O cabelo
Muito antes de grandes impérios dominarem aquelas terras, quando os reinos ainda eram separados por muralhas de pedra, desertos e rios, existia um reino conhecido como Aruan.
Era um reino rico.
Seus campos eram cercados por plantações de trigo e cevada. Os pastores levavam seus rebanhos para as regiões mais afastadas, enquanto comerciantes chegavam diariamente trazendo tecidos, especiarias, pedras preciosas e metais de terras distantes.
No centro de tudo estava o palácio real.
Erguido sobre uma colina, suas grandes paredes de pedra podiam ser vistas de praticamente qualquer lugar da cidade.
Ali vivia a rainha Asya.
Ela era esposa do rei Allen havia muitos anos.
O casamento havia começado por uma aliança entre duas famílias poderosas, mas, com o passar do tempo, Asya acreditou que havia se transformado em amor.
Pelo menos era o que ela pensava.
Todas as manhãs, Asya caminhava pelos jardins do palácio.
Gostava de observar os servos trabalhando.
Alguns cuidavam das fontes.
Outros alimentavam os cavalos.
As cozinheiras preparavam o pão que seria servido durante o dia, enquanto os guardas trocavam seus turnos diante dos grandes portões.
O reino estava em paz.
Pelo menos aparentemente.
Naquela manhã, Asya estava sentada próxima à fonte quando uma criada se aproximou.
— Majestade.
Asya levantou os olhos.
— Sim?
— O rei pediu que o almoço fosse servido mais tarde.
— Ele vai sair?
— Sim. Disse que precisava encontrar alguns conselheiros.
Asya franziu levemente a testa.
— Novamente?
A criada abaixou os olhos.
— Sim, majestade.
Asya dispensou a mulher.
Ficou sozinha.
Havia algo estranho.
Nas últimas semanas, Allen havia começado a passar cada vez menos tempo no palácio.
Saía cedo.
Voltava tarde.
E, quando Asya perguntava onde havia estado, sempre recebia a mesma resposta.
Negócios do reino.
Ela queria acreditar.
Mas alguma coisa dentro dela dizia que havia mais.
Naquela tarde, Asya foi até os aposentos do rei.
Allen ainda não havia retornado.
Ela entrou apenas para procurar um pergaminho que precisava entregar a um conselheiro.
A cama estava desarrumada.
As roupas de Allen estavam espalhadas sobre uma cadeira.
Asya caminhou até ela.
Pegou uma das túnicas.
Foi então que percebeu algo.
Um fio de cabelo.
Comprido.
Preso ao tecido.
Asya ficou imóvel.
Segurou o cabelo entre os dedos.
Era diferente do seu.
O seu era escuro e ondulado.
Aquele era mais claro.
Liso.
Asya sentiu o coração apertar.
— Não...
Tentou convencer a si mesma.
Talvez fosse de alguma criada.
Talvez tivesse vindo da carruagem.
Talvez fosse antigo.
Ela colocou o cabelo sobre a mesa.
Mas então percebeu uma coisa.
A roupa de Allen havia sido usada naquela manhã.
E aquele cabelo estava preso próximo à gola.
Asya respirou fundo.
Não queria pensar.
Não queria imaginar.
Mas a dúvida havia começado.
Naquela noite, o palácio estava cheio.
Servos carregavam bandejas pelos corredores.
Guardas permaneciam diante das portas.
Músicos tocavam no salão principal enquanto nobres conversavam sobre as colheitas, as fronteiras e as próximas caravanas comerciais.
Asya estava sentada ao lado do rei.
Allen sorria para os convidados.
Como se nada tivesse acontecido.
Como se não existisse segredo algum.
Asya observava cada movimento dele.
— Você está quieta — comentou Allen.
Ela virou o rosto.
— Estou cansada.
— Então deveria descansar.
Asya sorriu discretamente.
— Talvez.
Allen voltou a conversar com um dos conselheiros.
Foi quando Asya percebeu outra coisa.
Ele cheirava diferente.
Um perfume floral.
Ela conhecia aquele aroma.
Tinha sentido o mesmo perfume alguns dias antes, quando uma comitiva do reino rival havia visitado Aruan.
Asya sentiu um arrepio.
O reino rival.
E entre os visitantes estava uma mulher.
A princesa Salomé.
Asya olhou para o marido.
Allen continuava sorrindo.
Mas, pela primeira vez, ela não conseguiu enxergar o homem que amava.
Enxergou apenas um estranho.
Mais tarde, quando todos já haviam ido embora, Asya entrou novamente nos aposentos.
Abriu a mão.
O cabelo ainda estava ali.
Ela o observou por alguns segundos.
Uma lágrima escorreu pelo seu rosto.
— Quem é você?
A pergunta saiu quase em um sussurro.
Não sabia se estava falando com o cabelo.
Com o marido.
Ou com a própria dúvida.
Do lado de fora, ouviu passos.
Asya rapidamente fechou a mão.
Allen entrou.
— Ainda está acordada?
Ela virou-se.
— Estava esperando você.
Ele sorriu.
— Por quê?
Asya aproximou-se.
— Onde esteve hoje?
Allen ficou imóvel por um instante.
Depois respondeu:
— Com meus conselheiros.
Asya sustentou o olhar dele.
— O dia inteiro?
— Sim.
Ela assentiu lentamente.
— Entendo.
Allen se aproximou e beijou sua testa.
— Você está estranha.
Asya sorriu.
— Talvez esteja apenas cansada.
Ele não percebeu.
Mas, quando Allen se afastou, Asya fechou a mão com força.
O cabelo estava escondido entre seus dedos.
Naquela noite, pela primeira vez, a rainha Asya dormiu ao lado do rei...
sem acreditar em uma única palavra que ele havia dito.








