Capítulo 1 — Saudade

— Às vezes eu sinto que essa vida não é minha.
A frase escapou antes que eu pudesse decidir se queria dizê-la.
Do outro lado do consultório, o Dr. Daniel ergueu os olhos do bloco apoiado sobre o joelho. A caneta continuou parada entre seus dedos, mas ele não disse nada.
Claro que não.
Seis anos fazendo terapia com aquele homem e eu ainda não tinha aprendido que o silêncio era uma das ferramentas favoritas dele.
O relógio na parede continuou trabalhando por nós.
Tique.
Taque.
Tique.
Puxei uma linha solta da manga da blusa.
— Não desse jeito.
— Que jeito?
— Do jeito que você está pensando.
— E como eu estou pensando?
Olhei para ele.
A expressão era a mesma de sempre. Calma demais. Aquele rosto treinado para não entregar se eu tinha acabado de dizer algo completamente normal ou profundamente preocupante.
— É irritante quando você faz isso.
— Isso o quê?
— Responde uma pergunta com outra pergunta.
O canto da boca dele se ergueu.
— Você estava falando sobre sua vida.
Suspirei e deixei a cabeça cair contra o encosto da poltrona.
Minha vida.
Às oito da manhã, eu estaria diante do computador.
Às oito e quinze, provavelmente ouviria alguém reclamar que o café estava horrível.
Às nove, o telefone começaria a tocar.
Ao meio-dia, Adam apareceria na minha mesa perguntando se eu pretendia sobreviver apenas de café.
No fim do expediente, eu pegaria o mesmo caminho para casa.
E amanhã começaria tudo de novo.
— Eu só... — procurei as palavras. — Não sei. Parece que estou no lugar errado.
Dr. Daniel descruzou as pernas.
— No trabalho?
— Em todo lugar.
Dessa vez ele não escreveu.
Não sei por que percebi isso.
Talvez porque eu estivesse acostumada ao som da caneta dele raspando o papel enquanto eu falava.
Olhei para a janela.
O consultório ficava no décimo primeiro andar de um prédio espremido entre tantos outros que, dali, a cidade parecia não terminar nunca.
A chuva da manhã tinha deixado marcas no vidro. Lá embaixo, os carros se arrastavam pela avenida e uma buzina atravessou até nós, abafada pela janela fechada.
Cinza.
A cidade parecia sempre cinza vista dali.
— E os sonhos? — perguntou ele.
Meu estômago apertou.
Voltei os olhos para o Dr. Daniel.
— Que sonhos?
Ele inclinou a cabeça.
— Elise.
O jeito como disse meu nome me irritou mais do que deveria.
— Não tive mais.
Mentira.
Na noite anterior eu tinha acordado às três e dezessete da manhã com os pés gelados e o coração disparado.
Ainda conseguia sentir terra entre os dedos.
Não imaginar.
Sentir.
Terra fria e úmida.
Eu estava descalça no sonho.
Havia árvores ao meu redor, tão altas que eu precisava inclinar a cabeça para encontrar o fim delas. Alguma coisa brilhava entre as folhas. Pequenos pontos dourados, centenas deles, movendo-se no escuro.
E havia um som.
Alguém me chamava.
Nunca conseguia ouvir o nome inteiro.
Só o começo.
Eli...
Então eu acordava.
— Nenhum? — ele insistiu.
Passei a língua pelos lábios.
— Nenhum.
A caneta voltou a tocar o papel.
Riscou alguma coisa.
Uma vez.
Duas.
Tive vontade de perguntar o que ele estava escrevendo.
Não perguntei.
Meu celular vibrou dentro da bolsa.
A tela acendeu.
Adam: Se você disser que não está com fome quando sair da terapia, vou considerar uma ofensa pessoal.
Uma segunda mensagem apareceu antes que eu terminasse de ler.
Adam: Estou falando sério.
Um sorriso me escapou.
— Adam? — perguntou Dr. Daniel.
Ergui os olhos.
— Você tem algum tipo de radar?
— Você só olha para o celular desse jeito quando é ele.
— Desse jeito como?
— Como se estivesse tentando não sorrir.
Bloqueei a tela.
— Eu não estava sorrindo.
Ele apenas me encarou.
— Não começa.
Dr. Daniel riu baixo.
Olhei para o relógio sobre a estante.
Pouco mais de cinco minutos.
