínica. E eu odeio lembrar disso. Odeio mais ainda não conseguir esquecer.
Lance chegou atrasado. Como sempre. E quando apareceu, minhas esperanças de passar a noite sem ser confrontado com as lembranças foram direto pro ralo. Camisa social aberta no colarinho, sorriso fácil, aquele andar de quem sabe que é bonito e que isso basta. Ele entrou na sala como se fosse dono do lugar, distribuindo toques no ombro, piadas rápidas, olhares que demoravam meio segundo a mais do que deviam. E quando me vê, congela. Só por um instante. Depois sorri. Não o sorriso de quem pede desculpas. O sorriso de quem lembra. De quem saboreia o estrago.
Eu desvio o olhar. Pego um copo de refrigerante e fingo estar fascinado pela textura da parede — uma parede idiota, áspera, com tinta descascando. Mas ele vem mesmo assim. Claro que vem.
— Gabe — diz ele, com aquela voz grave que agora mora nos meus pesadelos.
— Gabriel — corrijo, sem olhar.
— Você tá bem?
— Tô ótimo.
Mentira. Eu tava tremendo por dentro. Com a garganta seca e o estômago revirando como se tivesse engolido cacos de vidro.
Ele fica em silêncio por um segundo. Depois ri. Ri. Como se tudo fosse uma piada interna entre nós dois. Como se eu tivesse consentido 100 porcento. Como se eu tivesse gostado.
— Está com raiva de mim? — pergunta ele.
— Não — digo, seco.
— A gente precisa conversar.
— Não.
— Só pra esclarecer as coisas.
— Não tem nada pra esclarecer — digo.
— Eu tenho namorada e você sabe disso — diz ele, sussurrando.
A frase me atravessa como uma lâmina fria.
— Que bom pra você — digo, com a cara fechada, os dentes quase rangendo.
— Tem razão — diz ele. — Vai ser melhor assim.
Ele dá um passo pra trás. Não de medo. De cálculo. Lance sempre soube medir distância. E eu sempre fui péssimo nisso.
— Amigos? — diz ele, secando a mão molhada pela bebida na própria calça e depois estendendo pra mim.
Eu olho pra mão dele. Não pego. Por medo. Medo de lembrar do que eu esqueci. Medo de lembrar do que eu senti.
— Eu não vou embora até você pegar na minha mão — diz ele.
Eu engulo a raiva. Ela desce queimando. E pego na mão dele.
— Viu só, eu não mordo.
Mas geme o nome dos outros, sua puta, penso com ódio.
— A gente se vê segunda no escritório — diz ele, me dando as costas e voltando a se misturar com as pessoas.
E eu fico ali, com a mão ainda quente, como se tivesse tocado fogo.
E esse foi o fim da história.
Fim?
Bom... fim mesmo teria sido se eu ou ele tivéssemos morrido atropelados por um ônibus naquela noite, o que não aconteceu. Porque a história está longe — longe mesmo — de ter um fim. Afinal de contas, segunda de manhã eu vou ter que encarar ele no escritório. E não é como se antes fôssemos grandes amigos. A gente se cruzava no bebedouro, trocava umas palavras sobre o filme da noite passada, o resultado de algum jogo imbecil, essas bobagens que preenchem o silêncio entre colegas. Nada que justificasse acabar na mesma cama. Nada que explicasse o que aconteceu. Eu sou hétero. Sem dúvidas. Nenhuma mesmo. Mas um homem tem que fazer o que tem que fazer, como meu pai dizia. Só que agora essa frase virou um aviso. Um lembrete pra mim mesmo: nunca mais beber. E principalmente, nunca — nunca em hipótese alguma — ficar sozinho com o Lance de novo.
Na segunda-feira, eu tinha dois objetivos. Ir trabalhar como sempre. E arrumar um encontro. Baixei todos os aplicativos de namoro que encontrei. Sendo o que mais dei atenção foi o Match Love. Fui dando match em todo mundo. Loira, morena, ruiva. Alta, baixa. Mulheres com mais de cinquenta, mulheres com menos de trinta. Qualquer uma. O importante era ser mulher. O resto dos requisitos que eu costumava ter foram revogados pelo meu tribunal interior de bom senso. Dei folga pra ele por dois dias. Ele merecia. Ou talvez só não tivesse mais autoridade pra julgar nada.
