In The Eyes of The Dragon

Summary

Anos atrás, os céus se abriram e o mundo foi destruído, transformado em fogo e cinzas. Dragões, uma vez criaturas das lendas, são agora reais e são o inimigo. Cruéis e imprevisíveis, eles governam os céus das cidades em ruínas, forçando a humanidade a amontoar-se atrás de barricadas por segurança. Camila é uma sobrevivente. Ela faz o melhor que pode em um mundo duro e perigoso. Quando entra em conflito com a lei, ela é deixada como isca no território dragão. Ela só tem uma chance de sobreviver: e deve de alguma forma 'domar' um dragão e obrigá-lo a obedecê-la. Exceto que a dragão que a encontra é tão selvagem e brutal quanto qualquer outro... E ela não está interessada em obedecer. O que ela está interessada é em encontrar uma companheira.

Status
Ongoing
Chapters
1
Rating
n/a
Age Rating
18+

Chapter 1

CAMILA

2023, Fort Dallas

Sete anos após a abertura da fenda...

Em relação às outras celas de prisão esta aqui era bem decente. Quero dizer, eu estive em diversas nos últimos anos, e a maioria delas eram armários de armazenamento convertidos ou quartos pequenos, reforçados. Esta tem uma pequena cama no canto, um balde para uso pessoal, e a porta é uma moldura de arame farpado que me permite olhar para o resto da prisão improvisada. Considerando que a última vez que passei alguns dias em um desses lugares eu fui deixada em total escuridão, isso aqui é impressionante.

O que significa que eu provavelmente estou completamente e totalmente ferrada.

Não sou uma pessoa negativa. Normalmente não. Eu sou mais uma pessoa de levar a vida segundo a citação “se lhe derem limões faça uma limonada e a venda”. Não adianta chorar por causa de limões. Mas eu mataria para ter um limão agora. Acho que não vi nenhuma fruta desde a abertura da fenda. Eu imagino que as árvores frutíferas foram uma das primeiras coisas a desaparecer. De qualquer forma, não sou uma pessoa que fica lamentando sobre o meu destino. Isso quer dizer se conformar com merda e ficar parada, e há sempre muita merda para ser feita. Se houver um revés, e vamos ser sinceros, sempre há, eu reorganizo e ataco com um novo plano de luta. Tenho pessoas dependendo de mim, e não há tempo para lamentar.

Mas eu não posso deixar de sentir um pouco de preocupação quando os dois guardas da cadeia continuam olhando para a minha cela e sussurrando um para o outro. Eu não posso ouvir o que eles estão dizendo, mas tenho certeza que não é nada bom. Eu dou-lhes o meu melhor olhar de durona e tento parecer feroz. Garotas que são fracas e macias, como Sofia e Normani, são enganadas. Não vou deixar ninguém fazer isso comigo.

Sofia. A minha irmã. Deus, ela vai ficar tão preocupada. Estou presa aqui há quase duas semanas. Enquanto minha irmãzinha está acostumada a me dar sermões, graças às minhas corridas, duas semanas são muito tempo. Ela vai ficar desesperada. Espero que não venha atrás de mim.

Eu realmente espero que ela não pague alguém para vir atrás de mim. Não temos dinheiro, e garotas da nossa idade só têm outra opção em Fort Dallas. Eu disse a Sofia que não tem que fazer isso, mas eu me preocupo que ela não vá ouvir. Que o pânico possa assumir e ela vai fazer algo que se arrependerá depois.

Fique calma, eu comando mentalmente minha irmã. Fique calma. Logo estarei em casa. Ou... Não, eu acho enquanto eu olho minha cela de prisão mais uma vez.

Os guardas estão me observando de novo. Merda. Eu estive aqui por um tempo agora, e sem nada para fazer, a não ser assistir as pessoas indo e voltando, eu aprendi a ler suas expressões, hora para mudar o balde de cocô ou qual expressão significa problemas.

O olhar que estou recebendo agora? Grandes problemas.

Eu apenas sorrio inocentemente. Não é grande coisa. Esta sou eu, absolutamente não surtando.

Se eles viessem para me atormentar e comentar sobre meus peitos, isso é uma coisa. Eu sei o que esperar disso. Todos esses sussurros e olhares? Eu me preocupo que algo ruim está para acontecer. Não consigo me livrar desse sentimento. Dado que este é o tempo mais longo que eu já estive presa em uma cela, eu temo que não vou conseguir voltar para casa novamente.

