Chapter 1
BLAIR
A primeira coisa que aprendi sobre fotografias foi que elas mentem.
Não da maneira óbvia.
Uma fotografia não inventa o sorriso que estava ali, nem o vestido vermelho, nem a mão repousada sobre um ombro. Ela não cria o sol entrando pela janela ou o bolo torto sobre a mesa. Tudo aquilo existiu.
A mentira está no que fica do lado de fora.
Minha mãe sorria na fotografia que eu segurava entre os dedos como se soubesse exatamente quem estava atrás da câmera. O cabelo castanho, tão parecido com o meu, caía sobre um dos ombros. Meu pai estava ao lado dela, uma mão em sua cintura, os olhos apertados pelo sol.
E eu estava no meio dos dois.
Quatro anos.
Talvez cinco.
Nunca consegui descobrir exatamente quando aquela foto tinha sido tirada.
— Blair.
Ignorei a voz que veio da porta e passei o polegar pela borda já gasta da fotografia.
Eu conhecia o rosto dos meus pais melhor em papel do que na memória.
Às vezes achava que me lembrava da voz da minha mãe. Outras vezes percebia que provavelmente era a voz da minha tia contando alguma história sobre ela. Meu cérebro tinha feito uma colagem de lembranças emprestadas e chamado aquilo de infância.
— Blair.
Dessa vez, a voz veio acompanhada de duas batidas no batente.
— Estou trabalhando - respondi, sem erguer os olhos.
— Você está olhando pra mesma foto há cinco minutos.
Finalmente encarei Stevie.
Ela estava parada na porta do meu quarto usando um short rosa ridiculamente curto, uma camiseta branca três números maior e uma máscara verde cobrindo o rosto. Os cabelos loiros estavam presos no alto da cabeça por uma faixa felpuda que
parecia ter sido arrancada de um Muppet.
Olhei para ela. Depois para a tela do computador. Consultei o relógio apenas para contrariá-la.
— Quatro minutos.
Stevie cruzou os braços e assentiu com toda a seriedade que alguém coberto de gosma verde conseguia reunir.
— Ah. Então retiro o que disse.
Voltei a fotografia para a pequena caixa de madeira em cima da escrivaninha.
— Obrigada.
Ela continuou me olhando.
— Continua sendo deprimente.
Apontei para o rosto dela.
— E você continua parecendo o Shrek.
Stevie abriu um sorriso enorme.
— Um Shrek hidratado.
— Parabéns.
Satisfeita por ter vencido uma discussão que só existia na cabeça dela, Stevie desapareceu pelo corredor.
Sorri apesar de mim mesma.
A chuva batia contra a janela do apartamento havia horas. Nada especialmente digno de nota em Seattle. Lá fora, a cidade era um borrão de luzes amarelas, asfalto molhado e guarda-chuvas passando seis andares abaixo.
Dentro do quarto, havia outro tipo de caos.
Duas câmeras sobre a mesa. Três lentes. Cartões de memória espalhados perto do teclado. Uma caneca de café que eu tinha esquecido de terminar horas antes. Cabos. Baterias. Um cinzeiro vazio que eu usava para guardar cartões SD. Uma pilha de roupas sobre a poltrona que havia deixado de ser uma poltrona meses atrás.
Meu sketchbook estava aberto perto do computador.
Virei-o de cabeça para baixo antes de voltar ao trabalho.
Algumas coisas não precisavam ficar olhando para mim.
Aos vinte e cinco anos, eu tinha conseguido transformar o hábito infantil de tentar impedir que as coisas desaparecessem em uma profissão.
Não era uma profissão particularmente estável.
Mas era minha.
Na tela, uma mulher ria enquanto o noivo beijava seu pescoço. Eu tinha fotografado o ensaio na semana anterior, perto do pôr do sol. A cliente havia pedido imagens "espontâneas", palavra que normalmente significava passe quarenta minutos nos posicionando para parecer que não fomos posicionados.
Aquela, porém, tinha sido real.
Ele dissera alguma coisa no ouvido dela. Eu não ouvira o quê.
Mas vi o instante.
Cliquei.
Era disso que eu gostava.
Do meio segundo antes de alguém lembrar que estava sendo observado.
Meu celular vibrou contra a mesa.
Não olhei.
