Epílogo
Em um mundo muito acima dos céus, longe do universo conhecido, em um palácio que resplandecia mais que o sol, uma mulher ajoelhada no chão soluçava e chorava inconsolada; seus olhos azuis ciano estavam vermelhos, seu rosto branco estava rosa pela falta de ar que lhe abatia os pulmões, seus cabelos brancos não caiam a face por flutuarem ao redor da mesma; em seu colo estava um homem jovem, cujas feições lhe davam ar de bondade genuína, suas vestimentas elegantes estavam manchadas de vermelho escarlate na tentativa de limpar o rosto daquele que aninhava ao colo; à sua frente, estava uma mulher com uma foice dourada, seu vestido amarelo fogo havia virado uma armadura, e sua coroa havia se transformado em elmo que deixava seus cabelos ruivos serem revelados; seus olhos dourados estavam focados em uma figura que estava em posição de combate, em sua volta, sombras faziam uma dança violenta, seus olhos dourados se atiçavam em chamas para a mulher a sua frente, seus cabelos eram curtos e cacheados, porém o dava ar selvagem; em suas mãos apareceram duas espadas com detalhes de espinhos:
- Então irmã, o caçula foi correndo para a sua saia contar que eu não queria dividir o brinquedo? – caçoou o irmão.
- Você tentou matar o nosso irmão, Alun, você sabe a punição que a nossa mãe te dará?! – a dor na expressão no rosto da deusa era visível aos olhos do irmão.
- O que você fez Alun?!- gritou a jovem de cabelos brancos entre soluços.
- Fique fora disso Una, melhor, por que você não vem para o meu lado? Somos dois iguais, a mesma coisa, a mesma essência...- o deus começou a andar em direção a irmã ajoelhada.
- Nem mais um passo Alun! Ou eu serei obrigada a puni-lo- disse apontando a longa foice para o irmão.
- Una, você não está cansada de viver na sombra dela? De esperar ser a sua vez de brincar? Venha comigo, vamos construir um mundo juntos, o deus do caos e a deusa da noite, juntos, olha a combinação! Perfeita para um mundo incrível, tudo ao nosso modo- Una ouviu as palavras do irmão com desgosto, seus olhos caíram na face do irmão ao seu colo, materializou uma almofada e deixou seu irmão descansando; seu corpo foi se revestindo de sombras até elas tornarem uma armadura prateada, sua arma era uma espada de dois lados; Una parou do lado de sua irmã e encarou o seu irmão:
- Você não pensa em seus atos meu irmão? Sua sede de poder o cega? Teria mil anos para planejar o seu governo, teria tempo para planejar como as coisas seriam
- O plano dele era me transformar em um vilão! Ele queria que eu... no final... destruísse tudo que eu tivesse construído, depois de mil anos comigo, ele “viria” como um salvador, como “O Senhor da Luz”, “O Salvador” ... e eu? O que teria depois?! Fogo, sofrimento e DOR – com a última palavra, Alun ataca as duas irmãs; a irmã ruiva salta para longe do irmão, Una bloqueia o ataque com a sua espada, ficando cara a cara com seu irmão:
- Você não vê Alun?! Suas atitudes o estão transformando em um vilão – Alun empurra Una com força e lança uma bola de fogo em sua direção, a irmã ruiva pula na frente e com a sua foice, corta ao meio a bola de fogo:
- Deusa da luz, irmãozinho – a última frase saiu como um veneno, a deusa ataca com fúria o deus enquanto Una se levanta e começa a observar a batalha da irmã mais velha contra o mais novo; a foice e as espadas se colidem e a deusa da luz faz uma explosão que lança Alun para outro lado do grande salão, fazendo cair sobre ele os pilares que enfeitavam o local, a deusa abaixa a sua guarda, quando de repente:
- IGNIS- um grito de fúria faz as deusas tremerem, nunca ouviram algo tão aterrador quanto aquele rugido de ódio; Alun joga um dos pilares em direção as duas deusas, e acaba acertando as duas, quando a espada de Alun ia acertar Ignis, um vento forte acaba empurrando para longe o deus, as duas irmãs olharam de onde veio o poder, e lá estava o caçula, usando as últimas energias antes de desmaiar outra vez; Una materializou asas negras e voou em direção de Alun, que materializou duas asas draconianas e voou em direção de sua irmã.
