Capítulo 1. Outubro
FIONA
O Legacy Hotel não tinha mudado. Pelo menos não de uma forma que importasse. Os candelabros continuavam transbordando excessos, os pisos de mármore brilhavam como se ninguém nunca tivesse pisado neles, e o ar estava denso com o cheiro de riqueza — perfume, uísque e o toque ácido do julgamento.
Entrei no salão, meus saltos estalando contra a pedra polida, e analisei a multidão. A alta sociedade em sua melhor forma. Mulheres em vestidos de grife, diamantes brilhando sob a luz, risadas artificiais e perfeitamente medidas. Homens em ternos sob medida, trocando apertos de mão e elogios falsos. A farsa anual de civilidade, tudo sob o disfarce de caridade.
Philip, meu melhor amigo e a única razão pela qual eu ainda não tinha fugido, soltou um suspiro dramático ao meu lado. Alto, magro e naturalmente estiloso, ele era uma contradição ambulante — impecavelmente vestido em um terno verde-esmeralda que não deveria funcionar, mas que ficava incrível, e seu cabelo loiro ondulado estava artísticamente bagunçado, de um jeito que sugeria que ele não tinha perdido muito tempo tentando arrumá-lo. Seus olhos verdes afiados percorreram a multidão com a precisão de quem cataloga cada desastre potencial antes que aconteça.
“Ah, a reunião anual da elite benevolente”, ele refletiu. “É como o Met Gala, mas para pessoas que fingem que se importam com crianças carentes.”
Segurei um sorriso.
“Por favor. Você sabe que tudo gira em torno de contatos e autoelogios. As crianças são apenas um acessório.”
O sorriso dele foi ácido. “E, ainda assim, aqui estamos nós, bebendo o champanhe deles.”
Peguei uma taça de um garçom que passava e a levantei em um brinde irônico. “É melhor tirar algum proveito da noite.”
O peso da expectativa caiu sobre mim quando meu olhar pousou no meu pai — Charles Kensington. Ele estava parado perto da entrada do salão, com a postura rígida e uma expressão indecifrável. Mas eu o conhecia bem demais. Ele já tinha catalogado tudo sobre mim — o vestido, o comportamento, a dignidade de carregar o sobrenome Kensington.
Ele parecia como sempre: impecável em um terno cinza-chumbo, cabelo prateado penteado para trás com precisão, seus traços marcantes e esculpidos não revelando nem um pingo de calor humano. Eu tinha herdado aquela parte dele — as maçãs do rosto altas, o maxilar definido, os olhos que podiam se tornar inexpressivos em um instante. Um rosto Kensington, de cabo a rabo.
Respirei fundo, me preparando. A noite tinha acabado de começar e eu já estava sufocando.
Ele se aproximou antes que eu tivesse dado cinco passos. Charles Kensington nunca precisava aumentar a voz para exigir atenção; sua mera presença fazia o trabalho por ele.
Seu olhar me varreu, avaliando. “Fiona.”
“Pai.” Tomei um gole de champanhe, como se isso pudesse me proteger. Não funcionou.
Seus lábios se pressionaram em uma linha fina antes que ele voltasse sua atenção para Philip, que, para seu crédito, não se intimidou. Em vez disso, ele ergueu sua taça em um brinde casual.
“Sr. Kensington. É sempre um prazer.”
Charles nem sequer o reconheceu antes de seu olhar voltar para mim.
“Ainda desperdiçando seu potencial, pelo que vejo.”
Ah, lá estava. Exatamente como esperado.
“Em algum momento”, ele continuou, com a voz calma, mas carregada com aquela decepção típica dos Kensington, “você vai precisar levar alguma coisa a sério, Fiona.”
Ele deixou as palavras pairarem antes de acrescentar, quase como uma reflexão tardia: “Você tem trinta anos. O que você faz com o seu tempo?”
Philip soltou o ar pelo nariz, como se estivesse se segurando fisicamente para não responder. Essa era uma batalha minha.
Dei ao meu pai meu sorriso mais doce e menos sincero.
“Ah, você sabe. Me entregando a gastos imprudentes e decisões ruins. Apenas mantendo o nome da família vivo.”
Sua expressão não mudou, mas notei um lampejo de irritação em seus olhos.
Uma pequena vitória, mas eu aceitaria.
Antes que ele pudesse continuar seu sermão, Jessica Carter surgiu ao seu lado, esbanjando ambição loira e elegância perfeita. Ela pousou uma mão no braço dele como se aquele fosse o seu lugar.
Jessica era uma figura constante na minha vida desde a infância — uma rival que eu nunca pedi, mas da qual de alguma forma não conseguia me livrar. Tínhamos a mesma idade, ambas criadas no mundo sufocante da alta sociedade, mas onde eu passei meus anos resistindo a ele, ela o tinha dominado. Filha perfeita, investidora perfeita, socialite perfeita. Se meu pai tivesse desejado uma herdeira Kensington diferente, eu não tinha dúvida de que Jessica seria sua primeira escolha.
Claro, como ela não era eu, ela estava de olho em outro papel na vida do meu pai.