Esse sentimento só fica mais forte quando ambos olham para a placa seca amarelada na parede e, em seguida, olham para a porta da cadeia.

Eu não estou errada. Algo está para acontecer.

De certo modo, acho que é uma coisa boa. Chega dessa porcaria de esperar no limbo. Não ficar mais roendo minhas unhas, preocupada. Não testar as rachaduras de concreto da minha cela, tentando determinar se há uma rocha solta em algum lugar e eu possa cavar um túnel de fuga. Sem vigilância em turnos por diversos guardas.

Eu deveria estar feliz. E ainda assim...

Eu mordo meu lábio, pensando em minha irmã. Sofia está em casa, à espera que eu traga comida, mantimentos e dinheiro depois da minha viagem de busca. Ela ainda está lá e ainda com fome e indefesa. Odeio isso. Detesto estar presa nesta cela há duas semanas. Nossa amiga Normani vai cuidar dela, mas... Normani tem suas próprias preocupações. E Sofia precisa de ajuda. Ela é apenas dois anos mais nova que eu, tenho 25, mas ela é suave onde eu sou durona.

Sofia não pode escapar. Ela não pode segurar uma faca ou dar um soco se alguém tentar dominá-la e roubar o que é dela. Sou eu quem a apoia e cuida dela. E sim, Sofia foi mimada, primeiro por nossos pais quando eles estavam vivos, e por mim e Normani depois. A perna da Sofia quebrou durante a fenda e nunca mais consertou corretamente, então ela caminha mancando feio. Isso nunca me incomodou antes porque eu estava lá para cuidar dela.

Mas agora? Estou me preocupando, imaginando Sofia em casa, faminta. Sofia mancando para a loja mais próxima com o que ela pode trocar por comida. Sofia vendendo-se, abrindo as pernas para um dos soldados para fazer um pouco de dinheiro para comer como Normani faz... Mas Sofia não faria isso. Sofia morreria de fome primeiro.

Um dos guardas, aquele que fica olhando para a porta, se aproxima da minha cela. Ele desce e abre o portão de arame farpado para mim.

— Como estamos hoje?

— O mesmo de ontem. — O que ele acha? Que eu tenho um cronograma completo ou algo assim? Estou numa cela de prisão por acusações falsas. Bem... um pouco falsa.

Quase falsas.

Pelo menos, não totalmente legítimas.

— Longa noite — comenta, então esfrega os olhos cansados.

— Oh, não para mim. Eu dormi como um bebê. — Dou-lhe o meu sorriso mais vitorioso.

Eu vou tentar o charme, eu acho. Ver se consigo algumas respostas dele. Ele vai aceitar e começará acariciar seu cassetete de uma forma grosseira, ou ele vai ficar desconfiado. Dessa vez eu espero que meu guarda seja um pervertido. Ele só olha de sobrancelhas franzidas para mim.

— Você dormiu durante o ataque do dragão?

Tudo bem, agora ele só pensa que eu sou um manequim. Ninguém dorme durante um ataque de dragão, especialmente não um que está fora de padrão. Eu estava acordada ontem à noite, também, amontoada em um canto, abraçando meus joelhos ao meu peito e orando para que isso acabe logo, que é o que eu faço durante todos os ataques dos dragões.

Os dragões geralmente atacam com um cronograma, os grandes negros atacam a cada três dias, pouco antes do meio-dia. Os vermelhos menores atacam diariamente por uma semana e depois nada por mais três. Ninguém nunca ataca à noite.

Exceto ontem à noite. E não sei o que isso significa. E eu não posso pensar nisso porque então eu vou me preocupar com Sofia, e não é bom me preocupar com Sofia enquanto eu estou presa aqui.

— Dormir durante o ataque do dragão? Eu? — Eu balanço a cabeça e tento continuar sorrindo. — Eu quis dizer ao contrário.

Ele só olha para mim como se eu fosse louca. Talvez eu esteja. Flertar com um guarda para conseguir informação é uma droga.

— Então — Eu pergunto. — O que está na agenda para hoje?