Alun sempre tivera uma admiração por Una, sempre quis ela ao seu lado, nunca havia imaginado lutar contra ela, mas ao seu lado, ela era forte e criativa, bela em um certo modo; ele... ele era caótico, selvagem, enquanto a sua luta era enérgica e violenta, a de Una era calculada, se movia como o vento; quando Alun acertou Una, seu semblante havia mudado em segundos, de ódio à pavor genuíno, porém mudava outra vez quando aquela figura se dissipava em nevoa negra, sua irmã estava atras dele; as duas armas voltaram a se colidir, caos e noite se enfrentavam em uma batalha violenta, a cada golpe, ambos levavam a batalha ainda mais longe do solo, Alun conseguira passar por um dos bloqueios de Una, atingindo seu rosto de raspão; a jovem deusa o atacava com mais força, em um desses ataques ela conseguiu tirar uma de suas espadas e desferindo um golpe em sua barriga, quando ele sumiu da frente dela a deusa ficou em posição de ataque, porém ela sentiu uma mudança brusca no ar, quando ia se virar ela sentiu algo quente, uma grande dor e escuridão; Ignis, que assistia a batalha do chão gritou quando viu sua irmã ser apunhalada pelas costas, criou asas e voou rapidamente ao encontro do corpo desfalecido de Una que caia em queda livre, quando viu Alun em direção dela, seu corpo brilhou da intensidade do sol, cegando por um tempo seu irmão, pegou a sua irmã e a colocou ao lado de seu irmão desmaiado, agora estava a luz X caos.
Ignis fez a sua foice pegar fogo e foi de encontro ao irmão, aquilo havia deixado de ser treinamento, Alun havia quase matado seus dois irmãos, para protegê-los iria matar até o próprio; suas armas se colidiram, porém, a arma de Ignis havia queimado Alun, que gritou soltando a arma, a deusa da luz ia ceifar seu irmão quando uma voz imponente cortou a sala:
- PAREM- Ignis e Alun ficaram imóveis no lugar, ninguém desobedeceria ela, a voz que tudo havia criado, a luz, a noite, o caos e a ordem; uma mulher de vestes brancas descia as escadas e parou no meio das mesmas para olhar com horror seus dois filhos no chão em poças de sangue, a grande deusa põe as mãos em cada filho e cita uma cantiga, depois do sangue ter voltado para os seus deuses, ela olha a posição de sua filha Ignis, que encarava o irmão tensa, e seu filho Alun, que tinha um sorriso vitorioso nos lábios:
- Mamãe! Que bom que a senhora voltou, Ignis enlouqueceu, atacou Yeav e Una, depois veio me atacar- a voz de Alun saiu como de uma criança inocente, Ignis largou a espada e arregalou os olhos para seu irmão, suas mãos se serraram em punhos e deu um soco em Alun, que olhou com indignação para a mesma enquanto colocava a sua mão sobre o local do soco.
-VOCÊS TRÊS ME EXPLICARÃO O POR QUÊ DA LUTA SANGUINARIA QUE VI HOJE, IGNIS, ESPERO TER UMA BOA HISTÓRIA VINDA DE VOCÊ- vociferou a grande deusa- POR TANTO, VOCÊS ESTARÃO ESPERANDO FORA DO SALÃO... E EM SILENCIO- nisso, a voz dos deuses do caos, luz e noite foi silenciada, nenhum som saia enquanto esperavam pelo depoimento do irmão mais novo; Ignis que estava perto de Una andou docemente em direção de Alun e deu outro soco na cara do irmão, Una olhou o gesto em choque, os olhares da deusa e do deus queimavam com ódio, quando Alun foi retribuir o gesto Una se colocou na frente dos dois e o deus do caos parou na hora, ela olhou para Ignis tensa, pedindo para que parasse com as brigas naquele momento decisivo.
Depois dos outros três depoimentos, a grande Mãe decidiu chamar pelos quatro deuses:
-Espero que saibam que como mãe estou muito decepcionada, em milênios de existência nada aconteceu, criei vocês com o mesmo amor, só não entendi onde falhei com você.... Alun.
As duas deusas se abraçaram e Yeav foi puxado para o mesmo, o alivio da justiça pousou sobre a cabeça de Ignis, elegendo-a como inocente, sua respiração que antes era pesada com a inquietação da expectativa, agora se sentia como a leveza do ar; Alun arregalou os olhos e empalideceu.
- Minha mãe, a senhora não ouviu a minha versão da história- o jovem deus sorriu forçadamente.
- Não Alun, eu ouvi tudo o que eu tinha para ouvir- a expressão séria da grande mãe era clara para todos naquele salão, porém, Alun tentaria ainda fazer com que ela lhe escutasse.
- Mamãe, por favor, só me escute, só um pouco – o jovem deus se ajoelha perante o trono de sua governante, na tentativa falha de apelar pelo sentimento dela.
- ALUN! Sei exatamente o que irá declarar, não se esqueça que eu vejo tudo, somente convoquei a reunião para ver como estavam os seus irmãos.... como você consegue?! Como consegue agir como se isso tudo fosse normal pra você?!- a deusa mãe sai de seu trono e começa a caminhar em direção ao seu filho.