“Charles, eu estava justamente contando ao Senador Beckett sobre sua última expansão em Londres”, ela ronronou, antes de virar o olhar para mim com um sorriso açucarado. “Fiona, é adorável te ver. Faz tempo demais.”
Não tempo suficiente.
Charles, satisfeito por ter plantado a semente da minha suposta insuficiência, voltou sua atenção totalmente para Jessica, que, sem dúvida, passaria o resto da noite me lembrando sutilmente de como ela era muito melhor em jogar aquele jogo.
Philip se inclinou, com a voz baixa. “Então, vamos fingir uma emergência médica para escapar, ou vamos encarar o tour completo da miséria?”
Exalei, terminando meu champanhe. “Vamos ver como a noite se desenrola. Sempre há tempo para uma estratégia de saída.”
E, com isso, Philip me guiou em direção ao salão de baile com a determinação de um homem em uma missão.
“Certo, querida, vamos testemunhar a grande vitrine capitalista da noite.”
O salão de baile era tão extravagante quanto eu me lembrava de outros eventos — mesas com bordas douradas, arranjos de flores em cascata e cristal brilhante o suficiente para financiar um país pequeno. Os garçons circulavam pela multidão com bandejas de champanhe, garantindo que nenhuma taça ficasse vazia por muito tempo. Era tudo tão meticulosamente curado, tão dolorosamente previsível.
Philip pegou duas taças cheias de uma bandeja que passava e me entregou uma. “Vamos precisar delas.”
Suspirei, inclinando a cabeça em direção ao palco, onde o leiloeiro já tinha começado suas encenações bem ensaiadas.
“Deixe-me adivinhar, outra coleção de necessidades completamente práticas e do dia a dia?”
“Ah, absolutamente”, disse Philip com seriedade, assumindo seu papel de meu comentarista particular. “Por exemplo, agora está em leilão — um retiro exclusivo de uma semana nas Maldivas, com direito a uma ilha particular.” Ele arqueou uma sobrancelha. “Totalmente necessário para a sobrevivência.”
Dei uma risada abafada. “Claro. Não consigo funcionar sem o meu próprio pedaço do Pacífico.”
O martelo do leiloeiro bateu. “Vendido! Para o cavalheiro lá atrás por oitocentos mil dólares.”
Philip soltou um assobio baixo. “Ah, nada como gastar uma pequena fortuna para se exibir na frente dos seus pares. Lindo.”
Outro item foi trazido, uma pequena bola de pelos branca, um cachorro adornado com um laço absurdamente minúsculo.
Philip quase engasgou com sua bebida.
“Oh, e aqui temos o ápice do luxo — um cachorrinho de verdade. Porque um cachorro comum simplesmente não serve. Este é geneticamente superior e vem com uma coleira de ouro com monograma, obviamente.”
Eu mal o ouvi. A noite pesava sobre mim, embotando a ponta da minha diversão habitual. Todo ano era o mesmo evento, as mesmas pessoas, as mesmas conversas vazias. Eu me sentia desconectada, inquieta, como se estivesse assistindo à minha própria vida à distância.
Philip me cutucou com o cotovelo. “Você está fazendo aquela coisa de novo.”
Pisquei. “Que coisa?”
“Aquela coisa de encarar o vazio como se ele tivesse te ofendido pessoalmente.”
Forcei um sorriso. “Talvez tenha ofendido.”
Mas, mesmo enquanto dizia isso, eu sabia que algo estava por vir. Algo para o qual eu não estava preparada.
O leiloeiro pigarreou.
“Senhoras e senhores, nosso próximo item é muito especial”, anunciou o leiloeiro, com a voz ecoando pelo salão. “Uma oportunidade rara para aqueles que possuem visão e amor pelo jogo.”
Eu mal processei suas palavras no início, girando o resto do champanhe na taça, já meio distraída.
“O próximo item a ser leiloado — a propriedade majoritária do Ironvale Blizzard.”
O ar mudou. Uma onda de surpresa percorreu a multidão. Alguns convidados murmuraram com uma curiosidade leve; outros riram como se fosse algum tipo de piada.
Meu copo parou no ar.
The Ironvale Blizzard.
Uma sensação de vazio e falta de ar se instalou no meu peito.
Philip olhou para mim e, depois, de volta para o palco.
“Espera. O quê?”
Mas eu já sabia.
Eu sabia que o Blizzard estava em dificuldades e que perdia dinheiro há anos. Sabia que a franquia estava se afundando por má gestão, queda nas vendas de ingressos e uma sequência de derrotas que já não era mais apenas uma má fase, mas uma espiral de autodestruição — todo mundo sabia disso.
Mas isso não importava.
Quando ouvi o nome, a única coisa que voltou com força foi o som dos patins cortando o gelo. O rugido da torcida. O ar frio do Frost Tank, batendo gelado contra minhas bochechas.
E ele.
Eu não me permitia pensar no Blizzard há anos. Não desde que ele foi embora. Não desde que virei as costas para o esporte de uma vez por todas.
Forcei-me a soltar o ar e a empurrar essas lembranças de volta para o lugar de onde vieram. Era só mais um item de leilão. Apenas o novo projeto de vaidade de mais um idiota rico.
