O PREÇO DO FANTASMA
As luzes fracas do galpão abandonado nas cercanias industriais de Berlim cortavam a poeira em suspensão como lâminas opacas. O cheiro de ferro oxidado e chuva recente impregnava o ar, mas para Kira, aquele lugar era o único refúgio seguro na Europa.
Ela se sentou diante de três monitores de alta resolução. Ajustou no espelho da tela o disfarce que usava há três semanas: os cabelos ruivos e volumosos estavam escondidos sob uma peruca escura de fios perfeitamente lisos; os marcantes olhos verdes, cobertos por lentes de contato tom castanho-escuro. A maquiagem sutil remodelava os ângulos da sua maçã do rosto, tornando-a perfeitamente banal. Se a polícia alemã ou qualquer mercenário do submundo passasse por ela na rua, veriam apenas mais uma imigrante comum.
Ninguém conhecia seu verdadeiro rosto. Ninguém sabia seu verdadeiro nome. Para o mundo das sombras, ela era apenas Kira - o fantasma digital com QI de 196 capaz de derrubar servidores governamentais antes do amanhecer.
Ela verificou as barreiras de segurança física e digital pela terceira vez. Os sensores de movimento externos estavam limpos. Os rastros digitais, apagados. Ela estava sozinha.
Ou pelo menos era o que julgava.
- A maioria das pessoas gasta a vida tentando construir paredes para se proteger do mundo, senhorita Kira - uma voz grave, melodiosa e assustadoramente tranquila ecoou no canto mais escuro do galpão. - Você constrói labirintos.
O reflexo de Kira foi puramente instintivo. Em menos de meio segundo, o teclado foi esquecido e sua mão deslizou para a arma velada sob a mesa. Ela sacou a 9mm, destravando a arma com um clique seco e apontando a mira exatamente para a origem da voz.
- Mais um passo e eu mudo a decoração da parede com o seu cérebro - avisou ela, a voz fria como o aço.
Da sombra densa, um homem emergiu com uma calma calculada.
Ele era alto - impressionantes 1,94m de uma presença física esmagadora. Vestia um terno de corte impecável, feito sob medida, sem uma única dobra amassada. Cabelos pretos alinhados, pele clara e traços coreanos marcantes. Quando ele deu um passo à frente sob a luz fraca, um sorriso lento surgiu em seus lábios, revelando duas covinhas profundas nas bochechas.
Deveria ser uma feição charmosa. Mas nos olhos castanhos dele, gélidos e destituídos de qualquer traço de medo, aquele sorriso parecia a assinatura de uma sentença de morte.
- Samuel - disse ela, mantendo a arma firme, sem piscar. - Ou devo dizer Hades?
- Nomes e aparências são apenas etiquetas descartáveis para os vivos, minha cara - Samuel ajeitou a abotoadura de platina do punho esquerdo sem sequer olhar para o cano da arma apontado diretamente para seu peito. - Se a sua reputação fizesse jus à sua prudência, saberia que atirar em mim seria o pior erro da sua curta vida.
- Você invadiu meu perímetro.
- Eu não invadi. Eu apenas caminhei até onde sua segurança me permitiu vir - ele fez uma pausa dramática, o olhar varrendo o ambiente com desdém elegante. - Seus algoritmos de detecção de presença são brilhantes para conter amadores. Mas você está lidando com a elite.
- O que você quer? - Kira manteve a postura firme, embora cada célula do seu corpo estivesse em estado de alerta máximo. Ela conhecia a lenda de Hades no submundo asiático. O herdeiro do crime organizado de Seul, um homem cuja mente trabalhava em camadas tão profundas que seus inimigos costumavam cair em suas armadilhas antes mesmo de perceberem que estavam jogando.
Samuel levou a mão com lentidão cirúrgica ao bolso interno do terno. Kira tencionou o dedo no gatilho, mas o que ele retirou foi apenas um telefone criptografado de última geração. Ele deslizou o polegar pela tela e girou o visor na direção dela.
Uma transferência bancária internacional. Uma conta fantasma em um paraíso fiscal acabara de ser credita.
€ 10.000.000,00.
Dez milhões de euros. O número piscava na tela como uma tentação em meio ao escuro.
Os olhos de Kira se estreitaram.
- Esse é só o sinal de entrada - a voz de Samuel baixou um tom, tornando-se ainda mais magnética e aveludada. - O valor total será dez vezes isso quando o trabalho estiver concluído.
- O que exige que eu faça por cem milhões de euros? Infiltrar os servidores do Pentágono?
- Quase tão complexo quanto - Samuel guardou o celular e retirou do bolso do colete um pequeno pedaço de papel especial, antigo, gravado com uma única coordenada geográfica e símbolos arcanos. Ele o colocou sobre a mesa, exatamente ao lado do teclado dela. - Eu passei os últimos cinco anos tentando abrir um caminho. Meus homens falharam porque pensam como criminosos comuns. Eu preciso da mente mais brilhante da Europa para burlar o que vem a seguir.
Kira olhou para o papel por um fração de segundo antes de voltar os olhos para ele.
- O que tem nessa coordenada? O que estamos procurando?
- Isso não faz parte do seu contrato - o sorriso de Samuel evaporou, e por um breve instante, o olhar de Hades brilhou, frio e cortante como um bisturi. - Você é a chave que abre as portas, Kira. O que está do outro lado das portas... pertence a mim. A cada objetivo alcançado, você receberá a coordenada seguinte e mais uma fração do pagamento.
Kira soltou um riso seco e sarcástico.
- Você quer que eu trabalhe no escuro? Entrar em um lugar sem saber qual é o alvo final?
- Eu estou lhe pagando cem milhões de euros para não fazer perguntas - Samuel deu meia-volta, ajustando o paletó. - Você tem doze horas para analisar essa coordenada e me dizer se aceita os termos. Caso recuse, o sinal de dez milhões continua na sua conta como reembolso pelo seu tempo. Mas se aceitar... nós começamos ao amanhecer.
Ele caminhou em direção à saída, os passos ecoando ritmados no piso de concreto.
Kira abaixou a arma lentamente, a mente fervendo com o mistério do papel e com a figura enigmática daquele homem. Ela abriu a boca para dizer que não trabalhava sob ameaças, mas antes que pudesse pronunciar uma palavra, Samuel parou junto à porta de ferro.
Sem se virar para olhá-la, ele soltou uma frase com a voz calma, mas devastadora:
- Ah, e mais uma coisa, senhorita Kira... Da próxima vez que for se esconder no coração da Alemanha, certifique-se de que o orfanato de onde você fugiu aos dezesseis anos não tenha deixado registros em arquivos físicos. Arquivos digitais são fáceis de apagar, mas o papel... o papel sempre guarda cicatrizes.
O choque paralisou Kira. O sangue em suas veias congelou.
Antes que ela pudesse reagir ou erguer a arma novamente, a porta pesada de ferro se fechou com um estrondo ecoante.
Samuel havia ido embora, deixando para trás um pedaço de mapa antigo, dez milhões de euros e a certeza absoluta de que ele sabia muito mais sobre ela do que qualquer ser humano vivo na Terra.








