Capítulo 1
Blair
São três da manhã. Olho para a minha melhor amiga e colega de curso de História, que ainda está dormindo, e me pergunto como ela consegue dormir numa hora dessas. Quero dizer, viajamos para a Escócia em poucas horas; como isso não é empolgante? Encontrei essa oportunidade pelo programa de intercâmbio há algum tempo e, com muita insistência e uma ajuda financeira do meu pai, ela aceitou se inscrever para eu não ter que ir sozinha.
Meus pais não estão felizes com nenhuma das decisões que tomei sobre o meu futuro. Eles não queriam que eu me formasse em História, e foi ainda pior eu ter feito uma especialização em educação. Aos olhos deles, minha escolha de carreira é inferior. Veja bem, meu pai é um magnata do mercado imobiliário muito conhecido em Napa, na Califórnia. Ele e minha mãe vivem no luxo. Meu irmão, Zac, e eu crescemos com essa vida, mas o Zac parece ser mais parecido com os meus pais. Eu sou a ovelha negra. Não me importo muito com dinheiro ou fama; quero fazer algo que enriqueça a vida dos outros e apenas ser feliz com o que tenho. Meus pais ficam enojados com essa ideia. Meu pai espera que Zac e eu sigamos seus passos e trabalhemos nos negócios da família. Ele não se importa se é realmente o que queremos ou não. O Zac, por outro lado, fez exatamente isso. Ele não quer nada além de agradar aos nossos pais. Ele é o filho de ouro. Ouvi isso a vida inteira: "Blair, qual é o seu problema? Por que você não pode ser mais parecida com seu irmão?". Felizmente, minha avó, que é como uma mãe para mim, ameaçou meu pai com a herança dele, ou ele não teria pago minha faculdade. Foi ela também quem o convenceu a pagar pela minha aventura na Escócia; ela o forçou a ajudar a pagar pela ida da Sofie também.
Ah, sim, a Escócia. Mal posso esperar pelo próximo ano da minha vida. Esta é a experiência de uma vida, e não vou desperdiçar um minuto sequer enquanto estiver lá. É, meus pais também não aprovaram essa ideia, mas com meus avós do meu lado, eu não tinha como perder. Eu amo história, e a Escócia é parte da minha história, então que lugar melhor para ir? A família do meu pai tem raízes escocesas, e é algo sobre o que eu gostaria de aprender mais. Meu avô me contou muitas histórias sobre sua família escocesa, e isso sempre me atraiu. Sabe, meu avô gosta de história tanto quanto eu. Ele e minha avó ficaram radiantes quando contei que tinha a oportunidade de ir para a Escócia estudar. Eles me incentivaram a me inscrever.
"Sofie, está na hora de levantar. Vamos, precisamos ir para o aeroporto."
Ela pulou da cama: "Ai meu Deus, Blair, nós vamos para a Escócia". Demos as mãos e dançamos um pouquinho de tanta empolgação. Podemos estar na casa dos vinte anos, mas às vezes ainda agimos como crianças.
Nosso voo tem uma conexão noturna em Dublin e, de lá, voamos para Glasgow. No aeroporto, vamos encontrar outros três estudantes que também vão para a Escócia pelo intercâmbio. Sofie e eu somos as únicas estudantes de História.
O voo foi longo, mas eu estava empolgada demais para dormir. Eu e outro estudante, Eric, conversamos. Ele estuda na Columbia University, em Nova York. Ele era simpático e muito bonito. Parecia interessado em mim e trocamos números, mas não tenho certeza se seríamos um bom par.
Quando chegamos aos nossos quartos em Dublin, comecei a sentir o cansaço bater. Eu não dormia há duas noites e meu corpo estava implorando por descanso.
Assim que entramos no quarto, Sofie começou: "Então, parece que você e o Eric se deram bem".
"Não é nada disso, Sofie. Ele foi apenas alguém para conversar no avião, já que você dormiu praticamente o tempo todo."
