1: Roman Callahan
A neve cai em flocos pesados e rodopiantes enquanto atravesso as enormes portas de vidro do Callahan Resort. O frio cortante do inverno se agarra a mim, picando minhas bochechas e gelando meus dedos apesar das luvas. É o tipo de tempo que avisa para ficar dentro de casa, e eu não estaria aqui se não fosse por este trabalho.
Lá fora, o mundo está coberto por um manto branco; a floresta e os penhascos ao redor desaparecem na queda de neve implacável. É lindo e sufocante ao mesmo tempo — uma cena de Natal perfeita, se você gosta desse tipo de coisa. Eu não gosto.
O saguão é puro luxo, com uma árvore de Natal imponente no centro, cujas luzes douradas banham o piso de mármore polido em um brilho quente. Meias de Natal estão penduradas ao longo da borda de uma grande lareira de pedra e, em algum lugar, uma música natalina suave toca.
Tudo aqui grita riqueza, excesso e exclusividade.
Aperto meu casaco em volta do corpo, sacudindo alguns flocos de neve, e sigo para a recepção. Minhas botas e as rodinhas da mala deixam marcas úmidas no piso impecável, e o rangido ecoa, atraindo o olhar da jovem atrás do balcão. Ela me analisa com uma curiosidade educada, reservada a alguém que parece deslocado, o que é o meu caso.
“Bem-vinda ao Callahan Resort”, diz ela, com a voz doce, mas cautelosa. “Você tem uma reserva?”
“Sim”, respondo, deslizando meu documento sobre o balcão. Não é meu nome verdadeiro, claro, apenas um pseudônimo para entrar. “Sienna Martin.”
Ela verifica a tela e assente ao abrir os detalhes da reserva. Meu coração bate forte contra as costelas, mas mantenho a calma. Não é minha primeira vez nisso. A reserva foi meticulosamente criada e meu disfarce é perfeito. Apenas uma escritora de viagens explorando resorts de luxo no litoral. Chegar aqui não foi fácil.
A tempestade de neve que começou esta noite já cancelou voos e tornou as estradas sinuosas da montanha traiçoeiras. Por sorte, sou teimosa e tenho correntes nos pneus.
Este lugar é o reino de Roman Callahan e, se os rumores forem verdadeiros, seu império foi construído sobre segredos mais sombrios que o gelo lá fora. Segredos que pretendo expor.
“Vem para passar a semana?”, ela pergunta, devolvendo meu documento e a chave do quarto.
Assinto e guardo ambos no bolso do casaco. “E bem a tempo, pelo visto. Não parece que essa neve vai parar tão cedo.”
“É a pior tempestade que tivemos em anos”, diz ela, olhando para as janelas enormes. “Tivemos vários cancelamentos.”
Perfeito. Menos gente significa menos distrações.
“Aproveite sua estadia, Sra. Martin”, diz ela com um sorriso polido.
Uma mudança na atmosfera me faz parar e chama minha atenção. O murmúrio das vozes diminui, e há uma tensão no ar, como se todos estivessem segurando o fôlego, esperando por uma revelação. Olho para cima e lá está ele.
Roman Callahan, bilionário, dono do resort e o homem no centro de um dos maiores escândalos que já investiguei.
É impossível não notar esse homem. Alto, de ombros largos e imponente, ele caminha como se fosse dono de tudo. Porque ele é, movendo-se com aquela arrogância de quem sabe que o mundo se curva à sua vontade. Sua camisa preta está desabotoada na gola, revelando um pouco de pele bronzeada, e suas calças escuras caem tão bem que parecem ter sido feitas por um deus.
Meu estômago se contrai.
Roman Callahan em carne e osso é ainda mais perigoso do que eu previa. Ele está acompanhado por um assistente impecavelmente vestido que sussurra algo para ele, gesticulando para um iPad. Ele mal olha, com seu olhar afiado varrendo o saguão.
Quando ele pousa em mim, todo o ar é sugado da sala. Fui pega. Estou presa. E minha máscara de confiança ensaiada vacila por um breve segundo sob a intensidade do seu olhar.
Ele não desvia o olhar.
Eu também não.
“Sra. Martin?” A voz da recepcionista me tira do transe e eu me viro para ela. “Algum problema?”
“Não. Só estou me preparando para sair.” Minha voz permanece firme, mesmo com o pulso acelerado. “Obrigada. Tenha um bom dia.”
“Para você também.”
Arrastando minha mala, me viro em direção ao elevador, forçando-me a não olhar para trás. Mas ainda sinto o olhar dele queimando em mim, como o toque de pontas de dedos na minha pele, até que a porta do elevador o exclui. Ao chegar ao meu andar, vou até o quarto e destranco a porta.
A suíte é mais do que eu esperava.
Espaçosa, elegante e transbordando dinheiro. As janelas dão para os penhascos cobertos de neve, onde ondas agitadas pelo vento batem contra as rochas congeladas abaixo. O vidro chacoalha levemente enquanto as rajadas uivam lá fora, trazendo flocos de neve que parecem borrar a linha entre a terra e o mar.
Grata por estar sozinha, jogo minha bolsa na cama impecavelmente branca e solto o ar, deixando a máscara cair por um instante.
