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MATUSA — A FILHA DO DESERTO DE FOGO

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Summary

Em Crimston, o fogo sempre fez parte da vida. Em Matusa, porém, ele nasceu diferente. Depois de uma tragédia que muda sua família para sempre, ela precisa enfrentar a culpa, a perda e um poder que cresce junto com sua dor. Quando Marcus de Gold surge em seu caminho, Matusa descobre que seu destino vai muito além de Crimston. Em Alasthian, sob o olhar de Heitor, o Guerreiro Supremo, ela começa a trilhar o caminho que a levará a se tornar uma dos Cinco Extraordinários. Mas antes da lenda, existe uma jovem tentando sobreviver ao próprio fogo.

Genre
Adventure
Author
ROCHS11
Status
Complete
Chapters
1
Rating
n/a
Age Rating
13+

CAPÍTULO 1 - A MENINA DO DESERTO DE FOGO

PRÓLOGO - A PROFECIA DA CHAMA NASCIDA

Muito antes de Matusa nascer, Crimston já conhecia o fogo.

Não como os outros mundos necessariamente o conheciam.

Para os crimstonianos, o fogo não representava apenas destruição.

Representava calor.

Criação.

Proteção.

Memória.

Vida.

Crimston era um mundo quente, mas extraordinariamente vivo.

Seus grandes desertos vermelhos e dourados dividiam continentes com savanas, vales férteis, montanhas, florestas resistentes ao calor, rios, lagos e cidades erguidas por um povo que aprendera havia eras a prosperar sob temperaturas que seriam hostis a muitas outras espécies.

Em determinadas regiões, a atividade vulcânica alimentava algumas das maiores forjas do planeta.

Em outras, antigas águas subterrâneas faziam nascer oásis e comunidades em lugares onde viajantes estrangeiros jamais imaginariam encontrar vida.

E entre todos esses lugares existia Kharíam.

O grande deserto.

Durante o dia, suas areias pareciam guardar o calor de uma estrela.

Durante a noite, o frio avançava sobre as dunas e revelava um céu tão limpo que as estrelas e os planetas de Órion pareciam pairar sobre a superfície.

Os habitantes das cidades próximas diziam:

Kharíam não expulsa quem entra.

Ele revela quem atravessa.

Perto de suas extensas fronteiras havia uma cidade chamada Sahmira.

E naquela cidade vivia uma família.

Matusalém.

Olga.

E seus dois filhos.

Matusa, a primogênita.

Ramsés, o mais novo.

Naqueles dias, Matusalém não carregava fama e nem glória.

Entretanto, carregava um nome antigo e respeitado.

Seus ancestrais haviam governado Crimston em eras distantes, antes que sua linhagem perdesse o trono e, com o passar das gerações, grande parte da riqueza e da influência que possuíra.

Matusalém não costumava falar sobre isso.

Para ele, aquilo que um antepassado fizera com uma coroa não determinava aquilo que um homem deveria fazer com as próprias mãos.

Em Sahmira, era respeitado por razões muito mais simples.

As pessoas confiavam nele.

Olga conhecia o homem por trás daquele respeito.

E os filhos conheciam apenas o pai.

Matusa ainda era muito jovem para compreender o peso de uma linhagem.

Preferia correr pelas terras próximas a Sahmira, observar caravanas atravessando as estradas, ouvir as histórias dos viajantes e provocar Ramsés sempre que o irmão tentava provar que conseguia acompanhá-la em tudo.

Ela também gostava do fogo.

Isso não era estranho.

Toda criança de Crimston crescia cercada por ele.

Os crimstonianos eram um povo poderoso. Seus corpos possuíam características que os distinguiam de muitas outras espécies do Firmamento. Resistência extraordinária ao calor, força e uma adaptação natural às energias de seu planeta faziam parte de sua existência.

Mas havia limites.

E foi justamente isso que tornou os primeiros acontecimentos tão difíceis de explicar.

Uma chama que se inclinava quando Matusa passava.

Uma brasa que parecia resistir mais tempo quando permanecia perto dela.

