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Fragmentos de Um Estranho

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Summary

Depois de atropelar um desconhecido em uma estrada deserta, Ewan decide esconder o acidente e levar o homem para sua fazenda. Quando ele acorda sem nenhuma lembrança, Ewan lhe dá um nome: Omar. O que começa como culpa logo se transforma em algo muito mais complicado, enquanto os dois constroem uma vida juntos. Mas a memória de Omar pode trazer de volta verdades que Ewan preferia manter enterradas.

Genre
Romance
Author
LexSilvas
Status
Complete
Chapters
6
Rating
n/a
Age Rating
16+

Parte um: Terra e Sangue

Fragmentos De Um Estranho

Lex Silvas

26/07/26


Eu vou morrer limpando merda, dizia meu pai, e não é que o desgraçado acertou? Caiu duro no curral dos porcos, com a pá ainda na mão, como se fosse uma piada mal contada pelo destino. A ironia é que ele morreu provando que tinha razão, e isso me corrói: se o que ele dizia sobre mim — que eu nunca ia ser nada e ia morrer na merda — também for verdade, então estou condenado. Odeio ele por isso. Desde que ele partiu, a fazenda, que já viu dias melhores, ficou tudo nas costas minhas e da minha mãe. Mas sejamos honestos: o trabalho braçal é todo meu. Sou eu quem acorda antes do galo cantar, quem joga milho para as galinhas, quem arrasta baldes de água até as vacas, quem conserta cerca quebrada depois da tempestade, quem recolhe ovos ainda quentes e quem passa horas capinando mato que insiste em crescer mais rápido que qualquer esperança. É um ciclo sem fim: limpar, alimentar, carregar, repetir. E cada tarefa parece uma sentença, como se a terra e os animais estivessem me lembrando que não há saída, só desgaste.

Meu nome é Ewan O’Connor, filho único e desgraçado dessas terras em West Yorkshire, na maldita Inglaterra. Eu não conheço nada além desse lugar. Nunca fui a lugar nenhum, só nas cidades próximas com meu pai pra comprar ração pros animais ou algum equipamento novo. O resto do mundo pra mim só existe pela TV ou pelos livros. Mas um dia, quem sabe, pode ser diferente.

Completei 23 anos esse ano. Sou magro do jeito de quem trabalha muito mas não come o suficiente. Cabelo castanho-escuro, curto, sempre jogado pra trás sem que eu faça esforço pra isso. Rosto fino, orelhas que aparecem mais do que eu gostaria, olhos claros que minha avó dizia serem bonitos — elogio esse que nunca soube como receber. Não sou feio, não sou bonito. Sou o tipo de rosto que West Yorkshire fabrica em série.

Depois de mais um dia exaustivo tentando impedir que essa fazenda de merda afunde de vez, eu entro em casa já chamando pela minha mãe. Limpo as botas no tapete da entrada e vejo a terra se acumular ali, como se o chão fosse mais honesto do que eu.

— Mãe, o gado do Sr. Wenk está doente de novo — digo. — Temos que nos preocupar com isso — espero e não ouço nada. — Mãe?

Ela não responde de imediato, mas eu sei onde está. A cozinha é sempre o mesmo cenário: mesa de madeira marcada por anos de pratos quentes, cortinas desbotadas pelo sol, cheiro de fumaça misturado com cebola frita. Escuto a tosse dela vindo de lá, confirmando que está fumando mais um cigarro barato.

A casa é simples, feita para durar, não para ser bonita. As paredes guardam rachaduras como lembranças, o piso range em cada passo, e os móveis parecem ter desistido de ser novos há décadas. É um lugar onde tudo é funcional, nada é supérfluo. O silêncio pesa, quebrado apenas pelo som da minha mãe tossindo e pelo vento que entra pelas frestas da janela.

— Mãe — chamo novamente já entrando na cozinha.

Ela está lá, sentada à mesa, cabelos curtos e brancos, magra com seus olhos claros e jeito de mulher do campo, descascando batatas e fumando, como sempre. A fumaça sobe lenta, deixando o ar pesado.

— Não me ouviu te chamar? — pergunto.

— O que foi, garoto? — responde ela com desdém, sem levantar os olhos. — Eu estava distraída pensando na vida.

— Eu consertei a cerca e fiz um trinco novo pra ele — digo. — Também cortei aquela árvore grande da entrada. Amanhã cedo recolho os troncos.

Ela dá uma tragada no cigarro e fala com a boca meio ocupada.

— Seu pai dizia que ia cortar aquela árvore há sei lá quanto tempo — diz ela rindo.

Eu caminho pela cozinha, pego uma caneca e me sirvo de café frio, que já parece parte da decoração.

— O Melvin disse que tem interesse no porco grande — continua ela. — Falou que paga mais se você levar ainda hoje.

— Hoje? — pergunto, esfregando a mão no rosto. — Eu não quero ter que dirigir até a cidade naquela picape velha. Vou voltar só depois que escurecer.

— Precisamos da grana — diz ela, firme. — E eu já falei que você ia.

— Mãe?!

— Não discuta comigo — retruca ela. — Pode passar na casa do Timothy e cobrar ele pelos ovos de novo. Aquele safado não vai receber mais ovos se não pagar primeiro.

— Merda — digo, batendo a caneca na pia com raiva. — Vou num pé e volto noutro. Espero que não chova.

— Obrigada, filho — diz ela, sem emoção, como quem repete uma frase automática.

Eu saio de casa com raiva, já que não tinha planos de dirigir até a cidade a menos que fosse pra beber e trepar com alguém por aí. Mas não. Eu tenho que ir vender a merda de um porco porque a minha mãe prometeu.

