Chapter 1 O Lugar ao Lado
CAPÍTULO 1 — O LUGAR AO LADO
Ryuusei conferiu o nó da faixa pela terceira vez. Estava firme desde a primeira.
À sua frente, os portões da Casa de Formação permaneciam abertos. Alunos atravessavam a entrada com bolsas novas, sandálias rangendo e adultos que insistiam em arrumar alguma coisa neles. Uma gola. Uma mecha de cabelo. A posição de uma alça.
Ele esperou junto ao muro, onde a sombra ainda alcançava seus pés.
No bolso interno do casaco, a autorização dobrada raspava contra seu peito. A assinatura de Masato atravessava quase toda a parte inferior da folha. O espaço reservado às condições de ingresso também estava preenchido.
Ryuusei não abriu o papel de novo.
— Você prometeu que ia voltar antes de escurecer!
A menina segurava a manga de um garoto loiro com as duas mãos. Os cabelos amarelos dos dois brilhavam no sol da manhã; quando ele se abaixou para responder, Ryuusei percebeu que também tinham os mesmos olhos vermelhos.
— E vou, Suzu. Mas preciso entrar primeiro.
— Você falou isso quando foi buscar farinha.
— A ponte estava fechada.
— E a farinha?
O garoto abriu a boca. Fechou.
— Hoje eu volto antes de escurecer.
Ela não pareceu convencida.
Uma mulher esperava perto de uma banca, com uma cesta no braço. A menina olhou para ela, depois soltou a manga do irmão para remexer num embrulho. Tirou um bolinho de arroz um pouco torto e o colocou na mão dele.
— Esse ficou feio. É o seu.
— O bonito você comeu?
Suzu assentiu, muito séria.
Ele guardou o bolinho com cuidado e ajeitou a fita que prendia parte do cabelo dela. A menina tentou afastar sua mão, mas ficou parada até ele terminar.
Ryuusei baixou os olhos para a própria faixa.
Naquela manhã, a empregada da casa tinha avisado que o café estava servido. Masato não saíra do escritório. Seu pai sequer perguntara a que horas começava a formação.
Ryuusei havia considerado isso uma vantagem.
Agora, enquanto a menina reclamava que o irmão apertara demais a fita, ele já não tinha tanta certeza.
O sino da entrada tocou.
Ryuusei saiu da sombra e quase esbarrou no garoto loiro.
— Você também está procurando a sala? — perguntou o outro.
— Estou procurando passagem.
O garoto olhou para o espaço que ocupava e deu um passo para o lado.
— Então já encontrou.
Ryuusei passou. O loiro veio junto.
— Você sabe onde fica?
— Não.
— Ótimo. Pelo menos estamos perdidos na direção certa.
Havia placas no corredor. Ryuusei apontou uma delas.
— Estava brincando — disse o garoto.
— Eu sei.
Pela primeira vez, o outro demorou a responder.
Na porta da sala, uma funcionária recebia as autorizações. Carimbou a folha do loiro sem erguer a cabeça.
— Amakawa, Yousuke. Treze anos. Primeira turma. Pode entrar.
Quando recebeu a de Ryuusei, endireitou as costas.
Seus olhos passaram pelo sobrenome, pela assinatura e pelas linhas menores embaixo. Ela puxou uma segunda prancheta.
— Kurosawa... Seu responsável está aqui?
— Não.
— Entendo. Espere um instante.
Lá dentro, alguém repetiu o sobrenome em voz baixa.
Ryuusei conhecia aquele instante. Primeiro, a pessoa examinava seu rosto. Depois, decidia se devia ser gentil demais ou se afastar.
A funcionária fez uma anotação e devolveu a autorização.
— Guarde isso com você.
Ele entrou na sala. Um menino retirou a bolsa do banco ao lado, viu quem se aproximava e a colocou de volta.
Ryuusei continuou andando antes que precisassem inventar uma desculpa.
— Aqui.
Amakawa tinha arrastado suas coisas para debaixo da mesa. O banco junto à janela estava livre.
— Eu prefiro a ponta — acrescentou, como se precisasse justificar.
Ryuusei sentou.