Uma pequena fogueira cuja intensidade mudava enquanto a menina movia as mãos.

Coincidências.

Foi assim que os adultos chamaram.

Durante algum tempo.

Matusa não sabia que, muito longe de sua casa, palavras antigas permaneciam preservadas havia incontáveis gerações.

Uma profecia cuja origem se perdera entre os primeiros tempos de Crimston.

Ela não anunciava um nome.

Não mencionava Matusalém.

Não falava de Sahmira.

Dizia apenas:

“Quando a chama reconhecer aquilo que não criou,

Uma criança nascerá sob o silêncio do fogo.

O calor não a consumirá.

A brasa conhecerá suas mãos.

E aquilo que arde se curvará sem ser dominado.

Não será filha somente de Crimston,

Embora Crimston a chame de sua.

Caminhará pelo deserto.

Perderá aquilo que nenhum fogo poderá devolver.

E quando sua própria chama estiver próxima de morrer,

O Dourado atravessará as areias.

Então ela deverá escolher:

Arder pela própria dor

Ou iluminar mundos que ainda não conhece.

Quando a filha do deserto erguer os olhos para as estrelas,

Outros destinos já estarão, despertando.

E cinco mundos compreenderão

Que jamais sustentaram a Luz sozinhos.”

Durante eras, ninguém soubera quem era a criança.

Talvez porque ainda não tivesse nascido.

Naquela época, porém, nada disso importava para Matusa.

Ela não conhecia profecias.

Não conhecia o destino que a aguardava.

Não sabia que um dia deixaria Crimston.

E não fazia ideia de que existiam dores que nem mesmo o fogo seria capaz de consumir.

Matusa conhecia coisas muito menores.

A voz da mãe.

As mãos do pai.

As provocações de Ramsés.

As ruas de Sahmira.

As noites de Kharíam.

E o calor de sua casa.

Para ela, aquilo era o mundo inteiro.

Até o dia em que o fogo respondeu.

PARTE I - A FILHA DO DESERTO

CAPÍTULO 1 - A MENINA DO DESERTO DE FOGO

— Matusa!

A menina continuou correndo.

— Matusa, espere!

Ela ouviu o irmão.

E acelerou.

Atrás dela, Ramsés soltou um grito indignado.

— Isso é trapaça!

Matusa saltou sobre uma formação baixa de pedras avermelhadas, apoiou uma das mãos na superfície quente e aterrissou do outro lado.

Seus pés levantaram uma pequena nuvem de areia.

— Só é trapaça porque você está perdendo!

— Você saiu primeiro!

— Porque você estava falando!

— Você disse que ia contar até três!

Matusa olhou por cima do ombro.

— Eu contei.

— Você falou “um, dois, três” correndo!

Ela riu.

Ramsés vinha atrás, tentando alcançá-la.

O garoto era mais novo, mas jamais aceitava isso como justificativa para perder qualquer disputa contra a irmã.

Principalmente uma corrida.

O sol de Sahmira permanecia alto, derramando luz sobre a planície que antecedia as primeiras extensões de Kharíam. A vegetação se tornava mais espaçada conforme o terreno avançava para o deserto. Arbustos de folhas grossas cresciam entre pedras, e árvores baixas projetavam sombras largas sobre o solo seco.

Mais adiante, as dunas começavam.

Matusa conhecia aquela região.

Ou acreditava conhecer.

— Até a pedra! — gritou Ramsés.

— Você disse até a árvore!

— Mudei!

— Não pode mudar!

— Posso se ainda não chegamos!

— Então eu mudo também!

— Para onde?

Matusa apontou.

Ramsés acompanhou o gesto.

Bem mais distante estava uma formação rochosa escura que os habitantes de Sahmira conheciam como um dos primeiros marcos das antigas rotas de Kharíam.

O sorriso do garoto desapareceu.

— Nem pensar.

Matusa parou.

— Está com medo?

Ramsés estreitou os olhos.

Ela conhecia aquela expressão.

— Não.

— Está.

— Não estou.

— Está, sim.