Aproveito pequenos momentos em que posso parar de trabalhar pra responder algumas mensagens. E, pra minha sorte, esses aplicativos são cheios de mulheres desesperadas. E como eu amo isso. O cheiro de desespero logo pela manhã. Mulher que manda “bom dia, lindo” às 8h42 sem nem saber meu sobrenome direito. Mulher que diz “você parece diferente” só porque eu não uso óculos escuros na foto. Mulher que pergunta “o que você procura aqui?” como se eu fosse escrever um poema.
Pra ajudar, mudei minha foto de perfil. Agora é uma em que tô sem camisa, suado, com ela jogada no ombro, num dia em que saí pra correr e achei que tava bonito o suficiente pra parecer viril. A luz tá boa, o abdômen tá decente, e o olhar tá meio perdido — o que, aparentemente, funciona. Porque os comentários começaram a chegar.
“Uau, que corpo!” “Você corre sempre?” “Me ensina a ter esse foco.” “Você parece intenso.” “Você parece que sabe o que quer.”
Se soubessem. Se soubessem que eu tô aqui só pra apagar um incêndio interno. Que cada match é só uma tentativa de provar pra mim mesmo que eu ainda sou quem eu digo ser. Que eu ainda sou hétero. Que eu ainda sou o filho do meu pai. Que eu ainda sou um homem que faz o que um homem tem que fazer.
Mesmo que isso signifique fingir que tô interessado em uma mulher chamada Carla que tem três gatos e acha que “energia é tudo”
Na hora do almoço, vou direto pro Delícia Vegana. Lugar arejado, cheio de plantas penduradas no teto, cheiro de quinoa e incenso de lavanda. O tipo de ambiente onde as pessoas falam baixo, usam roupas de linho e parecem sempre prestes a te oferecer um cristal ou uma opinião não solicitada sobre glúten. Mas eu gosto. Não da comida — que é sempre morna, sem sal e com nomes que parecem piada — mas do tipo de mulher que aparece por lá. Veganas cheias de pretensão, com doutorado em Ayurveda e diploma de yoga feito na Tailândia. Elas sempre começam uma conversa com um “as comidas de hoje em dia têm tanto agrotóxico…” E aí vem o meu sorriso. E depois entra o meu charme logo em seguida. E pronto: encontro garantido, da forma tradicional. Sem algoritmo, sem match, sem bio com emoji de signo. Era assim antes da internet. Era assim que eu arrumava encontros na época da faculdade. E hoje, eu tô disposto a tudo.
Entro no restaurante e faço um reconhecimento rápido. Mesa no canto: duas amigas rindo alto demais, uma delas com uma tatuagem de flor de lótus no ombro. Passo. Numa mesa sozinha: uma moça de cabelo crespo de coque malfeito, lendo um livro de capa preta. Talvez. Perto da janela o suficiente porque se alguém passar ali e me ver conversando com ela vai ter certeza de que eu sou hétero: jackpot.
Observo ela um pouco mais antes de me aproximar de fato. Pele negra com aquele brilho dourado que só o sol sabe dar. Blusa de alça, ombros à mostra, postura relaxada mas firme. Ela mastiga devagar, como se cada folha de salada fosse uma escolha consciente. Tem um copo de suco verde ao lado e um ar de quem medita antes de responder qualquer coisa. O tipo que fala “gratidão” no lugar de “obrigado”. O tipo que acredita que energia é tudo. O tipo que parece ter lido todos os livros da Rupi Kaur e ainda assim não se acha clichê. O tipo perfeito pra me despertar desse pesadelo que eu me meti bêbado.
Ajeito a postura, respiro fundo e vou até o balcão pegar meu prato. Hoje, o cardápio diz “feijoada vegana com tofu defumado”. Quase ri. Mas peguei mesmo assim. Porque um homem tem que fazer o que um homem tem que fazer. Frase maldita que eu preciso apagar do meu cérebro.