Os olhos do guarda se estreitam para mim. Acho que estou sendo óbvia. Antes que ele possa dizer algo, a porta se abre e outro guarda uniformizado enfia a cabeça. Ele acena para os meus dois guardas, e o segundo homem fica de pé. O guarda da minha porta pega algo no cinto. Por um momento me preocupo que seja um bastão, mas quando ouço as chaves, eu relaxo. Estou saindo.

De uma forma ou de outra. Quero dizer, eu posso ser punida também, mas pelo menos é uma chance. A porta range e ele aponta os dedos.

— Saia, Srta. Cabello.

Minhas pernas vacilam e doem, e dou um passo em frente. Eu abraço a minha camiseta velha em meu corpo e tento parecer indefesa, mesmo quando eu olho envolta da sala buscando uma saída. Quão difícil será correr? Eu considero a 'cadeia' vazia e o outro guarda olhando para mim com ávido interesse. Eu poderia ser mais rápida do que ambos, em teoria, se eles fossem tudo o que está por perto. Mas se há uma coisa que eu sei sobre Fort Dallas? Há sempre mais soldados. Eu descartei a ideia de fuga; lutei quando me jogaram aqui embaixo, mas duas semanas e várias refeições mais leves, estou muito rígida e fraca para lutar muito. Eu nem protesto quando o guarda segura as algemas. Do que servirá?

Eu enfio meus pulsos para fora e mantenho o meu “Eu sou tão boazinha”, sorriso no meu rosto, embora pareça que eu estou morrendo por dentro. Ele me leva para fora da cadeia em um corredor longo e escuro iluminado por apenas algumas janelas empoeiradas. Um novo guarda chega, acena para o que está ao meu lado, e então eles me acompanham e me encaminha para baixo em um corredor de concreto em ruínas e em um labirinto infinito de concreto e piso quebrado.

Um sinal velho, através do salão longo que se lê “cofre de alimentos” recorda-me que esta parte de Fort Dallas foi uma vez um centro comercial. O bazar coberto de concreto onde os vendedores colocavam suas barracas de trocas? Uma velha garagem de estacionamento. Memórias de compras e saídas com amigos depois da escola passam na minha mente, mas isso foi em outra vida, essa Camila Cabello está morta. Ela morreu na fenda, e a magra, corajosa sobrevivente que eu sou hoje é a única que permanece. Essa Camila sabia sobre shoppings e escolas e qual era o nome da vocalista de sua banda favorita. A sobrevivente Camila não se lembra muito do mundo antes do incêndio e da fenda. Tudo mudou muito entre o agora e depois. Para mim, este edifício é apenas o Fort Dallas.

Desmoronando. Quebrado. Estéril. Partes Carbonizadas.

Fumaça permanece no aroma do ar e através da luz solar, novamente me fazendo pensar em dragões. O odor que me deixa cansada e ansiosa de uma só vez. O mundo inteiro é só fogo e cinzas ultimamente, e eu estou tão farta disso tudo. Não sou otimista como a Sofia. Não acho que as coisas vão melhorar em algum momento.

Acho que temos que nos contentar com o que temos. Talvez seja por isso que sou a criminosa e Sofia está a salvo em casa.

É melhor você estar segura, eu a repreendi mentalmente. Eu vou chutar seu traseiro se você estiver morta. Esse pensamento me paralisa com horror. Sofia morta, eu paro e me curvo para vomitar.

— Você está doente? — O guarda menos legal pergunta quando eu solto bile no concreto. — Ou grávida?

Eu atiro-lhe um olhar medonho quando eu termino e limpo a minha boca, estremecendo. Não estou doente ou grávida. Sou apenas uma das muitas pessoas em Fort Dallas que está lentamente morrendo de fome. A cadeia não está muito interessada em seus prisioneiros. Ontem, eu recebi mingau de aveia, o que foi emocionante até que eu encontrei um inseto morto gigante nele. Eu comi de qualquer maneira, com inseto e tudo. Farinha de aveia não tem sido encontrada desde a Fenda e provavelmente estava vencida de qualquer maneira. E insetos? Os insetos são apenas proteínas. Claro, pode ter sido por isso que vomitei.

Um dos guardas me cutuca com a perna.

— Se já terminou de enrolar, ande. O Prefeito está esperando por você.

Oh, nossa! O prefeito? É definitivamente o dia do meu julgamento, e se eu consegui que o prefeito venha para o meu julgamento, estou ferrada. Eu engulo em seco e limpo minha boca na minha camiseta suja.

