A morte de Felicia
Em um reino distante chamado Althera, existia uma jovem chamada Felicia.
Ela era conhecida por sua beleza, mas quase ninguém conhecia sua tristeza.
Felicia havia perdido os pais ainda muito jovem.
Sem família, sem riquezas e sem um lugar que pudesse chamar de lar, passou anos vivendo de casa em casa, aceitando pequenos trabalhos para conseguir sobreviver.
Nunca teve um quarto que fosse realmente seu.
Nunca teve alguém esperando por ela no fim do dia.
Sua vida era simples.
E solitária.
Naquela noite, Felicia caminhava pelas ruas de Althera carregando algumas mercadorias que precisava entregar.
Era tarde.
As ruas estavam quase vazias.
Apenas algumas tochas iluminavam o caminho, enquanto o vento frio atravessava as vielas.
Felicia apertou o tecido do vestido contra o corpo.
Queria chegar logo.
Então ouviu passos atrás dela.
Rápidos.
Aproximando-se.
Ela olhou por cima do ombro.
Um homem vinha correndo.
Na mão, carregava uma adaga.
Felicia se assustou.
Deu alguns passos para trás.
— Espere...
Mas o homem estava perseguindo outra pessoa.
Um ladrão havia acabado de fugir pelas ruas, e, no escuro, ele confundiu Felicia com o criminoso.
A lâmina atingiu seu corpo.
Felicia arregalou os olhos.
O homem percebeu tarde demais o erro.
Mas, assustado e desesperado, continuou correndo.
Nem sequer parou para olhar para trás.
Felicia caiu lentamente no chão.
As mercadorias se espalharam pela rua.
Ela tentou respirar.
Tentou pedir ajuda.
Mas sua voz desapareceu.
A última coisa que viu foi a luz de uma tocha tremendo diante de seus olhos.
Então tudo ficou escuro.
Felicia abriu os olhos.
Não estava mais na rua.
Não sentia dor.
Não sentia frio.
Não sentia nada.
Levantou-se lentamente.
Olhou ao redor.
Não havia casas.
Não havia árvores.
Não havia céu.
Apenas um lugar completamente vazio.
Felicia tentou falar.
Nenhuma palavra saiu.
Ela levou a mão à garganta.
— O que está acontecendo?
Nada.
Foi então que percebeu duas figuras alguns metros à frente.
Elas conversavam em voz baixa.
Felicia tentou se aproximar.
Tentou chamar por elas.
Mas sua voz continuava presa.
Uma das figuras finalmente se afastou.
Desapareceu na imensidão daquele lugar.
A outra começou a caminhar em sua direção.
Felicia recuou.
O homem parou diante dela.
Ele tinha uma aparência jovem, mas havia algo nele que não parecia pertencer ao mundo dos vivos.
— Onde estou? — perguntou Felicia.
Dessa vez, sua voz saiu.
O homem a observou por alguns segundos.
— Meu nome é Dylan.
Ele fez uma pequena pausa.
— E você está morta.
Felicia ficou imóvel.
— Morta?
Dylan assentiu.
— Sinto muito.
Ela olhou para as próprias mãos.
Depois para o vazio ao redor.
Estranhamente, não sentiu medo.
Apenas uma espécie de vazio.
— Como assim...?
Dylan permaneceu em silêncio.
Felicia respirou fundo.
Então deu de ombros.
— Bem...
Ela olhou para o chão.
— Parando para pensar, talvez não seja tão ruim.
Dylan franziu a testa.
— O quê?
Felicia sorriu tristemente.
— Eu vivia infeliz mesmo.
Ela abaixou os olhos.
— Não tinha meus pais.
— Não tinha uma casa.
— Não tinha ninguém.
Felicia respirou fundo.
— Talvez a morte seja melhor.
Dylan a encarou com tristeza.
Por alguns segundos, não disse nada.
Então falou:
— A figura que estava comigo antes...
Felicia olhou para ele.
— Quem era?
Dylan respondeu:
— O rei do inferno.
Felicia arregalou os olhos.
— O quê?
— Ele decidiu que você terá mais cem dias de vida.
Felicia ficou em silêncio.
Depois soltou uma pequena risada.
— Não quero.
Dylan piscou.
— O quê?
— Eu disse que não quero voltar.
— Não importa.
Felicia franziu a testa.
— Como assim?
Dylan suspirou.
— Já está feito.
Ela cruzou os braços.
— E eu não posso escolher?
— Não.
— Então por que me deram escolha?
— Não deram.
Felicia ficou olhando para ele.
Dylan estendeu a mão.
— Você tem cem dias.
— Cem dias para quê?
Ele não respondeu.
Apenas disse:
— Quando chegar a hora, você entenderá.
Antes que Felicia pudesse perguntar qualquer coisa, uma luz envolveu seu corpo.
Ela tentou segurar a mão de Dylan.
— Espere!
Mas já era tarde.
Tudo desapareceu.
Felicia abriu os olhos.
Estava novamente no mundo dos vivos.
Sentada no chão.
No mesmo lugar onde havia morrido.
A rua estava silenciosa.
As mercadorias continuavam espalhadas.
Felicia levou a mão ao peito.
Não havia ferida.
Ela estava viva.
Ou pelo menos parecia estar.
Levantou-se lentamente.
Olhou para os lados.
Então ouviu uma voz.
— Você voltou.
Felicia virou-se.
Dylan estava atrás dela.
Ela arregalou os olhos.
— Você veio comigo?
Ele balançou a cabeça.
— Não.
— Então como está aqui?
Dylan deu um pequeno sorriso.
— Porque você consegue me ver.
Felicia olhou ao redor.
As pessoas passavam pela rua.
Nenhuma parecia perceber a presença dele.
— Mais ninguém consegue?
— Não.
Felicia voltou a olhar para Dylan.
— Então...
Ela respirou fundo.
— Eu tenho cem dias.
Dylan assentiu.
— Cem dias.
Felicia não sabia ainda o que faria com eles.
Mas uma coisa estava certa.
Sua vida havia terminado.
E, de alguma maneira inexplicável...
a morte havia lhe dado mais cem dias.