Pego minha bandeja com a feijoada vegana — que parece mais um castigo do que um prato — e caminho até a mesa da morena da janela. Ela está concentrada no livro, mastigando devagar, como se cada folha de rúcula fosse uma revelação espiritual. Chego perto, com aquele meio sorriso ensaiado que uso desde a faculdade. O sorriso que diz “sou interessante, mas não ameaçador”. O sorriso que diz “eu sei conversar sobre qualquer coisa, até mesmo sobre tofu”.
— Esse suco verde é bom mesmo ou só parece saudável? — solto, apontando pro copo dela.
Ela levanta os olhos. Castanhos, grandes, atentos. Me olha de cima a baixo. Demora um segundo. Dois. Três.
— Depende do que você procura — diz ela. — Esse suco é ótimo pra curar ressaca.
Sorrio. Ela é rápida. Gosto disso.
— Passei do ponto ontem à noite — digo. — Sei bem como é.
— Então somos dois — diz ela.
— Eu odeio vir aqui nesse horário, sempre muito cheio — comento, olhando ao redor. O restaurante está lotado, como sempre. — Tudo bem se eu me sentar com você?
Ela dá de ombros, aponta com o queixo pra cadeira vazia. Me sento. A cadeira range. Meu estômago também.
— Gabriel — digo, estendendo a mão.
— Aisha.
Claro que é Aisha. Nunca vai ser um nome simples. Nunca vai ser um nome que não tenha raízes.
— Você vem sempre aqui? — pergunto, já me odiando por soar como um clichê ambulante.
— Só quando quero lembrar que ainda tenho fígado. E você?
— Nem sempre — digo. — Mas sou fã de uma boa comida vegana.
— Boa? Aqui no Delícia Vegana?
— Tá, eu admito. Os preços me chamam mais atenção — digo, sorrindo. — Não sei por que mato com tofu tem que ser tão caro.
Ela ri. Não sei se é da piada ou de mim. Mas ri. E isso já é alguma coisa. A porta de entra para o coração de uma mulher sempre foi o riso.
A gente continua o almoço. Eu mastigo devagar, não pra apreciar a comida — que tem gosto de papelão temperado com culpa — mas pra ganhar tempo entre uma pergunta e outra. Não deixo a conversa morrer. Não posso. Cada silêncio é um espelho. E eu não tô pronto pra me olhar.
Pergunto sobre a vida dela como se estivesse conduzindo uma entrevista de emprego. Onde você cresceu? O que você faz? Você gosta do que faz? Tem irmãos? Já viajou pra fora? Qual seu signo? Você acredita em alma gêmea?
Ela responde tudo com aquele jeito leve, como se estivesse flutuando sobre a própria história. Fala que é designer, que trabalha com branding, que já morou na Florida, que ama astrologia mas não é fanática. Diz que é de câncer com ascendente em escorpião. Eu finjo que isso significa alguma coisa pra mim. Ela fala sobre o ex que virou amigo, sobre a mãe que faz kombucha, sobre o cachorro que ela quer adotar. Eu sorrio, aceno, solto comentários no tempo certo. “Que legal.” “Sério?” “Caramba, que massa.” Tudo no piloto automático. Mas com charme. Com aquele brilho nos olhos que eu aprendi a simular quando quero parecer interessado.
Ela parece gostar. Ou pelo menos, não percebe. Ou talvez perceba e ache fofo o esforço. Não sei. Só sei que tô ali, sentado, fingindo que tô inteiro, quando por dentro ainda tô tentando apagar a imagem do Lance me chamando de Gabe com aquela voz de veludo sujo.
Aisha fala sobre meditação. Sobre como aprendeu a respirar melhor. Sobre como o corpo guarda traumas. Eu quase rio. Mas me seguro. Porque talvez ela tenha razão. Talvez meu corpo esteja guardando mais coisa do que eu consigo admitir.
No final do almoço, continuo mostrando interesse. Mesmo que por dentro, tudo que eu queira é transar com ela o mais rápido possível só pra apagar o maldito do Lance da minha cabeça. A voz dele ainda ecoa, como uma música ruim da Winona Tyler que não sai do repeat.
Me ofereço pra pagar o almoço dela. Pela companhia agradável. Pelo cavalheirismo. Pelos pontos que eu ganharia e que talvez me levem pra cama dela.
— Não precisa — diz ela. — Não foi nada demais. Essa cadeira etava livre mesmo.
— Mesmo assim, eu insisto — digo, já me levantando.