— Eu estou bem. — O aroma acre de fumaça persistente paira no ar, ainda mais sinistro do que antes, e eu penso sobre o ataque do dragão de ontem à noite. Muitas coisas ruins flutuando no ar ultimamente.

Os guardas me guiaram pelo resto do shopping e entraram em outra loja. Eu não sei que loja era esta antes da fenda; o interior é limpo e arrumado, e há um tapete persa desgastado no assoalho e várias cadeiras plásticas alinhadas nas paredes. Uma sala de espera. Mas os meus guardas não me levam a uma das cadeiras. Em vez disso, eles me levam a uma segunda câmara.

Quando o fazem, luz brilhante inunda minha visão. Eu hesito instintivamente e coloco minhas mãos sobre o meu rosto, tentando protegê-los. Ondas de pânico passam através de mim. Certamente não estamos em local um aberto... estamos? As áreas abertas não são seguras, a proteção vem de edifícios com telhados grossos e paredes de tijolo sólido. Concreto. Lugares subterrâneos. Em qualquer lugar que proteja de chamas, garras e cinzas.

Mas quando meus olhos se ajustam, eu percebo que estamos apenas em uma grande sala com várias janelas, com cortinas desbotadas puxadas para trás, deixando a luz e a vista entrar. Não que haja muito para ver além de escombros, Oh, e um pouco mais de cinzas. Eu olho as cortinas apreciando, no entanto. Tanto tecido? Isso é cobertor suficiente para comprar um mês de comida em uma barraca de troca. Usar todo esse tecido bonito e pesado como uma cortina parece meio estúpido. O quarto tem luz solar brilhante e os assoalhos de telha estão varridos e limpos. Suponho que este lugar era bonito antes da fenda. Não é uma sala segura, mas bonita.

— Estou surpresa que você tenha as cortinas abertas. — Eu murmuro para os meus guardas quando eles me levam para frente. — Ainda mais com o dragão na noite passada e tudo mais.

— Isso foi na noite passada. — o alto, de couro no rosto diz, mesmo que sua mão belisque meu braço um pouco mais apertado. — Deve ter quase uma semana de calmaria agora.

Mmm.

— Então era um vermelho? Como alguém poderia dizer no escuro?

Ele ficou bravo.

— É quase hora de um vermelho. Deve ser um deles.

Eu não gosto de sua falsa confiança, mas eu não sei se ele está errado. Os dragões vieram ontem à noite e choveu caos ardente na cidade, e nós estávamos amontoados em nossos abrigos de concreto e esperando as horas passarem. Está mais perto do tempo para um vermelho, mas ainda fora de padrão. Eles não deveriam vir por alguns dias ainda... e eles nunca vêm à noite, nunca. Algo sobre tudo isso está errado.

Mas desde que os dragões vieram ontem à noite, eles não devem voltar por alguns dias. Em teoria, a luz do sol deve estar segura hoje.

Mas nada está mais seguro. Não mesmo. Então trabalhamos com o que temos.

Um homem baixo e gordo com cabelos grisalhos bem penteados sentou-se em uma mesa no centro da sala. Ele olha para mim, com uma expressão carrancuda no rosto. Sua mesa tem vários objetos em desordem, um globo pequeno (como se a geografia significasse qualquer coisa ainda), um porta retrato, e vários papéis. Atrás dele tem dois outros guardas. Eu vi o homem gordo andando em torno de Fort Dallas antes: o prefeito. O prefeito piscou para mim, em seguida, abriu um pequeno retângulo de plástico na frente dele. Eu ouço o som das chaves, e então ele olha para cima.

Oh, pelo amor de Deus.

O homem tem um laptop. Se não é o cúmulo da hipocrisia, não sei o que é. Laptops são muito parecidos com unicórnios e chuveiros quentes após a fenda. Não há eletricidade para carregá-los, e as baterias têm de ser recarregadas através de geradores de manivela. Algumas pessoas ainda se apegam à tecnologia antiga, o que significa que quando você encontra algum, leva para trocar nas barracas. Estamos falando de comida suficiente para viver como reis só por um laptop funcional.

