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Dezesseis anos atrás...
Aurora.
Eu tinha cinco anos.
Eu nasci com uma condição rara. Era albina. A pele branca demais, quase transparente, que queimava fácil demais no sol do Morro da Maré. Os cabelos loiros claros, quase brancos, finos e lisos, que caíam nos ombros como neve derretida. Os olhos claros, sensíveis à luz. Qualquer raio de sol forte me fazia apertar os olhinhos e esconder o rosto. Pedro me chamava de “pequena floco de neve”. Sempre. Desde que eu me entendia por gente.
— Vem cá, minha pequena floco de neve — ele dizia, me pegando no colo com cuidado, como se eu fosse quebrar. — Hoje o sol tá bravo. Fica na sombra comigo.
A gente passava fome. Muita. Às vezes a mamãe cozinhava só um pouco de arroz com água e sal. Outras vezes não tinha nem isso. A barriga doía. Eu sentia o estômago grudar nas costas. Pedro sempre me dava o pouco que tinha. Ele comia menos pra eu comer mais. Eu via, mesmo com cinco anos. Via ele fingindo que não tinha fome.
A casa chicava. Chovia e a água entrava por todo lado. Pelo telhado furado, pelas frestas das paredes de madeira podre. Molhava a cama, molhava a roupa, molhava o chão de concreto rachado. A gente colocava baldes e panelas pra pegar a água, mas nunca dava conta. O cheiro de mofo era constante. De noite eu escutava o ping-ping da água caindo e o barulho dos ratos andando pelas beiradas.
Um dia, dias antes daquele sorvete, eu vi a briga.
A mamãe tava na cozinha, chorando alto. Tinha um pino na mão. Um daqueles pacotinhos pequenos de plástico que eu já tinha visto escondidos nas coisas do Pedro. Ela apertava o pino com força, as mãos tremendo.
— Não acredito nisso, Pedro! Não acredito! — a voz dela saía quebrada, cheia de choro. — Você prometeu que ia parar! Prometeu pra mim e pra sua irmã!
Pedro tava em pé na frente dela, a cabeça baixa, a mandíbula travada.
— Mãe, para. Não é o que você tá pensando.
— Não é o que eu tô pensando? Eu achei isso na sua gaveta, car alho! Você tá mexendo com essa merda de novo? Depois de tudo que a gente já passou? Depois de eu te criar sozinha?
Ela chorava mais forte. As lágrimas escorriam pelo rosto cansado. Eu estava escondida atrás da porta da sala, os pezinhos descalços no chão molhado, ouvindo tudo sem entender direito. Só sabia que a mamãe tava triste e que o Pedro tava sendo xingado.
— Eu vou parar, mãe. Eu juro. É a última vez. Preciso só acertar umas coisas e paro de vez.
— Você sempre fala a mesma coisa! Sempre! E a Aurora? Sua irmãzinha que já sofre pra cara lho com essa pele, com esse sol, passando fome, dormindo com a casa virando uma piscina… e você metido nessa vida?
Pedro passou a mão no rosto.
— Eu faço isso pra gente comer, po rra. Pra não deixar ela passar mais fome. Você acha que eu gosto?
A mamãe soluçou, apertando o pino com mais força.
— Então para de verdade. Para agora. Antes que acabe com a gente.
Eu não entendia as palavras grandes. “Pino”, “parar”, “essa vida”. Só entendia o choro da mamãe e o jeito que o Pedro olhava pro chão. Depois ele me viu escondida. Veio até mim, me pegou no colo e beijou a cabeça branca.
— Não escuta isso, pequena floco de neve. Tá tudo bem. O mano resolve.
Mas não tava tudo bem. Eu sentia.
Dias depois a mamãe tava de novo na cozinha, fritando o pouco que tinha. O cheiro de óleo quente e cebola subia pela casa pequenininha e úmida.
— Pedro, leva a menina tomar um sorvete, mas não demora, tá? A comida já tá quase pronta. Não quero vocês andando por aí quando escurecer.
Pedro sorriu daquele jeito dele, o sorriso grande que fazia os olhos apertarem. Ele me pegou no colo com o mesmo cuidado de sempre, protegendo minha pele clara do sol que entrava pelas frestas.
— Pode deixar, mãe. A gente volta logo.
Eu enrolei os bracinhos no pescoço dele e enfiei o rostinho no ombro. O cheiro dele era de sabonete barato e de sol. Eu adorava aquele cheiro. Meus cabelos brancos claros balançavam contra o peito dele.
Eu ri. A risada saiu aguda, de criança feliz, mesmo com a barriga ainda um pouco vazia. Ele desceu a ladeira me carregando, falando besteira, me fazendo cócegas de vez em quando. O sol batia forte no asfalto quente. Eu escondia o rosto no pescoço dele pra não queimar. As pessoas passavam, algumas cumprimentavam ele com a cabeça. No Morro da Maré todo mundo conhecia o Pedro. Ele era o irmão mais velho de todo mundo, de certo jeito.
Chegamos no barraco do seu Zé, o homem que vendia sorvete numa caixa de isopor. Pedro me colocou no chão só pra pagar, depois me pegou de novo e me deu o picolé. morango derretendo já nas bordas. Eu chupava com vontade, o sorvete escorrendo pelos dedos brancos, pela boca, pingando na blusinha. A pele albina marcava fácil qualquer sujeira.