Vibrou novamente.
— Se for cobrança, eu morri - gritei.
Da sala, a resposta de Stevie veio imediatamente:
— Quer que eu avise seu banco?
— Por favor. Diz que foi trágico.
— Vou pedir flores.
A terceira vibração fez o aparelho andar alguns centímetros sobre a mesa.
Suspirei.
— Filho da puta insistente.
Número desconhecido.
Recusei.
Voltei ao Lightroom.
O telefone tocou.
O mesmo número.
Aquela pessoa realmente queria falar comigo.
Atendi e prendi o celular entre o ombro e a orelha enquanto continuava mexendo no mouse.
— Se você estiver tentando me vender um plano de internet, eu já tenho.
Houve dois segundos de silêncio do outro lado.
— Blair Bennett?
A voz masculina não tinha entonação de telemarketing. Tirei a mão do mouse.
— Depende.
— Meu nome é Marcus. Dean Calloway me passou seu número.
Meu corpo ficou um pouco mais ereto na cadeira.
Dean.
O nome abriu uma gaveta antiga da minha cabeça.
Cabelo escuro e cacheado. Covinhas. Um baixo pendurado no corpo. Cigarros divididos do lado de fora de casas de show pequenas demais para a quantidade de gente que enfiavam lá dentro.
— Dean? - repeti. - Dean das covinhas?
Marcus soltou uma risada curta.
— Eu nunca ouvi ninguém chamar ele assim, mas provavelmente.
— Faz uns anos que eu não falo com ele.
— Ele disse que você trabalha com fotografia de show.
— Também.
Houve barulho do outro lado da ligação. Alguém chamou Marcus e ele respondeu alguma coisa longe do telefone antes de voltar.
— Está livre hoje?
Olhei para o relógio no canto da tela.
19h12.
— Depende do que você considera hoje.
— Agora.
Ri, esperando que ele acompanhasse.
Marcus não riu.
Meu sorriso morreu.
— Ah. Você está falando sério.
— Muito.
Recostei na cadeira.
— O que aconteceu?
— Nosso fotógrafo teve uma emergência familiar. Acabou de cancelar.
— E o show?
A pausa dele me deu a resposta antes das palavras.
— Começa às dez.
Olhei novamente para o relógio.
— Você está procurando fotógrafo faltando menos de três horas pro show?
— Estou procurando um milagre faltando menos de três horas pro show.
— E o Dean resolveu que eu sou Jesus?
Dessa vez Marcus riu.
— Mais ou menos.
— Qual é a banda?
Houve uma pausa pequena demais para ser dramática e longa demais para ser irrelevante.
— After Dark.
Fiquei em silêncio.
Eu conhecia o nome.
Seria difícil não conhecer.
Não era exatamente possível morar em Seattle, trabalhar com música e fotografia e nunca ter ouvido falar do After Dark. Eles tinham começado pequenos na cena local e, nos últimos anos, crescido rápido o bastante para aparecer cada vez mais em festivais, playlists e camisetas de garotas que tinham idade suficiente para saber que decisões ruins continuavam sendo ruins mesmo quando vinham acompanhadas de tatuagens.
Mas eu não era fã.
Conhecia talvez duas músicas.
Uma e meia, se fosse ser rigorosa.
— Blair? - Marcus chamou.
— Estou aqui.
— Consegue?
Olhei para as câmeras sobre a mesa. Depois para a chuva do lado de fora. Por último, para a calça de moletom preta que eu usava.
— Quanto?
Marcus disse o valor.
Minha sobrancelha subiu.
Olhei novamente para as câmeras.
— Que horas você precisa de mim?
***
— Você vai vestida assim?
Stevie estava apoiada no batente da porta pela terceira vez naquela noite.
Olhei para mim mesma no espelho.
— Qual o problema?
— Nenhum. - Ela percorreu meu corpo com os olhos, demorando propositalmente. - Estou só tentando entender se você vai trabalhar ou destruir uma família.
— Dramática.
O espelho de corpo inteiro devolveu uma versão de mim que parecia muito mais preparada do que eu me sentia.
Troquei o moletom por um short preto de cintura alta sobre uma meia-calça fina, já propositalmente rasgada em alguns pontos. Coturnos de couro gastos chegavam pouco acima dos tornozelos. Uma regata preta justa desaparecia sob uma jaqueta de couro curta.