É isso. O começo do trabalho.
Em vez de checar outros detalhes do quarto, pego meu laptop da bolsa e me acomodo na poltrona de pelúcia perto da janela. A tempestade lá fora aumenta. A neve se acumula nas bordas, cobrindo os vidros e iluminando o quarto com um brilho pálido. Digito algumas teclas e o arquivo sobre Roman Callahan aparece na minha frente. Fotos, documentos, acusações sussurradas. Uma teia de contas no exterior, parcerias suspeitas e sombras suficientes para deixar qualquer um curioso.
Roman não é apenas um playboy bilionário que administra um império de luxo. Ele é um homem com segredos — segredos que pretendo revelar.
Mas, enquanto passo os arquivos, não consigo afastar a imagem dele no saguão. O jeito que ele se movia, o jeito que ele olhou para mim. Passei anos desarmando homens poderosos, despindo-os de suas armaduras com palavras e sagacidade, mas Roman parece diferente.
Perigoso.
O resto do meu dia é gasto colocando meus planos em prática enquanto a tempestade de neve se intensifica. Quando chega a hora do jantar, coloco um vestido na altura dos joelhos e um sobretudo para me manter aquecida. O salão de jantar é uma caverna de luxo discreto, com luzes quentes e decorações festivas para a época. Enquanto todos se amontoam e conversam, ele se mantém longe do barulho e das conversas.
Roman senta em uma mesa de canto, com um copo de scotch com gelo na mão e um prato intocado à sua frente. Ele fixa os olhos em mim no momento em que entro. Droga. O calor do seu olhar percorre meu corpo enquanto atravesso o salão. Sento-me em uma cadeira no bar, peço uma bebida que não quero e finjo não notá-lo.
Mas Roman Callahan não é o tipo de homem que você consegue ignorar.
Ele se levanta, caminhando com uma confiança deliberada que faz todos girarem a cabeça quando ele se aproxima do bar. Minha bebida chega exatamente quando ele ocupa o banco ao meu lado.
“Você é nova por aqui”, diz ele, com a voz baixa e suave, como uísque servido no gelo.
“Devo me sentir lisonjeada por ter me notado?” Olho para ele, com um leve sorriso brincando nos lábios. “Ou isso é algo que você faz com todos os seus convidados?”
Seus lábios se curvam em um sorriso malicioso e, droga, é injusto como ele é bonito de perto. “Eu noto tudo, Bambina.” Uma ruga surge entre minhas sobrancelhas, mas ele não me dá chance de questioná-lo. Ele sinaliza para o barman por um refil de scotch, seu olhar nunca deixando o meu. “Sienna, certo?”
O som do meu pseudônimo em seus lábios me dá um choque. Claro, ele sabe meu nome. Roman Callahan não deixaria alguém entrar em seu mundo sem saber exatamente quem é, ou quem diz ser. Mas mantenho a calma.
“Exato”, digo, girando minha bebida. “E você é Roman Callahan.”
Seu sorriso se alarga, como se ele soubesse de um segredo que eu não sei. Meu disfarce é sólido, então não preciso me preocupar com nada.
“E o que a traz ao meu resort, Sienna?”
Inclino-me para trás, encarando-o com toda a confiança que consigo reunir. “Uma história.”
“Uma história?” Suas sobrancelhas se erguem, mas ele não parece surpreso. Na verdade, parece intrigado.
“Sou escritora”, digo para preencher o silêncio. “Viagens de luxo. Resorts como este são o meu ganha-pão.”
Ele toma um gole de seu uísque, estreitando os olhos, como se estivesse dissecando cada palavra que digo. “Entendo.”
O peso da sua atenção é sufocante e eletrizante ao mesmo tempo. Ele está me testando, sondando rachaduras na minha armadura.
“E o que…”, ele começa, a voz baixa enquanto pousa o copo no balcão. Respiro fundo quando ele espalma a mão no meu joelho, seus dedos quentes contra minha pele. “…você está achando do meu resort até agora?”
Seu toque queima, enviando faíscas inesperadas pela minha pele. Olho para sua mão e depois para ele, e ele inclina a cabeça em um desafio silencioso. Se isso é um teste, estou passando com louvor.
Quando permaneço imóvel, ele escorrega da cadeira. Mas sustento seu olhar, meus lábios se abrindo em um sorriso falso. “É… impressionante.”
Roman se inclina, sua presença avassaladora enquanto ele se equilibra entre minhas pernas. Eu vim aqui para analisar o terreno e estar no controle, mas parece que sou uma peça no tabuleiro dele.
“Vamos torcer para que corresponda às suas expectativas, então.” Há algo no tom dele: um desafio, uma promessa ou uma ameaça. Meu pulso acelera, mas consigo manter minha fachada fria.
“Oh, eu acho que vai”, digo, igualando sua energia.
Por um momento, estamos presos em uma batalha silenciosa, o ar estalando de tensão. A tempestade lá fora ruge, mas o verdadeiro perigo está aqui, sentado ao meu lado, observando-me como se já soubesse que sou mais do que digo ser.
Roman Callahan não é nenhum bobo. E eu também não sou.
Que comecem os jogos.