Capítulo 1
Enquanto eu observava o céu noturno nos arredores de McCall, meus pensamentos voltaram para a minha vida no México. Um ano atrás, o medo e a ansiedade me consumiam enquanto eu vivia sob o governo opressor do meu pai, que já foi o chefão do cartel de drogas mais poderoso. Agora, vivo aqui escondida. No fundo, eu sabia que um dia ele enfrentaria as consequências de seus atos, mas sua ganância foi sua ruína definitiva.
Como moradora de uma cidade fronteiriça perto de Juarez, eu era frequentemente vista como uma estrangeira por causa do meu cabelo loiro e olhos azuis. As pessoas questionavam se eu pertencia à linhagem da família Leon. Meu próprio pai talvez também tivesse dúvidas sobre a minha paternidade por causa da minha aparência.
Sou conhecida como Mia Leon, filha de Felix Leon. Ele era um homem que impunha medo a muitos, ganhando o título de “ceifador de vidas” por sua falta de empatia e recusa em demonstrar fraqueza, mesmo para aqueles que lhe eram próximos. Ele assassinou o próprio tio por causa de uma partida de cartas. Eu era um incômodo para ele depois que uma gangue rival matou minha mãe. No funeral dela, ele bebeu cerveja e flertou com outras mulheres. Ele nunca se importou de verdade com minha mãe ou comigo. Meu pai só gostava de ter a mulher mais bonita de Juarez ao seu lado. Suas prioridades eram drogas, dinheiro, mulheres e manter o controle do cartel; ele não ligava a mínima se estivéssemos mortas ou vivas.
A voz da minha amiga Kara interrompeu meu devaneio.
“Mia, provavelmente deveríamos voltar logo. É noite de lua cheia.”
Lancei um olhar para minha amiga, sentada ao meu lado na pedra. Ela não era apenas uma amiga, mas também uma beleza notável. Seu longo cabelo preto caía em ondas soltas pelas costas, como a escuridão do céu noturno emoldurando seu rosto e atraindo a atenção para seus traços deslumbrantes. Seus olhos tinham um tom terroso profundo que guardava um ar de enigma, atraindo você com aquele olhar. Sua pele era impecável e bronzeada, uma homenagem à sua ancestralidade nativa americana. A estrutura de seu rosto era classicamente bela, com maçãs do rosto proeminentes e um maxilar esculpido que faria qualquer mulher deslumbrante sentir inveja.
Eu sabia que nossa conexão não poderia ser quebrada desde o momento em que nos conhecemos. Ela era a única que conhecia a verdadeira identidade do meu pai e como ele era antes de nos mudarmos para cá. Apesar de sua profunda confiança no pai — que era xerife, nada menos que isso —, ela nunca contou a ninguém. E por um bom motivo. Poderia ter acabado mal, especialmente para mim. Eu tinha perdido tudo na vida, e Kara entendia que eu precisava do meu pai; não porque ele se importasse comigo como o pai dela fazia com ela, mas porque, sem ele, aos dezessete anos, eu teria sido deixada nas ruas sem para onde ir. Mas se o pai de Kara descobrisse que tipo de pessoa terrível Felix era, ele jamais teria permitido que continuássemos amigas.
Durante a lua cheia, Kara ocasionalmente se comportava de forma estranha, divagando sobre criaturas sobrenaturais e me aconselhando a ficar longe da floresta. Mas eu encontrava consolo na natureza, porque sabia que outra noite de solidão me esperava quando eu voltasse para minha casa vazia.
“Por quê? Para eu ficar sozinha?” Suspirei. “Não, obrigada.”
Kara soltou um longo suspiro, seus olhos vacilando em minha direção. “Pelo menos você estará a salvo deles.”
Balancei a cabeça para Kara, sentindo-me confusa e frustrada. “Você sempre fala sobre ‘eles’, mas nunca me diz quem são. Está apenas tentando me assustar?” perguntei, sem entender por que ela era tão enigmática com essas informações.
Levantando-se, ela estendeu a mão para mim. “É melhor você nunca descobrir”, disse ela com um leve tremor na voz.
Balancei a cabeça, mas aceitei com gratidão. “Sua sanidade é uma preocupação constante minha.” Dei uma risadinha, e ela me cutucou gentilmente.
Enquanto caminhávamos pela cidade, o sol se pôs atrás das montanhas majestosas. Seu brilho quente pintou o céu em um espectro de tirar o fôlego de roxos, rosas e laranjas, quase como uma pintura a óleo. Tive que admitir, os céus de Idaho eram mais cativantes do que os de casa.
Ao nos aproximarmos de onde nossos caminhos se separariam, Kara jogou um beijo brincalhão para mim e disse: “Te vejo amanhã”.