— Mamãe disse para não irmos tão longe.

Matusa colocou as mãos na cintura.

— Então está com medo da mamãe.

— Você também deveria estar.

Ela tentou permanecer séria.

Não conseguiu.

Os dois começaram a rir.

A corrida terminou ali.

Por alguns instantes, ficaram recuperando o fôlego enquanto o vento quente atravessava a planície.

Ao longe, Sahmira permanecia visível.

Não era uma cidade gigantesca.

Também não era uma aldeia esquecida no deserto.

Era uma cidade antiga, construída ao longo de muitas gerações em uma região onde rotas comerciais vindas de diferentes partes de Crimston se encontravam antes de contornar Kharíam.

Casas de pedra clara e avermelhada ocupavam ruas protegidas por árvores de grandes copas. Torres baixas de circulação de ar ajudavam a resfriar as construções. Canais conduziam água até plantações, pomares e praças.

Mais perto do centro, mercados cobertos permaneciam movimentados durante quase todo o dia.

Tecidos balançavam sob os toldos.

Veiculos de cargas e animais com carroças, descansavam próximos aos bebedouros.

Artesãos trabalhavam metais, pedras, cerâmicas e materiais trazidos de outras regiões.

E viajantes chegavam constantemente.

Alguns vinham de outras cidades de Crimston.

Outros vinham de muito mais longe.

Matusa gostava destes últimos.

Quando encontrava alguém diferente, queria saber de onde vinha.

Como era sua cidade.

O que comia.

Como eram seus animais.

Se seu povo também tinha desertos.

Olga dizia que a filha perguntaria até descobrir onde terminava o Firmamento.

Matusa não via problema algum nisso.

Ramsés chutou uma pedra.

— Eu teria ganhado.

— Não teria.

— Se você tivesse contado direito.

— Perdeu.

— Trapaceira.

— Lento.

Ele jogou um punhado de areia nela.

Matusa arregalou os olhos.

— Você não fez isso.

Ramsés já estava correndo.

— RAMSÉS!

Ela disparou atrás dele.

O garoto ria tanto que quase tropeçou.

Matusa o alcançou perto de uma árvore de tronco escuro.

Agarrou a parte de trás da roupa do irmão.

— Peguei!

— Solta!

— Pede desculpa.

— Nunca!

Ela tentou derrubá-lo.

Ramsés girou.

Os dois caíram.

Por alguns segundos, não houve primogênita, irmão mais novo, descendentes de linhagem alguma ou qualquer preocupação com o mundo.

Havia apenas duas crianças rolando na areia.

Até Matusa sentir alguma coisa tocar seu braço.

Ela parou.

Ramsés também.

Um pequeno animal havia saído de uma abertura entre as pedras.

Possuía corpo alongado, quatro patas curtas e uma fileira de pequenas placas brilhantes sobre o dorso. A pele, quase da mesma tonalidade do terreno, tornava difícil percebê-lo quando permanecia imóvel.

Ramsés sussurrou:

— Não mexe.

Matusa olhou para ele.

— Por quê?

— Pode morder.

— Você nem sabe o que é.

— Justamente.

O animal aproximou o focinho da mão de Matusa.

Ela ficou imóvel.

Cheirou seus dedos.

Depois seguiu adiante.

Ramsés soltou o ar.

— Eu sabia que não mordia.

Matusa virou-se para ele.

— Você acabou de dizer que podia morder.

— Eu estava testando você.

— Claro.

O animal desapareceu entre os arbustos.

Matusa levantou-se e limpou a areia da roupa.

Foi então que ouviu.

Um som distante.

Grave.

Ela ergueu a cabeça.

Ramsés também percebeu.

Vinha da direção de Sahmira.

Não era um alarme.

Era um chamado.

— Estamos atrasados — disse Ramsés.

Matusa olhou para a posição do sol.

Seu rosto mudou.

— Ah, não.

— Mamãe vai matar você.

— Nós dois.

— A ideia foi sua.

— Você veio porque quis!

— Vou contar isso para ela.

— E eu conto quem quebrou o recipiente de água ontem.

