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Resumo

Contos diversos.

Status
Completo
Capítulos
9
Classificação
n/a
Classificação Etária
16+

Reflexo

Era meia-noite quando a chuva começou a cair. Uma chuva lenta, de gotas grossas e pesadas que encharcavam as tendas e apagavam as fogueiras do exército.

O velho rei acordou do seu sono suave. Acendeu uma vela que encheu o interior da tenda de sombras ténues que transformavam a mais curta pena de escrever numa enorme ave de rapina. O velho rei ficou sentado na sua cama improvisada durante um momento, ouvindo a chuva, sentindo o peso da água no tecido da tenda. Estava grato por ter conseguido dormir pelo menos umas horas. Sabia que com o primeiro raio de sol estaria caminhando para a batalha mais importante da sua vida - pois ele tinha a certeza que seria a sua última.

Era uma premonição que descobrira muitos anos antes, quando soube da existência desse filho bastardo que ele não se lembrava de ter concebido. Sabia, quando o olhou nos olhos pela primeira vez e viu o ódio infinito por trás deles, que Mordred seria a sua morte. Não podia culpar o rapaz. Na tentativa de evitar esse futuro, o rei tinha-o tornado certo. E transformara-se num mosntro durante o processo.

Mas não conseguia evitar sentir uma pontada de desapontamento. O rei não tinha herdeiros, se Mordred não tivesse sido criado para ser a sua destruição, poderia ter sido a salvação do reino. Assim, não passava de um tirano cruel, com o coração envenenado pelas palavras da sua mãe.

Esta batalha marcava a primeira vez em 40 anos que o rei marchava para a guerra sem o seu melhor cavaleiro, o seu melhor amigo, o seu melhor conselheiro. Lancelot partira semanas antes para França, após se ter descoberto que ele e a rainha eram amantes. O rei tinha ido à sua procura para o matar. Era isso que o povo queria. Mas não tinha intenção de o fazer. Nem sequer tinha intenção de que Lancelot fosse encontrado. Antes de partir com o exército para a batalha contra Mordred dera ordens que deixassem de procurar Lancelot, já não era uma prioridade.

Durante anos soubera do amor secreto, mas fingira-se ignorante, mesmo quando toda a gente do reino já tinha ouvido os rumores. O rei nunca os culpara, nunca sentiu nem uma pontada de traição. Ele era uns bons 17 anos mais velho que a rainha, tinha sido um casamento arranjado. Nunca se tinham amado verdadeiramente. Havia um fosso entre eles, uma distância que nunca tinham conseguido ultrapassar. Amara Gwynevere como uma irmã e o seu carinho por ela era infinito e por isso não sentira dor ao vê-la feliz com outro homem. Era, aliás, perfeito: os seus dois melhores amigos apaixonados, um amor que durara décadas. Mas custava-lhe agora não ter nenhum deles ao seu lado. A sua ausência deixava-o com mais certeza de que o fim estava para breve. Se Lancelot estivesse ao seu lado na batalha que começaria pela manhã, o rei não cairia.

Lembrar-se de tudo isto pesava-lhe na alma. Pelo canto do olho reparou numa luz à sua esquerda. Curioso, voltou a cabeça para tentar perceber a sua fonte. Era um espelho que refletia a chama da vela. Perguntou-se por que razão estaria ali um espelho. Talvez um criado o tivesse empacotado com os seus outros pertences pessoais, sem se aperceber que o rei nunca teria uso para um espelho num cenário de batalha. Pegou nele ainda assim e deixou-o virado para baixo no colo. Tinha receio do que veria se o virasse para cima. Não se lembrava da última vez que observara o seu reflexo. Via-se ao espelho como toda a gente de manhã, é claro, mas nunca observara mesmo o seu reflexo, nunca se via de verdade. Com mãos trémulas, virou-o.

