Capítulo 1 — A Promessa dos Mortos
Na noite em que Helena voltou à cidade onde nasceu, encontrou três velas acesas diante da casa de sua infância.
Não havia ninguém na varanda. Nenhum carro estacionado na rua. Nenhum sinal de que aquela casa, abandonada havia tantos anos, pudesse guardar vida dentro de suas paredes.
Ainda assim, uma das janelas estava aberta.
Helena permaneceu do outro lado do portão, segurando uma mala velha e tentando convencer a si mesma de que havia cometido um erro.
Dezessete anos.
Fazia dezessete anos que prometera nunca mais voltar.
A chuva molhava seu rosto, mas ela não se moveu. Observou a fachada descascada, o telhado comprometido e a árvore enorme que sua mãe plantara quando Helena ainda era criança. Tudo parecia menor do que em suas lembranças. Ou talvez fosse ela quem tivesse crescido demais dentro da própria dor.
Aos trinta e três anos, Helena já aprendera a esconder quase tudo.
Sabia sorrir quando estava triste, responder que estava tudo bem quando mal conseguia respirar e trabalhar mesmo depois de passar a noite inteira chorando. As pessoas diziam que ela era uma mulher forte. No mercado, cumprimentava os vizinhos. No trabalho, era educada. Pagava suas contas, preparava seu café e não incomodava ninguém com seus problemas.
Ninguém imaginava que, todas as noites, ela verificava duas vezes se a porta estava trancada.
Ninguém sabia que ainda acordava assustada com o barulho de passos no corredor.
E ninguém, absolutamente ninguém, conhecia o motivo pelo qual ela nunca conseguia dormir de luz apagada.
Helena havia passado dezessete anos fugindo de uma lembrança.
Agora, a lembrança parecia estar esperando por ela.
As três velas ardiam diante da porta, protegidas da chuva por pequenos copos de vidro. Ao lado delas havia um envelope amarelado com seu nome escrito à mão.
A letra era de sua mãe.
Francisca morrera dezessete anos antes.
Helena sentiu as pernas fraquejarem.
Abriu o envelope com dedos trêmulos.
Dentro havia apenas uma frase:
Minha filha, se você voltou, é porque finalmente está pronta para saber por que sua irmã morreu.
Helena deixou o papel cair.
Sua irmã?
Ela não tinha irmã.
Pelo menos, era isso que lhe haviam dito durante toda a vida.
Antes que pudesse pensar, ouviu uma voz vinda do interior da casa.
— Você demorou, Helena.
Era a voz de Francisca.
A mesma voz cansada que costumava chamá-la para jantar, a mesma que cantava baixinho enquanto lavava roupas e a mesma que, na última noite em que Helena a vira viva, implorara para que a filha não saísse de casa.
Helena recuou.
— Não… isso não é possível.
A voz não respondeu.
Então alguma coisa bateu três vezes na janela do quarto dos fundos.
Toc. Toc. Toc.
Helena conhecia aquele quarto.
Era o quarto que sua mãe mantinha sempre trancado, mesmo depois que o irmão mais novo, Mateus, desaparecera. Quando criança, Helena acreditava que havia brinquedos escondidos ali. Mais tarde, passou a acreditar que o pai guardava coisas que ninguém deveria ver.
Naquela noite, porém, ela não queria descobrir nada.
Queria ir embora.
Virou-se para o portão, mas ouviu uma voz infantil atrás de si.
— Você prometeu que voltaria para me buscar.
Helena fechou os olhos.
Conhecia aquela voz também.
Era a voz que aparecia em seus sonhos desde os dezesseis anos.
Quando tornou a olhar para a janela, viu uma menina de vestido amarelo. Os cabelos escuros estavam molhados, e os pés descalços repousavam sobre o parapeito.
A menina não parecia assustada.
Parecia decepcionada.
Helena correu.
Desceu a estrada de terra sem olhar para trás, escorregando na lama, sentindo o coração bater tão forte que mal conseguia respirar. Só parou quando chegou à pequena venda da esquina.
O dono, seu Anselmo, estava fechando as portas.
Ao vê-la, ficou imóvel.
— Meu Deus do céu…
Helena segurou o braço dele.
— O senhor precisa me ajudar.
Anselmo olhou para a estrada por onde ela viera.
— Você voltou.
Não era uma pergunta.
— Tem alguém naquela casa. Eu ouvi minha mãe. Vi uma menina na janela. Eu preciso chamar a polícia.
O homem soltou o braço dela devagar.
— Sua mãe está morta, Helena.
— Eu sei!
— E aquela casa está vazia desde que seu pai morreu.
Helena sentiu o estômago se contrair.
— Meu pai morreu há quanto tempo?
Anselmo não respondeu imediatamente.
— Há onze anos.
Helena sabia que ele estava mentindo.
Seu pai morrera muito antes disso. Ou pelo menos era o que lembrava. Havia uma noite de chuva, uma ambulância e um lençol branco cobrindo um corpo. Mas, quando tentava recordar o rosto do homem, sua memória se enchia de sombras.
— O senhor está escondendo alguma coisa.
Anselmo desviou os olhos.
— Vá embora desta cidade.
— Eu preciso saber o que aconteceu com minha família!
O velho apertou os lábios.
— Algumas verdades não devolvem ninguém. Só levam o que ainda resta de você.
Ele fechou a venda e deixou Helena sozinha na calçada.
Naquela noite, ela dormiu no pequeno hotel perto da rodoviária. Não porque tivesse medo de voltar para a casa, dizia a si mesma, mas porque estava cansada demais para pensar.
Às três e dezessete da madrugada, acordou com o telefone tocando.
Era um número desconhecido.
Atendeu.
Do outro lado, ouviu uma respiração curta e irregular.
— Alô?
Uma voz masculina respondeu:
— Helena?
Ela se sentou na cama.
— Quem está falando?
— Você precisa sair daí. Não volte para aquela casa.
O coração dela disparou.
— Quem é você?
Houve uma pausa.
— Sou eu. Daniel.
Helena levou a mão à boca.
Daniel fora seu primeiro amor. O rapaz que prometera fugir com ela, que lhe dera o primeiro livro e que desaparecera da cidade na mesma semana em que a mãe de Helena morreu.
Ela nunca mais o vira.
— Onde você está?
— Não importa. Escute: se encontrou uma fotografia, não olhe o verso.
Helena sentiu um arrepio percorrer sua nuca.
Sobre a mesa do quarto do hotel estava a fotografia que ela encontrara na casa.
Ela não se lembrava de tê-la levado consigo.
— Como você sabe da fotografia?
Daniel respirou fundo.
— Porque fui eu quem colocou aquele envelope na porta.
A ligação caiu.
Helena olhou para o aparelho, sem compreender.
Depois pegou a fotografia.
Na frente, havia quatro pessoas: sua mãe, seu pai, seu irmão Mateus e uma menina pequena de vestido amarelo.
No verso, escrito com uma letra que não reconhecia, estava o seguinte:
Helena, você tinha dezesseis anos. Você estava lá. Você viu tudo.
Naquela madrugada, ela chorou pela primeira vez em muitos anos.
Não sabia se chorava por medo, por saudade ou porque, em algum lugar dentro de sua cabeça, uma porta antiga acabara de se abrir.
E, do outro lado, havia alguém esperando.