Ramsés ficou em silêncio.

Matusa sorriu.

— Vamos.

Os dois começaram a voltar.

Sahmira parecia ainda mais viva quando atravessaram os primeiros arcos da cidade.

Matusa diminuiu o passo.

Sempre fazia isso.

O mercado era uma tentação.

O cheiro de pães assados misturava-se ao de especiarias, frutas e carnes preparadas sobre placas aquecidas. Vendedores anunciavam produtos. Artesãos discutiam preços. Crianças carregavam pequenos cestos entre as bancas.

Um grupo de viajantes descarregava mercadorias de uma caravana recém-chegada.

Matusa observou tudo.

— Não — disse Ramsés.

— Eu não falei nada.

— Você está olhando.

— Posso olhar.

— Quando você olha assim, a gente se atrasa.

Matusa apontou para uma banca.

— Só quero ver aquilo.

— Matusa.

— Um minuto.

— Você sempre fala um minuto.

Ela já estava indo.

Ramsés fechou os olhos.

— Eu vou morrer por causa de você.

Matusa parou.

Virou-se.

— Então vem morrer aqui.

Ramsés resmungou alguma coisa e a seguiu.

A banca pertencia a uma artesã idosa que Matusa conhecia desde pequena.

Sobre a mesa estavam pequenas peças de metal, pingentes, utensílios e miniaturas de animais de diferentes regiões de Crimston.

A mulher viu os dois.

— Os filhos de Matusalém.

Ramsés apontou imediatamente para a irmã.

— Foi ela.

A artesã arqueou uma sobrancelha.

— O que ela fez?

— Ainda não sei. Mas quando alguém chama a gente desse jeito, normalmente fizemos alguma coisa.

A velha riu.

Matusa deu uma cotovelada no irmão.

— Chegaram coisas novas?

— Sempre chegam.

Ela mostrou uma pequena peça.

Era uma ave de metal escuro com as asas abertas.

Matusa pegou-a.

— De onde é?

— Das regiões altas do sul.

— Ela voa?

— A verdadeira?

Matusa assentiu.

— Durante dias, se precisar.

Ramsés aproximou-se.

— Quanto custa?

A velha falou o preço.

Os dois fizeram exatamente a mesma expressão.

— Ela não voa tanto assim — concluiu Ramsés.

A artesã riu novamente.

Matusa devolveu a miniatura com cuidado.

— Um dia eu compro.

— Um dia você vai querer comprar metade de Crimston.

— Só metade?

A mulher observou Matusa por um instante.

Havia algo afetuoso em seu olhar.

— Sua mãe está procurando vocês.

Matusa congelou.

Ramsés sorriu.

— Eu avisei.

— Há quanto tempo?

— Tempo suficiente.

Matusa segurou Ramsés pelo braço.

— Vamos.

— Agora está com pressa?

— Ramsés!

Saíram correndo.

A casa de Matusalém e Olga ficava afastada do centro mais movimentado.

Não era pobre.

Também não lembrava as grandes residências de famílias influentes de Ignara que Matusa vira em ilustrações e projeções.

Era uma casa confortável, construída ao redor de um pequeno pátio.

Havia plantas.

Uma árvore antiga oferecia sombra sobre parte da entrada.

Olga estava esperando.

Braços cruzados.

Matusa parou.

Ramsés parou atrás dela.

Nenhum falou.

Olga olhou primeiro para Matusa.

Depois para Ramsés.

Depois para a quantidade de areia sobre os dois.

— Kharíam?

Matusa respondeu:

— Tecnicamente, não.

Ramsés virou lentamente o rosto para a irmã.

Olga estreitou os olhos.

— Tecnicamente?

— Ficamos antes das dunas.

— Matusa.

— É verdade.

— Eu disse que poderiam ir até as árvores da planície.

Matusa apontou para trás.

— Tinha árvores.

Ramsés abaixou a cabeça para esconder o sorriso.

Olga viu.

— E você?

— Eu tentei impedir.

Matusa virou-se imediatamente.

— Mentiroso!

