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EFEITO COLATERAL

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Summary

A regra de ouro do Esquadrão de Elite é simples: a sobrevivência é a única tática. Mas e se a maior ameaça estiver dividindo o mesmo quarto que você? Aiden Mathis é o agente número um da divisão de campo. Moldado desde os seis anos pela disciplina rígida do Sensei Takeda, ele aprendeu a controlar cada pulsação, cada movimento e cada cálculo tático. Ele é a arma perfeita do Esquadrão - impiedoso, letal e inabalável. A não ser quando o assunto é Emily Harm. Emily é a única mulher na linha de frente do Esquadrão de Elite, dona de um passado que a ensinou a erguer muros em volta do próprio coração e de um espírito vibrante que teima em desafiar a postura fria de Aiden. Para o resto do mundo, eles são a dupla perfeita: sincronizados, imbatíveis e ligados por anos de convivência familiar. No entanto, entre as quatro paredes do quarto que compartilham na mansão, a parceria profissional transforma-se em um campo minado de desejos sufocados, olhares não ditos e uma tensão elétrica prestes a explodir. Aiden faz de tudo para manter a distância de segurança e proteger o segredo que esconde a sete chaves: ele é completamente apaixonado pela sua parceira. Mas quando uma missão clandestina lança a dupla em um jogo de sombras - com um alvo invisível e ordens onde a única certeza é a sobrevivência -, as barreiras impostas pela disciplina começam a ruir. Em um universo onde um milésimo de segundo separa a vida da morte, brincar com o perigo deixa de ser um treino. E a proximidade entre eles provocará um Efeito Colateral do qual nenhum dos dois conseguirá escapar.

Status
13h ago
Chapters
8
Rating
n/a
Age Rating
18+

Capítulo 1 - Fronteiras do Mundo

POV de Emily

O som rítmico e abafado da chuva de outono contra os vidros panorâmicos do salão VIP de Heathrow parecia marcar o fim de uma era.

Olhei para o reflexo na taça de água à minha frente, depois para os três homens sentados ao meu redor. As marcas dos anos não estavam apenas na postura impecavelmente alinhada ou na firmeza com que cada um sustentava o olhar; estavam na bagagem que carregávamos desde a infância.

Com Takeda, a vida não começava com a maioridade aos dezoito anos. Éramos apenas crianças quando fomos recolhidos e submetidos a um regime de treinamento estrito, restrito e implacável dentro das instalações isoladas do conglomerado. Por anos, nosso mundo resumiu-se a salas de aula blindadas, táticas de combate corpo a corpo, idiomas e simulações de inteligência sob a vigilância constante de instrutores veteranos como Knoxx.

Nós não existíamos para o mundo civil. Não tínhamos redes sociais, números pessoais ou qualquer tipo de telefone comum. Nossa única ponte de comunicação era o smartphone corporativo de circuito fechado desenvolvido pelo próprio conglomerado — um dispositivo de carcaça reforçada e criptografia de ponta a ponta, projetado para operar exclusivamente na rede interna de Takeda para logística de missões e comunicação estritamente profissional entre os membros de elite.

A linha divisória real da nossa formação fora traçada ao completarmos dezesseis anos.

Atingir essa marca significava encarar a peneira mais brutal da organização. Aqueles que não atingiam os índices exigidos eram descartados para a base da hierarquia — a equipe de suporte ou, no nível imediatamente superior, a equipe de apoio técnico. Apenas uma parcela insignificante era selecionada para integrar o esquadrão principal, o braço operacional de primeira linha do conglomerado.

Eu fora a única mulher dentre todas as turmas a cruzar aquela linha. Conquistar o meu espaço em um ecossistema dominado por operacionais da estirpe de Azriel, Cassian, Rhysand, Maxon e Daniel exigira de mim uma disciplina feroz. E, sendo a caçula de todo o grupo de inteligência — convivendo desde muito jovem com a sombra profissional de figuras como Cam, Patch, Jace e Nick —, aprendera desde cedo a nunca demonstrar um único segundo de vacilo.

— O voo para Ottawa entra em chamada em dez minutos — Kyle quebrou o silêncio, verificando o visor do seu smartphone encriptado antes de ajustá-lo no bolso interno do paletó com a costumeira calma analítica que o caracterizava como o mais experiente entre nós quatro naquela mesa.

— Mantenha a rede do Canadá blindada, Kyle — provocou Trenton, reclinando-se na poltrona de couro com aquele sorriso contido que parecia ser a única coisa intacta desde os nossos dezesseis anos. — Se você deixar vazar um único pacote de dados pelo Pacífico, o Sims vai fazer você revisar criptografia em campo no meio da neve.