Nada que eu não pudesse usar agachada entre uma caixa de som e um segurança de cento e vinte quilos.
Meu cabelo castanho estava solto, comprido demais, chegando quase à cintura em ondas desorganizadas. Não tentei domá-lo. Nunca funcionava.
Na maquiagem, eu tinha feito o que sempre funcionava comigo: preto. Bastante preto. Lápis escuro contornava os olhos e se misturava à sombra esfumada nas pálpebras, puxada para fora sem nenhuma preocupação em parecer delicada. O rímel deixava os cílios ainda mais escuros e fazia o azul muito claro dos meus olhos
parecer quase luminoso em contraste. As sardas continuavam visíveis sobre o nariz e as maçãs do rosto; eu nunca fazia questão de escondê-las. Na boca, passei um batom vinho muito escuro, matte, quase ameixa sob determinadas luzes. Contra minha pele muito clara, a cor parecia ainda mais profunda.
O piercing preto no nariz completava o conjunto, discreto apenas quando comparado ao resto.
Minhas unhas stiletto eram longas o suficiente para Stevie perguntar regularmente como eu não arrancava um olho colocando lente de contato.
Prática.
As tatuagens faziam o resto.
Algumas pretas. Outras coloridas. Flores que não eram delicadas, uma mariposa, traços, pequenas imagens que faziam sentido apenas para mim e outras que tinham deixado de fazer sentido anos atrás.
Stevie apareceu atrás de mim no reflexo.
— After Dark - repetiu, como se ainda estivesse processando a informação.
— Sim.
— O After Dark.
Encontrei os olhos dela pelo espelho.
— Existem dois?
— Blair.
Peguei minha bolsa de equipamento.
— Stevie.
Ela estreitou os olhos.
— Você sabe quem são?
— Uma banda.
A decepção no rosto dela foi tão genuína que quase me senti culpada.
— Eu falhei com você como amiga.
— Profundamente.
— Espera.
Stevie pegou o celular.
Imediatamente apontei para ela.
— Não.
— Eu nem fiz nada.
— Conheço essa sua cara.
— Só quero educar você.
— Tenho vinte minutos pra chegar lá.
— Então vai ser uma aula intensiva.
Passei a alça da bolsa pelo ombro enquanto Stevie mexia rapidamente na tela.
— Pronto.
Ela virou o celular na minha direção.
Havia cinco homens na fotografia.
Olhei.
Pisquei.
Olhei de novo.
— Jesus Cristo.
O sorriso de Stevie apareceu instantaneamente.
— Ah.
— Eu estava falando da quantidade de tatuagem.
— Claro que estava.
Peguei o celular da mão dela.
Reconheci Dean imediatamente.
Mesmo depois de anos.
Os cachos continuavam absurdos, agora maiores, caindo sobre a testa. Ele sorria na fotografia e as covinhas ainda estavam lá. Mais tatuado do que eu lembrava. Piercings que eu não lembrava. O mesmo ar de alguém que provavelmente faria amizade com uma parede se fosse deixado sozinho tempo suficiente.
Ao lado dele havia um ruivo.
Cabelo acobreado, barba curta, sardas espalhadas pelo rosto e uma expressão que praticamente anunciava problemas legais. Tinha um cigarro entre os dedos e o braço coberto de tatuagens.
— Esse tem cara de quem já foi preso.
Stevie se aproximou para olhar por cima do meu ombro.
— Rhet.
— Foi preso?
— Não sei. - Ela deu de ombros. - Mas eu deixaria.
Virei lentamente o rosto para ela.
— Você tem namorado.
— Eu disse que deixaria hipoteticamente.
— Vou contar pra ele.
— Ele sabe quem é Rhet. Vai entender.
Balancei a cabeça e voltei para a tela.
O homem seguinte era enorme.
Cabelos castanhos compridos, barba cheia, olhos que naquela fotografia pareciam entre verdes e castanhos. Não sorria. Usava uma camiseta branca simples e vários anéis de prata.
— Nash - Stevie informou, apontando. - Baterista.
Passei para o próximo.
E parei.