— Eu falei que mamãe tinha dito para não irmos longe!

— Depois de correr comigo!

— Mas falei!

— Você jogou areia em mim!

— Porque você trapaceou!

Olga levou uma mão à testa.

— Entrem.

Os dois obedeceram.

— E lavem as mãos.

Ramsés passou por ela.

— Eu ainda acho que ela deveria receber uma punição maior.

Olga segurou-o pelo ombro.

— Você foi junto.

O sorriso dele desapareceu.

Matusa sorriu.

— Justiça.

— Entre, Matusa.

Ela entrou.

Olga esperou os dois desaparecerem.

Só então sorriu.

Matusalém chegou quando o céu começava a mudar.

Matusa o ouviu antes de vê-lo.

Havia outras vozes com ele.

Ela saiu para o pátio.

Três homens acompanhavam seu pai.

Um deles era muito mais velho.

Falavam baixo.

Matusalém escutava.

Ele era um crimstoniano alto, de presença firme, e mesmo usando roupas simples havia algo em sua postura que fazia as pessoas prestarem atenção quando falava.

Matusa já havia percebido isso.

Não entendia por quê.

— Se fecharmos a passagem inteira — dizia um dos homens —, prejudicaremos as caravanas.

— Se não fizermos nada, alguém vai morrer — respondeu outro.

Matusalém permaneceu em silêncio por alguns segundos.

— Não vamos fechar Kharíam.

O homem mais velho franziu a testa.

— Então?

— Mudaremos a rota durante alguns dias. Enviaremos dois grupos para verificar o trecho e avisaremos Sahmira e as comunidades menores.

— Isso exige gente.

— Eu vou com um dos grupos.

Os homens se entreolharam.

— Você não precisa ir pessoalmente.

Matusalém respondeu:

— Se estou pedindo que outros arrisquem a vida, preciso estar disposto a fazer o mesmo.

Matusa ficou observando.

Um dos homens percebeu a menina.

— Sua conselheira chegou.

Matusalém olhou.

O semblante sério desapareceu.

— Minha conselheira costuma cobrar caro.

Matusa aproximou-se.

— Depende do problema.

— Rotas de Kharíam.

Ela pensou.

— Muito caro.

Os homens riram.

Matusalém colocou a mão sobre a cabeça da filha.

— Vá ajudar sua mãe.

— Já ajudei.

— Então ajude de novo.

— Isso não parece justo.

— A vida é difícil.

Matusa fez uma careta.

Antes de sair, ouviu o homem mais velho dizer:

— Você fala como seu avô.

Matusalém ficou sério.

Matusa diminuiu o passo.

— Não — respondeu seu pai. — Falo como eu.

Ela olhou para trás.

Os homens retomaram a conversa.

Matusa continuou andando.

Mas guardou aquela frase.

Naquela noite, a família comeu no pátio.

O calor do dia havia diminuído.

Ramsés contou sua versão da corrida.

Matusa interrompeu quatro vezes.

— Ela começou antes — insistiu ele.

— Você estava distraído.

— Porque você perguntou se eu estava pronto!

— E estava?

— Não!

— Então por que respondeu “sim”?

Olga começou a rir.

Matusalém tentou esconder o próprio sorriso.

— Pai — disse Ramsés —, explica para ela.

Matusalém pensou seriamente.

— Acho que seu erro foi responder que estava pronto quando não estava.

Matusa abriu os braços.

— Está vendo?

— Isso não ajuda!

Olga olhou para o marido.

— Excelente liderança.

— Tento manter a paz.

— Está falhando.

A conversa continuou.

E durante algum tempo nada existiu além daquilo.

Comida.

Risos.

Provocações.

Uma família.

Matusa não sabia que anos depois daria qualquer coisa para viver novamente uma noite tão comum.

Naquela noite, o comum parecia eterno.

Depois da refeição, Ramsés foi buscar algumas coisas dentro da casa.

Matusa permaneceu no pátio.

Uma pequena chama queimava dentro de um recipiente baixo usado para iluminar a mesa.

