The Crawling Janitor by Jixizar at Inkitt
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THE CRAWLING JANITOR

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Summary

### Sinopse Quando a governanta Edith Prowse é encontrada morta no fundo de um poço, o jardineiro Hector Bond desconfia que não foi um acidente. Sua investigação o leva até uma antiga lenda da Cornualha: a Dobrada, uma lâmina sobrenatural que condena quem a toca a morrer em exatamente 365 dias. Os marcados parecem normais, mas aparecem de cabeça para baixo em fotografias - e sua pele fica quente como a de um urso febril. Ao tocar a lâmina, Hector tem visões perturbadoras: um coala congelado, uma governanta levada pelo vento, um burro encapuzado, um jornal antigo e um poço escondido num jardim. Seu irmão Casper decide ajudá-lo e também acaba amaldiçoado. Juntos, os dois seguem as pistas até uma criatura conhecida como o Faxineiro Rastejante, ligada a um andar impossível, a avisos transmitidos por rádio e às histórias que mantêm o horror vivo. Com o tempo se esgotando, os irmãos precisam descobrir se é possível fechar a porta antes que a maldição cobre sua próxima vítima.

Genre
Horror
Author
Jixizar
Status
Complete
Chapters
1
Rating
n/a
Age Rating
18+

# **A Lâmina que se Dobra**

Na Cornualha, as pessoas têm o hábito de explicar coisas horríveis com histórias antigas.

Se uma janela bate sozinha, é o vento. Se alguém desaparece na estrada entre duas vilas, foi o maré - mesmo que não haja mar por perto. E, se você encontrar uma faca que se dobra como um dedo, não toque nela.

Essa última regra era conhecida por quase todo mundo. Quase.

A governanta que morreu na casa dos Trevelyan se chamava Edith Prowse. Tinha setenta e dois anos, uma risada curta e um modo muito particular de organizar os talheres: os garfos voltados para a esquerda, como se estivessem tentando escapar da gaveta.

Encontraram-na no fundo do poço de St. Oran, num domingo de manhã. O poço ficava num jardim bonito, escondido entre azaleias e uma fileira de macieiras antigas. A polícia disse que Edith provavelmente escorregara. A família Trevelyan, que a empregara por quarenta anos, disse que ela nunca ia ao poço. O padre disse que, às vezes, a vida nos chama para lugares que não conhecemos.

Hector Bond não acreditava em nenhuma dessas explicações.

Hector era jardineiro. Um homem paciente, de mãos grandes e voz baixa, que sabia o nome de cada planta do condado e lembrava-se de perguntar aos vizinhos como estavam os joelhos. Trabalhava para os Trevelyan havia onze anos e conhecia Edith o bastante para saber que ela não escorregaria em lugar nenhum sem antes reclamar da manutenção do caminho.

Na tarde em que a polícia foi embora, Hector voltou ao jardim para recolher suas ferramentas. Viu uma coisa brilhando entre as raízes expostas de uma macieira.

Era uma lâmina.

Não parecia antiga. A empunhadura era de osso amarelado, lisa como cabo de colher, e a lâmina era fina, escura, com uma curva que não fazia sentido. Hector a pegou pelo cabo, pensando que talvez fosse uma faca de poda deixada por algum trabalhador.

A lâmina cedeu.

Dobrou-se como uma fita de metal molhada e enrolou-se em torno do próprio punho dele.

Hector largou aquilo na grama.

- Maldita porcaria - resmungou.

Foi a primeira vez que tocou na lâmina.

Naquela noite, teve um sonho.

Viu um coala azul, tão frio que a pelagem estava coberta de cristais de gelo. O animal equilibrava-se sobre uma mulher de avental, que era levada pelo vento através de um campo de urzes. A mulher tinha o rosto de Edith. Sobre elas, um jornal velho tremulava no ar. A manchete dizia:

**ACIDENTE INFELIZ NO POÇO DE ST. ORAN**

Então surgiu um burro encapuzado, com olhos humanos e dentes amarelados. Ele gesticulava com as patas dianteiras, furioso.

- Os dedos! - gritava. - Vocês sempre esquecem os dedos!

Atrás dele, havia um poço. Ao redor do poço, um lugar bonito. Um jardim, talvez. Ou uma lembrança disfarçada de jardim.

Hector acordou com o coração acelerado e uma dor aguda nos cotovelos.