Cabelo preto. Curto nas laterais, mais longo e desarrumado em cima. Ombros largos. Tatuagens escuras desaparecendo sob a manga da camiseta. Barba curta desenhando uma mandíbula que deveria ser ilegal em alguns estados.
Mas foram os olhos.
Cinza.
Quase prateados naquela iluminação.
— Esse?
Stevie soltou um som satisfeito atrás de mim.
— Cain.
— Hum.
Ela se inclinou para o lado até aparecer no meu campo de visão.
— "Hum"?
— Estou avaliando a composição da foto.
Stevie abriu um sorriso malicioso.
— Você quer sentar na composição.
Empurrei o celular contra o peito dela.
— Vai se foder.
A gargalhada veio alta.
— Faltou um.
— Sobreviverei.
— Não vai.
Antes que eu pudesse impedir, ela deslizou a tela.
Platinado.
Foi a primeira coisa que vi.
Cabelo quase branco, raízes mais escuras, fios caindo sobre olhos azul-acinzentados. Sobrancelhas escuras. Mandíbula marcada por uma barba curta. Tatuagens subiam pelo pescoço e desapareciam sob a gola de uma camiseta preta.
Ele não sorria exatamente.
Era pior.
Um dos cantos da boca estava ligeiramente levantado, como se soubesse alguma coisa que o resto do mundo ainda não tinha descoberto.
— Knox - Stevie informou. - Vocalista.
Devolvi o telefone.
— Muito bonito.
Ela ficou imóvel por um segundo.
— Só isso?
— Tenho trabalho.
— Você acabou de olhar para cinco homens que parecem ter sido montados num laboratório especializado em destruir a vida de mulheres e disse "muito bonito".
Peguei a câmera.
— Talvez eu seja lésbica.
— Você não é.
— Hoje pode ser meu dia.
Stevie soltou uma risadinha e me acompanhou até a porta.
— Seu último homem foi há mais de um ano.
Parei com a mão na maçaneta e olhei para ela.
— Não começa.
Ela levantou as duas mãos em rendição, mas o sorriso permaneceu.
— Eu só estou dizendo que talvez Deus tenha ouvido minhas orações.
— Você reza pela minha vida sexual?
— Alguém precisa.
Mostrei o dedo do meio e abri a porta.
A voz dela me alcançou quando eu já estava no corredor.
— Te amo!
Olhei por cima do ombro.
— Também te amo, Shrek.
— Hidratado!
A porta fechou enquanto eu ria.
***
O local estava um caos.
O tipo específico de caos que só existe antes de um show.
Cabos atravessavam o chão. Cases pretos empilhavam-se contra as paredes. Alguém passou correndo por mim carregando três pedestais de microfone. Um homem com headset falava com duas pessoas simultaneamente enquanto outra gritava alguma coisa sobre iluminação.
O grave da passagem de som vibrava através das paredes.
Mostrei minha credencial provisória ao segurança e mal tive tempo de guardá-la antes de um homem vir em minha direção.
Devia ter uns quarenta anos, barba aparada, boné preto e a expressão de quem estava a um problema técnico de abandonar a indústria musical e criar cabras.
— Blair?
— Marcus?
O alívio no rosto dele foi quase comovente.
— Graças a Deus.
Ajustei a bolsa no ombro.
— Não agradece ainda. Você nem viu as fotos.
Ele soltou uma risada cansada e já começou a andar, fazendo um gesto para que eu o acompanhasse.
— Dean falou muito bem de você.
— Isso me preocupa.
Marcus me lançou um olhar rápido.
— Você conhece ele?
— Conhecia. Faz tempo.
Passamos por uma porta dupla e o som aumentou imediatamente. Uma guitarra atravessou as paredes com tanta força que senti a vibração sob as botas.
Marcus continuou falando enquanto desviava de dois homens carregando equipamento.
— O combinado é o show inteiro. Palco, público, bastidores se eles deixarem. Preciso de umas vinte imagens rápidas ainda hoje para social e o restante amanhã.
Virei o rosto para ele.
— Vinte hoje?
Marcus percebeu minha expressão.
— Dez?
— Quinze.
Ele nem pensou.
— Fechado.
— Eu devia ter pedido mais dinheiro.
— Devia.
Parei por um segundo.
Marcus também.
Olhamo-nos.
Gostei dele.
