As filhas comerciante
O sol nasceu sobre o grande reino da Mesopotâmia, tingindo de dourado as muralhas de pedra que protegiam a cidade.
Do alto dos templos, a fumaça do incenso subia lentamente para o céu. Nos mercados, comerciantes já gritavam seus preços. Tecidos coloridos pendiam das tendas, cestos de tâmaras eram empilhados ao lado de sacos de cevada, e caravanas chegavam trazendo especiarias, metais preciosos e objetos de terras distantes.
No centro de tudo aquilo estava o palácio.
Imenso.
Suas paredes eram decoradas com figuras de leões, palmeiras e símbolos antigos. As grandes portas de madeira permaneciam abertas para os membros da família real, mas nenhum comerciante comum ousava atravessá-las sem autorização.
Naquela manhã, porém, uma nova família estava prestes a entrar na cidade.
Uma família que ninguém conhecia.
Uma família que mudaria o destino do reino.
— Pai, falta muito?
A jovem sentada na carroça afastou uma mecha de cabelo do rosto.
O caminho havia sido longo.
Dias viajando sob o sol, dormindo em acampamentos improvisados e seguindo a caravana de mercadores.
Seu pai olhou para trás.
— Mais algumas horas, Betânia.
— Algumas horas?
Ela fez uma careta.
— Você disse isso ontem.
A mãe riu baixinho.
— Sua irmã não está acostumada a viagens tão longas.
Betânia cruzou os braços.
— Adira não está reclamando.
Do outro lado da carroça, a irmã mais velha permanecia em silêncio.
Adira observava a paisagem.
A cidade começava a surgir no horizonte.
Seus olhos azuis acompanhavam as enormes muralhas que pareciam tocar o céu.
Ela nunca havia visto um lugar tão grandioso.
— É lindo... — murmurou.
O pai sorriu.
— É aqui que começaremos novamente.
Adira virou o rosto.
— Começaremos?
O homem ficou em silêncio por alguns segundos.
— Sim.
Ela percebeu que havia algo diferente na maneira como ele pronunciara aquela palavra.
Como se aquele lugar significasse mais do que uma simples oportunidade para vender mercadorias.
Como se ele estivesse retornando a algum lugar que conhecia.
Mas Adira não perguntou.
Ainda.
A carroça avançou pela entrada principal.
Assim que passaram pelos portões, Betânia se levantou.
Seus olhos se arregalaram.
— Olhem!
O mercado era enorme.
Havia músicos tocando instrumentos de corda, crianças correndo entre as barracas, mulheres negociando tecidos e homens carregando enormes vasos de cerâmica.
Betânia sorriu.
— Quero conhecer tudo.
Adira segurou o braço da irmã.
— Primeiro precisamos ajudar nossos pais.
— Depois?
— Depois podemos conhecer a cidade.
Betânia abriu um sorriso.
— Promete?
— Prometo.
Nenhuma das duas percebeu que, naquele mesmo instante, alguém observava a família de longe.
No palácio, o rei estava sentado em seu trono.
Os anos haviam deixado marcas profundas em seu rosto.
Era um homem velho, mas ainda carregava a postura de alguém que havia passado a vida inteira governando.
Ao seu lado estavam seus três filhos.
Noah.
Nitocris.
E José.
O rei passou os olhos pelos três.
— O reino continua crescendo — disse ele. — Mas nossos mercados precisam de novos comerciantes.
José permaneceu atento.
Nitocris cruzou os braços.
Noah, entretanto, parecia distante.
— Noah.
O príncipe ergueu os olhos.
— Sim, meu pai?
— Você irá ao mercado hoje.
— Novamente?
O rei sorriu.
— Você gosta de andar pela cidade.
— Gosto.
— Então faça algo útil enquanto estiver lá.
Noah inclinou a cabeça.
— O que deseja que eu faça?
— Observe os novos comerciantes. Descubra de onde vieram e o que estão trazendo.
