Capítulo 1 - O sangue da lua.
Muito antes de as fronteiras serem marcadas por fortalezas e cadáveres, lycans e lobisomens haviam pertencido ao mesmo reino.
Seus ancestrais atravessavam as mesmas florestas, reverenciavam os mesmos altares e erguiam os olhos para a mesma divindade.
A guerra que continuaria devorando seus descendentes seria construída ao longo de milênios. Antes dos primeiros exércitos, houve disputas por influência, ameaças veladas e rumores cuidadosamente espalhados.
O ódio cresceu dentro de um território que, um dia, ambos haviam chamado de lar.
As duas espécies eram filhas legítimas da Deusa da Lua, mas carregavam fragmentos diferentes de sua criadora.
Nos lycans, a herança divina se manifestara com intensidade incomparável. Eram maiores, mais rápidos e mais poderosos. Sua beleza possuía uma precisão quase perturbadora: corpos vigorosos, feições harmoniosas e presenças capazes de dominar um ambiente. Representavam a expressão mais próxima do poder primordial da deusa.
Essa superioridade vinha acompanhada de uma natureza extremamente instável. Quando a consciência feral assumia o controle, a humanidade desaparecia.
A transformação produzia uma criatura humanoide colossal, sustentada sobre duas pernas, cuja violência podia ultrapassar qualquer limite. Sob o domínio absoluto da besta, um lycan podia deixar de reconhecer até aqueles que amava.
Os lobisomens possuíam maior equilíbrio entre consciência e instinto. Transformavam-se em lobos enormes, fortes e ferozes. Também eram belos e poderosos, mas não alcançavam a força dos lycans. Sua natureza mais estável favorecia a convivência e a reprodução.
Por isso, eram mais numerosos.
Entre os lycans, a reprodução era difícil, e cada nascimento representava a continuidade de uma espécie rara. Mesmo em menor número, sua força lhes assegurava vantagem sobre os lobisomens.
Essa diferença começou a contaminar a convivência. Os lycans reivindicavam maior autoridade por serem superiores; os lobisomens se ressentiam de ocupar posições subordinadas. Disputas por terras, cargos e reconhecimento passaram a carregar uma hostilidade que antes não existia.
Inicialmente, a Deusa da Lua estabelecia os vínculos destinados dentro de cada espécie. Ao perceber a rivalidade entre seus filhos, decidiu unir aquilo que eles insistiam em separar.
Os lycans chamavam de erasthai a alma destinada a completar a sua. O reconhecimento atravessava corpo, consciência e besta.
Entre os lobisomens, o vínculo também era sagrado; entre os lycans, porém, sua profundidade era muito maior, e a erasthai se tornava um centro de equilíbrio para sua natureza instável.
A primeira dessas uniões ocorreu entre Kaelthar, rei dos lycans, e Angélica, uma lobisomem.
Eles se reconheceram, apaixonaram-se e permaneceram juntos apesar da resistência da corte. Angélica tornou-se a primeira rainha lobisomem de um soberano lycan. Engravidou três vezes e deu à luz três meninos. Nenhuma filha nasceu daquele casamento.
A descendência desmentiu aqueles que haviam previsto o enfraquecimento da linhagem. O sangue lycan preservava sua essência e incorporava características valiosas da outra espécie, tornando os descendentes ainda mais poderosos.
Nos séculos seguintes, outras erasthais vieram de diferentes povos e linhagens, incluindo vampiras. Essas uniões ampliaram as capacidades dos lycans sem diluir sua natureza.
Entretanto, o sucesso daqueles vínculos não eliminou os interesses contrários a eles.
Famílias nobres viam suas possibilidades de influência diminuírem quando um soberano reconhecia uma erasthai que não pertencia aos seus círculos.
Entre os lobisomens, difundia-se a suspeita de que os lycans desejavam absorver suas linhagens e conservar todo o poder. Entre os lycans, circulavam acusações de que os lobisomens usavam aquelas uniões para se infiltrar na coroa.
Uma negociação interrompida podia ser apresentada como boicote. Uma nomeação desfavorável se tornava prova de perseguição.
Mercadores recebiam ameaças discretas para abandonar determinados fornecedores; conselheiros escondiam propostas de cooperação e depois acusavam a outra espécie de se recusar a colaborar.
Havia responsáveis dos dois lados. Cada sabotagem provocava uma represália, que servia de justificativa para a seguinte. Com o tempo, mesmo os acontecimentos sem intenção política passaram a ser interpretados como ataques.
Foi nesse ambiente que Maerith se tornou rainha dos lycans.
Lobisomem e erasthai do soberano que então ocupava o trono, ela recebeu a confiança do marido enquanto mantinha alianças clandestinas com uma facção que defendia a supremacia de sua espécie.
Compartilhava aquela ambição e usava sua posição para favorecer conspiradores, afastar servidores leais e revelar informações da guarda.
Já havia dado um filho ao rei e estava grávida do segundo quando decidiu agir.
Na noite do atentado, ordens emitidas com seu selo alteraram a vigilância dos aposentos reais. O soberano recebeu a erasthai sem suspeitar dela.