Continuamos até uma porta no fim do corredor. Marcus segurou a maçaneta, mas não abriu imediatamente.
— Uma coisa.
— Hum?
A expressão dele ficou estranhamente séria.
— Eles são tranquilos.
Olhei para ele.
Do outro lado da porta, alguma coisa caiu com um estrondo.
Uma voz masculina gritou:
— RHET, SEU FILHO DA PUTA!
Marcus fechou os olhos por um segundo.
Quando os abriu, corrigiu:
— Relativamente tranquilos.
Meu sorriso apareceu sozinho.
— Já fotografei casamento. Nada me assusta.
Marcus riu e abriu a porta.
O cheiro veio primeiro.
Cigarro. Couro. Suor. Alguma colônia amadeirada. Café. Eletricidade quente dos equipamentos.
Depois as vozes.
Depois eles.
Cinco homens espalhados por um camarim grande demais para parecer confortável e pequeno demais para conter a energia que havia ali.
E, por algum motivo estúpido, meu cérebro registrou cada um separadamente.
Dean foi o primeiro a me ver.
Estava sentado sobre uma bancada, baixo apoiado ao lado, uma jaqueta vinho aberta sobre uma camiseta vintage. Os cachos escuros caíam sobre a testa. Um pequeno aro atravessava o nariz, outro metal brilhava na sobrancelha, e havia mais prata nas orelhas e abaixo do lábio.
Por meio segundo, ele apenas me encarou.
Então as covinhas apareceram.
— Não acredito.
Dean saltou da bancada e atravessou o camarim.
— Blair Bennett.
Abri os braços a tempo de receber o abraço.
— Dean Calloway.
Ele cheirava a sabonete, cigarro e alguma coisa cítrica.
Quando se afastou, segurou meus ombros e me examinou como se estivesse comparando meu rosto com uma lembrança antiga.
— Caralho. Você continua igual.
— Isso é mentira.
Ele inclinou a cabeça.
— Tá. Tem mais tatuagem.
Apontei para o rosto dele.
— E você furou metade da cara.
Dean tocou o aro do nariz.
— Ficou bom?
— Questionável.
A risada veio fácil.
Exatamente como eu lembrava.
— Eu sabia que você vinha.
Cruzei os braços.
— Você me indicou sem falar comigo.
— Se eu falasse antes, você podia dizer não.
— Eu ainda posso ir embora.
— Não pode. Marcus já vendeu a alma.
Atrás de mim, Marcus levantou uma mão.
— Confirmo.
Foi então que percebi que o restante do camarim tinha ficado mais silencioso.
Dean também percebeu. Olhou por cima do meu ombro e o sorriso dele adquiriu uma qualidade suspeita.
— Ah. Certo. Você não conhece os animais.
— Conheço fotos dos animais.
— Pior ainda.
Ele se virou.
— Blair, infelizmente, esses são meus colegas de trabalho.
— Vai tomar no cu - disse o ruivo.
Rhet.
Ao vivo, ele parecia ainda mais perigoso.
Não porque fosse enorme - Nash ganhava facilmente naquele quesito -, mas porque havia alguma coisa inquieta nele. Energia demais comprimida sob a pele.
O cabelo acobreado era mais comprido do que parecera na fotografia, bagunçado ao redor do rosto. Sardas atravessavam o nariz. A barba curta era quase tão vermelha quanto o cabelo. Uma camiseta preta sem mangas mostrava braços tatuados e uma cicatriz pequena perto do cotovelo.
Ele estava largado numa poltrona com um cigarro apagado preso atrás da orelha.
Os olhos verdes passaram lentamente por mim.
Botas.
Pernas.
Cintura.
Rosto.
Sem qualquer tentativa de fingir educação.
— Fotógrafa? - perguntou, apoiando um cotovelo no braço da poltrona.
Mantive a expressão neutra.
— Alfabetizado?
Dean engasgou numa risada ao meu lado.
O olhar de Rhet voltou ao meu rosto. Por um segundo, pareceu surpreso.
Depois sorriu.
Devagar.
— Gostei dela.
— Ela está aqui há trinta segundos - uma voz grave observou.
Meu olhar encontrou Cain.
Ah.
A fotografia de Stevie tinha sido uma propaganda enganosa.
Para pior.
