Capítulo 1
O vento norte soprava forte durante a noite, trazendo consigo o ar gélido e as nuvens carregadas de chuva que, antes do amanhecer, regaria todo o solo de Lunetherna.
Já passava da meia-noite quando Illya despertou.
Ela abriu lentamente os olhos e permaneceu alguns segundos imóvel, observando a escuridão do quarto. A pouca iluminação vinha das brasas quase apagadas da lareira, que já não eram suficientes para aquecer o ambiente como antes.
O frio já começava a tomar conta do cômodo. Ela podia ouvir o barulho do vento vindo do lado de fora. Illya suspirou e estendeu uma das mãos. Não que isso fosse um fardo, ela só estava meio sonolenta.
Uma pequena fagulha de fogo surgiu na ponta de seus dedos, iluminando parte de seu rosto por um breve instante. Com um simples movimento, a pequena chama se dirigiu até a lenha da lareira. Assim que o fogo encontrou a madeira, as chamas voltaram a crescer lentamente.
O calor começou, aos poucos, a se espalhar pelo quarto. Ela sorriu satisfeita. Não fazia aquilo por si mesma. Por ser uma Dominadora de fogo, era normal conseguir se esquentar sem usar a sua dominância de forma visível.
Ela fazia pelos quatro pequenos que dormiam tranquilamente ao seu redor.
Como irmã mais velha, Illya dividia o quarto com todos eles. E, muito em breve, aquele espaço já não seria suficiente para acomodar tantas camas e gente. A família estava prestes a crescer mais uma vez. Sua mãe esperava gêmeos que poderiam nascer a qualquer momento.
Illya afastou cuidadosamente as próprias cobertas e levantou da cama.
Antes de voltar a dormir, fez aquilo que sempre fazia durante as noites mais frias. Caminhou silenciosamente pelo quarto, verificando cada um.
Hina dormia completamente atravessada na cama, de boca aberta e com as pernas apoiadas sobre o pequeno corpo de Lyra. Illya soltou uma discreta risada enquanto observava por alguns segundos aquela cena que se repetia quase todas as noites.
Com toda a delicadeza possível, afastou as pernas da irmã mais nova e cobriu novamente as duas.
Logo depois, se aproximou da outra cama onde estava Aiden. Ele havia se virado completamente de costas para Leon, que permanecia abraçado ao seu urso de pelúcia enquanto dormia profundamente.
Assim como as meninas, os dois também haviam saído debaixo das suas cobertas durante o sono.
Ela os cobriu novamente e observou os quatro por alguns segundos. Todos eles dormiam tranquilamente.
Um sorriso maior surgiu em seus lábios.
Aos vinte e dois anos, cuidar dos irmãos havia se tornado algo tão natural quanto respirar. Ela realmente gostava daqueles momentos e agradecia por ser agraciada por todos eles.
Sentindo vontade de ir ao banheiro, Illya caminhou em direção à porta do quarto, tentando não fazer barulho.
Girou a maçaneta devagar, sem fazer nenhum ruído, e saiu para o corredor, que estava mergulhado na escuridão.
Mas, antes de chegar ao banheiro, ouviu vozes vindas da sala. Ela sabia que eram seus pais e não tinha intenção alguma de incomodá-los e continuou caminhando silenciosamente até o seu destino.
- E se um deles nos ouvir? - perguntou sua mãe, tentando sussurrar.
- Você sabe como eles são, dormem feito pedras. - respondeu o pai, em tom de brincadeira. - Agora vem cá, fica aqui.
Illya fechou os olhos por um instante, pois sabia exatamente o que estava acontecendo naquela sala.
Ela não conseguiu evitar um pensamento. Sua mãe estava prestes a dar à luz, e ainda por cima, gêmeos. Será que aquilo realmente era uma boa ideia?
Seu pai tinha um sonho de grandeza. Queria ter vários filhos para que pudessem expandir mais o território dos Dominadores. Ela se perguntava às vezes se os Dominadores precisavam de expansão, já que tinham todo o continente com milhares espalhados por todos os lados.
Enquanto voltava para o quarto, balançou levemente a cabeça.