Ela ficou olhando.

O fogo se movia suavemente.

Matusa aproximou a mão.

Sentiu o calor.

Normal.

Moveu os dedos.

A chama oscilou.

Ela parou.

O fogo também pareceu parar.

Matusa franziu a testa.

Moveu a mão para a esquerda.

A chama inclinou-se.

Para a direita.

A chama acompanhou.

Matusa aproximou o rosto.

— O que você está fazendo?

Ela se assustou.

Ramsés estava atrás dela.

— Nada.

— Eu vi.

— Viu o quê?

Ele se aproximou.

— Faz de novo.

— Fazer o quê?

— Aquilo com a chama.

Matusa olhou para o recipiente.

— Eu não fiz nada.

— Fez, sim.

— Foi o vento.

Ramsés olhou ao redor.

As folhas da árvore estavam praticamente imóveis.

— Que vento?

Matusa cruzou os braços.

— Você está inventando coisas porque perdeu a corrida.

— Não estou!

Ramsés se ajoelhou diante do fogo.

Estendeu a mão.

Moveu os dedos.

Nada aconteceu.

Tentou novamente.

Matusa começou a rir.

— O que você está fazendo?

— Cala a boca.

— Está tentando mandar no fogo?

— Você fez!

— Ramsés…

— Faz.

— Não.

— Está com medo?

Matusa parou de rir.

— Não.

— Então faz.

Ela olhou para a chama.

Depois para o irmão.

Estendeu lentamente a mão.

Nada.

Ramsés sorriu.

— Viu?

Matusa moveu um dedo.

A chama inclinou-se.

O sorriso desapareceu.

Matusa ficou imóvel.

Moveu outro dedo.

Uma pequena língua de fogo acompanhou o movimento.

Os dois se encararam.

Desta vez…

não havia vento.

Ramsés aproximou-se mais.

— De novo.

Matusa moveu a mão.

A chama seguiu.

Seu coração acelerou.

— Como você está fazendo isso? — sussurrou Ramsés.

— Eu não sei.

Ela baixou a mão.

A chama voltou à posição normal.

Ramsés permaneceu olhando para o fogo.

Depois olhou para a irmã.

— Vou contar para a mamãe.

Matusa agarrou seu braço.

— Não!

— Por quê?

Ela não soube responder.

Talvez porque aquilo fosse estranho.

Talvez porque, pela primeira vez, alguma coisa que sempre lhe parecera familiar tivesse se tornado desconhecida.

— Só não conta.

Ramsés analisou o rosto da irmã.

— Está com medo?

Matusa olhou novamente para o fogo.

— Não.

Mas dessa vez não falou com tanta certeza.

Ramsés ficou ao lado dela.

Não riu.

Não provocou.

Apenas observou.

Matusa ergueu novamente a mão.

A chama se inclinou em sua direção.

Os olhos da menina refletiram o fogo.

Naquele momento, ninguém pronunciou profecias.

Nenhum sacerdote sentiu uma revelação.

Nenhuma cidade se ajoelhou.

Nenhuma voz desceu das estrelas.

Havia apenas duas crianças no pátio de uma casa em Sahmira.

Um irmão.

Uma irmã.

E uma pequena chama fazendo algo que não deveria fazer.

Ramsés finalmente sussurrou:

— Acho que ela gosta de você.

Matusa olhou para ele.

— É fogo.

— E daí?

— Fogo não gosta de ninguém.

Ramsés voltou a olhar para a chama.

— Então por que ela está olhando para você?

Matusa quase riu da pergunta.

Quase.

Porque, quando tornou a olhar para o recipiente, a chama continuava inclinada em sua direção.

Como se esperasse.

Como se escutasse.

Matusa retirou lentamente a mão.

O fogo permaneceu imóvel por um instante.

Então voltou a arder normalmente.

Naquela noite, a menina de Sahmira foi dormir pensando que havia descoberto algo sobre o fogo.

Ainda levaria muitos anos para compreender que acontecera exatamente o contrário. “O fogo havia começado a descobrir quem era Matusa”

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