— Preocupe-se com a sua rota até Sydney, Trenton — rebateu Aspen, os olhos azuis atentos enquanto deslizava os dedos pela interface do seu terminal corporativo, checando os boletins de Moscou. — Se a Austrália falhar no mapeamento de tráfego naval, o impacto cai direto no meu setor na Rússia.

Sims não estava conosco na área VIP. Como líder supremo do setor de inteligência, ele permanecera retido no Centro de Comando em Londres ao lado de Peter, coordenando a logística daquela grande dispersão global. O comando de Sims era indiscutível; sua autoridade fora construída ao longo de décadas de serviço e respeitada por todos do esquadrão.

A reestruturação era estratégica e inadiável. Para cobrir as vulnerabilidades das bases regionais do conglomerado, o sensei decidira espalhar os quatro principais analistas operacionais de Sims pelos cantos mais críticos do mapa.

— A sua rota é a mais complexa, Ems — comentou Kyle, virando o olhar atento para mim. — Chongqing é o coração tecnológico da Ásia. A cibersegurança de lá funciona sob uma lógica completamente diferente do resto do mundo.

— E o homem que comanda aquele setor não é exatamente famoso por dar boas-vindas — acrescentou Trenton, a fisionomia tornando-se visivelmente mais séria. — O Aiden é o meu irmão caçula, mas até eu sei o quanto a presença dele consegue ser aterrorizante dentro da base. Ele não tolera um segundo de hesitação.

O nome de Aiden pairou sobre a mesa com a densidade de um aviso mortal.

Apesar de ser um dos líderes mais jovens a assumir o comando de um setor estratégico em toda a organização, a fama de Aiden antecedia qualquer protocolo. Ele era uma figura sombria e implacável dentro do conglomerado, um homem cuja frieza cirúrgica e rigor extremo impunham um silêncio absoluto nos corredores — temido por inimigos, respeitado pela alta patente e temido até mesmo por membros de sua própria equipe e por seus aliados mais próximos. Nem mesmo a convivência com o irmão mais velho, Thomas, com o primo Shepley ou com seu braço direito Jasper — posicionado em outra cidade estratégica da China — suavizava a aura perigosa que o cercava.

Para a maioria dos analistas, ser transferida para a jurisdição direta de Aiden seria uma sentença de morte e uma pressão insuportável.

Mas eu não era a maioria.

Crescida no seio de uma família estritamente militar, acostumada desde a infância à disciplina severa de oficiais e à presença constante dos meus irmãos, Tobias e Ethan, a rigidez de um comando sombrio não me intimidava. Eu conhecia a linguagem dos homens forjados na hierarquia e na dor; sabia exatamente como me posicionar diante de autoridades brutais sem recuar um único centímetro.

— Eu não fui enviada para Chongqing para procurar amizade ou condescendência, Trenton — respondi com a voz serena, ajeitando o sobretudo e encarando-o com absoluta firmeza. — Foi para garantir que a inteligência da Ásia funcione sem falhas. O Aiden pode ser o terror da cibersegurança, mas eu sei exatamente o que faço na minha mesa de trabalho.

A resposta fez o canto da boca de Trenton ceder a um breve aceno de aprovação. Ele sabia, melhor do que ninguém, que por trás da minha postura calma havia a mesma fibra que me fizera sobreviver à seleção aos dezesseis anos.

O painel eletrônico do salão VIP piscou, anunciando o início do embarque para as rotas internacionais, enquanto um bipe discreto soou no meu smartphone de circuito fechado, confirmando a liberação do meu código de embarque diplomático.

Levantamo-nos em um movimento quase síncrono, a memória muscular de anos de disciplina militar manifestando-se nos detalhes. Houve apertos de mãos firmes, olhares de cumplicidade profissional e um abraço demorado de despedida com Trenton antes de cada um seguir para o seu respectivo portão.

Ajustei a alça da minha mala de mão e caminhei pelo corredor espelhado em direção ao voo com destino à China. Observei a tela do meu terminal encriptado, lendo a notificação enviada diretamente pela central de cibersegurança do Complexo Residencial em Chongqing.

A cabine da primeira classe do Boeing 777 com destino a Berlim cheirava a couro novo e café moído na hora. Assim que o aviso de afivelar os cintos se apagou sobre as nuvens carregadas que cobriam o continente europeu, recostei a poltrona e puxei da bolsa de mão os meus dois únicos itens de refúgio pessoal: o leitor digital encriptado de circuito interno e um par de fones de ouvido sem fio.

