O acordo
á muitos séculos, quando os reinos ainda eram divididos por grandes muralhas, extensas terras e estradas percorridas por cavaleiros, existia um reino conhecido como Valedouro.
Era uma terra próspera.
Os campos eram vastos, os mercados movimentados e o castelo real dominava a paisagem do alto de uma colina.
Mas naquele ano, o reino perdeu seu rei.
Sua morte veio por causas naturais, deixando para trás uma rainha viúva e um único filho.
Rogan.
Aos vinte e poucos anos, o príncipe havia se tornado o novo rei de Valedouro.
Era jovem, educado e, segundo as mulheres da cidade, extremamente bonito.
Mas havia um problema.
Rogan ainda não tinha esposa.
E sua mãe não pretendia esperar.
— Você precisa se casar — declarou a rainha durante o jantar.
Rogan suspirou.
— Mãe...
— Não quero desculpas.
— Acabei de perder meu pai.
— E eu perdi meu marido. Ainda assim, o reino continua existindo.
Rogan ficou em silêncio.
A rainha colocou a taça sobre a mesa.
— Você precisa de uma esposa. E, futuramente, de um herdeiro.
— E se eu não estiver apaixonado?
— O amor pode vir depois.
Rogan não respondeu.
Poucos dias depois, um anúncio foi espalhado por toda a cidade.
O novo rei procurava uma esposa.
E ofereceria uma grande quantia em dinheiro à jovem que aceitasse se casar com ele durante determinado período.
A notícia causou alvoroço.
Mas, para surpresa de todos, nenhuma jovem apareceu.
Não porque Rogan não fosse desejado.
Pelo contrário.
Ele era bonito, jovem e agora carregava uma coroa.
O problema era outro.
Muitas das jovens já estavam casadas.
Naquela época, casamentos aconteciam muito cedo, e muitas meninas eram prometidas assim que atingiam a idade considerada adequada pela família.
Por isso, poucas tinham liberdade para escolher o próprio destino.
E as que ainda estavam solteiras não queriam aceitar um casamento com prazo determinado.
Do outro lado da cidade, porém, uma jovem chamada Odette ouviu falar do anúncio.
Ela tinha vinte anos.
Morava em uma pequena casa com sua mãe, Joana.
As duas não possuíam riquezas.
Nem terras.
Nem criados.
E, naquele momento, Joana estava doente.
Odette havia tentado conseguir ajuda.
Vendeu algumas coisas.
Pediu dinheiro emprestado.
Trabalhou até ficar exausta.
Mas nada era suficiente para pagar o tratamento da mãe.
Naquela tarde, enquanto preparava uma pequena refeição, Odette ouviu uma vizinha comentando sobre o anúncio do rei.
— Dizem que ele vai pagar uma fortuna para a jovem que aceitar.
Odette parou.
— Quanto?
A vizinha falou o valor.
Odette ficou em silêncio.
Era dinheiro suficiente para tratar sua mãe.
Talvez até para mudar completamente a vida das duas.
Mas havia um detalhe.
Ela teria que se casar com Rogan.
Odette olhou para Joana, deitada na cama.
A respiração da mãe estava fraca.
— Filha...
Odette aproximou-se.
— Estou aqui.
Joana segurou sua mão.
— Não precisa fazer nada que não queira por minha causa.
Odette tentou sorrir.
— Eu sei.
Mas, naquela noite, ela quase não dormiu.
Pensou no anúncio.
Pensou na quantia.
Pensou em Rogan.
E, principalmente, pensou em sua mãe.
Na manhã seguinte, Odette tomou uma decisão.
Vestiu seu melhor vestido.
Prendeu os cabelos.
E caminhou até o local onde as candidatas deveriam se apresentar.
Quando chegou, percebeu que quase ninguém estava ali.
O anúncio havia sido feito.
Mas nenhuma jovem havia aceitado.
Odette respirou fundo.
Olhou para as portas do castelo.
Então deu um passo à frente.
— Eu aceito.
Os guardas se entreolharam.
— Tem certeza?
Odette engoliu em seco.
— Tenho.
Ela não sabia como seria viver ao lado de um rei.
Não sabia se conseguiria amá-lo.
Nem sabia o que encontraria dentro daquele castelo.
Mas sabia de uma coisa.
Sua mãe precisava dela.
E, por Joana, Odette estava disposta a entrar em um mundo onde nunca havia pertencido.
Mesmo que, para isso, precisasse se casar com um homem que ainda era um completo estranho.