— Você fala com todo mundo?
— Só com quem responde.
— Péssimo critério.
— Estou percebendo.
Uma mulher entrou carregando uma caixa de madeira. Vestia um casaco azul-escuro sem ornamentos, com as mangas presas nos antebraços. Uma cicatriz antiga atravessava dois dedos de sua mão esquerda.
Ela colocou a caixa na mesa. Não bateu na madeira nem pediu silêncio. Apenas esperou.
As conversas terminaram aos poucos.
— Sou a instrutora Sena. Hoje ninguém vai lançar fogo, abrir crateras ou impressionar o colega da frente.
Yousuke, que já estava inclinado para olhar dentro da caixa, voltou ao lugar.
— Hoje vocês vão aprender a parar.
Sena distribuiu pequenas peças de cerâmica. Cada uma tinha um círculo pintado no centro.
— Encostem o polegar no círculo. Conduzam uma quantidade pequena de Chi até ele. Se a peça aquecer, basta. Não precisa continuar.
Um aluno ergueu a mão.
— E se eu já conseguir quebrar?
— Vai ter que aprender a não quebrar.
Alguns riram. Sena abriu um caderno.
Ryuusei pousou a cerâmica sobre a mesa. Conhecia exercícios mais difíceis. Em casa, porém, acertar nunca encerrava nada. Sempre havia uma distância maior, outra repetição, mais tempo.
Ele encostou o polegar. O calor apareceu depressa.
Tirou a mão.
Ao lado, Amakawa observava sua própria peça com atenção exagerada. O círculo continuava frio.
— É para aquecer — cochichou ele — ou para a gente acreditar bastante?
Ryuusei percebeu o joelho do garoto tremendo debaixo da mesa.
— Solta os ombros.
— Estão soltos.
Ryuusei olhou para eles.
Yousuke os baixou.
O círculo ficou morno. Seu rosto se iluminou.
— Foi.
Então a cerâmica estalou.
Uma trinca abriu caminho até a borda. Yousuke retirou a mão e soltou uma risada rápida, antes que alguém comentasse.
— Acho que aqueci demais.
Sena parou diante da mesa.
— Você percebeu quando foi suficiente?
Ele assentiu.
— Por que continuou?
Yousuke olhou de relance para os outros alunos.
— Achei que dava para fazer melhor.
Sena recolheu a peça quebrada e lhe entregou outra.
— Faça menor.
Na segunda tentativa, ele escondeu o tremor da mão segurando o pulso com a outra.
Ryuusei fingiu não perceber.
Mais tarde, levaram as peças para o pátio. Sena reuniu os alunos diante de um percurso de tábuas suspensas pouco acima de uma camada de areia. Cabos presos a uma armação limitavam o movimento das pranchas. Ao lado, um auxiliar verificava as travas.
Sobre um suporte havia pequenas bandejas com uma tigela de água em cada uma.
— Em duplas. Cada pessoa segura uma ponta da bandeja. Atravessem até o outro lado. O Chi serve para estabilizar o corpo, não para prender a madeira nem endurecer os braços.
Ela tocou a borda de uma tigela.
— Derramar não elimina ninguém. Esconder que está perdendo o controle põe o colega em risco. Se acontecer, avisem.
As duplas se formaram depressa.
Yousuke pegou uma bandeja e se virou para Ryuusei.
— Você vai continuar me seguindo?
— Você pegou a minha bolsa por engano.
Yousuke olhou para o objeto pendurado no ombro. Era preto, tinha fechos diferentes e não se parecia em nada com o seu.
— Estava testando sua atenção.
Ryuusei tomou a bolsa de volta.
— Reprovado.
Yousuke riu. Dessa vez, a risada demorou mais.
No primeiro trecho, Ryuusei ia à frente, de costas. Encontrava o apoio com os pés antes de transferir o peso. Yousuke o acompanhava segurando a outra ponta da bandeja.
— Você já treinou assim? — perguntou.
— Parecido.
— Quantas vezes?
— Não contei.
O movimento da prancha seguinte exigia que os dois pisassem quase ao mesmo tempo. Ryuusei esperou. Yousuke avançou cedo demais. A água bateu numa borda da tigela.