Cain estava encostado na parede, braços cruzados sobre o peito. A camiseta preta simples parecia ter sido criada especificamente para mostrar o tamanho dos ombros dele. O cabelo escuro estava desarrumado no topo, e a barba curta tornava as linhas do rosto ainda mais duras.
Mas os olhos eram realmente daquele tom estranho.
Cinza muito claro.
Ele me observava sem sorrir.
Não como Rhet.
Rhet tinha me olhado como homem olhando mulher.
Cain me olhava como se estivesse tentando lembrar de alguma coisa.
Dean apontou para ele.
— Cain. Meu irmão.
Olhei de um para o outro.
Agora que sabia, encontrei as semelhanças. O formato dos olhos. A boca cheia. Alguma coisa na mandíbula.
Mas onde Dean parecia aberto, Cain parecia uma porta trancada.
— Irmão mais velho - Dean acrescentou.
— Isso ficou evidente.
Uma sobrancelha de Cain subiu.
— Por quê?
Olhei para Dean e depois para ele.
— Você tem cara de quem está cansado das escolhas dele.
Dean soltou uma gargalhada.
Cain desviou os olhos para o irmão, como se estivesse considerando todas as provas que sustentavam minha teoria, e então voltou a me encarar.
Por um instante minúsculo, alguma coisa quase aconteceu em sua boca.
Quase um sorriso.
— Justo.
Então senti outro olhar vindo do lado oposto do cômodo.
Nash.
Ele estava perto de uma janela aberta, apesar da chuva fina entrando pela fresta.
Alto.
Muito alto.
O cabelo castanho caía além dos ombros em ondas desorganizadas, parte preso para trás. A barba cheia e as linhas discretas ao redor dos olhos faziam com que parecesse mais velho que os outros - não velho. Apenas um homem no meio de quatro caras que ainda tinham alguma coisa de moleque escondida neles.
Uma camiseta branca antiga abraçava os ombros largos. Tatuagens apareciam no antebraço. Anéis de prata cobriam alguns dedos.
E entre dois deles havia um cigarro.
Nash não me examinou como Rhet.
Não tentou me decifrar como Cain.
Apenas olhou.
Calmo.
Demorado.
Como se estivesse guardando informação.
Dean acompanhou meu olhar.
— Nash.
O baterista inclinou a cabeça uma única vez.
— Blair.
Minha sobrancelha subiu.
— Você sabe meu nome.
Nash tragou o cigarro antes de responder.
— Dean falou umas quinze vezes.
— Foram três - Dean protestou imediatamente.
Nash soltou a fumaça em direção à janela.
— Quinze.
Sorri.
Ele não.
Mas alguma coisa mudou nos olhos dele.
E então restou o último.
Knox estava sentado diante do espelho iluminado do camarim, uma perna aberta de cada lado da cadeira, os cotovelos apoiados nos joelhos.
Não tinha dito uma palavra.
O cabelo platinado caía sobre a testa em camadas, as raízes escuras aparecendo sob o branco. Usava uma regata preta cavada o suficiente para mostrar parte das tatuagens no peito. Mais tinta desaparecia pelo pescoço e descia pelos braços até as mãos.
Vários anéis.
Correntes no pescoço.
Olhos claros.
Ele tinha aquela mesma expressão da fotografia.
Como se o mundo inteiro fosse uma piada particular.
Knox me observou por mais um segundo antes de olhar para Dean.
— Essa é a fotógrafa que não atendia o telefone?
Virei o rosto para ele.
— Eu atendi.
O olhar de Knox voltou para mim.
— Depois de recusar.
— Como você sabe?
— Dean estava reclamando.
— Eu não estava reclamando - Dean rebateu.
Da poltrona, Rhet corrigiu:
— Estava sofrendo.
Knox finalmente sorriu.
Torto.
Exatamente como na fotografia.
— Você conhece nosso trabalho?
A pergunta pareceu casual.
Não foi.
Cinco pares de olhos caíram sobre mim.
Olhei para Dean. Depois para Rhet, Cain, Nash e, por último, Knox.
Eu poderia mentir.
Seria profissional.
Educado.
Fácil.
— Mais ou menos.
O sorriso de Knox diminuiu um milímetro.
Dean franziu a testa.
— Mais ou menos?
— Conheço vocês. Não escuto vocês.