Quando nos despedimos e seguimos caminhos diferentes, fiz um formato de coração com os dedos e direcionei para Kara em um gesto silencioso de afeto. “Noite, Kar.”
Com um baque surdo, joguei meu casaco na poltrona gasta perto da porta, ansiosa para escapar do frio e da umidade lá de fora. Meus passos ecoaram pela casa vazia enquanto eu me aproximava da cozinha, esperando por calor e conforto. “Felix?” chamei, mas, como de costume, não houve resposta. A ausência do meu pai era sempre sentida nesta casa silenciosa. Apesar de seus pedidos constantes, eu não conseguia me lembrar de tê-lo chamado de pai. A palavra nunca saía facilmente da minha boca. Parecia forçada e estranha, como tentar usar os sapatos de outra pessoa que eram grandes demais. Eu tinha me acostumado a chamá-lo de Felix, o que parecia mais adequado para a figura distante que nunca pareceu realmente um pai para mim.
Soltei um suspiro profundo e caminhei até a geladeira. Peguei uma garrafa de água gelada e subi para o meu quarto. Sentada na cama, peguei meu celular e mandei uma mensagem perguntando...
MIA: Você chegou bem em casa?
KARA: Sim. E você?
MIA: Sim. Mas, como sempre, está vazio.
KARA: Desculpa, seu pai pode ser um tremendo babaca.
Suspirei fundo e digitei.
MIA: Ele é uma pessoa egoísta. Se essas coisas sobre as quais você sempre fala me matassem, ele provavelmente celebraria o meu fim.
KARA: Ei, qual é. Só porque ele não está aí na maior parte do tempo, não significa que ele desejaria que algo ruim acontecesse com você.
Ri para mim mesma e respondi.
MIA: Duvido que ele notaria se eu tivesse partido.
Refleti sobre o tratamento que meu pai me dava. Lembrava a história da Cinderela, exceto pelo fato de que meu pai ainda estava vivo e desempenhava o papel da madrasta cruel. Talvez ele fosse realmente meu padrasto, o que explicaria por que ele me detestava tão intensamente.
Expulsei o pensamento da mente e digitei outra mensagem para Kara.
MIA: Estou indo dormir. Te vejo na escola amanhã.
KARA: Noite, Mia.
MIA: Noite.
Quando apaguei o abajur da mesa de cabeceira, a escuridão me envolveu, e eu só conseguia ver sombras no teto. O tempo parecia se esticar infinitamente enquanto eu estava deitada na cama, olhando para cima e perdida em pensamentos. De repente, um barulho alto de estrondo rompeu o silêncio lá embaixo. Meu coração disparou quando me sentei, escaneando meu quarto ansiosamente em busca de sinais de perigo. Depois de alguns momentos, reuni a coragem para deixar a segurança da minha cama e desci tentativamente as escadas que rangiam, meus pés quase não fazendo barulho no silêncio sinistro da casa. Cada fibra do meu ser estava em alerta máximo enquanto eu me aproximava cautelosamente do tumulto.
O que ou quem poderia estar me esperando lá embaixo?
Não podia ser meu pai. Ele provavelmente estava meio bêbado e apostando todo o nosso dinheiro. Com a possível chegada do cartel, acreditei que minha opção mais segura era desaparecer na escuridão de Idaho.
Apesar dos meus medos, continuei rezando para que quem quer que estivesse lá não me visse. Quando cheguei à porta da frente, minha mão estava cerrada com força na maçaneta, mas eu não conseguia me forçar a girá-la e fugir. Eu precisava saber se era o cartel e por que eles esperariam tanto tempo para vir atrás de nós.
Se eles estavam atrás do meu pai, por que esperar até que ele saísse para invadir?
Enfiei a mão no bolso e tirei meu celular, enviando rapidamente uma mensagem para Kara, pois sabia que meu próprio pai não seria de grande ajuda.
MIA: Kar, alguém estava na minha casa.
KARA: O quê?! Saia de casa!
MIA: Chame seu pai, por favor.
Ligar para a polícia me aterrorizava. E se o invasor ainda estivesse na minha casa e pudesse me ouvir falar?
KARA: Ok, vá para um lugar seguro.
Coloquei meu celular no bolso da minha calça de pijama. Eu poderia culpar a cor do meu cabelo, porque ser loira às vezes era conveniente — me dava uma desculpa para agir como idiota de vez em quando. Como eu estava agindo agora, cedendo à minha curiosidade e arriscando ser pega, tudo para satisfazer meu desejo de saber quem estava fazendo todo aquele barulho.