— Sim, meu rei.
Noah se levantou.
Antes que pudesse sair, Nitocris falou:
— E tente não desaparecer por horas como sempre faz.
Noah olhou para a irmã.
— Eu sempre volto.
José soltou uma pequena risada.
— Esse é justamente o problema. Nunca sabemos quando.
Noah sorriu.
— Até mais tarde.
Ele deixou o salão.
Horas depois, Noah caminhava pelo mercado vestido de maneira simples.
Sem a coroa.
Sem o manto real.
Apenas roupas discretas o suficiente para que os comerciantes não o cercassem.
Era uma das coisas que mais gostava.
Na cidade, podia caminhar sem ser tratado como príncipe.
Podia ouvir as pessoas.
Podia conhecer histórias.
Podia respirar longe das paredes do palácio.
Foi quando ouviu uma voz.
— Quanto custa esse tecido?
Noah virou o rosto.
Uma jovem estava diante de uma barraca.
Betânia.
Ela segurava um pedaço de tecido vermelho e discutia o preço com o comerciante.
— É muito caro!
— Minha senhora, esse tecido veio de muito longe.
— E eu não tenho ouro suficiente para pagar isso.
Noah sorriu involuntariamente.
Betânia percebeu.
Virou-se.
Os olhos dos dois se encontraram.
Ela ficou imóvel.
Por alguns segundos, esqueceu completamente o tecido em suas mãos.
Noah foi o primeiro a desviar o olhar.
— Parece que você está perdendo essa negociação.
Betânia piscou.
— Eu?
— Sim.
Ela olhou novamente para o comerciante.
— Eu estava quase ganhando.
Noah riu.
— Quase?
— Só precisava de mais alguns minutos.
— Então continue. Não quero atrapalhar.
Betânia sorriu.
— Já atrapalhou.
Noah arqueou uma sobrancelha.
— Como?
Ela ficou vermelha.
— Nada.
Ele percebeu.
Mas não insistiu.
— Você é nova na cidade?
— Sou.
— De onde veio?
— De longe.
— Isso eu imaginei.
Betânia riu.
— Somos comerciantes. Meu pai trouxe nossa família para cá.
Noah assentiu.
— Espero que gostem do reino.
— Eu já gostei.
— Tão rápido?
Ela olhou diretamente para ele.
— Talvez eu tenha encontrado um motivo.
Noah ficou em silêncio.
Havia algo naquela garota.
Uma sinceridade quase infantil.
Ela não parecia saber esconder o que sentia.
— Quantos anos você tem? — perguntou ele.
— Dezoito.
Noah sorriu de maneira gentil.
— Você é muito jovem.
O sorriso dela desapareceu um pouco.
— E isso é ruim?
— Não.
Ele balançou a cabeça.
— Só significa que você ainda tem muito para conhecer antes de decidir o que quer da vida.
Betânia ficou olhando para ele.
— E você?
— Eu?
— Já decidiu o que quer?
Noah não respondeu imediatamente.
Por um instante, seu olhar perdeu a alegria.
— Talvez eu ainda esteja tentando descobrir.
Betânia sorriu novamente.
— Então temos algo em comum.
Noah riu.
— Talvez.
Ele fez uma pequena reverência.
— Preciso ir.
— Vai voltar?
Noah parou.
Olhou para ela.
— Talvez.
E partiu.
Betânia ficou parada no meio do mercado, observando-o desaparecer entre as pessoas.
Seu coração batia tão rápido que ela levou a mão ao peito.
— Quem era ele? — perguntou baixinho.
Ela ainda não sabia.
Não sabia que acabara de conversar com o príncipe Noah.
Não sabia que aquele encontro seria lembrado por muito tempo.
E, principalmente, não sabia que o homem por quem acabara de se apaixonar conheceria sua irmã poucos dias depois.
E que, quando isso acontecesse...
o destino das duas irmãs jamais seria o mesmo.