A gente sentou num meio-fio meio quebrado, na sombra de uma parede. Pedro me mantinha no colo ainda. Eu batia os pezinhos no ar, feliz.
— Tá!
Eu chupava e ria. O mundo era só aquilo,o sorvete, o colo do meu irmão, o calor do sol filtrado e a voz dele.
De repente ele ficou estranho.
O corpo endureceu embaixo de mim. Os braços que me seguravam apertaram um pouco demais. Eu senti o peito dele subir e descer mais rápido.
Ele me tirou do colo com cuidado e me colocou no chão.
— Fica atrás de mim, Aurora.
Olhei por trás da perna dele.
Um homem alto vinha andando pela viela. Alto pra caramba, Tinha um pano preto cobrindo o rosto inteiro, só os olhos apareciam. Atrás dele vinham outros. Muitos. Todos armados. Armas grandes, pretas, brilhando no sol. Eu nunca tinha visto tanta arma tão perto. Meu coraçãozinho apertou. A pele branca arrepiou inteira.
— Cadê meu dinheiro, po rra? Eu mandei você trazer hoje.
Eu arrepiei mais ainda. A voz era feia. Pesada. Eu comecei a chorar baixinho, o sorvete ainda na mão, derretendo nos dedos claros.
Pedro passou a mão nas minhas costas, um carinho rápido, tentando me acalmar sem tirar os olhos do homem. Os dedos dele tocavam meu cabelo com o mesmo carinho de sempre.
— Eu disse que ia pagar quando desse, car alho. Não tô com paciência hoje, Lucas.
O homem — Lucas — deu um passo à frente. Os outros ficaram em volta, como se formassem uma cerca.
— Você perdeu a po rra da carga, seu filho da pu ta. O dono do morro tá pu to pra car alho com você. mandou dizer que se você não der o dinheiro hoje, ele te mata. Entendeu, desgraçado?
Pedro não recuou. Ele era teimoso. Sempre foi.
— Isso é problema dele, po rra. Eu não tenho o dinheiro agora.
Lucas deu uma risada seca, abafada.
— Problema dele? Você que perdeu essa merda. Era pra você assumir esse B.O., não eu. Eu tô aqui cobrando porque o chefe mandou. E você tá me fazendo perder tempo, seu otário.
A discussão ficou feia rápido. Palavrão pra todo lado. Pedro peitando o cara, voz alta, corpo na frente do meu. Eu, pequena, frágil demais, só chorava escondida atrás das pernas dele.
— Vai tomar no c u, Lucas. Eu já falei que não tenho. Você quer o quê? Que eu tire dinheiro do c u?
— Eu quero o que é meu, car alho! Você perdeu a carga e agora quer se fazer de vítima? Se não pagar, eu te mato aqui mesmo. na frente dessa pirralha.
Pedro empurrou o peito de Lucas com a mão.
— Não provoca, po rra. Não fala da minha irmã.
Lucas perdeu a cabeça.
— Não provoca? Você que tá me provocando, desgraçado!
A briga ficou feia de verdade. Gritos. Empurrões. Os outros homens se mexendo, armas apontadas. Eu cobria os ouvidos com as mãozinhas e chorava desesperada, chamando
— Pedro… Pedro…
Meu irmão se colocou ainda mais na frente. Peitou o cara de novo.
— Vai embora. Vai embora agora, po rra.
Lucas ergueu a arma.
O barulho foi seco. Alto. Um estrondo que fez meu corpo inteiro tremer.
Pedro caiu.
Ele caiu na minha frente. Os olhos abertos, a boca aberta, um buraco vermelho se abrindo no peito. Eu gritei. Gritei com toda a força que uma criança de cinco anos tem.
— Pedro! Pedro! Acorda! Acorda, por favor!
Eu me joguei em cima dele. As mãos pequenas e brancas tentando tapar o sangue que saía quente. O cheiro era metálico, horrível. O sangue contrastava demais com a minha pele albina. Eu chorava tanto que quase não enxergava. Os cabelo grudavam no vermelho.
Por um segundo olhei pra cima.
O homem do pano ainda estava ali. Os olhos. Só os olhos. Verdes. Verdes como nada que eu já tinha visto. Verdes e frios. Ele me olhou. Só isso. Um segundo. Depois virou o rosto.
Um dos outros homens gritou, a voz trêmula
— Car alho, Lucas! Tu matou o Pedro! Agora tu tá fud ido, po rra! O chefe vai acabar com a tu po rra! Ele não deu ordem pra matar, cara lho! Só cobrava o dinheiro!
Lucas xingou baixo, algo que eu não entendi. Depois os homens começaram a sair. Rápido. O som dos passos se afastando pela viela. O silêncio que ficou depois foi pior que o tiro.
Eu fiquei ali. Em cima do corpo do meu irmão. Chamando ele. Chorando até a voz sumir. O sangue esquentava minhas mãos claras, minha blusa, meu cabelo .O sorvete derretido no chão misturava com o vermelho.
Eu não entendia nada. Só sabia que o Pedro não respondia mais. Que os braços dele não me pegavam mais. Que o cheiro dele sumia devagar, substituído por outro cheiro que eu nunca ia esquecer. Que a pequena floco de neve tinha ficado sozinha no meio da viela molhada e violenta do Morro da Maré.
A mamãe chegou gritando minutos depois. Ou horas. Eu não sei. O tempo tinha parado.
os olhos verdes do homem que matou ele ficaram grudados na minha cabeça pra sempre.


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