Um Sussurro ao Vento

Dylan Marks acordava precisamente às 6h46 todas as manhãs.
Não era nenhum tipo de milagre da natureza, mas, mais precisamente, era o horário que ele considerava um bom meio-termo entre acordar cedo demais e odiar a vida, ou ter que sair correndo pela porta da frente numa bagunça total.
Com certeza, ele poderia ter escolhido as 7h00, mas isso lhe daria pouco tempo para se vestir, passar café, cuidar dos cães e sair a tempo de evitar o tráfego mínimo da sua cidadezinha, então um meio-termo parecia ser o ideal.
Naquele sábado, porém, ele abriu os olhos, virou-se e puxou o celular que apitava. Ele desligou o alarme apressadamente antes de piscar, atordoado, para o papel de parede tremulante do seu celular.
Era uma estampa psicodélica que ondulava quando você a movia; ele tinha acabado de baixá-la no dia anterior e, de repente, jurou ali mesmo que a mudaria imediatamente. Era informação demais para seu cérebro e seus olhos logo cedo, disso ele tinha certeza absoluta.
No entanto, no segundo, no micro-momento em que sua cabeça levantou, três outros pares de olhos se fixaram nele. Ele ouviu o barulho frenético e selvagem das patas e unhas batendo no piso de madeira e, de repente, se viu diante de dois pares de olhos castanhos escuros e um par que parecia quase selvagem, de tão dourado que era.
Eles eram, respectivamente, suas duas Golden Retrievers, Molly e Moxy, e seu Husky macho adotivo, Germany. Não tinha sido Dylan quem dera o nome a Germany; o husky já tinha chegado ao abrigo com esse nome, mas Dylan sabia que seu dono anterior era uma peça rara. O menor dos pecados daquele sujeito tinha sido chamar um husky de "Germany", isso era certo.
Germany tinha chegado num estado lastimável, detonado, uns dez quilos abaixo do peso e, para um cachorro do seu porte, ele não só não tinha peso, como também não tinha aquele pelo prateado, bege e branco que tornava a raça tão difícil de cuidar. O pouco que restava era um pesadelo emaranhado e sujo.
Seu dono era um idiota que morava nas montanhas e o manteve acorrentado a uma árvore a vida toda. Germany chegou junto com outros dez resgatados após a avaliação veterinária no pequeno abrigo que não sacrificava animais, onde Dylan trabalhava.
Quer falar sobre amor à primeira vista?
Germany fixou aqueles olhos dourados nele, e Dylan retribuiu com seus olhos azuis arregalados. Juro por Deus, eles correram um em direção ao outro como dois amantes perdidos, separados pelo tempo e pelo espaço.
No entanto, Dylan tinha dito a si mesmo com firmeza, e com muito entusiasmo, que simplesmente seria o lar temporário de Germany, desde que suas meninas gostassem dele. Ele sondaria possíveis interessados para encontrar um dono responsável e, depois disso, era só isso.
Nada de novos cães para ele.
Ser lar temporário era uma faca de dois gumes. Germany era o quarto em três anos e parecia cada vez mais difícil deixá-los ir para o desconhecido.
Deixando de lado as visitas domiciliares e todo o resto, ele sempre sentia que estava mandando seus filhos para um internato. Isso destruía seu coraçãozinho estúpido toda vez que eles saíam sorrateiramente pela porta para um novo lar, logo depois de terem acabado de se acomodar e ficarem confortáveis em sua casa.
O problema é que Dylan não tinha como fazer isso a longo prazo. Se ele adotasse cada resgatado e abandonado que aparecia, ele estaria sobrecarregado. Cara, no trabalho, já tinha seis cães, três gatos, galinhas e um pato. Thomas tinha três cavalos, além de quatro cachorros e um celeiro cheio de gatos. Dylan nem ia mencionar a veterinária da equipe, Patricia, que aparecia por lá com uma lista completa de uma fazenda cheia de animais resgatados.
Admirável, notável e incrível, mas Dylan não entendia como Patricia e Thomas conseguiam bancar tudo aquilo com seus salários. Ele suspeitava que tinha muito a ver com o fato de serem casados com pessoas que ganhavam bem, mas Dylan era apenas o pequeno e solitário Dylan, e não estava nadando em dinheiro. Como Cara conseguia, era um mistério para ele.
Mas ser lar temporário de curto prazo, isso ele conseguia fazer.
