Capítulo 1
Ria
Todo mundo tem um passado. O passado traz alegria, tristeza ou ambos.
Mas e se você nem se lembra dele?
E se tivesse a chance, você o reviveria ou o reescreveria?
Imagine se alguém te desse um botão gigante de “RESET”. Você apertaria ele ou iria embora?
A maioria das pessoas que conheço diz que nem quer pensar nisso, como se fosse um sonho horrível. Veja a Sarah, minha melhor amiga. Ela odeia a pessoa que costumava ser. Descreve seu antigo eu como fraco. Estúpido. Alguém que tinha medo demais de se defender. Ou de defender qualquer pessoa. Ela gosta da pessoa que se tornou agora e anseia pela sua versão melhor. “Sarah 2.0” — pronta para conquistar o que vier pela frente. Ela está forte e mais sábia do que nunca. É isso que ela diz no aniversário dela. Todo ano.
Eu digo a ela que é apenas uma fase da vida. Nós vamos olhar para trás, para o nosso antigo eu, e sentir vergonha do que fizemos e dissemos. É sobre o momento em que começamos a aceitar e amar cada fase. Cada versão.
Aaron, por outro lado, venderia a alma (e provavelmente sua coleção de PS5) para recuperar todos os anos que voaram. Ele odeia crescer e ser adulto; ele quer todos aqueles anos de volta. Os momentos. As pessoas. Tudo. Mesmo que fizessem apenas dois dias desde que ele começou a usar o chapéu de “adulto”.
Minha avó... bom, ela é uma caixinha de surpresas. Às vezes, ela solta um dramático “nada disso” — e encerra o assunto. Outras vezes, ela inclina a cabeça e diz: “Depende”. Ela adoraria reviver os capítulos doces, os verões cheios de amor e luz, mas sem um preço alto. Segundo ela, todo desejo vem com uma taxa oculta. Para cada ganho, há uma perda significativa para ela no outro lado. Ela acredita que cada oração atendida tira algo dela. Algo valioso. Algo mais caro para ela. É uma troca, ela explica. Deus pode te conceder o que você tanto queria, após anos de espera, mas, por outro lado, Ele sempre parece tirar algo que você nem tinha considerado perder.
Eu não entendo. Isso não faz sentido para mim. Mas eu ainda concordo com a cabeça toda vez, porque, às vezes, é mais fácil fingir que você entendeu.
As pessoas devolvem a pergunta para mim.
Reviver ou Reescrever?
Minha resposta sempre foi reassistir.
Eu não me lembro da maior parte. Nem das risadas, da dor, das pessoas ou dos lugares. Nada. Dizem que as memórias nos tornam quem somos, mas o que acontece quando as suas desaparecem da noite para o dia?
Soltando um suspiro profundo, fiquei esperando no carro, com o motor zumbindo suavemente sob mim. O céu tinha ficado cinza, pesado com avisos não ditos, e em poucos minutos, a chuva veio. Primeiro como uma garoa leve, depois um temporal constante que embaçou o para-brisa e pintou trilhas nas janelas laterais.
Estudantes passavam apressados sob guarda-chuvas, suas silhuetas distorcidas por fios de água escorrendo pelo vidro. Eles usavam uniformes brancos sob casacos marrom-avermelhados, e as gotas de chuva escureciam a cor a cada pingo. Todos estavam com a testa franzida enquanto passavam correndo, daquele jeito que você geralmente vê sob um sol forte de meio-dia.
“John! Entra no carro.” Uma voz feminina cortou a chuva — provavelmente a mãe de algum John — tentando em vão controlar o filho. Lá estava ele, um menino de sete anos com um sorriso travesso, pulando na lama e espirrando água suja no meu carro roxo. Meu pobre carro. Lancei um olhar furioso para ele por trás do para-brisa, mas isso mal afetou a felicidade dele.
“Não, mãe. É divertido aqui!” ele gritou, puxando o braço contra a mão dela enquanto ela apertava o pulso dele e começava a arrastá-lo em direção ao carro deles.
“Você vai ficar doente.” A voz preocupada dela sumiu à medida que se afastavam.
Exalei e me recostei no banco. A dor de não ter pais veio à tona com força. Não importa a sua idade. Você sempre vai precisar deles na sua vida. Sempre.
Olhando de volta para o menino, perguntei-me se eu também era assim. Despreocupada? Notória?
Eu queria saber o que aconteceu durante aqueles anos. Como eu era? Como era minha vida escolar? Conquistei alguma coisa? Fiz amigos?