De manhã, o jardineiro contou o sonho a Casper Greenway, seu irmão mais novo. Casper trabalhava como faxineiro num hotel de Penzance e tinha a habilidade de entrar numa sala em silêncio e sair de lá sabendo tudo o que as pessoas haviam dito.

- Parece que você comeu alguma coisa estragada - disse Casper.

- Eu não como coisas estragadas.

- Então parece que comeu alguma coisa boa demais.

Casper tinha aquele tipo de humor que fazia as pessoas rirem meio segundo depois de perceberem que estavam sendo insultadas.

A história da lâmina chegou aos dois no mesmo dia. Uma senhora da vila, ao ouvir Hector mencionar a faca, fez o sinal da cruz e mandou que ele não dissesse mais nada. Depois contou que a arma era conhecida como **a Dobrada**. Dizia-se que passara de mão em mão por Cornwall durante séculos. Quem a usasse teria exatamente trezentos e sessenta e cinco dias de vida.

- Usasse como? - perguntou Hector.

- Qualquer coisa. Cortar pão, abrir uma caixa, ferir alguém. A lâmina não se importa com a intenção.

A mulher ainda contou que os condenados pareciam perfeitamente normais durante o dia. Mas, quando alguém os fotografava, apareciam de cabeça para baixo. E tinham a pele quente - quente demais. Como abraçar um urso febril.

Hector riu. Casper não.

Naquela tarde, Hector voltou à macieira. A faca ainda estava onde a deixara, junto de um tufo de grama amassada. Ele a pegou com um pano, decidido a entregá-la à polícia.

A Dobrada cortou o tecido sem sequer ser pressionada.

Uma gota de sangue surgiu na palma de Hector.

Ele sentiu o mundo encolher.

Por um instante, viu outra vez o coala gelado, a mulher sacudida pelo vento, o jornal velho, o burro de capuz berrando sobre dedos e o poço no jardim bonito. Mas dessa vez, no canto da visão, havia também uma escada. Uma escada longa demais, subindo para um andar que não existia.

Depois, a imagem sumiu.

Hector deixou a lâmina cair e correu para casa.

Tentou tirar uma fotografia de si mesmo com o celular. Na tela, apareceu de cabeça para baixo.

Ele virou o telefone. A imagem continuou invertida.

Quando estendeu a mão para tocar a tela, seus cotovelos dobraram-se para o lado errado.

Hector caiu sentado. Ficou olhando os próprios braços, respirando pela boca. A pele em volta das articulações parecia inchada e coberta por uma pelagem muito fina, quase invisível. Quando se tocou, o calor o assustou. Sua pele estava tão quente que parecia ter passado o dia inteiro debaixo do sol.

Ele ligou para Casper.

- Preciso que venha.

- Está sangrando?

- Não.

- Então por que está com essa voz?

- Acho que a velha história é verdade.

Houve uma pausa.

- Qual velha história?

- A da faca.

- Você pegou a faca?

- Peguei.

- E usou?

Hector olhou para o corte na palma.

- Acho que sim.

Casper chegou quarenta minutos depois, carregando um kit de primeiros socorros e uma garrafa de uísque. Não perguntou qual dos dois seria usado primeiro.

Encontrou Hector sentado na cozinha, de mangas arregaçadas. Os cotovelos estavam avermelhados, mas normais à primeira vista.

- Não parece um urso - disse Casper.

- Obrigado.

- Um urso pequeno, talvez. Um urso mal pago.

Hector contou sobre as fotografias. Casper tirou uma dele mesmo e mostrou a tela. Hector aparecia invertido, os pés no alto e a cabeça no lugar das pernas, embora estivesse sentado de frente para o celular.

Casper ficou pálido.

- Você disse que a faca estava no jardim?

Hector contou-lhe o resto: o sonho, as visões, o burro, o poço.

Casper escutou sem interromper. Depois pegou o casaco.

- Vou buscar a faca.

- Não toque nela.

- Não vou tocar. Vou levar uma pá, um balde e luvas.

- Casper.

- Hector, você está condenado. Não vou deixar que fique sozinho com isso.

Foram juntos ao jardim dos Trevelyan. A lâmina repousava perto da macieira. Casper olhou para ela por um longo momento. Hector tentou impedi-lo, mas o irmão ergueu a mão.