O velho que o olhava de volta tinha um olhar assustado. Quem era ele? Com certeza não podia ser o rei que ainda há umas horas fizera um discurso sobre nobreza e coragem aos seus homens. Nem podia ser o mesmo rei que todos diziam ser o melhor que aquele reino alguma vez teve e alguma vez teria. Não podia ser o jovem rei que unira o coração de todos os homens e enchera-os de uma esperança que há muito não conheciam. Mas quando olhava para as feições enrugadas, o cabelo e a barba longa cinzentos, os olhos cansados e assustados, o rei não procurava nenhum desses personagens. Não, procurava a criança que corria florestas procurando bestas e feiticeiros. A criança que nada sabia sobre a espada na pedra nem do que significava ser um rei. Procurava-o a ele.

Artur.

Depois de muito olhar, julgou tê-lo encontrado: o rapaz alegre e esperto, de cabelos loiros despenteados e olhos azuis vivos. Era preciso ver por debaixo das camadas de experiência e ceticismo que a idade lhe tinha trazido. Mas ainda ali estava, pulsando muito suavemente dentro dele, a criança que tinha sido.

Não soube quanto tempo ficou a olhar para o espelho. Pareceram-lhe horas. De repente, ouviu um barulho, como se alguém estivesse a aproximar-se a tenda. Viu a sombra de um chapéu bicudo e o que pareceu ser uma mão a entrar pela abertura da tenda. O coração do velho rei saltou.

- Merlyn?

Não havia sinal da sombra ou da mão. Não se ouviam mais passos, apenas som da chuva e do vento que se tinha levantado entretanto. Deve ter sido apenas o vento e as sombras da noite a pregarem partidas a esta cabeça velha, pensou o rei. Mas durante um momento acreditou que ali, na sua hora mais negra, o velho feiticeiro que o ensinara e guiara durante a sua infância e os seus primeiros anos como rei estava ali. Os seus olhos mentiam-lhe. Quando tentava encontrar o jovem Artur no espelho, também esperou que o seu velho amigo aparecesse para o guiar uma última vez.

Levantou-se a aproximou-se da abertura da tenda. Quase que a abriu. A vontade de ver Merlyn uma última vez era tanta que ele quase caiu na armadilha posta pela sua própria mente. Com todas as forças que tinha, deu meia volta sem abrir a tenda e voltou a sentar-se. Seria pior o desapontamento de abrir a tenda e ver que Merlyn nunca lá tinha estado, do que viver na incerteza. Assim, a chama de esperança mantinha-se acesa, dava-lhe forças. Na derradeira hora, Merlyn tinha estado ali.

A chuva parou. Lá fora, as vozes dos homens eram agitadas e no chão sentia-se um leve tremer. Nesse momento, um cavaleiro entrou na tenda do rei.

- Senhor, as tropas de Mordred estão a avançar. Parece que afinal não esperaram pela manhã.

O rei já sabia. Mas ainda assim agradeceu ao cavaleiro e pediu-lhe que começasse a organizar o exército. Depois, com os olhos fechados, levantou-se, e quando os voltou a abrir não já tinham uma única sombra de medo.

***

O rei afastara-se do seu exército, caíra na armadilha de Mordred. Eram só os dois. Ambos estavam esgotados, mas Mordred mantinha a força que a sua juventude lhe permitia. Parecia-se pouco com o pai - tinha cabelos e barba pretos e olhos castanhos -, mas quem o visse lutar julgaria que era Artur umas décadas antes.

Lutaram no chão, cada um com a sua espada. Mordred ia falando; acusações ao pai, gritos de guerra. Mas o rei não o ouvia. Percebera que o estilo de luta do filho se assemelhava ao seu e soube imediatamente qual o seu ponto fraco. Só tinha de se aproximar mais um pouco...

Foi um passo em falso. Mordred aproveitou a desconcentração do pai. A espada passou pelas costas do rei. Ele não gritou ou gemeu e, para surpresa de Mordred, manteve-se de pé durante mais uns segundos, o suficiente para Artur concretizar o seu intento original e cravar a sua espada por baixo da cota de malha do adversário.

Pai e filho morreram ao mesmo tempo, e jazeram lado a lado até ao fim da batalha. Poucos se lembram qual o exército que ganhou naquele dia. Não interessava. O Rei Artur estava morto e com ele o reino impossível de prosperidade e esperança.

Na colina onde poucas horas antes o acampamento do rei tinha estado, a figura de um velho de barbas observava o raiar da manhã por cima do campo de batalha.