Como alguém que sempre foi introvertida, não tenho certeza se já tive amigos; quando tento recordar, minha mente fica completamente em branco, como uma tela. Dez anos da minha vida sumiram como se alguém tivesse apertado o delete em tudo o que eu era. Os anos antes disso parecem um borrão também. Como criança, não espero que meu cérebro se lembre de nada. Mas, pelo menos, lembro-me das pessoas com quem costumava viver. Vovó, Aaron, os pais dele e os meus pais. Eu não conseguia recordar o vínculo que tinha com eles quando era pequena.
Fiquei em coma por seis meses e dez dias após o acidente. Todos achavam que eu não sobreviveria, mas de alguma forma eu consegui. A pior parte é que não consigo me lembrar de nada sobre o acidente em si. Quando finalmente acordei, meu primeiro pensamento foi nos meus pais. Foi aí que a vovó deu a notícia: houve um acidente, e eu fui a única que sobreviveu. Tentei muito juntar os cacos daqueles anos perdidos, lembrar de qualquer coisa, mas é como uma folha em branco. É como se eu tivesse ido dormir aos treze e acordado aos vinte e três anos.
Cinco anos se passaram, e eu não olhei para trás.
Meus dedos batiam um ritmo irregular no volante. Inclinei-me para frente, estreitando os olhos através da chuva, tentando encontrar a figura familiar do meu primo. O som da chuva batendo no teto substituiu a música suave ao fundo.
Então, de repente, a porta do passageiro se abriu, deixando entrar uma lufada de ar frio e o cheiro de terra molhada. Meu primo entrou no carro, sacudindo a chuva da jaqueta, com as bochechas coradas pelo frio.
Suas roupas estavam encharcadas, destruindo o banco do meu pobre carro. Gotas de água pingavam de seus cachos castanhos enquanto ele jogava a mochila no banco de trás e se acomodava.
Balancei a cabeça diante do jeito irritante dele e dei a partida no carro.
“Okay, antes que você fique brava...” Aaron começou, me dando um sorriso nervoso.
Lancei um olhar para ele, com uma sobrancelha levantada. “Por quê?”
Ele engoliu em seco e desviou o olhar rapidamente, os dedos inquietos no colo. Aquela foi toda a resposta que eu precisei.
“Não me diga que você se meteu em outra briga”, estreitei os olhos para ele.
Ele deu de ombros, desanimado, evitando meu olhar e aumentou o volume do rádio. “Eles começaram. Eu só estava defendendo meu amigo”, resmungou ele, olhando pela janela salpicada de chuva.
Soltei um riso seco e desliguei a música. “Você não precisa bancar o super-herói toda vez, sabe.”
Ele abriu a boca, chocado. “Você não estava lá! Aqueles moleques estavam praticando bullying. Alguém tinha que fazer alguma coisa!”
“Mas brigar não faz o problema desaparecer. Você tem que aprender a lidar com as coisas com calma. Você não é mais criança.”
“Desculpa, e por favor, não conte para a vovó.” Ele me olhou de lado, fazendo-me franzir os lábios.
Balancei a cabeça para ele e parei o carro quando o semáforo fechou.
Aaron Mehra tinha dezoito anos, ainda preso no ensino médio, ainda conseguindo ser uma mistura de charmoso e completamente exaustivo. Tecnicamente, ele era meu primo, mas, honestamente? Ele parecia mais o irmão mais novo que eu nunca pedi — barulhento, dramático e opinativo demais para a idade dele.
Perdemos nossos pais no mesmo acidente há cinco anos. Eu tinha dezenove. Ele tinha treze. Em alguns dias, parecia tudo um borrão. Em outros, parecia aquele tipo de dor que vive nos ossos.
Desde então, éramos apenas nós dois e a vovó. Ela nos acolheu, sem fazer perguntas, e nos criou no abrigo silencioso do seu pequeno café, aquele que sempre cheirava a canela, livros antigos e recomeços. Aquele lugar, e o amor dela, nos mantiveram unidos. De alguma forma, continuamos. De alguma forma, tornamo-nos algo parecido com uma família novamente.
Aaron é como um irmão mais novo para mim, que pode ser irritante às vezes.
Corrija isso — toda vez.