- Se as visões são a única pista, preciso vê-las.

- Não precisa fazer o que eu fiz.

- Não estou fazendo por você. Estou fazendo porque, se eu não entender, vou passar o próximo ano imaginando que poderia ter ajudado.

Casper apanhou a Dobrada.

Ele não se cortou. Não fez nada. Apenas fechou a mão em torno do cabo.

Ainda assim, a lâmina se dobrou sozinha e roçou sua palma.

Casper piscou.

- O que viu? - perguntou Hector.

Casper levou alguns segundos para responder.

- Um jornal. Um burro com capuz. Um poço.

- E o coala?

Casper engoliu em seco.

- O coala estava equilibrado sobre a governanta. Ela parecia estar sendo carregada por um vento que não existia. O animal era tão frio que... - Ele esfregou os braços. - Era como se o frio estivesse dentro dos meus ossos.

Hector olhou para o rosto do irmão. Casper tinha começado a suar, apesar do vento frio.

- Você também foi marcado.

Casper ergueu a faca entre os dois.

- Então estamos juntos na fila.

A vila recebeu a notícia com uma mistura de medo e desaprovação. Ninguém queria ajudar. O padre disse que aquela história era superstição. A bibliotecária disse que havia jornais antigos sobre o acidente de Edith, mas que os registros estavam "em desordem". Um aposentado que vivia perto do porto afirmou que o burro encapuzado era uma lenda local - embora não pudesse dizer de qual local.

Foi uma mulher chamada Mrs. Penhaligon, dona de uma loja de antiguidades, quem finalmente lhes deu uma pista.

- O burro é mencionado num folheto de noventa anos atrás - disse ela, remexendo uma gaveta. - Um sujeito chamado Merrick Cole dizia ter visto um animal com capuz perto de um poço. Afirmava que ele reclamava de dedos.

- E onde está esse folheto? - perguntou Hector.

Ela apontou para a prateleira atrás de si.

- Se eu soubesse, não estaria procurando.

Passaram três dias vasculhando arquivos, mapas e caixas empoeiradas. No quarto, encontraram uma notícia antiga sobre a morte de um trabalhador chamado Arthur Veale, em 1931. Ele havia sido encontrado no fundo do poço de St. Oran, exatamente como Edith. O jornal chamava o caso de "acidente infeliz". Uma foto mostrava Arthur sorrindo, com um gato nos braços.

Na fotografia, ele estava de cabeça para baixo.

O artigo dizia que Arthur havia trabalhado como zelador num prédio em construção, mas os registros do endereço eram confusos. O edifício constava como tendo onze andares. Um depoimento dizia que Arthur desaparecera no décimo segundo.

No verso do recorte, alguém escrevera:

**A advertência foi a escolha segura. Foi a porta, não o que bateu.**

Casper leu em voz alta.

- Isso é uma frase muito dramática para alguém que morreu num poço.

- Talvez seja por isso que escreveram no jornal - disse Hector. - Para parecer menos assustador.

A próxima pista estava num diário de Edith, recuperado pela família Trevelyan e guardado num armário. Hector conhecia a letra dela: inclinada, firme, impaciente. Nas últimas páginas, Edith mencionava ter ouvido "três batidas" vindas de dentro do poço de St. Oran.

**Não respondi**, escrevera. **Não sou tola.**

Em outra página:

**O menino de capa preta estava no corredor. Parecia ter quinze anos. Ou mil e quinze.**

Mais adiante, com a tinta borrada:

**Disse que não podia mentir sob água corrente. Perguntei de onde vinha. Respondeu: da fazenda, onde os animais aprenderam a gritar.**

A última entrada tinha apenas uma frase:

**O aviso na rádio durou oito minutos.**

Hector leu aquilo duas vezes.

Naquela noite, ele e Casper ficaram no jardim de St. Oran, perto do poço. O lugar era bonito, como nas visões: flores roxas, pedras cobertas de musgo, macieiras e um banco branco onde a tinta descascava.

- Isso é uma armadilha - disse Hector.

- Provavelmente.

- Devíamos ir embora.

- Também provavelmente.

Nenhum dos dois se mexeu.