É o meu sonho encontrar um. Só um. Então eu posso ter um lar de verdade para Sofia, Normani e eu. Alimentos suficientes para não ter que me preocupar sobre de onde a nossa próxima refeição virá. Roupas novas. Um laptop funcional é como ganhar na loteria. Eu encontrei algumas baterias nas procuras antes, mas nunca uma que iria segurar uma carga. As baterias são quase tão quentes, se não mais quentes, do que os laptops em si. Qualquer eletroeletrônico existente, como as armas, foi confiscado pela nova milícia, na chocante vigília da fenda, e as pessoas deixaram. Porque eles eram tão raros, eletrônicos são agora as coisas mais quentes no mercado negro.

Eu deveria saber; Eu estava tentando vender uma bateria de laptop para Austin o comerciante quando fui presa.

— Camila Cabello, você reconhece seus crimes? — O prefeito endireita um par de óculos feios e grossos empoleirados no nariz. Ele parece cansado. Tem fuligem na roupa e uma mancha na testa. Não é incomum; todo mundo está limpando fuligem de tudo por dias depois de um ataque de dragão... Bem a tempo para os dragões voltarem. Eu estou provavelmente suja com uma camada também.

Eu conheço os meus crimes? Claro que sim. Só não acho que sejam crimes. A questão é, devo fingir inocência ou ser franca? Eu estudo o rosto do prefeito, e ele parece cansado e irritado. A inocência não funcionará, então. Tudo bem, eu vou com a corajosa.

— Meus crimes? Eu posso tomar uma facada por eles se você quiser.

O prefeito está de olho no laptop dele, e depois me testa de novo. Ele fecha-o suavemente e pega uma placa amarelada e meio apagada. Cara, eu nem sequer justifico o papel real? Isso aborrece.

— Camila Cabello — o prefeito lê em voz alta. — Detida pela nova milícia por invasão, roubo, mercado negro e tentativa de evadir-se a lei. Como você se declara?

Ele esqueceu-se de furto, mas vou manter a minha boca fechada sobre isso por agora. Eu dou-lhe um sorriso fraco, embora o meu coração esteja batendo forte no meu peito.

— Parece certo, mas eu não sinto que é justo colocar alguém na cadeia por roubar algo de um lugar onde ninguém vive mais.

— Você conhece as regras. Fort Dallas não quer que as pessoas vão além das barreiras. Não é seguro.

Sim, eu sei que não é seguro. Enche-me de terror cada vez que vou, e escondo-me em todas as sombras. Mas tem que ser feito, é isso ou morrer de fome... ou vender-me. Então eu vou.

— Precisávamos comer. Eu não tinha dinheiro. Então me arrisquei.

O prefeito estabelece o quadro e esfrega os olhos cansados debaixo dos óculos.

— Você percebe, Camila Cabello, que Fort Dallas não trata os crimes da mesma forma que fizemos antes.

O “antes”, não precisa ser explicado. Eu sei o que ele quer dizer: antes dos dragões, antes da fenda, antes do fogo infinito e cinzas. De volta nos bons e velhos tempos, quando a vida era normal e nossa maior preocupação era quem ia ganhar a mais recente competição de canto na TV.

Isso foi antes do céu se abrir, o buraco abrir-se no céu, e o inferno vir para a terra e mudar tudo. Isso foi antes de milhões, não, bilhões tivessem morrido e os sobreviventes tiveram que se esforçar para se proteger das feras furiosas que agora reinam supremas dos céus.

Sim, eu sei tudo sobre antes. Eu aceno.

— Então você sabe a pena que você está enfrentando para os seus crimes é o exílio?

Eu seguro a respiração. Meu coração troveja no meu peito e o mundo começa a enfraquecer ao meu redor.

Exílio. Ele poderia muito bem apenas dizer 'morte'. É a mesma coisa.

Se eu for exilada, eu vou ser jogada fora da barreira de metal que faz o muro de defesa de Fort Dallas, a barreira feita inteiramente a partir de automóveis antigos, e eu vou ser forçada a sair por conta própria para sobreviver. Sem amigos. Não há lugares seguros para ir. Eu estaria a céu aberto, desprotegida contra grupos de nômades, predadores... e dragões. Nunca mais veria minha irmã ou Normani.

Não posso ser exilada. O que vai acontecer com a Sofia? Uma visão da minha irmã se prostituindo para os soldados apareceu através de minha mente, e eu aperto meus olhos fechados, estremecendo. Não a Sofia. Ela ainda tem inocência sobre ela, e isso merece ser poupado. Ela precisa ser protegida, e Normani não será capaz de fazer isso sozinha.