O outro problema era que Germany era um cachorro grande, um cachorro barulhento, cheio de pelos difíceis de cuidar e considerado uma raça que exige muita manutenção. Ele não era um bom candidato, por exemplo, para uma senhora idosa e frágil que não conseguisse levá-lo para gastar energia. Ele não podia viver em um apartamento pelo mesmo motivo, e eles não faziam ideia de como ele se comportaria com gatos, crianças ou qualquer outra coisa.
Dylan já tinha arriscado com outros cães, e Germany se dava bem com as meninas, mas ele não podia garantir que seria ótimo com o resto, e Dylan não queria mentir sobre isso. Se ele mentisse, poderia condenar o coitado a voltar direto para o abrigo, e esse tipo de ciclo é uma merda.
Então, com tudo isso em mente, ele se levantou com um palavrão resmungado, cambaleou até o banheiro. Todos os três cães o seguiram entusiasmados, e ele nem se deu ao trabalho de fechar a porta; deixou que eles ficassem circulando famintos em volta de seus pés descalços enquanto ele fazia xixi, tentando ao máximo não respingar em nenhum daqueles bastardos enxeridos que farejavam o cubículo.
Sair de qualquer lugar era sempre um caos. Ele teve que passar por cima de tudo aquilo que era o corpo inquieto da Molly, quase tropeçou na Moxy que disparou entre suas pernas para chegar primeiro à porta, e Germany apenas o encarava com uma expectativa ansiosa para que as coisas acontecessem rápido: área externa, comida, petiscos, caminhada, carinho, uma algazarra por hora de brincar e, depois, uma falta total de espaço pessoal no sofá bem na hora do noticiário das nove.
Feliz sábado.
Dylan chegou à pia, abriu a torneira e percebeu que parecia cansado, mais do que o habitual.
Aos vinte e oito anos, ele estava se sentindo... ele não sabia. Algo vinha lhe tirando o sono ultimamente. Ele não sabia se era porque tinha parado de beber recentemente ou se, talvez, estivesse finalmente sentindo o peso do término com seu parceiro anterior.
Na época, oito meses atrás, Dylan estava tão furioso que nem se deu ao trabalho de tirar um tempo para realmente sofrer pelo relacionamento de dois anos. Ele saiu num acesso de raiva, abandonado, como um vento impetuoso, xingando o nome de Scott, e não se permitiu fazer nada além de ficar com raiva da situação.
Por oito meses, sentiu como se tivesse vivido em angústia, traição esmagadora, e passava seus dias recusando-se a admitir que, no fim das contas... o cara simplesmente o tinha destruído. Tinha feito ele se sentir um tolo e o machucou num nível que ele nunca tinha experimentado antes daquela tragédia.
Ele tinha realmente pensado que Scott era sua alma gêmea. Dois anos juntos, e Dylan tinha sido tão feliz com o cara; ele realmente tinha sido. Ele estava escolhendo alianças, olhando vitrines de locais para o dia do casamento e planejando para onde poderiam viajar na lua de mel. Literalmente com a cabeça nas nuvens, cego para tudo o que estava bem debaixo do seu nariz.
Scott era advogado em um pequeno escritório em Sugar Lakes, sua pacata cidade no norte da Califórnia, ganhava muito bem, adorava viajar e, no papel, parecia um partido perfeito.
Scott tinha a casa linda, a família maravilhosa que o apoiava; sua mãe, Talia, adorava Dylan, e sua irmã, Miranda, era hilária e estava tão animada quanto Dylan ao cogitar o matrimônio. Aquela família realmente preenchia muitos dos vazios em sua própria vida, e sua própria história complicada com sua família, disso ele tinha certeza.
E então, um dia, Dylan saiu mais cedo do trabalho depois de uma gripe particularmente forte que o deixou de cama naquela semana, e parou na CVS para comprar alguns remédios.
Do outro lado da rua da CVS em Sugar Lakes, havia um pequeno restaurante italiano chamado Mariano’s, uma loja de flores/artigos alternativos chamada Blooms and Shrooms (era o Norte da Califórnia, não pergunte) com um letreiro neon de arco-íris anunciando suas esquisitices e mercadorias, e um bar mais sofisticado chamado Merchants Square.
O último era onde todos os engravatados iam relaxar depois de um longo dia em consultórios odontológicos ou qualquer outra coisa de colarinho branco na cidade. Mas, naquele dia específico, Dylan estacionou e franziu a testa ao ver o carro de Scott no estacionamento lateral.