Vou até o caixa, pago tudo, volto pra pegar meu casaco e a bandeja. Ela já está de pé, ajeitando a bolsa no ombro.
— Muito obrigada — diz ela, com um sorriso contido. — Foi muito gentil da sua parte, Gabe.
— Foi um prazer — digo.
Nos encaramos por um tempo. Silêncio. Aquele tipo de silêncio que parece pedir uma decisão. E eu decido.
— Por que a gente não marca outro almoço desses? — digo. — Eu adorei nossa conversa sobre comida processada versus comida natural.
Ela hesita. Olha pro lado. Depois pra mim.
— Eu também — diz ela. — Mas não sei se seria uma boa ideia.
— Por que não? — pergunto, tentando rir. — Eu não sou tão insuportável assim. Sou?
— Não é você. Sou eu.
— Ouch — digo. — Essa eu já ouvi antes.
— Eu tô falando sério — diz ela, sem graça.
— Já sei o que é. Você tem namorado. Eu entendi — digo, sorrindo sem graça.
— Não é isso também.
— Casada então? — pergunto. — Tem filhos? Eu não ligo pra isso. Eu gosto de crianças.
— Sem marido ou crianças — diz ela. — Olha… é complicado.
Ela começa a mexer no celular, como se quisesse encerrar ali. Mas não vai embora. Fica parada. Me olha de novo.
— Só o seu numero — digo. — Eu te ligo mais tarde e se a gente não tiver nada em comum. Eu prometo que eu te deixo em paz.
— Sei lá — diz ela. — Talvez você não me ache assim tão interessante quando me conhecer melhor.
— Deixa de ser besta — digo sorrindo. — Eu acho que vai ser justamente o contrário. Você vai ver que eu não passo de um chato.
— Tá bom — diz ela, quase suspirando. — Me dá o seu celular.
Eu entrego. Ela digita o número rápido, sem olhar pra tela.
— Você não vai se arrepender. Prometo — digo, mesmo sabendo que pode ser mentira depois que eu a foder vai ser um tchau pra sempre provavelmente.
Ela me devolve o celular, dá um aceno leve e sai. E eu fico ali, com o número dela na mão e a cabeça cheia de vozes que não são minhas. Me dizendo: será que isso é certo? Ela me aprece ser uma garota legal no fim das contas.
Volto ao trabalho e depois de um tempo eu mando mensagem. Duas, na verdade. A primeira é leve, quase casual:
“Adorei o almoço. Espero repetir em breve.”
A segunda vem logo depois, como se eu não soubesse esperar:
“Se quiser, posso te mostrar um lugar novo. Nada vegano, prometo.”
Fico olhando pra tela como um idiota. Como se ela fosse responder em tempo real. Como se cada segundo de silêncio fosse um julgamento.
Olho pro celular diversas vezes. Finjo que tô lendo um relatório, mas tô só atualizando o aplicativo de mensagens. Nada.
Aisha vira um ponto de interrogação na minha cabeça. E eu odeio isso. Odeio não saber. Odeio depender. Odeio que, mesmo depois de tudo, ainda tô tentando provar alguma coisa.
Olho pra minha foto de perfil no app. Sem camisa, suado, com a camiseta jogada no ombro. A pose de quem corre. De quem vence. De quem tem controle. Algumas mensagens ainda surgem por lá, mas eu as ignoro porque eu não estou mais interessado em qualquer um e sim na Aisha.
E o pior: Lance ainda tá lá. Na cabeça. Na pele. Na voz que eu tento esquecer.
Ele anda pelo escritório e fala com as pessoas como se tudo estivesse normal. Aquele cretino que me seduziu bêbado e depois se aproveitou de mim — com o meu consentimento, é claro — mas ainda assim eu não estava em plenas faculdades mentais pra saber direito o que estava fazendo. E isso pesa. Cada vez que ouço a voz dele no corredor, doce demais, educada demais, dá vontade de socar uma parede.
De repente, o meu celular vibra. É a Aisha, para o meu alívio. Ela manda um emoji de carinha feliz. Isso me alegra, já que eu estava começando a achar que havia mandado mensagem cedo demais e que ela só teria me achado um esquisito por isso.








