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Depois daquele ano.

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Summary

Em Ann Arbor, Michigan, Savannah aprendeu que ser invisível dói menos do que ser notada. Enquanto os pais gastam com drogas o dinheiro que deveria sustentar a casa, ela trabalha escondido, estuda de madrugada e suporta as humilhações dos colegas na melhor escola da cidade. Sua bolsa de estudos é a única oportunidade de escapar daquele cotidiano. No último ano do ensino médio, tudo o que deseja é conquistar uma vaga na faculdade e cursar medicina. Até a direção condicionar a renovação de seu auxílio à tarefa de dar aulas particulares a Chaase, a estrela do time de hóquei. Lindo, rico e extremamente arrogante, ele está acostumado a conseguir tudo sem esforço inclusive a atenção das garotas. Savannah, porém, não demonstra interesse em agradá-lo. Entre discussões, encontros obrigatórios e confidências inesperadas, a indiferença começa a desaparecer. Chaase passa a procurar motivos para prolongar as aulas. Savannah se pega esperando por ele, mesmo sabendo como os amigos dele a tratam. Pela primeira vez, alguém percebe quando ela está com fome, cansada ou tentando esconder o choro. E, enquanto Chaase descobre que desejar sua companhia exige aprender a merecê-la, Savannah enfrenta um medo novo: permitir que alguém se torne importante antes de partir.

Genre
Romance
Author
JA
Status
6h ago
Chapters
17
Rating
n/a
Age Rating
18+

Capítulo 1 - O que eu consegui salvar.

SAVANNAH

Meu rosto ardia onde a mão dela tinha acertado.

Eu estava no chão da cozinha, com um joelho dobrado debaixo do corpo e a palma apoiada em alguma coisa pegajosa. Perto da geladeira, uma mosca pousava sobre os restos de comida num prato. Fiquei olhando para ela enquanto tentava recuperar o fôlego.

Não devia ter entrado.

Depois de uma semana escondida na casa da árvore, eu precisava buscar o restante das minhas roupas. Quase tudo que possuía já estava lá, no meio da mata que começava atrás do nosso quintal, mas algumas peças ainda tinham ficado na gaveta do meu quarto.

Esperara até o carro do meu pai desaparecer e observara as janelas por quase vinte minutos. Nenhum movimento. Nenhuma televisão ligada.

Minha mãe estava dormindo no sofá.

Acordou quando abri a gaveta.

— Sua puta maldita! Cadê o dinheiro? — O grito veio antes de eu conseguir me virar. Ela agarrou meu cabelo e me puxou para fora do quarto, com o rosto vermelho e os dentes apertados. — Me dá o dinheiro, sua maldita!

Tropecei tentando acompanhar os passos dela. Quando chegamos à cozinha, minha mãe me empurrou, e eu caí de joelhos.

Segurei o pulso dela por reflexo, tentando aliviar a pressão no meu cabelo.

Foi pior.

Ela me deu um tapa tão forte que minha cabeça virou para o lado.

Agora continuava de pé sobre mim, os dedos presos nos meus fios, sem me dar espaço para levantar. O couro cabeludo queimava. Meu cotovelo tinha batido no armário durante a queda, e qualquer movimento fazia a dor atravessar meu braço.

Minha mãe cheirava a bebida velha e suor. A camiseta tinha uma mancha escura no peito; os pés estavam descalços entre migalhas e cacos que ninguém recolhera.

— Eu sei que você recebeu! — Ela aproximou o rosto do meu, falando alto demais, a saliva atingindo minha pele. Havia raiva na expressão dela, uma impaciência que eu conhecia bem. — Acha que sou idiota? Anda! Me dá essa porra!

Eu recebera na sexta-feira.

Ela sabia os dias.

Podia esquecer meu aniversário, mas nunca esquecia quando o restaurante me pagava.

A porta dos fundos bateu.

Meu pai entrou com um cigarro apagado entre os lábios. Quando me viu no chão, parou apenas para fechar a porta.

Olhou para mim, depois para a mão da minha mãe agarrada ao meu cabelo.

Por um instante, esperei que ele segurasse o braço dela e a obrigasse a me soltar.

Ele passou por nós e abriu a geladeira.

Nem perguntou o que tinha acontecido.

Nenhum dos dois se importava com a semana em que eu não aparecera. Não queriam saber onde eu dormia, se tinha comido ou como chegava à escola. Minha ausência só virava um problema quando precisavam do dinheiro que eu ganhava.

Meu pai olhou para a mochila junto à porta, e meu estômago se contraiu.

Os livros estavam ali. Meu uniforme. O caderno com os prazos das inscrições universitárias.

Dinheiro, não.

Eu aprendera essa parte fazia tempo.

Minha mãe era alcoólatra. Meu pai usava o que conseguia comprar, trocar ou arrancar de alguém. Eu já não sabia o que ele consumia; cada dia parecia aparecer uma droga diferente naquela casa.

O lugar fedia a cigarro, bebida derramada e comida estragada. A pia estava cheia, o chão grudava nos sapatos e sacolas de lixo se acumulavam perto da porta. Eu já tinha tentado limpar aquilo muitas vezes. Bastavam algumas horas para tudo voltar a ficar igual.

Desde que conseguia me lembrar, minha vida tinha sido assim.

Com uma exceção.

Houvera dois anos diferentes.

Eu lembrava porque guardara os boletins daquele período. Minha mãe assinava os papéis, lavava os lençóis e perguntava sobre as provas. Meu pai trabalhava e trazia pão.

