O Frio do Lua
Em uma noite fria de inverno, numa floresta coberta por neve, um camponês vagava sem rumo em busca de madeira para se aquecer. Ele tinha uma pederneira e um machado. Ele mancava; a perna dele estava congelada. Ele se arrastava pela floresta em busca de uma árvore propícia a pegar fogo para aquecê-lo. Era o último dia de inverno. Sua perna, sendo arrastada, fez uma trilha, uma marca na neve.
Ele, vagando, achou uma árvore cujos galhos estavam ressecados e levantou o machado para cortá-la e queimá-la, mas algo o interrompeu: uma fala vinda de um lugar desconhecido. Ele caiu para trás com o machado quando escutou um sussurro falando:
— Ei, não corte esta árvore.
Ele não entendeu o porquê e nem de onde veio aquela voz. Ele se levantou, ainda mancando, tirou a neve da roupa e levantou o machado novamente, achando que era algo da cabeça dele. Mas, quando ele foi cortar, viu um gato preto em cima da árvore.
O gato olhava para a lua. O céu estava lindo, com as estrelas, mas a lua era o destaque. Os flocos de neve caíam sobre o gato e sobre o camponês. O camponês, por um momento, achou poético, mas, em meio ao frio e ao instinto, ele levantou o machado para cortar a árvore e escutou outro sussurro:
— Então é calor que tu queres? Pegue de minha pelagem e esquenta-te.
O camponês olhou para o gato, e o gato estava olhando para ele. Seus olhos verdes falavam o que mil palavras não conseguem dizer. O camponês falou:
— Não entendo a insistência em poupar tal árvore, mas pouparei se for da tua vontade. Por que defendeste essa espécie?
O gato não respondeu. Ele se virou e olhou para a lua. O camponês jogou o machado de lado e começou a escalar a árvore. Ele caiu nas primeiras vezes por conta da perna congelada, mas conseguiu.
Ele sentou-se ao lado do gato, e lá ficaram, conversando sobre o frio do luar. A neve branca destacava o machado, sendo coberto por tal. O machado parecia um brinquedo no chão, enquanto o gato e o camponês conversavam, um buscando o calor das palavras do outro.
Eles assistiam ao amanhecer. Não vivos, mas juntos.
Os dois acabaram congelados no amanhecer de primavera. As flores já apareciam, os pássaros já pousavam neles e bicavam eles, mas era tarde. Os pássaros cantavam, os animais acordavam, mas o camponês e o gato estavam lá.
Conversaram como estranhos e morreram como amigos, em troca da melhor conversa: a eternidade nela.