Um dos muitos, muitos talentos de Aaron? Meter-se em brigas. Ele tinha um dom para isso, como se os problemas o seguissem com uma prancheta e uma agenda. Era um dos seus principais problemas e, não importava quantas vezes conversássemos sobre isso, ele sempre encontrava novas maneiras de socar alguém que “totalmente merecia”.
E, claro, toda vez que acontecia, o diretor me ligava. Não a vovó. Eu. Eu era convocada para aquele escritório super perfumado como se fosse eu quem estivesse trocando socos no corredor. Na manhã seguinte, sem falta, eu estaria sentada em frente à mesa dela, concordando com um discurso de uma hora sobre responsabilidade, tutela e “o exemplo que você dá em casa”.
Afastando esses pensamentos, dei a partida no carro no momento em que o sinal ficou verde.
Quando nossa casa surgiu no horizonte, exalei. Dois andares, paredes azul-claras que desbotaram um pouco ao longo dos anos e um jardim frontal que a vovó tentava manter vivo com vasos de plantas e flores da estação. Nem muito grande, nem muito pequena — apenas o suficiente para abrigar o que restou de nós.
Estacionei na entrada, desliguei o motor e sentei por um segundo antes de sair. Aaron já estava lá fora, encostado na cerca, conversando com o filho do vizinho, seu melhor amigo. No momento em que destranquei a porta, o silêncio me cumprimentou como um velho hábito. A vovó ainda estava no café — isso era óbvio. Sem seu cantarolar suave na cozinha ou o tilintar das xícaras, a casa parecia... oca.
Soltei um suspiro baixo e subi as escadas. Depois de trocar de roupa por algo mais confortável, voltei para baixo, com os pés descalços tocando o chão de madeira fria.
O tempo voou.
Já era fim de tarde, o sol estava se pondo e o céu estava alaranjado. Andei pelas ruas movimentadas, indo em direção ao café da minha avó.
Assim que vi o café, com “Sweet and Sugar” escrito na placa em letras grandes, entrei. O sino tocou e a senhora sentada atrás do balcão olhou por cima dos óculos. Um sorriso surgiu em seus lábios, enrugando os olhos.
Inalando o cheiro de café, fui lentamente em direção a ela. O ar estava cheio do aroma rico de café recém-passado, misturando-se ao perfume doce dos doces. As pessoas estavam sentadas nas mesas, algumas envolvidas em conversas silenciosas enquanto outras estavam imersas em livros ou trabalhando em seus laptops.
“Aí está você”, disse a vovó com aquele tipo de suspiro que trazia alívio e cansaço. “Eu estava começando a achar que você tinha sido sequestrada pela sua lista de tarefas.”
“É, algo assim”, murmurei com um sorriso cansado, tirando a mochila.
Ela balançou a cabeça, já alcançando outro pedido. “Gianna desistiu de novo. Passei a manhã toda equilibrando pedidos de café e croissants queimados.” Ela exalou e levantou a mão, massageando lentamente o pescoço. O suor havia se formado em sua testa.
Franzi a testa. “Você está bem?”
“Sim, apenas cansada, eu acho.” Ela fez um gesto com a mão.
“Você deveria ter me chamado antes”, amarrei o avental na cintura. “Vá descansar um pouco. Sugiro que vá para casa. Eu cuido disso.”
A vovó parou, lançando-me aquele olhar suave e grato — aquele que sempre me fazia sentir que eu estava fazendo algo certo. Olhando ao redor, observei que o café estava incomumente silencioso.
Após uma hora, eu estava sentada silenciosamente no canto, passando o dedo pelo celular. A notificação de bateria fraca apareceu, e eu a deslizei para a direita como se ela nunca tivesse me alertado, continuando meu entretenimento. A tela acendeu novamente, com o nome da Sarah estampado nela. Suspirei, recostando-me mais na cadeira. “E aí?”
“Nada demais. Onde você está?”
“No café.”
“E a entrevista?”
“Foi esta tarde.”
“Como foi?”
Mordisquei o lábio, olhando para meu esmalte amarelo lascado. “Um lixo. Acho que eles nem vão me considerar. Os rostos deles diziam tudo.” Abaixei a voz, embora quase não houvesse mais ninguém por perto para ouvir. O relógio na parede marcava 19h45. E segundas-feiras sempre traziam menos clientes.
Não havia muitas pessoas; o ambiente estava tranquilo — o tique-taque do relógio e o virar das páginas dos livros eram os únicos sons que podiam ser ouvidos.