Um estrondo alto ecoou pelo corredor enquanto eu me aproximava da porta do escritório do meu pai. Acelerei o passo e virei a esquina a tempo de vislumbrar uma cauda preta desaparecendo pela janela estilhaçada. Meu coração disparou enquanto eu entrava cautelosamente, cacos de vidro estalando sob meus pés. A sala estava revirada, papéis espalhados pelo chão e a mesa estava virada. Medo e confusão giravam dentro de mim.
“Sério?” exclamei. “Como um cachorro pode causar tudo isso?” perguntei a mim mesma, perplexa com o desastre à minha frente.
Com um grito vindo da porta da frente, o xerife Black exclamou: “Mia?!”
“Aqui dentro.”
Os passos do xerife ficaram mais altos conforme ele se aproximava. Ele entrou no escritório e perguntou: “Mia, você está bem?”
Lancei um olhar para ele antes de voltar minha atenção para a cena caótica diante de nós. “Estou bem”, respondi. “Mas como um cachorro causou tanto estrago? Ou melhor, como ele quebrou a janela em primeiro lugar?”
Erguendo uma sobrancelha, o xerife Black indagou: “Cachorro?”
Abaixei-me para pegar uma pasta cheia de papéis que havia se espalhado pelo chão, depois a joguei sobre a mesa do meu pai. “Ele pulou direto pela janela”, expliquei com frustração.
O xerife Black sugeriu: “Talvez você deva passar a noite conosco”.
Lançei um olhar perplexo para ele. “Só por causa de um cachorro?”
O xerife Black gesticulou para que eu o seguisse enquanto dizia: “Podemos discutir isso melhor em casa”. Ele então caminhou até mim e me conduziu gentilmente em direção à porta do escritório. Antes de sairmos, não consegui resistir a dar uma última olhada para trás. Mas o xerife Black já estava me puxando, e eu sabia que haveria tempo para perguntas mais tarde.
***
Após uma longa viagem, finalmente chegamos à charmosa cabana de Kara, aninhada na encosta logo fora da cidade. O cheiro de pinho e ar fresco nos recebeu enquanto entrávamos na entrada de cascalho. Ao sair do carro, meus olhos foram atraídos para Kara parada na varanda, seu cabelo escuro soprando suavemente na brisa. Atrás dela, as paredes de madeira de sua cabana pareciam se misturar perfeitamente com a floresta circundante, criando uma sensação de serenidade e isolamento.
Kara se inclinou sobre o corrimão e perguntou: “Mia, você está bem?”
Um sorriso surgiu em meu rosto enquanto eu subia os degraus em direção a ela. “Sim.”
Com um sorriso, ela estendeu a mão e exclamou: “Noite de garotas!” Eu inevitavelmente ri enquanto ela me arrastava animadamente para dentro da casa.
Entramos no quarto de Kara, o ar quente carregando o leve perfume dela. Ela pulou na cama, e eu me acomodei em uma poltrona de pelúcia no canto, cruzando as pernas. Seu olhar era intenso, nunca vacilando enquanto ela me estudava. Depois de alguns momentos, virei-me para encontrar seus olhos e fui recebida com uma pergunta não dita.
Roendo as unhas, murmurei: “O quê?”
“O que aconteceu?” Kara perguntou enquanto eu me encostava na cadeira e soltava um suspiro longo e pesado.
“Bem, você acredita? Um cachorro, sim, uma criatura peluda de quatro patas que adora perseguir o próprio rabo, de repente se transformou em humano, quebrou uma janela e saiu em uma onda de roubos. E só quando você achava que as coisas não poderiam ficar mais estranhas, o delinquente canino se transformou de volta em sua forma original e saiu pela mesma janela. Quem disse que os animais não conseguem fazer um assalto?”
Com a testa franzida, ela perguntou: “O quê?”
Dei de ombros e soltei uma risada. “Relaxa, Kar, eu estava brincando”, disse entre risadinhas. “Tenho quase certeza de que o cachorro entrou quando alguém quebrou a janela durante a invasão”, declarei com confiança, ainda rindo da absurdidade da situação.
Ela olhou para mim com os lábios franzidos e a testa franzida, claramente não achando minha piada engraçada.
“Garotas?” O Sr. Black bateu na porta.
“Pode entrar, pai.”
Enquanto ele entrava e se sentava ao lado de Kara, ele disse: “Acho que precisamos conversar”.
“O que houve?” Kara perguntou.
O pai de Kara olhou de uma para a outra antes de falar: “Por enquanto, acho que seria sensato que você evitasse voltar para casa”.
Inclinei-me na cadeira e disse calmamente: “Foi apenas um cachorro, Sr. Black”.
“Não, acho que há mais por trás desse ataque do que podemos ver”, ele anunciou.
Olhei para ele em confusão atônita. “Alvo de quem? E para quê?”
Os olhos do Sr. Black desviaram rapidamente antes de retornar com um olhar intrigante. “De ser morta”, ele declarou.