Músicas de rock e metal começaram a ecoar nos meus ouvidos. Para qualquer operador de elite, o silêncio absoluto era um luxo raro, mas o som certo trazia a métrica exata para acalmar os batimentos do meu coração após o estresse do embarque em Heathrow, mesmo que para muitos essas músicas não passassem de barulhos de bateria e guitarra. Aqueceu-me a sensação familiar de abrir um livro de true crime, sim eu sei, mas isso me acalma.

A maior parte dos homens do esquadrão — incluindo operacionais veteranos como Rhysand, Cassian ou até mesmo meus irmãos gêmeos, Tobias e Ethan — dedicaria o tempo de voo revisando relatórios ou checando protocolos táticos. Mas eu aprendera cedo que a mente precisa de pausas cirúrgicas para manter a precisão máxima no momento de crise. Leitura e música não eram fraquezas; eram meu espaço de sanidade em um mundo feito de aço, sangue e códigos cifrados.

Três horas depois, o avião pousou suavemente na pista do aeroporto de Berlim-Brandenburgo. A escala de duas horas até o voo direto para Chongqing dava-me uma margem segura de tempo.

Caminhei pelo saguão da área internacional com passos tranquilos. Como os terminais corporativos do conglomerado não permitiam transações em moedas civis convencionais, usei o cartão de crédito corporativo diplomático que o sensei nos dava para fazer uma breve pausa no duty free do portão B. Comprei dois pacotes do meu chocolate ao leite favorito e um hidratante labial de melancia para combater o ar seco das cabines de avião. Pequenas concessões do mundo exterior que me lembravam que, sob a casca de uma especialista em inteligência de elite, eu ainda era uma mulher de vinte e cinco anos. Aproveitei para dar mais uma volta pelas opções nas lojas e comprei mais alguns itens de skincare — apesar da Ásia inteira ser referencia no assunto, eu prefiro levar alguns itens para não me preocupar com essas questões ainda no período de adaptação.

Às dezenove horas, o anúncio de embarque para o voo internacional da Air China soou nas caixas de som do terminal alemão. Guardei as compras na mochila e caminhei para o portão, observando a noite fria cobrir a pista de decolagem. O próximo destino era o coração tecnológico da Ásia.

POV de Aiden

O bipe rítmico do terminal de monitoramento no meu escritório era a única coisa que cortava a penumbra da sala.

Eu estava de pé diante do painel de vidro que dava para a metrópole iluminada de Chongqing. Eram dez horas da noite de sexta-feira na China, e a chuva torrencial que caía sobre os arranha-céus do distrito financeiro espelhava o tom sombrio que dominava o meu peito desde que a diretiva de Sims fora homologada na segunda-feira.

A decisão de Takeda de implementar parcerias fixas e duplas operacionais em todo o esquadrão me irritava profundamente.

Trabalhava sozinho desde que assumi a liderança da cibersegurança geral e fui transferido para a China há quatro anos. Nesse período, transformara a base do Complexo Residencial que fui designado e a central tecnológica em uma fortaleza inexpugnável. Minha rotina era matemática, fria e absolutamente sob meu controle. Eu não precisava de um analista dividindo o meu espaço de trabalho, e muito menos a minha vida.

E o fato de a analista enviada por Sims ser Emily tornava tudo infinitamente mais complicado.

Apertei o copo de uísque com força na mão esquerda. A última vez que conversáramos pessoalmente fora há anos, na base de Londres, antes de eu ser destacado para assumir o comando da Ásia. Quando éramos adolescentes treinando sob a vista de Knoxx, a convivência entre nós era frequente por conta da minha amizade dela com Trenton. Eu me lembrava com uma clareza incômoda do contraste que ela representava naquela época: enquanto todos nós tentávamos demonstrar uma masculinidade e uma seriedade fria e precoce, Emily mantinha um sorriso leve, uma calma graciosa e um jeito provocante de quebrar a rigidez do esquadrão sem jamais perder a eficiência técnica.

Com a minha vinda para a China aos vinte e dois anos, o contato direto fora cortado por completo. As poucas interações nos últimos quatro anos ficaram estritamente restritas a relatórios frios de transferência de dados e chamadas criptografadas de cibersegurança do esquadrão. A garota de riso fácil dera lugar a uma das operadoras mais respeitadas do conglomerado, e o espaço pessoal dera lugar à distância do dever.