Dois estudantes estavam sentados juntos, um tentando se concentrar nos estudos enquanto o outro parecia ter sido arrastado para ali — quase à beira de adormecer. Sorri, e então meus olhos caíram sobre a senhora sentada na área da janela, com o olhar focado no livro que lia com total concentração. A expressão facial dela mudava a cada página virada, e eu estava curiosa para saber que livro era aquele. Estreitei os olhos para ver o título. Mas, mesmo assim, não consegui com minha visão fraca. Talvez eu devesse comprar um binóculo.
A voz de Sarah me tirou do meu devaneio. “Talvez seus talentos e experiência os tenham deixado tão impressionados que eles não souberam o que dizer.”
“Sem rodeios. Isso não ajuda.” Respondi e mudei a música no café. ‘I almost do’, da Taylor Swift, preencheu o ambiente. Mark, um dos garçons, fez uma careta; ele não gosta das músicas que eu ouço. Assim como eu não gosto dos filmes que ele assiste. Mas, só para irritá-lo ainda mais, eu toco todas as músicas no volume máximo.
Ela riu: “Eu não minto.”
Suspirei, puxando um fio solto do meu avental. “É fácil para você falar. Você não estava naquela sala. Parecia que eles queriam sair correndo dali.”
“Ei”, disse Sarah, com a voz mais suave. “Não desanime. É apenas uma entrevista. Há muitas outras por aí.”
“É, bem, essa era a que eu realmente queria.” Lancei um olhar para Mark, que agora exagerava no descontentamento com a música fingindo ânsia de vômito. Mostrei a língua para ele. “Além disso, estou começando a achar que hoje é um dia de merda. Nada está dando certo.”
O sino tocou e olhei para cima para ver os novos clientes. Dois homens, que pareciam ser alguns anos mais velhos que eu, sentaram-se em uma mesa.
Inclinei-me para frente na cadeira, cruzando os braços. Estreitei os olhos enquanto via Mark correr até eles para anotar os pedidos.
Aqueles dois homens.
Um deles tinha vindo a este café ontem com seus amigos. Ainda me lembro de como o sorriso dele desapareceu quando olhou para mim. Como se tivesse visto um fantasma. Talvez eu parecesse um. Mas a reação dele foi algo diferente.
Saindo dos meus pensamentos, meus olhos se voltaram para o outro homem que acabara de se sentar.
Ele olhou para mim, seus olhos calorosos pausando em mim por um segundo, antes que o canto de seus lábios se contraísse em um pequeno sorriso. Meu coração deu um salto. Ele desviou o olhar e encarou Mark, jogando um dos braços sobre o encosto do sofá.
Uma pessoa normal teria tirado os olhos dele e cuidado da própria vida sem deixar o cliente desconfortável. Mas, quando foi que meu nome esteve na lista das pessoas normais?
Então, continuei encarando, absorvendo sua aparência. Não pude deixar de notar cada detalhe. Sua camiseta branca simples de meia manga acentuava seu porte musculoso, sugerindo a força por baixo. Seu braço tatuado era uma tela de desenhos complexos. Seu cabelo escuro estava penteado para trás, dando-lhe uma aparência bonita, porém perigosa. E, meu Deus, aquele sorriso. Aquele sorriso matador poderia derreter...
“Se você terminou de encarar seus clientes, estou na fila.” Uma voz muito, muito ofendida e grave entrou em meus ouvidos, me tirando do transe.
Desviei os olhos e olhei para a pessoa — ou outro deus grego — que estava bem na minha frente. Um homem. Um homem muito alto, vestido como se tivesse saído diretamente de uma revista de negócios — e possivelmente dos meus sonhos.
Ele tinha uma carranca profunda no rosto, como se alguém tivesse roubado toda a sua fortuna. Suas sobrancelhas escuras estavam franzidas, com marcas na testa, enquanto ele olhava para as mesas onde aqueles homens estavam sentados e depois de volta para mim.
Seus olhos estavam cobertos por óculos escuros que provavelmente custavam todo o meu salário anual.
Balançando a cabeça, ele exalou: “Não é de admirar que o serviço seja lento — você está ocupada despindo as pessoas com os olhos.”
Franzi os lábios, tentando não me irritar com seus comentários vazios: “Deve haver algum mal-entendido. Eu estava tentando descobrir se algum cliente precisava de mim.”
Uma pessoa madura e inteligente teria deixado o assunto de lado. Mas ele não era uma.