Preparo o porco na picape e dirijo até a cidade pra resolver essa porcaria e quem sabe depois beber uma cerveja, não mais do que isso.


***


Tá, eu exagerei na bebida hoje. A noite estava agradável, a conversa com os locais até que rendia, e por isso uma cerveja logo virou duas, depois uma dose de vodca, e em seguida mais três ou quatro cervejas e um conhaque. Nem percebi a hora em que já estava falando com a porcaria da parede. Foi aí que me levantei e saí de lá.

Dirijo pela estrada com atenção redobrada, porque sei que as coisas não estão no lugar certo dentro da minha cabeça. Tenho certeza de que essa estrada está mais escura essa hora da noite. Pelo menos não choveu, porque se tivesse chovido, essa porcaria estaria escorregadia e cheia de lama.

Sigo por mais algum tempo, tomando uns goles da última cerveja que trouxe comigo. Não sou de desperdícios. O clima está quieto demais, e meus pensamentos não dão conta de preencher o silêncio. Desvio o olhar pro rádio e ligo. Começo a procurar uma estação, tentando fazer um monte de coisas ao mesmo tempo: prestar atenção na estrada, beber a cerveja e encontrar uma música decente.

Olho pro rádio por apenas um segundo, ajusto a estação, e assim que encontro o som certo, sinto o impacto. O carro bate em alguma coisa. Um som seco contra o metal me arranca da embriaguez como um tapa na cara.

Meu coração dispara. Seguro o volante com força, os olhos arregalados, e piso no freio. O carro derrapa um pouco na estrada escura até parar. O silêncio volta, mas agora a música e o silêncio estão mais pesados do que nunca, porque estão cheios de perguntas. O que foi que eu acabei de atropelar?

Eu fico no carro tremendo. Deve ter sido a porra de um cervo, digo pra mim mesmo tentando me convencer, mas o coração dispara de medo. Saio do carro com as mãos suadas e caminho até a frente pra ver o estrago. O capô está amassado. Porra, eu bati mesmo em alguma coisa.

Olho ao redor, tentando enxergar naquela escuridão, mas não vejo nada.

— Porra, porra, porra — murmuro. — Eu sabia que não devia ter bebido tanto.

Volto ao carro e pego uma lanterna. O farol não parece suficiente. Jogo a luz ao redor, procurando qualquer sinal do que atropelei, mas nada. O maldito deve ter se levantado e continuado a correr.

Quando já estou desistindo e só quero voltar pro carro, vejo algo que me paralisa: uma bota. Sim, a porcaria de uma bota. E botas geralmente vêm com pés dentro delas. Pelo amor de Deus, que não seja o que estou pensando.

Aponto a lanterna mais pro fundo do acostamento, no meio-fio, e então vejo claramente alguém caído.

— Merda — digo, abaixando a lanterna e correndo até lá. — Porcaria.

É um homem. Está de costas. Viro-o com cuidado, tentando ver se ainda respira. Consigo observá-lo melhor agora: jovem, uns vinte e poucos anos, cabelo preto espesso caindo sobre a testa em mechas bagunçadas, barba fechada e bem marcada, peito coberto de pelos onde a camisa rasgou. Tem sobrancelhas grossas, olhos escuros, pele morena clara com subtom quente e um nariz reto, forte, daqueles que davam ao rosto um ar quase aristocrático. Bonito de um jeito que eu não deveria estar notando, dadas as circunstâncias.

Coloco a mão perto dele e sinto a respiração quente. Alívio.

— Oi? Você está bem? — pergunto. — O que estava fazendo no meio da estrada à noite? Essa merda é perigosa.

Ele não responde. Dou alguns tapas leves no rosto dele, mas nada. Olho ao redor, tentando pensar numa solução. Não posso simplesmente ir embora e deixá-lo ali. Também não posso levá-lo pra alguma autoridade, porque não estou afim de ser preso por embriaguez ao volante de novo.

— Mas que merda — digo aflito. — O que eu faço?

Vejo ele se mexer, fazendo um gemido leve.

— Ei, cara — chamo. — Você está bem?

Nada.

— Beleza — digo. — Beleza do caramba.

Resolvo que vou erguer o corpo dele e colocá-lo na minha picape. Vou pensar melhor num lugar com mais luz. Arrasto-o até o banco do passageiro, ajeito como consigo, e depois entro no lado do motorista. Saio dali dirigindo, levando comigo um homem que acabei de passar por cima com o carro. Estou fodido mesmo.

Chego em casa e, por sorte, minha mãe já está dormindo. Isso facilita. Carrego o corpo dele pela cozinha em silêncio, tentando não fazer barulho, até o meu quarto. Deito-o na minha cama, o lençol áspero contra a pele dele.

— Pelo amor de Deus, não morra, seu maldito — digo, quase como uma prece torta.

Ele continua desacordado. Arrumo-o sob os lençóis, cobrindo-o depois de tirar o outro sapato. Fica ali, imóvel, respirando pesado.

— Beleza, amanhã eu chamo o xerife — murmuro pra mim mesmo, sem acreditar muito nas próprias palavras.

Tudo bem, agora ele está seguro. Eu preciso de um café forte pra acordar desse pesadelo. Vejo a cadeira no canto do quarto, coberta pelas minhas roupas amontoadas, e me sento ali pra recuperar o fôlego. Ele foi pesado de carregar.

Fico imaginando de onde ele é. Não parece inglês. Tem pelos demais, uma presença que lembra o Mediterrâneo. O que diabos ele estava fazendo naquela estrada?

Encosto minha cabeça na pilha de roupas e fecho os olhos por um segundo. Só pra descansar. Não vou dormir. Eu juro.

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