"Não sei, não. Ele parecia bem interessado em você."
"É, talvez, mas ele não faz o meu tipo."
"Como você sabe? Você provavelmente nem sabe qual é o seu tipo. Você nunca dá uma chance para ninguém."
"Não começa, Sofie. Estou cansada e quero dormir."
"Só estou dizendo. Ele parece realmente gostar de você e ele é gato, então talvez você devesse dar uma chance."
"Sofie, ele mora em Nova York, eu moro na Califórnia, como isso funcionaria?"
"Bom, você tem um ano inteiro na Escócia, muita coisa pode mudar em um ano."
"Duvido que isso mude. Quero dizer, sim, eu quero sair de Napa, mas Nova York não é para onde eu quero me mudar. E, pelo que ele disse, ele não planeja sair de lá, então é isso."
"Como eu disse, muita coisa pode mudar em um ano. Além disso, quero que você abra sua mente para novas possibilidades. Eu te amo muito, mas vamos encarar os fatos: você é uma merda quando se trata de relacionamentos."
"Não sou não. Eu só não encontrei alguém com quem eu seja compatível."
"Como você pode encontrar alguém compatível se não dá uma chance para ninguém?"
"Chega dessa conversa. Vou dormir."
"É, porque você sabe que eu tenho razão. Você foge de todo garoto que tenta algo com você. Olha o James."
"Tanto faz, Sofie. O James era um idiota egocêntrico, e você sabe disso."
"Ok, você tem razão, mau exemplo. E o Matthew?"
"Ok, o Matthew era bonzinho demais. Ele ficava no meu pé o tempo todo. Eu sentia que ele estava me sufocando."
"Sim, ele era um pouco filhinho da mamãe, mas não era tão ruim assim. E o Eli?"
"O Eli era ótimo e, sim, eu poderia ter visto um futuro com ele, mas ele terminou comigo, lembra? Eu não tive nada a ver com isso."
"É, verdade. Por que ele terminou com você? Vocês eram fofos juntos."
"Quem me dera saber. Ele cortou contato comigo completamente, me bloqueou em todas as redes sociais e tudo mais."
"Nossa, isso é estranho."
"Pois é, sem explicação nenhuma. Tentei falar com ele na faculdade, já que ele tinha me bloqueado em tudo, mas ele nem me deu trela."
"Que porra é essa?"
"É. Então, boa noite, Sofie."
"Boa noite."
Fiquei tão feliz quando pousamos em Glasgow. O Eric estava quase me deixando louca. A Sofie tinha razão, ele definitivamente gosta de mim, mas eu não sinto o mesmo. Disse a ele que poderíamos ser amigos, mas só isso. Estou me arrependendo de ter dado meu número. Ele estava mais atirado hoje e isso me irritou. Por que os caras fazem isso? Eles chegam forte demais e, para mim, isso corta o clima na hora.
Pegamos um táxi para o hotel. Para um mês de junho, o clima estava agradável, muito diferente da Califórnia. Amanhã, Sofie e eu viajaremos para Inverness, onde moraremos pelo próximo ano. Temos alguns dias para nos ajustar e conhecer a cidade; depois, na próxima semana, nossas aulas começam. Tínhamos a opção de vir em junho ou agosto e escolhemos vir para o verão porque estavam oferecendo aulas que não conseguiríamos fazer em outra época. Além disso, isso nos daria tempo para aprender mais sobre a área antes que a carga horária pesada começasse.
Passamos o dia inteiro rodando a cidade e olhando todas as lojinhas. Tivemos o almoço mais incrível num restaurante fofo chamado Fig and Thistle. O lugar todo era maravilhoso e lindo, e as pessoas eram todas muito amigáveis, embora às vezes fosse difícil entendê-las.