À meia-noite, o celular de Casper acendeu sozinho. Não havia sinal naquela parte do jardim, mas o rádio que Hector carregava para ouvir a previsão do tempo começou a chiar. Uma voz surgiu entre as estáticas. Não era inglês, nem córnico, nem qualquer idioma que conhecessem. A transmissão durou oito minutos exatos.

No primeiro minuto, o poço respondeu com uma batida.

No segundo, a água no fundo começou a borbulhar.

No terceiro, ouviu-se um som de unhas arranhando pedra.

No quarto, uma voz feminina - a de Edith - pediu ajuda.

No quinto, Casper começou a chorar sem perceber.

No sexto, Hector viu um vulto parado entre as árvores. Alto demais para o caminho estreito, imóvel demais para ser humano.

No sétimo, a criatura abriu a boca.

No oitavo, o rádio silenciou.

A coisa saiu do poço.

Usava uma capa de chuva preta, velha e brilhante. Tinha ombros largos, pele parecida com plástico barato e cabelo sem cor, grudado na testa. Um olho estava no lugar errado - não no centro do rosto, mas deslocado para baixo, como se alguém o tivesse costurado às pressas. Os braços eram compridos, os cotovelos dobrando para trás.

A criatura parecia um adolescente.

A escada atrás dela, refletida na água do poço, subia para um andar impossível.

Hector sentiu o calor nos cotovelos aumentar.

- O Faxineiro Rastejante - sussurrou Casper.

A coisa virou a cabeça.

- Não diga meu nome como piada - respondeu, sem mexer a boca.

Casper recuou.

- Eu não estava brincando.

- Ainda não.

A criatura carregava um gancho de açougueiro polido até brilhar. Do outro braço pendiam tiras de pele, compridas e translúcidas, como pedaços de luva. Ao notar que os irmãos olhavam, deixou uma cair no chão. A tira se enroscou na grama como um verme.

- Você está ligado à lâmina? - perguntou Hector.

O olho fora do lugar piscou.

- Eu estou ligado a tudo que é lembrado.

- Como podemos quebrar a maldição?

- Quebrar? - A criatura pareceu sorrir. - Que palavra bonita. Vocês humanos usam palavras bonitas para coisas que não conseguem fazer.

- O que significam as visões? - perguntou Casper.

A criatura olhou para ele. O rosto mudou no meio do sorriso. Por um instante, pareceu triste. Depois, irritado. Depois, vazio.

- O coala é frio porque alguém precisa carregar o morto. O vento é a desculpa. O jornal é a mentira. O burro é a testemunha. O poço é a porta.

- E os dedos? - perguntou Hector.

- O que vocês deixam para trás.

Ele percebeu, tarde demais, que a mão direita de Casper estava fechada em punho. Quando a abriu, faltava a ponta do dedo mínimo.

Não havia sangue. Só uma superfície lisa e pálida, como cera.

Casper olhou para a mão, horrorizado.

- Você tirou meu dedo?

- Eu coleciono as últimas palavras - disse a criatura. - Os dedos são só etiquetas.

Hector avançou. A Dobrada estava em seu bolso, enrolada num pano. Sem saber por quê, puxou-a para fora.

A lâmina saltou do tecido e se esticou, fina e ondulante. O Faxineiro Rastejante inclinou a cabeça.

- Ah - disse. - Você trouxe a porta.

- Como fechamos isso?

- Não fecham. Não fecham nunca. O aviso era a escolha segura. Foi a porta, não o que bateu.

- Então o aviso nos trouxe até você.

- Não. Vocês vieram porque queriam saber. Essa é a parte que sempre esquecem.

A criatura avançou um passo.

- A história não nasceu. Foi escrita. Depois escapou. Agora continua sendo contada.

Hector compreendeu, enfim, o que o burro queria dizer. Os dedos não eram o preço. Eram as partes da história que as pessoas cortavam fora: os nomes, os detalhes, as testemunhas. Cada vítima virava uma anedota. "Um acidente infeliz." "Uma velha lenda." "Uma história para assustar crianças."

E cada vez que alguém repetia a lenda, a criatura ganhava mais atenção.

- Se ninguém contar a história, você desaparece? - perguntou Hector.

- Ninguém consegue deixar de contar.

- Então vou contar do jeito certo.

O olho da criatura se fixou nele.

Hector contou tudo. O nome de Edith. O nome de Arthur. O poço. A faca. As fotografias invertidas. O calor sob a pele. A criatura na capa preta. O andar que não existia. Não contou como uma lenda. Contou como testemunha, sem suavizar nada.