— Devagar — disse Ryuusei.
— Eu sei.
Yousuke tentou firmar o corpo. O Chi concentrou-se nos braços, deixando os dedos rígidos ao redor da madeira. Quanto mais segurava, menos conseguia acompanhar o balanço.
Ryuusei reconheceu a respiração curta antes de olhar para seu rosto.
— Você está prendendo de novo.
— Estou bem.
Atrás deles, alguém pediu para a fila andar.
Yousuke virou a cabeça por um instante. O pé encontrou apenas a borda da tábua.
Ele tentou corrigir a posição com uma descarga de Chi.
A prancha saltou até o limite dos cabos. A bandeja bateu no peito de Ryuusei, a tigela tombou e Yousuke caiu de lado, com um braço preso entre a madeira que girava e seu próprio corpo.
Ryuusei soltou tudo.
Segurou o antebraço do garoto e lançou o peso para trás. O pé escorregou na água. Por um segundo, não havia chão onde ele esperava encontrá-lo.
Uma mão fechou-se na parte de trás de seu casaco.
Sena o sustentou enquanto o auxiliar travava a prancha. A tigela atingiu a areia com um som pequeno demais para o susto que os dois tinham levado.
Yousuke ficou sentado, olhando para o pulso.
Ainda conseguia mexer os dedos. Fez isso várias vezes.
— Amakawa. Olhe para mim.
Sena se agachou ao lado dele.
— Onde dói?
— Não foi nada.
— Eu perguntei onde dói.
Ele indicou o pulso.
O auxiliar o acompanhou até a enfermaria. Na passagem, Yousuke tentou sorrir para os colegas.
Ryuusei ficou no pátio com a manga molhada e uma ardência na palma da mão. Sena percebeu a pele raspada e lhe entregou um pano limpo.
— Você também vai ser examinado.
— Consigo continuar.
Ela o observou por um instante.
— Eu acredito. Agora vá.
Ele esperava uma repreensão pelo tempo perdido, pela tigela ou pela água na roupa. Não soube o que fazer com aquela resposta. Apertou o pano contra a mão e seguiu pelo corredor.
Na enfermaria, Yousuke estava sentado numa maca. Uma mulher terminava de enfaixar seu pulso.
— Sem apoiar peso até eu reavaliar amanhã — disse ela. — Se inchar ou a dor aumentar, você volta antes. Entendeu?
Ele assentiu.
Quando ela saiu para buscar o registro de Ryuusei, o quarto ficou silencioso.
— Você podia ter soltado — disse Yousuke.
Ryuusei mostrou a mão enfaixada pela metade.
— Soltei a bandeja.
— Eu estava falando de mim.
Ryuusei olhou para a tigela de instrumentos na mesa ao lado. Não tinha uma resposta pronta. Aconteceu rápido; só pensara nela depois.
— Seu braço ia ficar preso.
Yousuke acompanhou seu olhar.
— Desculpa.
— Você já falou isso para três pessoas.
— Ainda faltava você.
Lá fora, a turma recomeçara o exercício. Eles ouviam passos, o movimento dos cabos e alguém contando em voz alta para o parceiro.
Yousuke apoiou a mão boa sobre o joelho.
— Todo mundo estava olhando.
Ryuusei esperou.
— Eu achei que, se passasse rápido... — Ele esfregou o tecido da calça com o polegar. — Não queria ser o primeiro a pedir para parar.
Ryuusei entendia isso melhor do que gostaria.
— Da próxima vez, avisa antes de cair.
Yousuke ergueu os olhos.
— Da próxima vez?
— Ainda não terminamos o exercício.
O sorriso voltou devagar, sem a pressa de antes.
No intervalo, sentaram nos degraus da varanda. Yousuke abriu o embrulho amassado e encontrou o bolinho que a irmã lhe dera. Um dos lados tinha achatado durante a queda.
Ele o examinou como se estivesse avaliando um equipamento danificado.
— Sobreviveu melhor do que eu.
Partiu-o ao meio e estendeu uma parte a Ryuusei.
