Kilombo Valverde
O sol ainda estava nascendo quando o Kilombo Valverde começou a despertar.
Entre as casas de madeira e barro, pequenas colunas de fumaça subiam lentamente para o céu.
As primeiras pessoas já estavam de pé.
Algumas mulheres caminhavam carregando cestos.
Outras preparavam o café da manhã.
Perto das plantações, homens começavam a trabalhar a terra.
Crianças corriam descalças pelas ruas de terra, rindo enquanto perseguiam umas às outras.
— Volta aqui!
— Você não me pega!
As risadas se espalhavam pelo quilombo.
Valverde era um lugar simples.
Não havia grandes construções.
Não havia riquezas.
Mas havia vida.
Havia liberdade.
Todos ali eram negros alforriados.
Tinham construído suas próprias casas, cultivavam seus alimentos e cuidavam uns dos outros.
Era comum encontrar alguém carregando frutas para oferecer ao vizinho.
Ou uma mulher chegando com um cesto de mandioca.
Ou crianças entrando na casa de outra família como se aquele também fosse seu lar.
Naquele lugar, ninguém precisava perguntar se podia ajudar.
Simplesmente ajudava.
Perto de uma das casas, Lucrécia estava sentada diante de uma pequena mesa, separando algumas ervas.
Ela conhecia praticamente todas as plantas que cresciam ao redor de Valverde.
Sabia quais podiam ser usadas para preparar remédios.
Quais ajudavam nas dores.
Quais eram melhores para os chás.
E também sabia reconhecer quando uma mulher estava prestes a dar à luz.
Foi com ela que Brice aprendeu.
A jovem havia acompanhado Lucrécia durante anos.
Observava.
Perguntava.
Aprendia.
Até se tornar uma das melhores parteiras do quilombo.
Na verdade, para Lucrécia, não havia ninguém melhor.
Ela ergueu os olhos quando viu Brice atravessar a rua.
Brice era uma jovem de pele totalmente branca, cabelos longos e ondulados e olhos castanhos claros.
— Já acordou?
Brice sorriu.
— Faz tempo.
Lucrécia riu.
— Então venha me ajudar.
Brice se aproximou.
— Com as ervas?
— Com tudo.
Brice sentou-se ao lado dela.
Enquanto as duas trabalhavam, o movimento do quilombo aumentava.
Uma mulher passou carregando um bebê.
— Bom dia, Lucrécia!
— Bom dia!
Logo depois, outra apareceu com um cesto cheio de frutas.
— Trouxe bananas para vocês.
Lucrécia sorriu.
— Deixe ali.
— Brice!
A jovem levantou os olhos.
Uma senhora do outro lado da rua acenava para ela.
— Quando puder, venha me ajudar com aquelas ervas!
Brice riu.
— Vou sim!
Lucrécia observou a cena com um sorriso orgulhoso.
— Você não consegue andar cinco passos sem alguém pedir sua ajuda.
Brice deu de ombros.
— Não é culpa minha.
— Eu sei.
Lucrécia voltou às ervas.
— Você tem um coração mole demais.
Brice sorriu.
— Aprendi com você.
Lucrécia parou por um instante.
Olhou para a filha adotiva.
Havia muito orgulho naquele olhar.
Brice havia crescido ali.
Entre aquelas casas.
Aquelas pessoas.
Aquelas plantações.
E, apesar de tudo que havia marcado seu passado, tornara-se uma jovem doce, cuidadosa e querida por todos.
Lucrécia estendeu a mão e ajeitou uma mecha dos longos cabelos ondulados de Brice.
— Tenho orgulho de você.
Brice sorriu.
— Eu sei.
— Convencida.
— Aprendi com você também.
Lucrécia soltou uma gargalhada.
Mais tarde, o quilombo estava completamente acordado.
O cheiro de comida se espalhava pelas ruas.
Os homens voltavam das plantações carregando sacos de alimentos.
As mulheres preparavam as refeições.
As crianças brincavam perto das casas.
Alguns idosos conversavam sentados à sombra das árvores.
Brice caminhava pelo meio daquele movimento.
Sua presença chamava atenção, mas, em Valverde, ninguém a olhava apenas pela beleza.
Ali, Brice era conhecida por quem era.
A parteira que cuidava das mulheres.
A filha de Lucrécia.
Uma das pessoas mais queridas daquele lugar.
Brice parou diante de uma criança que havia caído.
— Ei, você está bem?
O menino esfregou o joelho.
— Doeu.
Ela se abaixou.
— Já vai passar.
Pegou um pequeno pedaço de tecido e limpou o machucado.
— Pronto.
O menino olhou para ela.
— Melhorou.
Brice sorriu.
— Viu?
Ele saiu correndo novamente.
Lucrécia observava de longe.
E sorriu.
Era exatamente isso que mais admirava em Brice.
A vida não havia conseguido endurecer seu coração.
Ela continuava doce.
Continuava ajudando.
Continuava sendo Brice.
E, naquele dia aparentemente comum, o Kilombo Valverde seguia vivendo como sempre.
Casas cheias de vida.
Plantações sendo cuidadas.
Crianças correndo pelas ruas.
Famílias dividindo o que tinham.
E pessoas que haviam conquistado o direito de viver livres.
Valverde era simples.
Mas era seu lar.