- Ele já tem cinco filhos e mais dois estão a caminho. Será que não é o suficiente? - murmurou baixinho para si mesma.
Ela entrou novamente no quarto. Fechou cuidadosamente a porta sem fazer barulho mais uma vez. Voltando para sua cama, ela puxou as cobertas até a altura dos ombros e deixou que o calor da lareira envolvesse novamente o ambiente.
Em poucos minutos, a escuridão voltou a abraçá-la e ela caiu no sono.
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Na manhã seguinte, bem cedo, o silêncio da casa já não existia mais. Risadas infantis ecoavam por todos os cômodos. Illya abriu lentamente os olhos. Permaneceu alguns segundos encarando o teto antes de se espreguiçar.
Levantou-se da cama e caminhou até a janela. Assim que a abriu, a luz e a brisa da manhã invadiram o quarto, fazendo seus longos cabelos balançarem. O ar ainda estava um pouco frio, mas o céu permanecia claro. Era um lindo dia ensolarado.
Como os Dominadores de ar haviam previsto no dia anterior, a chuva realmente havia caído durante toda a madrugada.
No lado de fora, os Dominadores de água já faziam o trabalho em equipe.
Com suas dominâncias, retiravam o excesso de água acumulada pelas ruas para que o solo secasse mais rápido e ninguém precisasse caminhar sobre a lama.
Illya observou aquela cena sorrindo. Era assim que o vilarejo funcionava todos os dias. Cada Dominador utilizava sua dominância para ajudar os outros. Ninguém precisava passar por dificuldades sozinho. Ela gostava daquela forma de viver. Era uma dádiva e tanto.
Depois de alguns segundos observando mais um pouco o dia a todo vapor no lado de fora, ela se afastou da janela.
Ainda usando as roupas com que havia dormido, desceu as escadas sem pressa. À medida que se aproximava da cozinha, as vozes das crianças tornavam-se cada vez mais altas.
Quando entrou no cômodo, encontrou toda a família reunida ao redor da mesa, prestes a iniciar o desjejum.
- Bom dia, Illya! - disseram os quatro pequenos praticamente ao mesmo tempo.
- Bom dia, pequenos - respondeu ela, sorrindo.
A resposta saiu acompanhada de um bocejo, fazendo sua mãe rir discretamente. Ela também ocupou seu lugar à mesa e, depois de cumprimentar os pais, todos fizeram a primeira refeição do dia juntos.
Quando terminaram, Illya começou a recolher os pratos enquanto sua mãe organizava os últimos utensílios.
Seu pai, por outro lado, terminava de arrumar as crianças para saírem. Como acontecia todas as manhãs, ele as levaria até a escola do vilarejo, onde aprendiam sobre a dominância. E ele seguia para o trabalho. Antes de sair, voltou-se para a filha mais velha.
- Você tem treinamento hoje? - perguntou.
- Não, pai. Hoje estou de folga - respondeu Illya, balançando a cabeça negativamente.
- Isso é ótimo - respondeu ele, com um sorriso satisfeito surgindo em seu rosto. - Assim consigo trabalhar tranquilo sabendo que sua mãe não ficará sozinha.
Ele se aproximou da filha e Illya sorriu.
- Pode deixar. Eu cuido dela - disse ela.
O homem passou a mão carinhosamente sobre os cabelos da filha.
- Eu sei que cuida - falou ele. Seu olhar demonstrava absoluta confiança. - Estou contando com você.
Ela apenas assentiu. Já estava bastante acostumada a ajudar a mãe durante as gestações.
Na verdade, ela gostava daqueles dias em que as duas ficavam sozinhas em casa.
Depois que todos se despediram e as crianças partiram para a escola, Illya insistiu para que sua mãe fosse descansar, dizendo que cuidaria de toda a casa.
A mulher sorriu com carinho, beijou a filha na bochecha e seguiu para o quarto.
Illya observou a mãe entrar no cômodo que ficava no andar de baixo. Então respirou fundo, pronta para começar a organizar tudo.
O dia havia começado tranquilo. E tudo indicava que continuaria exatamente assim.








