Capitulo 1
O barulho do portão de ferro a bater atrás de mim foi o sinal de que a minha contagem decrescente havia começado. Aos 19 anos, o ar da rua parecia estranho. Sob o meu braço, eu segurava com firmeza o envelope. Dentro dele estavam os exames assinados pelo médico que me acompanhava até à saída. O papel atesta a minha perda de memória devido às lesões que sofri lá dentro. Era a minha arma perfeita.
Olhei para a frente e, encostada a um carro luxuoso, ela estava lá. A minha noiva. Ela mantinha um sorriso ensaiado no rosto. Olhar para ela fez-me lembrar da promessa hipócrita que me fez antes de eu ser trancado pelo crime do meu irmão: "Aguenta firme. Eu caso contigo depois para compensar tudo." Ela achava que eu era o mesmo otário de antes.
Apertei o envelope contra o corpo, forcei um olhar confuso e caminhei na direção dela. Quando ela deu um passo à frente com os braços abertos, eu recuei um passo.
Eu disse: — Desculpa, quem é você?
O sorriso dela congelou na hora. Antes que ela pudesse falar qualquer coisa, olhei para o envelope de exames e imaginei a história que eu tinha preparado na minha mente:
Eu disse: — O médico deu-me estes exames. A minha noiva enviou-me uma carta há meses dizendo que tinha morrido. Ela escreveu que uma amiga dela viria buscar-me hoje. Tu és amiga dela?
A Vanessa deu mais um passo na minha direção, querendo abraçar-me. O perfume dela, doce e com cheiro a rosas, combinava com o seu vestido de festa.
Ela disse: — Meu amor! Que saudade! Finalmente este pesadelo acabou. Vamos para casa. O teu irmão Marco e o resto da família estão a preparar uma festa grande para comemorar o teu regresso com pessoas de todas as classes, principalmente pessoas importantes.
Recuei um passo. Como pratiquei várias vezes, fiz uma expressão confusa, olhando bem para a cara da Vanessa.
Eu disse: — Desculpa, mas quem és tu? perguntei, com a voz bem doce e de cortesia. Tu não és a amiga da minha noiva?
O corpo dela travou na hora. A cor deslumbrante que tinha desapareceu do rosto da Vanessa. Ela olhou para mim, perplexa, tentando entender o que estava a acontecer. Antes que ela falasse algo, estendi as folhas que o médico tinha dado, a carta que eu tinha guardado e uma fotografia. Expliquei que o doutor havia atestado a minha perda de memória logo na saída, e que o trauma tinha apagado as lembranças sobre a minha noiva. Eu lembro-me do Marco e de toda a minha família, menos dela.
Ela pegou no papel com as mãos a tremer, lendo o diagnóstico sem expressão e com um grande e visível choque. Enquanto ela processava a informação, percebi o exato momento em que um alívio passou pelos olhos dela.
Ela pensou: O João não se lembra de mim, com a mente a girar depressa. Se a amnésia é só sobre mim, eu posso esconder o que fiz. Ele nunca vai saber que fui eu quem o colocou aqui dentro para salvar o Marco.
Ela guardou o papel e tentou disfarçar a tensão, insistindo para irmos logo para a festa da minha família. Ao ouvir aquilo sobre a comemoração, o meu estômago embrulhou de nojo.
Eu pensei: Deve ser pelo aniversário do Marco, guardando o ódio no peito. Já que eu e ele fazemos aniversário no mesmo dia, só que do meu ninguém se lembra. Mesmo ela comemorando comigo, uma chamada dele ou da minha família corre tão rápido. Que grande festa deve ser... Estás a brincar comigo, sua cínica.
Engoli em seco e forcei o olhar confuso.
Eu disse: — Tudo bem. Vamos lá.









espero que gostem