— Sua irmã fez para você.
— Ela vai perguntar se estava bom. Preciso de testemunha.
Ryuusei aceitou.
Tinha sal demais. Mastigou sem comentar.
— Está salgado — disse Yousuke.
— Está.
Os dois continuaram comendo.
Ao final da tarde, Sena devolveu os registros. Yousuke recebeu uma anotação para a enfermaria e a obrigação de repetir o percurso depois da liberação. Ryuusei recebeu a mesma tarefa. O auxiliar verificaria novamente o equipamento antes da próxima turma.
Ninguém os expulsou. Ninguém disse que não serviam.
Mesmo assim, Yousuke demorou a guardar sua folha.
Na saída, Suzu correu dois passos na direção do irmão e parou quando viu a faixa no pulso.
— Você caiu?
Ele abriu um sorriso por hábito.
A menina não sorriu de volta.
— Caí — respondeu.
— Doeu?
— Um pouco.
Ela se aproximou com cuidado, como se a faixa pudesse quebrar. Yousuke usou a mão boa para acertar a fita de seu cabelo, que já havia escorregado.
— Amanhã vão olhar de novo. Hoje eu só não posso carregar a cesta.
— Você nunca quer carregar a cesta.
— Hoje tenho autorização.
Suzu olhou para Ryuusei.
— Você também caiu?
Ele ergueu a mão com o pequeno curativo.
— Quase.
— Ele me segurou — disse Yousuke.
A menina pensou nisso, então fez uma reverência curta demais, atrapalhada pela cesta que a mulher acabara de lhe entregar.
— Obrigada por segurar ele.
Ryuusei inclinou a cabeça. As palavras que tinha aprendido para responder a adultos não pareciam servir ali.
Yousuke tomou a cesta com a mão boa antes que ela escorregasse dos braços da irmã.
— Você vem por onde, Kurosawa?
Ryuusei apontou a rua que descia para a ponte leste.
— A gente vai pelo mercado. Amanhã posso guardar seu lugar?
O portão estava cheio de alunos. Ryuusei poderia ter fingido que não ouvira.
— Eu posso chegar primeiro.
— Então guarda o meu.
Yousuke se afastou com Suzu, que continuava falando sobre o pulso, o exercício e o que deveriam contar em casa. O garoto ouviu até o fim antes de responder.
Ryuusei acompanhou os dois com os olhos.
— Fez amizade depressa.
Masato estava encostado no muro do outro lado da rua.
Usava o casaco escuro da família. Não levantou a voz nem fez sinal para que o irmão se aproximasse. Ryuusei atravessou mesmo assim.
O olhar de Masato desceu até o curativo.
— Primeiro dia.
— Foi no exercício.
— Eu recebi o relatório.
Ryuusei olhou para a janela da secretaria. Uma funcionária fechou a cortina contra a luz do fim da tarde.
Masato estendeu a mão.
— A autorização.
Ryuusei retirou o papel do casaco. Seu irmão desdobrou a folha e passou o polegar sobre a própria assinatura.
— Você deixou a tarefa para socorrer um Amakawa.
— Ele ia se machucar.
— E você se machucou no lugar.
Ryuusei manteve a mão ferida junto ao corpo.
— Era um exercício em dupla.
Masato ergueu os olhos. A conversa ao redor pareceu distante. Ryuusei sentiu o próprio Chi perder o ritmo por um instante e precisou controlar a vontade de recuar.
Então a pressão cessou. Uma família passava perto deles; Masato a cumprimentou com um movimento de cabeça.
Dobrou a autorização e a guardou no próprio bolso.
— Amanhã você entra comigo.
Ryuusei olhou para o mercado. Já não conseguia distinguir o cabelo amarelo no meio das pessoas.
— Eu sei o caminho.
Masato se aproximou o suficiente para que ninguém mais ouvisse.
— Eu sei que sabe.
Começou a andar. Ryuusei ficou parado até o irmão olhar para trás.
Depois o acompanhou, com o nó da faixa apertado contra o estômago e a promessa de um lugar junto à janela que, naquela manhã, não existia.