Durante aqueles dois anos de sobriedade, consegui dormir sem ficar escutando os passos no corredor.

Achei que minha vida tinha mudado.

Depois vieram as ausências, as garrafas escondidas, os objetos vendidos.

Eu continuei esperando que melhorassem muito depois de entender que estavam piorando.

Minha mãe passou a me agredir quase todos os dias. Meu pai tentou me vender para traficantes três vezes, oferecendo a própria filha para pagar as dívidas que fazia.

Na primeira vez, ouvi a conversa atrás da porta.

Na segunda, fugi antes que o carro chegasse.

Na terceira, deixei de dormir naquela casa.

Desde então, só voltava quando tinha certeza de que os dois estavam fora.

Naquele dia, calculei errado.

Minha mãe soltou meu cabelo tão abruptamente que perdi o apoio e bati o ombro no chão.

Tentei me levantar.

O chute atingiu meu rosto antes que eu conseguisse apoiar os dois pés.

Minha boca se encheu de sangue. A dor subiu pelo nariz e me fez lacrimejar na mesma hora. Encolhi o corpo, protegendo a cabeça com os braços, sem conseguir pensar em nada além de impedir que ela acertasse de novo.

— Mentirosa! — Minha mãe gritou acima de mim, a voz rouca de esforço e ódio. — Você tá escondendo dinheiro de mim!

O sangue escorreu entre meus dedos.

Meu pai continuou mexendo na geladeira.

Eu precisava sair dali.

— Mãe, tudo que eu tinha eram vinte dólares. Você já pegou na sexta — consegui dizer, baixo, com o lábio ferido dificultando as palavras. Mantive os braços perto do rosto, esperando a reação dela.

Era verdade que levara vinte dólares.

Era mentira que fossem tudo.

Eu não era idiota.

Trabalhava desde os doze anos. Começara fazendo pequenos serviços, depois conseguira trabalho no café e restaurante. Conforme fui crescendo, passei a atender mesas e assumir os turnos da noite. Também dava aulas particulares, encaixando os alunos nos horários que sobravam.

Guardava o dinheiro numa conta aberta durante a sobriedade dos meus pais, com ajuda da minha avó. Depois que ela morreu, escondi os documentos fora de casa e nunca mais deixei um extrato chegar pelo correio.

Aquele dinheiro era meu.

E eu precisava dele para ir embora.

Aos dezessete anos, trabalhava demais e estudava ainda mais. De manhã, frequentava a Dark School, a melhor escola de Ann Arbor e uma das mais prestigiadas de Michigan. Ali estudavam filhos de milionários e bilionários, gente para quem dinheiro nunca tinha sido uma preocupação.

Eu morava na parte pobre da cidade, numa rua que nenhum daqueles alunos teria motivo para conhecer.

Conquistara a bolsa ainda no ensino fundamental, numa seleção que acontecia a cada cinco anos.

Minhas notas eram perfeitas. Eu me dedicava a cada prova, trabalho e atividade porque precisava que fossem. Queria ser médica, e conseguir uma bolsa universitária era a melhor chance de chegar lá.

Mesmo assim, estudar naquela escola era outro inferno.

As roupas, os sapatos, minha mochila velha: tudo servia de motivo para me humilharem. Alguns dos mesmos alunos que riam de mim nos corredores depois precisavam da minha ajuda para entender a matéria.

Eu aceitava as aulas.

Precisava do pagamento.

Minha mãe ficou parada por alguns segundos, respirando pela boca. Depois cuspiu em mim.

A saliva atingiu minha manga.

— Some da minha frente — ela ordenou, com a boca torcida de desprezo, antes de virar as costas.

Não esperei que mudasse de ideia.

No quarto, enfiei as roupas restantes num saco. Peguei a mochila, abri a janela e passei primeiro uma perna, depois a outra.

A queda no quintal fez meu joelho ceder.

Continuei correndo.

Atravessei o mato atrás de casa com o sangue pingando no casaco. Os galhos agarravam minha roupa, e a alça da mochila batia contra meu ombro machucado. Mesmo quando a casa desapareceu entre as árvores, não diminuí o passo.

Só parei depois de subir e puxar a escada.

Por fora, a casa da árvore parecia abandonada: tábuas acinzentadas, telhado manchado, uma janela coberta por madeira.

Eu a encontrara meses antes, escondida numa parte mais fechada da mata. Aos poucos, reforçara o piso, substituíra as tábuas soltas e juntara material para fechar as frestas.

Por dentro, colocara placas de espuma rígida reaproveitadas de uma obra entre as vigas das paredes. Cobrira o isolante com painéis finos de madeira e vedara as emendas para diminuir a entrada de vento. Uma lona sob o telhado afastava a chuva; sobre o piso, um tapete velho ajudava a proteger o colchão que eu encontrara na calçada.

Não havia aquecedor.

Ainda assim, com as paredes fechadas e as mantas que conseguira trazer, o espaço ficava protegido e relativamente quente.

Minhas roupas estavam dobradas numa caixa. Os livros, empilhados longe da janela. Uma lanterna pendia de um prego ao lado do colchão.

Era pequeno, mas eu conseguia respirar ali.

Sentei diante do espelho rachado. Limpei o sangue devagar, conferi meus dentes e pressionei um pano contra o lábio.

Depois procurei meu caderno.

Amanhã precisava ir à escola.

Abri na página marcada e esperei as letras pararem de tremer.

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