Mais tarde, à noite, fomos conferir a vida noturna local. Acabamos num pub lotado chamado The Malt. As pessoas estavam bebendo, dançando e aproveitando a vida. Nunca fui muito de balada, mas a Sofie com certeza é.
Fizemos nosso caminho através da multidão até o balcão. Tinha um cara fortão atrás do balcão conversando com o barman. Levamos alguns minutos para chamar a atenção dele, mas quando a Sofie pediu uma bebida, os olhos dos dois homens caíram sobre nós. O grandalhão sussurrou para o barman e veio até nós: "O que posso servir para vocês, bonnie lass?"
"Um drink alto como você."
"Ai meu Deus, Sofie, sério! Você vai ter que desculpar minha amiga. Ela perdeu o juízo."
Ele deu uma risadinha: "De onde vocês são?"
"Califórnia."
"Longe de casa."
"É." O tempo todo em que ele falava, ele não tirava os olhos de mim. Era como se eu fosse a única pessoa no lugar.
"Então, o que vai ser?"
"O que você sugerir."
Ele sorriu como se tivesse acabado de ganhar um prêmio. "Whisky, então." Ele pegou uma garrafa escura e alta na prateleira. "Este aqui é o melhor whisky que o dinheiro pode comprar. Tome uma dose disso."
Inclinei meu copo para trás, deixando o líquido marrom descer pela garganta. Não estava nada mal. Consigo entender por que as pessoas gostam tanto disso.
Olhei de volta para o homem, que me observava com curiosidade. "Então, o que achou?"
"Não está ruim."
"Não está ruim. Só isso?"
"O que você quer que eu diga?"
"Sei lá. Algo mais do que 'não está ruim'."
Eu não sabia o que aquele homem queria de mim. "Não sei o que dizer. Não sou nenhuma especialista em whisky."
"Aqui, tome outra dose. Dessa vez, concentre-se no sabor. Me diga o que você sente."
"Por que isso importa?"
"Aye, apenas faça. Não vai te matar, prissy."
Revirei os olhos, inclinei o segundo copo e bebi o líquido marrom mais uma vez. Tentei ao máximo identificar os sabores. Notei que era suave e defumado, com um leve toque frutado no final.
"E então?"
"É defumado e frutado, bem suave."
Ele sorriu. "Como eu disse, o melhor whisky da região. Aqui, tome outro."
"Acho que você está tentando me deixar bêbada."
Ele soltou uma risada profunda e rouca. "Aye."
Ri das palhaçadas dele e virei o copo.
"Qual o seu nome, lass?"
"Blair." Apontei para a Sofie, que olhava na minha direção sorrindo. "E esta é a Sofie. Acabamos de nos mudar para cá." Por que eu contei isso a ele, não faço ideia, deve ser o álcool.
"Vocês se mudaram para cá? Sério?"
"Sim. Vamos passar o próximo ano aqui com o intercâmbio."
"Ah, então vocês estão estudando."
"Estamos no último ano da faculdade."
"Entendo. Bom, foi um prazer conhecer vocês, senhoritas."
"Espere, não peguei seu nome."
"Rory, Rory MacDonald." Ele fez uma reverência como se fôssemos da realeza.
"Você mora por aqui? Vamos te ver de novo?"
"Aye. Não moro muito longe. Se tiver que ser, nossos caminhos vão se cruzar. Agora, despeço-me de vocês."
Com isso, ele foi embora. "Garota, o que foi isso?"
"O que foi o quê?"
"Por favor, não se faça de boba. Você estava a fim dele, e ele definitivamente estava a fim de você. Caramba, era como se você fosse a única pessoa no ambiente."
"Não. Você está imaginando coisas."
"Tanto faz. Eu sei muito bem o que acabei de presenciar."
Preciso admitir, fiquei curiosa sobre aquele homem. Era como se tivéssemos uma conexão, e ele era definitivamente lindo, como ninguém que eu já tinha conhecido antes. Ele era másculo e bruto, e ah, como eu esperava vê-lo de novo.