Toda sessão terminava da mesma maneira. Eu começava olhando aquele relógio querendo que os cinquenta minutos acabassem e terminava olhando para ele tentando entender como tinham passado tão rápido.
Meu olhar voltou para a janela.
E o sorriso morreu.
As gotas de chuva tinham desaparecido.
A avenida também.
Não havia carros.
Não havia prédios.
Não havia céu cinza.
Havia verde.
Meu corpo inteiro ficou imóvel.
Uma árvore se erguia do outro lado do vidro.
Não.
Não uma árvore.
Dezenas.
Centenas.
Troncos enormes desapareciam em uma cobertura tão fechada que a luz atravessava as folhas em pequenos feixes dourados.
Alguma coisa tocou meu rosto.
Vento.
Recuei.
O consultório estava no décimo primeiro andar.
A janela estava fechada.
Mas eu sentia vento.
O cheiro veio em seguida.
Terra molhada.
Folhas.
Flores.
Meu coração bateu com tanta força que doeu.
Eu conhecia aquele cheiro.
Uma sombra atravessou as copas.
Grande demais para ser um pássaro.
As folhas se agitaram acima de mim e, por uma fração de segundo, alguma coisa enorme abriu asas contra a luz.
Levantei da poltrona.
— Elise?
A voz do Dr. Daniel veio de muito longe.
Dei um passo em direção à janela.
Um pequeno ponto luminoso flutuou entre duas árvores.
Depois outro.
E outro.
Meu peito apertou.
Eu já tinha estado ali.
A certeza surgiu inteira.
Brutal.
Impossível.
Eu conhecia aquela floresta.
— Elise.
Pisquei.
Uma buzina.
Pisquei novamente.
Prédios.
O ar-condicionado soprava frio sobre meus braços.
As gotas de chuva estavam novamente presas ao vidro.
Apoiei a mão na poltrona.
Meus dedos tremiam.
— O que você viu?
Olhei para ele.
Alguma coisa naquela pergunta me incomodou.
Não o que aconteceu?
Não você está bem?
O que você viu?
Dr. Daniel continuava sentado na poltrona diante da minha.
Calmo.
Atento.
Esperando.
Engoli em seco.
— Nada.
Seus olhos permaneceram nos meus.
— Tem certeza?
Peguei minha bolsa.
— Só fiquei tonta.
Ele olhou rapidamente para o relógio.
— Podemos ficar mais alguns minutos se você quiser.
— Não precisa. Estou bem.
Não estava.
Coloquei a alça da bolsa no ombro e caminhei até a porta.
Minha mão já estava na maçaneta quando sua voz veio novamente.
— Elise.
Parei.
Olhei por cima do ombro.
Ele havia deixado o bloco sobre a mesa lateral.
— Se os sonhos voltarem, ou se você perceber qualquer outra coisa fora do comum, quero que me conte.
— Por quê?
Uma pausa.
Pequena demais para significar alguma coisa.
— Porque pode nos ajudar a entender o que está acontecendo com você.
Sorriu.
O mesmo sorriso tranquilo que eu conhecia havia seis anos.
— Tudo bem?
Assenti.
— Tudo bem.
Abri a porta.
— Até semana que vem, Elise.
— Até, Dr. Daniel.
Saí.
A recepcionista me desejou boa tarde quando passei pelo balcão. Respondi qualquer coisa que nem eu mesma ouvi.
Só consegui respirar direito quando as portas do elevador se fecharam.
Encostei na parede de metal e apertei o botão do térreo.
Décimo primeiro.
Décimo.
Nono.
Fechei os olhos.
A floresta apareceu novamente na minha cabeça.
As árvores.
As luzes.
Aquela coisa enorme atravessando o céu.
O cheiro de terra molhada.
Abri os olhos.
Oito.
Eu tinha mentido para o meu psicólogo.
Não sabia por quê.
Dr. Daniel era provavelmente uma das pessoas que mais me conheciam.
Durante seis anos, eu tinha contado a ele coisas que nunca contei a mais ninguém.
Ainda assim, quando ele perguntou o que eu tinha visto, alguma coisa dentro de mim disse para ficar quieta.
Sete.
Seis.
Talvez eu estivesse ficando louca.
A ideia deveria ter me assustado.
Mas não foi isso que fez minhas mãos começarem a tremer novamente.
Foi lembrar da sensação que tive diante daquela floresta.
Porque, por alguns segundos, eu não quis voltar.
E aquilo que senti não parecia medo.
Parecia saudade.