Ele enterrou as mãos nas calças pretas e inclinou a cabeça. “Claro. Você não se importa com a reputação que está destruindo, a história, o trabalho duro que construiu este lugar. Apenas o salário, certo? Desde que chegue na hora, quem se importa se você realmente faz seu trabalho?”
Minhas narinas dilataram. A raiva consumiu cada parte do meu corpo.
Soltei a mão fechada, colocando-as nos bolsos para garantir que não atingissem seu rosto adorável.
Encarando-o intensamente, questionei: “O que te dá certeza de que estou apenas perdendo meu tempo o dia todo? Quem é você? Meu melhor amigo, que sabe de tudo, ou meu empregador? Porque meu empregador sabe o quanto eu trabalho. Guarde suas opiniões de merda para você.”
Empregador? Meu cérebro zombou da minha condição de desempregada. Afastei os pensamentos e encarei sua expressão dura com a minha.
Talvez eu tenha falado demais. Eu não conseguia entender o que se passava na cabeça dele, ou qualquer tipo de emoção em seu rosto que confirmasse que estou em maus lençóis. Seu rosto era como pedra. Sem emoção. Mas o aperto de seu maxilar me dizia que ele não estava muito feliz em ouvir meu discurso.
Antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, uma voz interrompeu.
“Sr. Advik? Há um problema.”
Um homem se aproximou daquele que estava na minha frente. Ele assentiu e ambos saíram, fazendo-me soltar um suspiro profundo de alívio. A vovó vai me dar uma bronca quando descobrir que enxotei um cliente.
“Ria? Todos estão ocupados. Pode levar este pedido para a mesa 23?” A voz da vovó me despertou. Assenti e me levantei, pegando a bandeja de sua mão.
Mesa 23.
Aqueles dois homens.
Eles estavam conversando como se estivessem no meio de uma reunião.
Assim que coloquei os pedidos na frente deles, eles me sorriram. Sorri de volta e me virei, indo direto contra uma parede.
Ou era o que eu pensava.
Duas mãos dispararam e agarraram meus braços antes que eu desse com a cara no chão.
Espere um segundo.
Não havia parede nenhuma antes. Quem teria construído uma de repente no meio do salão? E eu já ouvi dizer que as paredes têm ouvidos, mas mãos?
Pisquei para a tal “parede” e congelei.
Ah. Não era uma parede.
Olhei para cima (e para cima) até alcançar o rosto dele e bam — olhos azul-oceano. Claro. Porque o universo adora me fazer parecer uma idiota na frente de pessoas atraentes.
Por um momento, o tempo pareceu parar, e o barulho dos copos tilintando e da conversa desapareceu. Seus olhos escuros e cativantes me encaravam, me afogando neles. Havia algo em seu olhar — uma conexão silenciosa que fez meu coração pular uma batida.
Eu queria desviar o olhar, mas não conseguia. Sentia como se o fio entre meus olhos e meu cérebro tivesse sido cortado, porque não importava o quanto meu cérebro gritasse para olhar para o outro lado, meus olhos não seguiam a ordem. Havia algo inquietante em seus olhos, não apenas a cor, aquele azul-oceano profundo, mas a maneira como olhavam para mim. Como se me conhecessem. Como se eu os conhecesse.
O sino tocou.
Então ele piscou, e a suavidade desapareceu.
Ele desviou o olhar.
A ficha caiu — eu estava encarando — e rapidamente olhei para baixo, limpando a garganta, subitamente consciente de quão próximos estávamos.
Então, quando olhei para ele novamente, com minha mente consciente, meus olhos se arregalaram.
Ele era o mesmo homem que tinha acabado de sair há alguns minutos.
Suas mãos, ainda segurando levemente meus braços, recuaram como se estivessem queimadas. Ele se afastou, enfiando-as nos bolsos, com os ombros tensos.
Mas eu senti — seus olhos ainda estavam em mim.
Olhei para cima novamente; aqueles olhos azuis não estavam mais suaves.
Eram frios. Duros. Distantes.
“Você é cega? Não consegue ver alguém vindo?”
Sua voz grave cortou a sala como vidro.
Silêncio.
As cadeiras pararam de arrastar. Uma colher bateu contra um pires. Todos os olhos no café se voltaram para nós.
E, como alguém que odiava ser notada, senti toda a minha espinha enrijecer.
Mas eu não ia deixar um estranho arrogante me humilhar no café da minha própria avó.
Encarei seu olhar frio, levantei as sobrancelhas e sorri. Falso e ácido.
“E se eu te perguntasse a mesma coisa?”
