Inscrição
Elionor acordou às cinco da manhã. A casa ainda estava escura.
Ela morava com a mãe, Helena, numa casa de madeira no fim de Gray Village. Era uma casa pequena, com dois cômodos. O cheiro de sabão nunca saía, porque Helena lavava roupa para as famílias ricas da vila desde que Elionor se entendia por gente.
Elionor tinha dezessete anos. Era muito bonita, todo mundo falava isso, mas ela não gostava de ouvir. Tinha a pele muito clara, olhos azuis bem claros, e o cabelo grisalho natural. Não era branco de velha, era cinza prateado, liso e brilhante, que ia até a cintura. Desde criança as pessoas paravam pra olhar.
Mas o que mais importava nela não era a beleza. Era a aura.
Em Elysia, quando uma pessoa chegava nos oito, nove anos, começava a soltar magia pelas mãos. Uma bola de luz que saía da palma. Cada pessoa tinha uma cor. Essa cor mostrava que tipo de poder você tinha. Aura vermelha era fogo e força. Azul era água. Verde era cura. Preta era de demônio, todo mundo morria de medo.
A aura de Elionor era branca. Quando ela juntava as mãos e se concentrava, uma bolinha de luz branca, do tamanho de uma laranja, aparecia flutuando entre as palmas. Não queimava, não molhava. Era uma luz calma, quente, que significava paz. Os professores da vila falavam: "Aura branca é rara, Elionor, mas não serve pra luta. Você devia virar curandeira."
Elionor não queria ser curandeira. Ela queria ser cavaleira.
Há um mês, um cavaleiro de armadura prateada passou pela vila e colou um cartaz na praça: "DIVISÃO DE CAVALEIROS - Inscrições abertas no Castelo de Cristal. Jovens de 16 a 19 anos. Treinamento para matar demônios. Moradia e comida grátis."
Matar demônios. Isso era o que o reino mais precisava. Os demônios estavam aparecendo cada vez mais perto das vilas. E os cavaleiros eram os únicos que sabiam lutar contra eles usando a aura.
Elionor decidiu que ia se inscrever, mesmo com aura branca.
"Você tem certeza, filha?" Helena perguntou naquela manhã, enquanto colocava pão na mesa. "Lá só tem menino bruto. Eles vão rir da sua aura."
"Deixa rir", Elionor disse, prendendo o cabelo grisalho em um rabo alto. "Eu sei fazer minha aura funcionar."
Ela colocou sua roupa mais simples, uma calça marrom e uma blusa branca, botou na bolsa o pão que a mãe deu, uma garrafa de água e o papel de inscrição que ela mesma escreveu.
A caminhada até o Castelo de Cristal era de três horas. Ela foi a pé, porque não tinham dinheiro para carroça. No caminho, encontrou vários outros jovens indo para o mesmo lugar. Meninos com espadas grandes nas costas, meninas com aura vermelha já soltando faíscas das mãos para se mostrar.
Quando Elionor chegou, o castelo era enorme. Muro alto de pedra branca, portão aberto, e um pátio gigantesco cheio de gente. Tinha uma fila enorme na frente de uma mesa onde três oficiais anotavam nomes. Devia ter umas duzentas pessoas.
Ela entrou na fila. O sol já estava forte. Suava, mas era de nervoso.
Depois de quase uma hora, chegou sua vez.
O oficial era um homem de quarenta anos, com barba por fazer e braços fortes. Ele nem olhou pra ela no começo.
"Nome."
"Elionor, de Gray Village."
"Idade."
"Dezessete."
"Mostra a aura."
Era a parte que ela mais odiava e mais gostava. Ela juntou as duas mãos na frente do peito, respirou fundo e se concentrou. Sentiu o calor subindo do peito para as mãos. E então, entre as palmas, uma bola de luz branca apareceu, flutuando. Pequena, silenciosa, iluminando o rosto dela. Era linda.
O oficial finalmente olhou.
"Aura branca", ele falou. "Paz."
"Sim", Elionor disse, ainda segurando a bola de luz.
"Menina", ele falou, com uma voz cansada, "eu já dispensei cinco auras brancas hoje. Aura de paz não mata demônio. Demônio não quer paz, quer sangue. Volta pra casa, tenta ser curandeira."
Algumas pessoas da fila riram baixo. Elionor sentiu o rosto esquentar, e a bola de luz branca nas mãos dela ficou maior, porque quando ela sentia emoção forte a aura crescia.
"Eu vim andando três horas", ela disse. "Eu não tenho espada, mas eu treinei. Minha aura não é só pra acalmar. Deixa eu tentar o teste."
O oficial suspirou e apontou para o canto do pátio. Lá tinha uns bonecos de palha com armaduras de ferro velho. Era o teste padrão: você tinha que usar sua aura para cortar ou quebrar o boneco.
"Vai lá. Se você conseguir cortar com essa bolinha de luz, eu te aprovo. Se não, vai embora."
Elionor foi até o boneco. As mãos dela tremiam um pouco. Ela olhou para o boneco de palha, com aquele peitoral de ferro enferrujado.
Ela não sabia usar espada. Mas ela sabia usar a aura. Durante um ano, no quintal de casa, ela ficava horas jogando a bola de luz branca contra as árvores, tentando fazer ela ficar mais dura, mais afiada.
Ela se afastou dois passos do boneco. Juntou as mãos de novo. Concentrou toda a força. A bola de luz branca entre as mãos começou a girar rápido, ficou menor, mais densa, como se estivesse virando uma lâmina de luz.
O menino atrás dela na fila cochichou: "Ela vai jogar luzinha no boneco."
Elionor ignorou. Ela jogou as mãos para frente, como se estivesse empurrando a bola.
A bola de luz branca voou. Não voou devagar, como luz normal. Voou rápido, como uma pedra. E quando bateu no peitoral de ferro do boneco, não apagou. Ela cortou. Fez um barulho limpo, "vup", e atravessou o ferro como se o ferro fosse papel. O boneco se partiu em dois e a palha caiu no chão, ainda brilhando um pouco de branco.
O pátio ficou em silêncio.
O oficial levantou da mesa e veio andando rápido até o boneco cortado. Ele tocou o ferro cortado. Estava quente, e a borda do corte brilhava branco.
"Você fez aura branca virar lâmina", ele disse, surpreso de verdade. "Aura de paz cortando ferro. Nunca vi isso."
Elionor ainda estava com as mãos esticadas, ofegante. A bola de luz tinha sumido, mas suas mãos formigavam.
"Eu falei que treinava", ela disse.
O oficial olhou pra ela, pro cabelo grisalho dela preso, pros olhos azuis.
"Qual seu nome mesmo?"
"Elionor."
Ele voltou pra mesa, pegou um carimbo grande e carimbou o papel dela com força.
"Elionor de Gray Village, dezessete anos, aura branca, aprovada para a Divisão de Cavaleiros, turma doze. Se apresenta amanhã às seis da manhã no alojamento feminino. Vai aprender a matar demônio com essa sua paz aí."
Ele entregou o papel. Elionor segurou com as duas mãos.
Ela tinha passado. Com aura branca. Com uma bola de luz que todo mundo achava inútil.
Ela saiu do pátio com o papel apertado contra o peito. O Castelo de Cristal brilhava no sol atrás dela. Amanhã ela ia morar lá. Amanhã ela ia começar a treinar de verdade.
Ela não sabia nada sobre demônios ainda. Mas sabia que, pela primeira vez, sua aura branca tinha servido pra alguma coisa além de iluminar o quarto escuro.