E agora ela estava a caminho. Não apenas para trabalhar na mesa ao lado da minha, mas para dividir a suíte principal do apartamento 3002.

A porta da minha sala abriu-se sem alarde. Jasper, meu braço direito na China e um dos operacionais mais eficientes que Takeda já forjara, cruzou o batente com o tablet de comunicação encriptado em mãos. Ele estava em Chongqing temporariamente mas em breve retornaria para Pequim.

— O voo diplomático vindo de Berlim acabou de entrar no espaço aéreo de Chongqing, Comandante — informou Jasper, o tom grave mantendo o rigor exigido na base. — O carro de escolta da equipe de apoio já está posicionado no aeroporto internacional. A previsão de desembarque é para as vinte e três horas.

— O apartamento está preparado? — perguntei sem me virar, mantendo o olhar cravado na chuva lá fora.

— O alojamento 3002 foi vistoriado e limpo — respondeu Jasper. — As credenciais de nível cinco da analista Harm já foram integradas aos leitores biométricos da porta principal e dos elevadores executivos. Como é sexta-feira, os acessos ao complexo administrativo principal foram agendados para a manhã de segunda-feira, conforme a sua ordem.

— Excelente — declarei em tom frio. — Garantam que a escolta a conduza direto para o apartamento. Eu resolverei a integração das rotinas no fim de semana.

Jasper inclinou a cabeça em um gesto curto de respeito e retirou-se em silêncio.

Soltei o ar ruidosamente pela boca, virando o resto do uísque no copo. Emily chegaria em poucas horas, no meio de uma noite de sexta-feira chuvosa, cansada por uma viagem de mais de quinze horas. Eu odiava mudanças, odiava dividir meu território e odiava a perspectiva de ter a melhor amiga de meu irmão morando sob o mesmo teto que eu.

Mas a ordem de Takeda fora clara, e eu não deveria me opor a designação que Sims fizera para o setor que eu comandava. Eu sabia do que ela era capaz. E eu saberia impor os limites do meu comando a partir do primeiro segundo em que ela pisasse naquele andar.

POV de Emily

A umidade quente e a névoa densa de Chongqing me atingiram assim que passei pelas portas de vidro do terminal de desembarque executivo.

O relógio do meu smartphone de circuito fechado marcava vinte e três horas e trinta minutos de uma sexta-feira abafada. Duas figuras da equipe de apoio de Takeda, trajando ternos escuros e postura impecavelmente alinhada, aguardavam-me ao lado de um SUV blindado de vidros escuros.

— Boa noite, agente Harm — cumprimentou o motorista da equipe de apoio, fazendo um aceno respeitoso e pegando a minha mala de mão. — Seja bem-vinda a Chongqing. O Comandante determinou a sua condução imediata para o Complexo Residencial.

— Obrigada — respondi com a voz tranquila, entrando no banco traseiro do veículo.

A viagem até o complexo durou cerca de trinta minutos. Chongqing à noite parecia uma metrópole futurista erguida sobre montanhas e rios, com viadutos sobrepostos e luzes de néon cortando a tempestade fina.

O SUV entrou pela garagem subterrânea de altíssima segurança do Complexo Residencial Atheria, passando por três barreiras de leitura biométrica e varredura de sinal antes de estacionar no poço do elevador privativo. O complexo era designado para funcionários e possuía 30 andares, divididos entre apartamentos, centrais para treinamento, entre outras funcionalidades que auxiliavam no dia a dia. O motorista entregou-me o cartão de acesso magnético encriptado de circuito fechado.

— O alojamento do Comandante fica na cobertura, trigésimo andar — explicou o oficial de apoio. — Suas credenciais biométricas já foram ativadas no painel. O senhor Mathis já se encontra no imóvel. O seu acesso ao complexo de operações funcionará a partir de segunda-feira às sete da manhã.

— Obrigada pelo transporte — declarei, caminhando até a cabine de aço escovado do elevador.

Aproximei o polegar do leitor óptico do painel. A luz azul piscou, e o elevador subiu em um silêncio absoluto.

À medida que os andares passavam, senti a postura da analista de inteligência operacional ajustar-se na minha espinha. O fim de semana seria de adaptação ao novo ambiente e à presença de Aiden. Eu sabia que ele não queria uma parceira, e muito menos a minha presença no seu apartamento. Mas ele descobriria muito rápido que a menina que ele conhecera em Londres dera lugar a uma mulher que não recuava diante de nenhum Comandante.

O elevador soltou um sinal sonoro discreto e as portas se abriram diretamente no hall privativo do apartamento 3002.

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