Bem-vindo à Violence City
Um carro rodava em ritmo lento pelo deserto escaldante do Arizona. O ar, denso e abafado, fazia a pele suar sem qualquer esforço.
No painel, uma rádio de jazz tocava suavemente, criando um contraste bizarro com o calor infernal do lado de fora. No banco de trás, com as mãos atadas, estava Prince. O garoto pálido e de cabelos loiros mantinha a cabeça encostada no vidro, observando a paisagem de forma apática, como quem apenas aceita o próprio destino. Um silêncio ensurdecedor reinava dentro do veículo desde o início da viagem.
Ao volante, um guarda batia os dedos no ritmo da música. Sob o bigode grosso, ele ostentava um sorriso convencido antes de finalmente quebrar o silêncio:
— Cê tá fodido, garoto. — Fez uma pausa, deixando a provocação pairar no ar. — Vamos ver se você aguenta pelo menos uma noite. — Soltou um riso curto e debochado.
No banco traseiro, Prince apenas curvou os lábios num leve sorriso, sem se importar com a ameaça. Pelo retrovisor interno, o motorista notou a total falta de reação do rapaz.
Irritado com a indiferença, o sorriso do homem se tornou selvagem:
— Talvez você até seja abusado. Eles adoram carne fresca. — Mais uma vez, Prince não piscou. A irritação do homem escalou. — Sabe, talvez eles até te mat...
— Pare de falar — interrompeu Prince, a voz serena e gélida.
O guarda esteve a ponto de explodir, mas respirou fundo, pisou no acelerador e decidiu deixar para lá.
Minutos depois, o veículo estacionou no pátio gigantesco de Violence City. A estrutura era colossal: muros altíssimos e uma fachada negra que se destacava na imensidão do deserto. As paredes desgastadas pelo tempo denotavam que aquele lugar existia há muito mais tempo do que qualquer um imaginava.
Outros carros encostavam ao mesmo tempo, desembarcando mais guardas e um contingente de alunos que pareciam infinitamente mais perigosos do que o normal.
Quatro desses recém-chegados, incluindo Prince, foram conduzidos até a Sala de Triagem. Alinharam os detentos sobre uma linha vermelha pintada no chão. Duas garotas encaravam Prince e um garoto esguio no canto, com expressões transbordando desconfiança e hesitação.
A porta se abriu e uma guarda caminhou até o centro da sala, acompanhada por quatro subordinados que carregavam grandes caixas vermelhas. Ela encarou o grupo com visível nojo e começou a marchar de um lado para o outro.
— Atenção, seus merdas! — gritou. — Aqui é o fundo do poço, porra! Isso não é universidade particular e não tem leite com pera pra ninguém! — Ela parou bruscamente, fincando os pés no chão. — Aqui a gente vai tratar vocês como bosta, até que entendam que são, de fato, uns bostas!
Ela estalou os dedos. Imediatamente, os guardas avançaram, entregando uma caixa para cada detento.
A mulher voltou a marchar.
— Dentro dessa caixa estão seus itens pessoais: toalha, travesseiro, escova de dentes, uniforme e dinheiro.
Os novatos inspecionaram o conteúdo com cuidado. O garoto esguio retirou um maço de notas, mas o que chamou sua atenção foi a cor do papel: um vermelho-sangue profundo e perturbador. Ele ergueu a mão e a guarda autorizou a fala com um aceno rígido.
— Com licença... o que são essas notas?
A mulher suspirou, sem paciência:
— É a moeda daqui: os Bloods. É com isso que vocês compram tudo: drogas, vadias e comida. Usem bem essa porra, porque vocês só recebem cem bloods por mês.
Enquanto as garotas encaravam os objetos de qualidade duvidosa, Prince tirou o uniforme da caixa. A roupa era vermelha com inscrições em roxo-escuro e, surpreendentemente, o tecido parecia ser de altíssima qualidade.
Duas palmas fortes da guarda ecoaram pela sala, fazendo quase todos sobressaltarem, com exceção de Prince.
— Bora, porra! Vistam-se! Eu não tenho o dia todo, caralho!
As garotas se entreolharam, assustadas, e depois encararam Prince e o garoto no canto.
— Aqui...? Bem aqui? — indagou uma delas.
A guarda riu de canto e deu dois passos à frente.
— Sim, vadia, bem aqui. Ninguém vai se importar com essa moita aí no meio, fica tranquila.
Diante da perplexidade da garota, a mulher esbravejou mais uma vez:
— Bora, se troquem logo, caralho! Já tem guarda esperando por vocês!
Apressados, os alunos começaram a se trocar.
Alguns minutos depois, Prince era conduzido por um corredor estreito por um guarda musculoso. O rapaz continuava sem demonstrar qualquer emoção, o que parecia perturbar até mesmo o seu escolta.
Nas laterais, os veteranos se acotovelavam contra as grades para ver o novato passar. Lançavam xingamentos, ameaças e gritos obscenos. As garotas faziam comentários provocantes. Prince nem sequer piscava.
O guarda parou em frente a uma das grades e anunciou com uma voz robótica:
— Detento Prince, número 1345. Cela 130, beliche de cima. — Empurrou o garoto para dentro e seguiu em frente.
Lá dentro, dois veteranos congelaram assim que o número foi anunciado. Um deles tinha a pele parda, usava regata e exibia tranças nagô. O outro estava sentado na parte superior do beliche, tragando um baseado de maconha.
Os dois se entreolharam e voltaram os olhos para o recém-chegado. Em resposta, Prince mantinha no rosto uma expressão de puro tédio enquanto dava alguns passos para o interior do cômodo.
Atrás dele, a porta de ferro se fechou com um baque ensurdecedor.




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