O silêncio que se seguiu foi tão completo que precisei morder o interior da boca para não rir.
Rhet tirou o cigarro de trás da orelha.
— Porra.
Cain baixou os olhos, e eu poderia jurar que estava escondendo um sorriso.
Dean levou uma mão ao peito como se eu tivesse acabado de traí-lo pessoalmente.
— Blair.
— O quê?
— Isso foi pessoal.
— Não foi.
Knox inclinou a cabeça, ainda me estudando.
— Nenhuma música?
— Já ouvi alguma coisa.
— Qual?
Pensei seriamente.
Nada.
— Tem uma que começa com guitarra.
Rhet começou a rir imediatamente.
Nash virou o rosto para a janela, mas vi os ombros dele se moverem.
Ah.
O filho da puta estava rindo também.
Dean parecia genuinamente ofendido.
Knox ficou me encarando por um instante, como se estivesse decidindo o que fazer comigo.
— Interessante.
Ajustei a câmera pendurada no ombro.
— Eu vim tirar fotos, não fazer prova.
— Talvez saia daqui convertida.
A confiança naquela frase deveria ter me irritado.
Em vez disso, senti uma pontada pequena de curiosidade.
— Talvez vocês me convençam.
Os olhos azul-acinzentados de Knox desceram até a câmera e voltaram aos meus. O sorriso torto reapareceu lentamente.
— Desafio aceito.
Atrás de mim, Marcus bateu duas vezes na porta.
— Cinco minutos.
E foi estranho.
A mudança.
Rhet levantou.
Dean pegou o baixo.
Cain descruzou os braços e alcançou a guitarra.
Nash esmagou o cigarro no cinzeiro e prendeu o restante do cabelo.
Knox ficou de pé.
Em questão de segundos, alguma coisa naqueles cinco homens se reorganizou.
A brincadeira desapareceu.
O ar mudou.
Eles não pareciam mais cinco caras num camarim.
Pareciam uma coisa só.
Peguei a câmera.
E, pela primeira vez naquela noite, senti aquela velha fisgada no peito.
Aquela que vinha um instante antes de eu perceber que havia alguma coisa diante de mim que valia a pena guardar.
Dean passou por mim e tocou rapidamente meu ombro.
— Tenta acompanhar, Bennett.
Ergui a câmera na direção dele.
— Só tenta me dar alguma coisa que preste, Calloway.
As covinhas apareceram.
Ele seguiu os outros.
Eu ainda não sabia nenhuma das músicas deles.
Não sabia que Cain ficava quase imóvel quando tocava, como se toda a violência estivesse concentrada nos dedos. Não sabia que Rhet parecia possuído com uma guitarra nas mãos. Não sabia que Dean sorria para a multidão como se conhecesse pessoalmente cada pessoa nela. Não sabia que Nash tocava bateria como se estivesse tentando arrancar alguma coisa de dentro do próprio peito.
E definitivamente não sabia o que acontecia com o rosto de Knox quando ele abria a boca diante de um microfone.
Ainda.
Ajustei a alça da câmera no ombro e os segui pelo corredor estreito que levava ao palco.
Quanto mais nos aproximávamos, mais o som da multidão crescia.
Não era barulho.
Era uma coisa viva.
Centenas de vozes se misturavam do outro lado das paredes, chamando por cinco homens que, menos de um minuto antes, estavam discutindo no camarim porque eu não sabia citar uma única música deles.
Dean olhou para trás uma última vez.
As covinhas apareceram.
Então ele atravessou a cortina.
O rugido que veio do outro lado fez meu peito vibrar.
Um por um, eles desapareceram sob as luzes.
Fiquei parada por um segundo, câmera nas mãos.
Eu já tinha fotografado dezenas de shows. Sabia exatamente o que estava fazendo.
Mas alguma coisa naquela noite parecia diferente.
Como se eu tivesse chegado atrasada a uma história que já estava acontecendo havia anos - e alguém tivesse acabado de abrir uma porta e me deixado espiar.
Levei a câmera ao rosto.
Uma noite, pensei.
Era só isso.
Uma noite com o After Dark.
E, quando as primeiras notas explodiram do outro lado da cortina, sorri.
Porra.
Aquilo ia render fotografias incríveis.