Maerith o matou.
Quando os guardas chegaram, encontraram o rei caído e a rainha ainda armada. Diante deles, ela atingiu repetidas vezes o próprio ventre, proclamou a soberania dos lobisomens e tirou a própria vida antes que pudessem contê-la.
O filho que carregava morreu com ela. O primogênito sobreviveu, protegido por servidores leais.
Os aliados de Maerith começaram a divulgar sua versão antes do sepultamento. Cartas falsificadas a apresentavam como vítima de ameaças do marido. Mensageiros afirmavam que os lycans haviam assassinado a rainha e a criança para impedir uma mudança no governo.
Os testemunhos dos guardas foram desacreditados. Registros desapareceram; testemunhas foram ameaçadas ou silenciadas.
Na corte lycan, nobres também exploraram o massacre. Ocultaram seus próprios negócios com os conspiradores e atribuíram a responsabilidade a todos os lobisomens.
O filho sobrevivente herdou a coroa do pai sob uma regência. A sucessão foi preservada, mas a unidade do reino não resistiu. Vieram expulsões, ataques contra famílias de origem mista e o fechamento de estradas. Os territórios acabaram separados em dois reinos.
Os lobisomens estabeleceram sua própria coroa suprema. Seus alfas continuaram governando as alcateias locais, mas passaram a responder a um único rei.
Durante as gerações seguintes, os confrontos fronteiriços alternaram-se com tréguas frágeis. As acusações se multiplicavam: a coroa lobisomem estaria financiando revoltas; a coroa lycan estaria sabotando colheitas e rotas comerciais. Algumas eram verdadeiras. Outras eram fabricadas por quem lucrava com o conflito.
Nesse período, nasceu a princesa alfa dos lobisomens, filha e herdeira do rei supremo.
Ao atingir a idade adulta, ela passou a participar de negociações comerciais. A escassez provocada pelos confrontos exigia acordos, e uma delegação foi enviada a um entreposto fronteiriço para discutir abastecimento e uma possível paz.
Ali, a princesa conheceu um general de alto escalão da guarda real lycan.
O reconhecimento foi imediato. Ela era sua erasthai.
O vínculo tornou-se amor durante os encontros seguintes. O general respeitava sua autoridade, escutava suas propostas e a honrava diante de seus próprios homens. A princesa correspondia com a mesma lealdade.
Para a coroa lobisomem, aquela união ameaçava um acordo já estabelecido. A herdeira havia sido prometida a um alfa influente, cuja alcateia oferecia apoio militar ao rei.
Além disso, seu casamento com o general tornaria um lycan rei consorte. Ele governaria ao lado dela e participaria das decisões sobre todas as alcateias.
A possibilidade foi considerada inadmissível.
O rei, o alfa prometido e seus aliados organizaram um atentado. Pretendiam matar o general e atribuir sua morte a dissidentes lycans, rompendo a união e preservando os compromissos da coroa.
A princesa descobriu a conspiração e chegou ao local quando o ataque já estava em andamento.
Ao perceber a lança destinada ao homem que amava, lançou-se diante dele. A arma atravessou seu coração.
Ela morreu nos braços do general.
A ruptura do vínculo destruiu o equilíbrio do general. A consciência feral assumiu o controle, e ele matou tanto o alfa envolvido na conspiração quanto o rei dos lobisomens.
Os sobreviventes divulgaram que um lycan assassinara a princesa e os dois líderes durante uma tentativa de tomar o trono. A participação da coroa no atentado foi apagada.
A morte do rei e o desaparecimento da herdeira permitiram que novas lideranças assumissem o governo lobisomem, sustentadas pela promessa de vingança.
Então começou a guerra declarada.
Alcateias foram convocadas, os lycans mobilizaram seus exércitos e as fronteiras se tornaram campos de batalha. Cada geração recebeu as perdas da anterior como uma dívida a cobrar.
O desprezo transformou-se em ódio, alimentado por famílias enlutadas, governos hostis e versões incompatíveis do passado.
Essa guerra ainda consumia os dois reinos quando Rhaegor ocupava o trono dos lycans.
Ele encontrou sua erasthai em Lysara, uma lycan pura de linhagem ancestral rara. Sua coroação encerrou o longo período em que nenhuma consorte recebera oficialmente o título de rainha desde Maerith, a penúltima soberana coroada.
Da união nasceram Zhaeron, o herdeiro, e Vaelyra, sua irmã.
Ambos possuíam sangue lycan puro, mas a herança se manifestara de formas diferentes. Vaelyra era delicada e herdara a beleza nata de sua espécie, sem a força excepcional da linhagem real.
Zhaeron reunia beleza e poder. Nele, a essência ancestral alcançara uma intensidade muito maior, acompanhada da autoridade destinada ao futuro rei alfa supremo.
Enquanto Rhaegor permanecia no trono, a corte preparava o príncipe para herdar um reino formado por séculos de desconfiança e guerra.
Zhaeron ainda não havia empunhado uma arma.
Seu nome, contudo, já circulava entre homens que planejavam como matá-lo.