— Por favor... Tenho pessoas que dependem de mim, senhor.

— Todos nós temos. — diz o prefeito amargamente. — É por isso que as regras devem ser aplicadas. Se você não pode obedecê-las, você não tem lugar aqui em Fort Dallas com os civis cumpridores da lei desta cidade.

Cumpridores da lei? Ele está louco? Fort Dallas é preenchido com catadores de todos os tipos, prostitutas, assassinos, ladrões, a única coisa que nos torna “civilizados” é que estamos protegidos por trás de uma parede e somos controlados pelos assassinos com as armas da nova milícia. Todos traem, mentem e roubam para colocar comida na mesa.

A única diferença entre mim e todos os outros? Fui burra o bastante para ser pega.

— Era apenas uma bateria de laptop.

— Você infringiu a lei.

Eu fecho minhas mãos, tentando parecer penitente.

— Por favor. Eu estava tentando alimentar minha irmã.

O olhar em seu rosto cresce mais difícil.

— Isso não é desculpa, Senhorita Cabello. A nova milícia vai alimentá-la; você sabe disso. Tudo que você tem a fazer é pedir.

Sim, em troca de uma foda rápida, a milícia ficará muito feliz em me dar uma lata de feijões mofados. Até uma garota faminta tem padrões.

— Por favor. Você não pode me enviar para fora do muro.

— Por que não? Você foi lá de qualquer maneira.

— Isso foi só para pegar algo para vender! Agora você está me dizendo que eu não posso voltar!

O pânico real entra, e eu estou ofegante por ar. Não há ar suficiente no maldito quarto. Não consigo parar de tremer.

— Os dragões. Eu não posso estar em local aberto com os dragões.

— Eu não sou antipático, Senhorita Cabello, mas temos de manter as regras. — Ele diz que não é antipático, mas o olhar em seu rosto é qualquer coisa, mais.

— Você está usando uma bateria em seu laptop agora. — Eu protesto. — Como você pode me condenar por procurar mais? De onde você acha que essa veio?

Assim que as palavras saem dos meus lábios, sei que foi um erro. Seu benevolente desaparece substituído por uma carranca profunda em seu rosto que eu não ousaria encarar. Como isto é surpreendente. Todo mundo usa bens roubados, seja pela nostalgia ou outras necessidades egoístas, mas ninguém menciona que eles pegam de catadores como eu. Ninguém quer entregar a sua fonte...

Exceto pelo meu amigo Austin, que me vendeu para salvar seu próprio traseiro quando a loja foi invadida. Espero nunca mais voltar a vê-lo, porque ele vai mesmo se arrepender de me denunciar. Mas agora não é hora de pensar no Austin. Tenho que pensar na Sofia. E eu tenho que pensar em mim.

Então eu fecho minhas mãos firmemente no meu queixo e deixo meus olhos tão grandes e cheios de lágrimas quanto eu posso. Nem preciso fingir as lágrimas. Estou com medo. Minhas mãos não param de tremer.

— Por favor, por favor, prefeito Cowell. Não me exile. Vou morrer lá fora. Minha irmã vai morrer aqui sem ninguém para cuidar dela. Por favor, me ajude. Eu não sou uma pessoa má.

E eu fungo para adicionar mais drama às minhas lágrimas. Preciso disto. Eu preciso ficar.

A Sofia precisa de mim.

O Prefeito Cowell dá-me um olhar duro e abana lentamente a cabeça.

— Regras são regras. Nós não podemos dobrá-las para ninguém em Fort Dallas ou nós vamos afundar em anarquia novamente. Tenho certeza que você se lembra como foram ruins os motins quando os dragões chegaram pela primeira vez.

Eu me lembro. Ainda tenho pesadelos.

No meu silêncio, ele coloca seus polegares em seu cinto, e eu noto que suas calças são agradáveis e limpas, ao contrário do meu próprio jeans que está tão imundo que poderia ficar em pé por conta própria. Ele olha para mim.

— A lei é o que mantém as coisas funcionando suavemente aqui. Se a nova milícia não tem poder, não temos esperança como povo.

