A filha da tribo Aruanã
Muito antes de existirem grandes cidades cortando a floresta, quando os rios eram as grandes estradas e a mata parecia não ter fim, existia a tribo Aruanã.
A aldeia ficava cercada por árvores enormes, flores selvagens e um rio de águas tranquilas que brilhava quando o sol nascia.
Os Aruanã conheciam cada caminho da floresta.
Sabiam quais frutos podiam ser colhidos, quais folhas ajudavam a curar feridas e quais regiões deveriam ser evitadas.
E, entre todas as crianças da tribo, havia uma que parecia ter nascido com a floresta dentro dos olhos.
Ada.
Desde pequena, ela era diferente.
Curiosa demais.
Corajosa demais.
E inteligente o suficiente para fazer perguntas que deixavam até os mais velhos sem resposta.
— Ada! — uma voz masculina chamou certa manhã.
Ela virou-se.
Era Colin.
Seu melhor amigo.
Os dois praticamente haviam crescido juntos.
Se Ada corria para a floresta, Colin corria atrás.
Se Colin subia uma árvore, Ada tentava alcançar o galho mais alto.
Se um recebia uma bronca, quase sempre o outro estava envolvido.
— Você não consegue ficar cinco minutos sem se meter em perigo? — Colin perguntou.
Ada sorriu.
— Consigo.
— Quando?
— Quando você não está por perto para me acompanhar.
Colin cruzou os braços.
— Então a culpa é minha?
— Sempre.
Ele riu.
E assim eram os dois.
Inseparáveis.
Os anos passaram.
A menina curiosa se transformou em uma jovem.
Ada tornou-se conhecida dentro da tribo Aruanã por sua beleza e por sua inteligência.
Seus cabelos escuros caíam longos pelas costas, e seus olhos pareciam observar tudo ao redor.
Mas havia uma pessoa que ainda conseguia fazê-la esquecer de todas as preocupações.
Colin.
Eles haviam crescido juntos.
E, sem perceber, a amizade se transformara em amor.
Nenhum dos dois precisava dizer.
Estava nos olhares.
Nas mãos que se procuravam.
Nos sorrisos escondidos quando ninguém estava olhando.
Certa tarde, os dois estavam sentados perto do rio.
Colin olhava para a água.
— Ada...
— Hum?
— Você já imaginou como seria nossa vida daqui a alguns anos?
Ela virou o rosto.
— Nossa vida?
Ele ficou sem jeito.
— Sim.
Ada sorriu.
— E como você imagina?
Colin olhou para ela.
— Com você.
O coração de Ada acelerou.
Ela baixou os olhos.
— Eu também.
Colin segurou sua mão.
Por alguns segundos, nenhum dos dois falou.
O rio continuou correndo.
Os pássaros cantaram entre as árvores.
E naquele momento, eles acreditaram que nada seria capaz de separá-los.
Estavam enganados.
Entre os Aruanã e a tribo Kairu, existiam antigas disputas.
Terras.
Água.
Caça.
Ressentimentos que haviam passado de geração em geração.
Mas naquele período, os conflitos estavam se tornando perigosos.
Para impedir uma nova guerra, os líderes das duas tribos decidiram fazer um acordo.
Um casamento seria a garantia da paz.
E a escolhida seria Ada.
Ela seria entregue a Chaim, filho do líder dos Kairu.
Quando seu pai contou a decisão, Ada ficou completamente imóvel.
— Não.
— Ada...
— Eu disse não.
— Esse casamento pode impedir uma guerra.
Ela respirou fundo.
— Então encontre outra maneira.
Seu pai permaneceu sério.
— É responsabilidade de uma filha ajudar sua tribo.
Ada sentiu os olhos se encherem de lágrimas.
— Eu sou sua filha. Não uma moeda de troca.
O silêncio tomou conta da cabana.
— Você vai se casar com Chaim.
Ada balançou a cabeça.
— Não vou.
E saiu.
Ela encontrou Colin perto do rio.
Assim que ele viu seu rosto, percebeu que alguma coisa havia acontecido.
— Ada?
Ela tentou falar.
Não conseguiu.
Colin se aproximou.
— O que fizeram com você?
Ada finalmente respondeu:
— Meu pai decidiu que vou me casar com Chaim.
Colin ficou pálido.
— O filho do líder Kairu?
Ela assentiu.
— Ele quer esse casamento para acabar com as disputas.
Colin apertou os punhos.
— Você não pode aceitar.
— Eu não vou.
Ele segurou a mão dela.
— Então vamos embora.
Ada olhou para ele.
— Para onde?
— Qualquer lugar.
Ela quase sorriu.
— Você fugiria comigo?
— Para qualquer lugar da floresta.
Mas, antes que pudessem continuar, ouviram vozes.
Homens procuravam por Ada.
Ela soltou a mão de Colin.
— Vá.
— Não.
— Colin, vá!
— Eu não vou deixar você sozinha.
Ada segurou o rosto dele.
— Se encontrarem você comigo, vão machucá-lo.
Ele hesitou.
— Confie em mim.
Colin não queria partir.
Mas finalmente recuou.
— Eu vou encontrar você.
Ada sorriu entre lágrimas.
— Eu sei.
E correu.
Ada entrou na floresta.
Cada vez mais fundo.
As árvores escondiam o céu.
Os galhos arranhavam seus braços.
Mas ela continuou.
Não sabia para onde estava indo.
Só sabia para onde não voltaria.
Para a aldeia Aruanã.
Para o casamento.
Para uma vida que não havia escolhido.
A noite caiu.
Ada continuou caminhando.
Até que seus passos desapareceram entre as árvores.
E ninguém mais a viu.
Colin voltou ao lugar onde haviam se separado.
Esperou.
Uma noite.
Depois outra.
Procurou pela floresta.
Chamou seu nome.
— ADA!
Nenhuma resposta.
Ele procurou perto do rio.
Nas trilhas.
Entre as árvores.
Nada.
Com o passar dos dias, começaram os rumores.
Alguns diziam que Ada havia fugido.
Outros acreditavam que os Kairu a haviam encontrado.
Mas então alguém disse aquilo que destruiu Colin:
— Talvez um animal tenha atacado a garota.
Ele não respondeu.
Apenas olhou para a floresta.
Queria acreditar que Ada estava viva.
Mas os meses passaram.
E a esperança começou a desaparecer.
Colin passou a visitar sozinho o rio onde os dois costumavam ficar.
Sentava-se na mesma pedra.
Olhava para a água.
E, às vezes, dizia baixinho:
— Você prometeu que voltaria.
A floresta permanecia em silêncio.
Colin acreditou que havia perdido Ada para sempre.
Mas Ada estava viva.
E dez anos depois...
ela voltaria.
Só que Colin já não seria o mesmo homem.
E sua vida estaria muito diferente daquela que Ada havia imaginado naquela tarde junto ao rio.