- A senhora não está me deixando me explicar- a tensão já estava instalada no ar, e havia impregnado no deus do caos, que aos poucos ia perdendo a sua postura cínica.
- Você e Yeav brincavam de vilão e herói o tempo todo, qual era o problema de fazer isso agora?! Vocês podem remodelar a vida ali como quisessem, dei a vocês esses mundos para fazerem o que quisessem. – Alun parecia uma criança, chorando, porém, seu semblante era puro ódio. Deus do caos, essa ocupação lhe dava desgosto, sempre seria o vilão que invocava tudo aquilo que não queria, sentia seu estomago revirar dentro de si, imaginava a punição que a rainha dos deuses infligiria nele, se perguntava como seria recebido no novo reino de sua irmã Una, se perguntava se seria julgado de forma justa, se somente aquele feito era necessário para que sua essência fosse extinta.
- Eu Crean, deusa mãe, rainha dos deuses, te condeno...... Alun, deus do caos......- a deusa parou e respirou fundo, aquela decisão afetaria não só a sua família, mas o seu projeto e todos que estivessem envolvidos nele.
-Te condeno ao banimento, nunca mais poderá voltar ao lar dos antigos deuses, nunca mais verá seus irmãos, não terá mais a responsabilidade de zelar pelo caos, não terá a sua vez de governar o mundo que criei.
Ignis ao ouvir a sentença de sua mãe, fechou os olhos, serrou as sobrancelhas e virou a cabeça para o lado com desgosto; Una perdeu as forças e caiu de joelhos aos prantos, Alun olhou para a irmã com um pouco de ressentimento e tentou caminhar em direção dela, porém, correntes feitas de nuvens apareceram e acorrentaram seus pés, fazendo- o cair e lançar um olhar penetrante para a Deusa Mãe que o olhava fria, voltou o seu olhar a deusa de cabelos brancos e seus olhos dourados se encontraram com os azuis e ele sussurrou: “me perdoe” e deu um sorriso triste para a deusa que se encolheu ainda mais com a dor em seu peito; Yeav se aproximou de Una e abraçou a deusa que retribuiu a ação do deus mais jovem, Alun fuzilou o irmão com ódio e tentou se levantar outra vez, porém mais correntes vieram de encontro ao corpo do deus; Alun lutava como um animal para escapar das correntes que a Deusa Mãe fizera.
-Não Alun, PARA, VOCÊ ESTÁ SE MACHUCANDO- diz a deusa com desespero na voz, vendo que seu irmão estava se ferindo nas tentativas de se libertar.
Alun olha para a sua irmã que estava com os olhos arregalados, o chão estava manchado com alguns pingos de sangue, o deus cessa os seus movimentos pela suplica da irmã, sussurra para a mesma novamente: “eu vou te encontrar” sua face demonstrava doçura, gentileza e amor; olhou para a sua mãe e seus outros dois irmãos e disse:
-Vocês podem ter ganhado essa, mas eu vou voltar, e farei as coisas do meu jeito, Ignis vai ficar de joelhos assim como eu fiquei, Yeav e eu vamos voltar a nos resolver aqui, neste salão, e a senhora.... minha ‘adorada” mamãe, vai estar sentada no seu majestoso trono, com uma espada cravada na sua barriga, e seus punhos vão estar presos pela minha escuridão, assim, assistirá a morte do seu filho mais novo e da sua primogênita- pronunciou com um sorriso sádico encarando a Rainha dos deuses e a deusa da luz.
Una sente algo em suas costas algo quente que passa rapidamente por ela, era Ignis, com a sua foice, a mesma brilhava e a mesma quase encostava a ponta no pescoço de Alun, os olhos dourados de Ignis cintilavam violentamente, o desejo pelo sangue do seu irmão a fazia tremer, sentia cada uma das palavras proferidas por seu irmão correr furiosamente em suas veias, não teria piedade, não com ele, não com Alun.
- Irmã! Por favor, pare- diz Una, se levantando aos poucos de onde estava ajoelhada.
Ela vai ao lado de sua irmã e coloca a mão delicadamente sobre a mão fechada em volta da foice e sussurra ao ouvido de Ignis.
Uma tensão ainda reverbera pelo ambiente, a coloração das nuvens estava dividida entre a luz celestial no lado da deusa mãe que ia se transformando em dourado fogo de Ignis, o roxo e o preto dançavam atrás de Alun, dando uma paisagem extraordinária.
Ignis retira a foice de perto de Alun e quando foi retrucar com a jovem deusa um buraco se abriu e as correntes se desfizeram, deixando o deus cair em um abismo infinito.