Eu consigo manter meu rosto sem graça com ele parecendo um robô, recitando uma história que eu conheço muito bem. Blah blah sete anos desde que os dragões vieram e os céus abriram. O Ano um foi o ano da morte, de chamas, cinzas, destruição, e quando a maioria de todos que não conseguiram se esconder rápido o suficiente morreu. Em seguida, vieram anos de furtos, construindo abrigos que os dragões não iriam romper ou rasgar em pedaços com suas garras. Anos de se esconder. Anos de fogo e fome sem fim e escondidos na escuridão enquanto os dragões rugem em cima. Como se eu não soubesse disso. Eu vivi todos esses dias.

Mas a versão dele é diferente da minha. Na sua versão, a nova milícia é a Fênix que se ergue das cinzas para ser o Salvador dos sobreviventes. Em meus olhos, eles são um bando de valentões com armas que só estão interessados em uma moeda: bucetas.

Mas eu estou supondo que nunca foi dito para usá-las como troca por um pedaço de pão duro ou uma mordida de guisado.

— Regras são o que fazem Fort Dallas o sucesso que é. — Prefeito Cowell repete. — É o que nos permitiu permanecer civilizados muito tempo depois do mundo ter ido para o inferno. E eu sinto muito, senhorita Cabello, mas não podemos fazer uma exceção para você.

Garras de pânico correm através de mim novamente. Minha garganta parece um deserto. Eu lambo meus lábios, determinada a não desistir.

— Eu quero ficar. Favor. Estou implorando. Fort Dallas é a minha casa. Não tenho outro lugar para ir. Minha irmã precisa de mim.

Um dos guardas da milícia avança.

— A palavra está com você, prefeito.

Sim! A esperança surge na minha cabeça, ele e eu olhamos para o guarda. Espere, não é só um guarda. Ele está usando listras no ombro, o que significa que ele é um sargento ou algo assim. De qualquer forma, ele está acima dos guardas da cadeia. Eu me viro de joelhos e aponto minhas mãos apertadas em direção a ele.

Ele olha para mim e o seu olhar varre o meu corpo.

Ai.

Okay. As coisas só oficialmente pioraram. Eu engulo em seco. Pense na Sofia. Muitas mulheres fazem isso com guardas. Às vezes é por pequenos crimes, às vezes é por um pouco de comida. Às vezes é por proteção. É um modo de vida agora. Posso fazer se isso significar cuidar da minha irmã. Eu posso.

Eu... espero.

O prefeito Cowell olha para o guarda e esfrega as rugas cansadas em volta dos olhos.

— O que Capitão?

O Capitão olha para longe de mim e de volta ao prefeito.

— Ela é jovem. Serve. Uma boa idade e forte. Podemos usá-la. — Ele olha para mim rapidamente, e sua voz baixa.

— Você sabe. Isca... para a experiência.

Isca?

Espere.

Isca?

Minhas mãos apertadas suam. Meu coração pega um novo e ansioso pulso.

— O quê?

— Isca? — O prefeito desaprova isso, dando ao Capitão um olhar revoltado. — Você precisa de mais meninas para isso? Você já teve cinco.

Cinco iscas? Garotas no passado, iscas? O que é isto?

O Capitão faz uma careta, uma expressão que conduz uma lasca de terror em minha alma.

— Elas se foram, prefeito. Só... sumiram. Não pergunte. Isso é diferente, no entanto. — Ele se move em direção ao prefeito e se inclina, sussurrando.

Não consigo ouvir o que estão falando. Eu observo-os, freneticamente tentando ler seus lábios, mas a única coisa pulsando na minha mente é cinco iscas meninas. Elas se foram. E ele quer que eu seja a número seis. Talvez eu devesse arriscar o exílio.

Depois de um momento, o guarda olha para cima, e ambos ele e o prefeito focam em mim.

Isso não é bom.

O Capitão dobra a cabeça novamente, e os dois homens sussurram por um tempo a mais, mas o prefeito parece implacável. Parece que ele quer mesmo exilar-me. Ele balança a cabeça novamente, em seguida, pega seu quadro.

— Os crimes dela são sérios, Capitão. É o exílio. Ela deve ser feita de exemplo para os outros, e sua experiência provou que não funciona. Sinto muito, mas minha decisão está tomada.

— Precisamos dela. — O Capitão insiste.

Meu corpo balança para frente e para trás entre eles. Eu não sei o que esperar exílio ou isca? Exílio ou isca?

— Hum, eu posso perguntar algo?

Eles me ignoram.