Ele deu um passo à frente e inclinou-se perigosamente para perto de mim: “Você não pode perguntar.”
Fuzilei-o com o olhar: “Por quê? Quem é você?”
Seus olhos penetrantes perfuraram os meus: “Você está desperdiçando meu tempo. Saia da frente.”
“Da próxima vez, talvez você devesse tentar não ficar no meio do corredor como um pilar mal colocado. Alguns de nós realmente trabalham aqui. Você está desperdiçando o meu tempo.”
Seu maxilar ficou tenso. Eu pude ver meu fim.
Então, quando as coisas estavam prestes a sair do controle, a voz da vovó cortou o silêncio constrangedor como uma tábua de salvação. “Sr. Advik! Bem-vindo.”
Ela me lançou um olhar cortante que gritava: ‘O que diabos você está fazendo? Não estrague tudo — ele é um cliente de ouro!’
“Você o conhece?” perguntei.
A vovó se inclinou e sussurrou perto o suficiente para eu ouvir — e tenho quase certeza de que ele também ouviu: “Ele é nosso cliente de ouro.”
Clientes de ouro. A vovó sempre dizia que eles eram o tipo de pessoa que entrava e alegrava o dia do café — frequentadores que tratavam seu estabelecimento como uma segunda casa, que sempre pagavam em dia, davam gorjetas generosas e falavam gentilmente com todos. Eles eram raros, valiosos, e ela nunca queria perdê-los. Basicamente, os ricos.
“Então como é que nunca o vi antes?” perguntei em voz baixa.
“Eu o conheci há apenas uma semana. Além disso, você nunca está aqui quando ele aparece”, ela respondeu suavemente, com os olhos ainda em mim. “Agora limpe o que você derrubou e certifique-se de pedir desculpas de verdade.” Depois, ela se virou para ele com seu sorriso mais doce. “Uh, com licença.” Ela saiu enquanto uma de suas amigas entrava. Deixando-me sozinha. Com ele.
Dei um riso de escárnio baixo e murmurei um pedido de desculpas sem vontade, encarando o chão enquanto o calor subia pelas minhas bochechas.
“O quê?” A voz dele cortou o murmúrio baixo do café, cortante e impaciente.
Mordi o lábio para não soltar um palavrão e me forcei a encontrar aqueles intensos olhos azul-oceano.
Sério? Eu não estava sussurrando tão baixo assim. Qualquer um a menos de um metro de mim — especialmente o Sr. Qualquer-que-seja-o-nome-dele — poderia ter ouvido cada palavra. Ele estava apenas pescando uma chance de me diminuir na frente de todos.
Perfeito.
Convocando o sorriso mais doce e genuíno que consegui, endireitei-me e falei alto e claro, garantindo que o mundo inteiro pudesse ouvir.
“Eu disse que sinto muito, senhor.”
“Bom. Agora saia da frente. Você já desperdiçou tempo demais do meu. E da próxima vez, olhe por onde anda!” ele disparou, sentando-se entre os dois homens. Ele retomou a conversa, ignorando completamente minha presença. Com as costas viradas para mim, só pude encará-lo, com as bochechas queimando de uma mistura de vergonha e raiva.
Sentindo meu olhar, ele se virou e olhou para mim.
“Você ainda está parada aí?”
Alguém precisa dar a ele uma lição sobre ‘como ser educado com os outros’. Talvez eu devesse escrever um livro sobre isso e jogá-lo na cara dele.
De qualquer forma, forcei um sorriso e perguntei da forma mais doce que pude:
“Seu pedido?”
Depois de anotar rapidamente os pedidos, virei-me e fui até a cozinha para preparar tudo. Assim que os pratos e xícaras estavam prontos, voltei à mesa e comecei a servir.
Estendi a xícara de café, com a intenção de entregá-la ao Sr. Grosso — que, felizmente, nem se deu ao trabalho de olhar na minha direção. Mas, claro, como em uma cena pastelão perfeita, a xícara escorregou pelos meus dedos e respingou em seu laptop.
Seu laptop de aparência muito, muito cara. Aquele que parecia importante demais para ser encharcado de café.
Congelei, com os olhos arregalados, enquanto um silêncio desconfortável caía sobre o café. Dava para ouvir um alfinete cair.
“O que… foi… isso?” A voz dele sumiu, olhando para o laptop, que agora parecia estar fazendo um teste para um comercial de café.
Então o olhar dele se voltou para mim.