Chapter 1 - Eve
“Eve?”
Levantei a cabeça da planilha brilhante. Meus olhos ardiam por passar horas demais mergulhada em números, a pedido do meu supervisor.
“Você foi chamada na sala da segurança.”
Pisquei, confusa, e olhei para minha colega. Ela apenas balançou a cabeça.
“Não sei de nada”, acrescentou ela rapidamente.
Certo. Claro que não.
Suspirei e esfreguei os olhos. Tudo bem. Eu mesma iria descobrir.
Só que…
“Onde fica a sala da segurança?”, perguntei, percebendo, para meu constrangimento, que não fazia ideia.
A mesma expressão vazia. “Não sei. Pergunta na recepção. A Tanya sabe de tudo.”
Claro que sabe.
Tanya, nossa recepcionista onisciente, uma vez salvou o emprego do CIO ao segurar os funcionários da limpeza por uma hora depois que a secretária dele jogou fora uma pasta importante. Diz a lenda que Tanya e o chefe passaram esse tempo com as mãos na massa, revirando o lixo da empresa como caçadores de tesouros de terno. O fedor deve ter feito maravilhas para a união da equipe — eles vêm compartilhando muita coisa além de fofocas de escritório desde então.
Todo mundo na contabilidade conhecia essa história.
Levei a mão ao cabelo para refazer meu rabo de cavalo, que tinha afrouxado durante meu mergulho nas planilhas. Depois, ajeitei minha camisa social branca, alisei a saia impecável e ajustei os óculos grandes que descansavam no meu nariz.
Muito bem. Hora de encarar a segurança.
Caminhando por um labirinto de mesas bagunçadas, fiz um aceno para alguns colegas. Assim que cheguei à saída do andar, quase esbarrei na própria Tanya, saindo da sala do chefe como se o destino a tivesse entregue de presente.
“Timing perfeito”, eu disse. “Você sabe onde fica a sala da segurança?”
Tanya ergueu uma sobrancelha, com a maquiagem impecável como sempre.
“No subsolo, terceiro andar. Por quê?”
“Me mandaram me apresentar lá.”
A expressão dela mudou levemente. “Espero que não seja por causa de atrasos”, ela disse, baixando a voz. “Dizem por aí que o CEO começou a monitorar o ponto.”
Meu coração falhou uma batida.
“O quê?”, ofeguei.
“Você tem chegado atrasada o mês todo, não tem?”
Sim. Sim, eu tinha. Equilibrar faculdade, visitas ao hospital para a reabilitação do meu pai e este emprego… pontualidade não era exatamente um luxo que eu podia me dar.
“Se fosse esse o problema, tenho certeza de que o CIO teria me chamado primeiro”, eu disse, forçando um sorriso fraco enquanto entrava no elevador.
Tanya me seguiu — o andar dela ficava dois níveis abaixo.
Quando as portas se fecharam, ela se virou para mim, com a voz baixa. “Escuta, Eve. Eu sei que as coisas estão difíceis com seu pai e tudo mais. Então não seja idiota. Se ele te disser para cooperar… faça isso.”
Pisquei. “Quem?”
Eu já estava perdida em pensamentos sobre aluguel e contas do hospital, mal prestando atenção ao seu aviso enigmático.
“Quem quer que esteja lá embaixo. O homem na sala. Ele pode estar disposto a apagar as evidências — se você der um motivo a ele.”
Um frio na espinha percorreu minha pele. Virei-me lentamente para encará-la — certamente ela estava brincando. Mas o rosto de Tanya estava sério. Sério demais. E em seus olhos cuidadosamente maquiados, vi pena.
Ela me deu um aceno sutil — um “boa sorte” silencioso — e saiu no quinto andar sem dizer mais nada.
As portas do elevador se fecharam atrás dela.
E eu continuei descendo.
Descendo…
Descendo…
Até o poço do diabo.