— Esta é uma enorme lista de crimes. — diz o prefeito, batendo o dedo no tabuleiro amarelado. — E não é a primeira vez que ela é enviada para a cadeia! Devemos fazer dela um exemplo! A limpeza está correndo de forma desenfreada!

— E nós vamos fazer dela um exemplo. — o Capitão acalma. — De uma maneira ou de outra, teremos sucesso. Se a levar, ótimo. Se não, bem... — Ele encolhe os ombros.

— Se o que me levar? — Eu chamo.

— Precisamos fazer algo. — diz o Capitão em voz abafada. — Nós. — Uma grande sombra passa sobre as janelas ensolaradas. As lanternas penduradas nas paredes fazem um barulho metálico sacudindo, e o teto estremece. Um rugido corta pelo ar um mero momento antes do alarme do dragão soar.

Meu corpo inteiro fica frio.

— Porra! — O Capitão grita. Ele agarra o prefeito e eles se afastam das janelas quando um enorme vulto negro ataca violentamente com as asas abertas muito perto. O prédio inteiro treme, e o dragão ruge de novo.

Eu me arremesso no chão, aterrorizada. Eu bato nas minhas algemas, mas para onde eu iria? Como é que isto está a acontecer? Os dragões acabaram de atacar ontem à noite. Deveríamos estar seguros... Não deveríamos?

O quarto explode em ação. Guardas estão em toda parte, agarrando materiais e armas quando a forma escura sobe alto novamente, apagando a luz que vem das janelas.

Um guarda se lembra de mim e puxa-me para os meus pés, em seguida, empurra-me junto com os outros em um dos quartos do abrigo abaixo mais seguro. Entramos na sala minúscula, e alguém fecha a porta.

Ninguém fala enquanto nos agrupamos. O quarto está muito quente, o ar ainda está almiscarado com suor. Está escuro, e eu sinto uma gota de suor rolar do meu nariz e gotejar no meu braço enquanto esperamos o alarme parar. Alguém esbarra na escuridão, e eu sinto uma pressão de braço pegajoso contra o meu. Eu não reclamo.

Quando um dragão está respirando fogo, você é grata por abrigo, qualquer abrigo.

Outro rugido ensurdecedor soa mais alto que o alarme, e o quarto se agitam com a força do som. O cheiro de carvão quente e cinza enche o ar, juntamente com a fumaça.

— É o grande de novo? — O Capitão pergunta em voz baixa.

— O negro. — O guarda ao meu lado concorda. — Eu vi suas asas antes que ele subisse.

Eu também. Era um negro brilhante e aterrorizante.

O Capitão grunhe.

— Não é um vermelho, então. Os vermelhos são cruéis.

Como se este fosse melhor?

Ao longe, algo trava, e o gemido de metal triturado captura a minha atenção. A sala inteira parece vacilar. As paredes tremem.

— Desceu. — diz alguém. — Talvez fiquemos aqui por um tempo.

— Estamos seguros? — Pergunta outro.

— Seguros como qualquer um.

Isso não ajuda. Eu engulo em seco. De vez em quando, a sirene apita. O dragão ruge de novo. Isto não está no padrão. Não, não está. Tem algo errado.

O prefeito suspira pesadamente, e eu percebo um momento depois que é o seu braço suado tocando o meu. Ele está mesmo ao meu lado.

— Eu não entendo isso. Eu pensei que eles seguissem padrões.

— Eles fazem. — Diz o Capitão em voz abafada.

O prefeito fala de novo.

— Esse é o segundo ataque dentro de 24 horas.

— É. O outro era vermelho. Este é um novo dragão que se instalou na área. Outro negro. Ele não segue o mesmo padrão que os outros. — O Capitão concorda, sua voz cuidadosamente em branco de emoção.

— Se isso continuar, não teremos mais que um forte em ruínas sobrando.

O prefeito suspira de novo, e eu quase posso ouvir as rodas girando em sua cabeça.

Cinco iscas.

— E essa sua experiência... funcionou em Fort Orleans? Com um negro?

— Sim, senhor. Achamos que um negro é a chave.

Um negro é a chave para o quê? Cada resposta que eu encontro é mais aterrorizante do que a última.

Uma pausa.

— Você pode tê-la, Capitão.

— Ter-me para quê? — Eu me desesperei.

Ninguém me responde, exceto o rugido do dragão.