Se Dylan não tivesse parado, ele nunca teria visto aquilo, e esse conhecimento o assombrava, honestamente. Perseguia-o saber que, se ele não tivesse ficado doente naquela semana e não tivesse decidido comprar um remédio, ele poderia estar até agora totalmente alheio e vivendo uma mentira estúpida com algum idiota que o manipulava como queria.
Aquele dia o machucou tanto.
Dylan parou nesse pensamento e engoliu em seco ao redor da escova de dentes antes de sacudir a cabeça para se livrar disso. Ele pensou que, no "agora", seus maus hábitos de sono poderiam ser qualquer coisa; talvez o aumento repentino das saídas em boates em Sacramento depois do término, seguido imediatamente pela abstinência três meses atrás.
Ou talvez o fato real é que ele dormia feito um lixo quando não tinha outro corpo na cama dele.
Ele não sabia, mas o que ele sabia com certeza era que estava solitário, e chegar em casa para os cães não era a mesma coisa que chegar em casa para uma pessoa. Talvez a solução fosse simples; talvez ele estivesse pronto para realmente voltar ao jogo de vez.
Com certeza ele tinha tido seus momentos de curtição, mas isso não o deixava feliz além da noite em questão.
Ele guardou a escova, suspirou e passou uma escova em seu cabelo loiro-escuro bagunçado antes de forçar um sorriso para seu reflexo e pensar: "finge até conseguir, Dylan."
Então veio a odisseia de tropeçar com três cães escada abaixo em sua pequena casa, lutando para chegar à porta dos fundos e xingando Deus quando Moxy quase o derrubou a caminho da porta de vidro de correr.
“Jesus!” Ele exclamou e quase foi atropelado contra o vidro. Ele mal conseguiu abri-la o suficiente antes que os três idiotas com quem dividia o espaço explodissem para o quintal numa confusão selvagem e entusiasmada de pelos caindo e travessuras desenfreadas.
Ele sorriu e foi lá fora com eles, bem no momento em que o primeiro raio de sol real começou a romper a bela linha das árvores que dominava a área além da cerca.
Dylan adorava seu bairro. Era antigo, e ele ficava a um quarteirão do cemitério mais velho da cidade. A maioria das pessoas ao seu redor eram famílias jovens, casais mais velhos e os ocasionais novos inquilinos entrando e saindo do duplex alugado na rua.
Colinas cercavam a área aqui, e Sugar Lakes recebeu esse nome devido aos dois lagos azul-joia que ficavam bem fora da cidade. Seu bairro ficava a cerca de um quilômetro e meio do mais próximo, o Lago Franklyn.
A área ficava no alto das colinas, rica em pinheiros, e seu bairro estava em uma pequena seção do condado chamada Twin Lake Front, mesmo não estando nem perto de ser à beira de lago nenhum.
Era lindo, sereno apesar de ter vizinhos, e cada casa no quarteirão tinha cerca de dois mil metros quadrados de terreno cercado. Ótimo para pets, crianças e churrascos.
E seus cães adoravam.
Ele observou os três correrem, brincando alegremente na nova geada da manhã de primavera. Dylan olhou para cima quando os primeiros raios de sol começaram a brilhar sobre as colinas e se espalharam como uma sinfonia pastel morna sobre o vale abaixo. As nuvens ao redor ganharam tons ricos de rosa, magenta e roxos mais profundos, longe da influência do sol.
Por um momento selvagem, a luz atingiu as nuvens numa mancha dourada bem na frente dele, de tal forma que ele jurou que parecia o perfil de um cachorro. Do olho à língua caída para um lado, lembrava-o tanto de Germany que ele até franziu a testa para a formação da nuvem, desconfiado.
Ele suspirou, esfregou a testa e teve que rir antes de dizer em voz alta: "Não estou com disposição para acreditar em sinais e ver coisas hoje, Universo. Mas obrigado mesmo assim." Ele deu uma risada de sua própria imaginação, mas teve um momento real quando um vento soprou, e lhe pareceu que uma nuvem que parecia suspeitamente com dedos deslizou em direção ao canino em forma de Germany no céu.
Ela passou por ele como um toque arrepiante e vaporoso através do pelo, antes de espalhar toda a miragem, transformando-a novamente em nada mais que gavinhas douradas e harmonia rosa.
Ele franziu a testa, assobiou para os cães e voltou para alimentá-los.
Hum. Estranho, contudo.





I’m honestly scared Germany will die
sounds like my kind of day, doggos prancing around, so much fun
wow very omniscient. A Siberian Husky is my favorite dog 2nd running is Golden Retriever