Una tentou ser forte, mas não se esqueceu da face amorosa e da promessa impossível de seu irmão: “Eu vou te encontrar”, sentiu os braços quentes de Ignis a envolverem, logo depois sentiu mais dois a envolverem; não eram mais quatro irmãos, e Una teria mais uma tarefa; “vou te trazer pra casa, Alun”
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-Una, o que você está fazendo? -questiona a deusa da luz se aproximando de sua irmã.
-Ah, oi Ignis, estou criando o meu projeto para próximo milênio, estou colocando tudo de mim nele- toca delicadamente o corpo de energia.
- Irmã, você sabe que os seres daquele mundo já foram criados, não sabe?!- sua expressão parecia confusa, seu olhar direcionado ao projeto da irmã mais nova.
- Sei, só que essa vai ser o meu legado.
- Ah, tudo bem, mas o que isso vai fazer? -indaga interessada
-Não “o que”, minha irmã, mas quem. – A deusa caminha em direção a um globo, e nele predominava um único grande território, em sua mão ela conjura um frasco que possuía pequenas luzes que cintilavam aleatoriamente, abriu o frasco e jogou o brilho em uma névoa escura que cobria a esfera, e com alguns movimentos das suas mãos, as luzes começaram a se mover em uma dança sincronizada com o das mãos da deusa.
- Una! Isso ficou lindo, o que é isso? – questionou a deusa, deslumbrada pelo trabalho de sua irmã.
- Eu as chamo de estrelas, Yeav ainda não começou o trabalho dele, pretendo emprestar essas aqui para ele brincar um pouco.
- E qual é a função delas, minha irmã? – questionou interessada.
- Elas terão várias funções, minha irmã, mas a principal, será anunciar. – respondeu de forma calma e tranquila, finalizando o movimento das mãos e a dança das estrelas.
- Anunciar o que, Una?
- Anunciar o meu projeto. – Volta o seu olhar para o corpo de energia que cintilava uma mistura de branco e azul e se movia com liberdade pelo lar das deusas.
O ser corria, saltava e fazia sons que pareciam pequenos sinos, e deixava um pequeno rastro de luz quando passava, a deusa pegou a pequena essência em seus braços e deu um pequeno sopro em seu rosto, fazendo com que a pequena essência dormisse tranquilamente.
- Agora, se me der licença, Ignis, tenho que ir- anuncia se retirando do salão.
- Vai aonde, Una? -questiona a deusa confusa.
- Cuidar dos sonhos, Ignis. – responde da forma mais calma possível.
A deusa anda calmamente pelo corredor branco, os pilares sustentavam pequenos vasos com plantas cujas folhas caiam como cascatas e belas flores davam uma certa cor ao ambiente pálido; a deusa para em frente a uma porta decorada com detalhes de vários tipos de azul com metais prateados, abre a porta e entra no quarto.
O mesmo parecia um ambiente fechado, decorado com tecidos delicados e pequenos pontos de luz flutuavam dando um ar aconchegante; Una se aconchega na cama e fecha os olhos, sentindo seu corpo relaxar e ficar leve, porém ela não dorme; a deusa abre os olhos e ela está em um mundo escuro, totalmente diferente do qual ela e Ignis estavam acostumadas, o céu era um vermelho alaranjado, a terra estava queimada, arvores retorcidas e sem folhas compunham a paisagem infernal; Una olhava tudo com assombro, não reconhecia o autor do trabalho sombrio.
- Una- o nome saiu como um choro misturado à um gemido, a deusa olhou em direção ao som e encontrou o seu irmão caído no chão, Una corre ao seu encontro e o coloca em seus braços, como fez com seu irmão Yeav.
- Alun- sussurrou a deusa, sua dor era visível aos olhos do deus, que suavemente tentava alcançar a mão no belo rosto de sua irmã, que delicadamente pegou a mão do irmão e colocou sobre a sua bochecha.
- Fico feliz em vê-la outra vez- murmura com um sorriso derretido nos lábios
- Que lugar é esse? - questiona perdida e desesperada
-Esse lugar é meu Unazinha- dá um sorriso forçado.
- Como assim?
-Achou mesmo que eu gostei de cair no abismo sem fim?
-Não, creio que não. – Sussurrou virando o rosto para o lado, não conseguindo encarar a situação deplorável em que Alun se encontrava.
-Una, olhe pra mim, por favor- suplica quase que em um sussurro doce, onde somente ela era capaz de ouvir, a dona da voz de Alun.
Una olha para o deus caído, e sente o rosto do mesmo se aproximar, a deusa não lutaria contra o que aconteceria ali, se entregaria ali mesmo, ela seria de Alun, e ele seria dela, selando a promessa que o deus havia feito a ela, anos centenas de anos atrás, “sou seu, Una”.