A cada frase, o Faxineiro Rastejante ficava mais imóvel.

Quando Hector terminou, o rádio chiou outra vez. A voz morta começou a falar, mas agora parecia vir de dentro da garganta da criatura.

Casper pegou uma pedra e quebrou a borda do poço. A água correu pela grama, espalhando-se pelo jardim em filetes frios. A criatura soltou um som que parecia um animal aprendendo a gritar.

- Não - disse ela. - Debaixo d'água, não.

- Você disse que não consegue mentir sob água corrente - falou Casper. - Então responde: dá para parar a maldição?

A criatura abriu a boca. O olho deslocado girou até encarar o próprio nariz.

- Não.

A água tocou seus sapatos.

- Dá para atrasá-la?

- Não.

A água chegou aos joelhos.

- A lâmina escolhe quem morre?

A criatura tentou fechar a boca. Não conseguiu.

- A lâmina escolhe quem conta.

Hector sentiu o sangue gelar.

A criatura estendeu o gancho na direção dos irmãos.

- Um de vocês precisa ficar. Um precisa ser lembrado.

- Não - disse Casper.

- Todo mundo precisa de um final.

A lâmina dobrou-se na mão de Hector e se enrolou em seu pulso. Ele sentiu o metal esquentar. Por um instante, as visões voltaram: o coala frio, Edith levada pelo vento, a manchete mentirosa, o burro encapuzado e o poço. Mas a imagem final mudou.

Agora o coala estava sozinho.

- Casper - disse Hector. - Avisa todo mundo.

- E você?

Hector segurou a lâmina com as duas mãos.

- Eu vou acabar com a história.

Casper tentou puxá-lo, mas os cotovelos de Hector se dobraram para trás com um estalo úmido. O jardineiro gritou. O calor que sentia desde o primeiro corte se espalhou por seu corpo, transformando a pele numa fornalha.

A criatura se aproximou.

Hector enfiou a lâmina no próprio reflexo, no poço.

A água se abriu como uma porta.

Por baixo dela, havia um corredor estreito e uma escada que subia, degrau após degrau, até um décimo segundo andar impossível.

O Faxineiro Rastejante foi puxado para baixo. O gancho escapou de sua mão e bateu na pedra. Antes de sumir, a criatura virou o rosto para Hector.

- Qual vai ser sua última palavra?

Hector olhou para Casper.

- Não deixe que contem errado.

Então o poço fechou.

A Dobrada se partiu em duas. O calor desapareceu dos braços de Hector. Os cotovelos voltaram ao lugar. Pela primeira vez em um ano, ou em uma vida inteira, ele conseguiu olhar para uma fotografia sem aparecer de cabeça para baixo.

Casper sobreviveu. Hector também. Nenhum deles morreu depois de trezentos e sessenta e cinco dias.

Pelo menos, foi isso que disseram.

Na manhã seguinte, a família Trevelyan encontrou o jardim destruído e o poço seco. A polícia classificou o caso como vandalismo. O jornal local publicou uma nota de três linhas sobre os irmãos Bond, "envolvidos num incidente confuso durante a noite".

A nota incluía uma fotografia.

Casper aparecia normal.

Hector estava de cabeça para baixo.

Desde então, Casper evita câmeras. Diz que não acredita mais em maldições, embora durma com as luzes acesas e nunca fique acordado depois da meia-noite. Ele também parou de trabalhar como faxineiro. Não gosta mais de corredores compridos.

Hector voltou a cuidar dos jardins. Anda com as mãos nos bolsos e nunca toca em ferramentas de metal sem luvas.

A lâmina não foi encontrada.

Há quem diga que ela continua escondida em algum jardim da Cornualha, esperando por alguém que não acredita em histórias antigas.

Outros dizem que a Dobrada não precisa mais de um cabo. Basta que alguém use seu nome como piada.

E, quando uma casa fica quieta tarde da noite, há pessoas que ouvem três batidas vindas de dentro de um armário de limpeza.

Se você ouvir, não responda.

A advertência é a escolha segura.

Foi a porta, não o que bateu.

E agora que você leu até aqui, o Faxineiro Rastejante sabe que foi lembrado. Se quiser, também posso escrever uma continuação pelo ponto de vista do Casper.

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