Ouvi um escárnio.
Um som seco e desdenhoso cortou o barulho do salão.
Virei-me a tempo de ver meu pai inclinar-se na direção de Jessica, sem se dar ao trabalho de baixar o tom. “Uma causa perdida”, ele murmurou, balançando a cabeça. “Nada além de um buraco negro para dinheiro.”
Jessica cantarolou em concordância. “Triste, na verdade. Mas, pensando bem, hóquei nunca foi um investimento sério.”
Algo dentro de mim acendeu.
Não era nem pelo Blizzard. Não exatamente. Era por cada comentário sarcástico, cada vez que meu pai reduziu minha vida a um “jogo” que eu não estava jogando bem o suficiente. Era pelo olhar que ele sempre me lançava, aquele que dizia que eu nunca seria o bastante.
Antes que eu percebesse o que estava fazendo, meus dedos se apertaram em volta da taça de champanhe.
Philip, observando-me com cautela, inclinou-se. “Fiona”, ele disse arrastado. “Eu conheço esse olhar. Seja lá o que você estiver pensando, não faça isso.”
Mas já era tarde demais. Eu sentia o momento me pressionar, sufocante e elétrico ao mesmo tempo. As palavras do meu pai — uma causa perdida — ecoavam na minha cabeça, cutucando algo profundo e mal resolvido dentro de mim.
A voz do leiloeiro cortou o silêncio. “Vamos abrir o lance inicial em cinco milhões.”
Ninguém se moveu.
Ninguém queria um barco furado. A menos que fosse para lucrar rápido com a revenda ou desmontá-lo para vender as peças.
Por fim, o homem de terno azul-marinho, parado ao fundo, levantou sua placa. “Cinco.”
Um leve murmúrio educado percorreu a multidão. Um lance baixo. Nada sério. Só um placeholder até que alguém com dinheiro de verdade e ainda menos interesse em hóquei decidisse agir.
Charles soltou o ar calmamente, rindo enquanto balançava a cabeça. “Vai fechar em menos de um ano.”
Senti como se uma faísca atingisse palha seca.
Antes mesmo de processar o que estava fazendo, levantei minha mão, com calma e determinação.
O leiloeiro hesitou, examinando a sala. “Tenho cinco e meio da Sra. Kensington.”
Philip puxou o ar bruscamente ao meu lado. “Desculpe... você acabou de dar um lance em um time de hóquei de verdade?”
Mais sussurros se espalharam. Cabeças se viraram, com olhares curiosos e interessados.
“Seis.” O homem no fundo, novamente. Tranquilo, indiferente.
Eu não hesitei. “Seis e meio.”
Philip apertou meu braço com força. “Fiona.”
“Sete milhões”, chamou outro licitante, um homem de meia-idade de smoking. Não o reconheci, mas ele parecia o tipo que coleciona empresas como se fossem bibelôs decorativos.
O leiloeiro olhou na minha direção. “Sete e meio?”
Minha pulsação rugia nos meus ouvidos.
Levantei minha placa.
Philip soltou um som estrangulado. “Meu Deus, você está falando sério.”
O homem do outro lado da sala franziu a testa levemente, mas levantou a mão. “Oito.”
Oito milhões de dólares.
Era um time falido da AHL, um desastre de investimento. Era um erro.
“Nove.”
Um alvoroço coletivo agora, mais do que apenas sussurros.
Philip apertou meu pulso de um jeito quase violento. “Fiona, pelo amor de tudo que é caro e sagrado, o que você está fazendo?”
Eu não conseguia parar.
Não era sobre o Blizzard. Era sobre meu pai. A voz de condescendência sempre presente, o tom cortante de decepção em seus olhos. O jeito como ele já tinha descartado esse time. Assim como a mim.
Dez milhões.
Onze.
O ar na sala estava ficando pesado, a tensão era palpável.
“Doze.”
Um lampejo de hesitação do outro lado da sala.
“Treze milhões.”
Eu conseguia ver agora: a mudança sutil na postura do meu oponente, o cálculo em seu olhar. Quanto isso vale?
Não deixei que ele respondesse.
“Catorze.”
Um silêncio longo e esticado.
O leiloeiro esperou, seu olhar saltando entre nós.
O homem no fundo balançou a cabeça levemente.
“Mais algum lance?”
Mais uma batida.
O martelo se levantou.
Philip murmurou uma prece.
“Vendido, para a Sra. Fiona Kensington por catorze milhões de dólares.”
O martelo bateu com uma batida decisiva.
O suspiro que se seguiu foi quase ensurdecedor.
Philip, ao meu lado, encarava-me como se eu tivesse explodido espontaneamente na frente dele.
“Você acabou de...” Ele se interrompeu, depois tentou de novo. “Você acabou de comprar um time de hóquei.”
Soltei o ar lentamente, com a cabeça girando, mas a emoção daquilo — a imprudência, a pura audácia — enviou uma descarga de adrenalina pelas minhas veias.
“Acho que sim.”
Uma nova onda de murmúrios se espalhou. Senti cada olhar na sala sobre mim. Os socialites, os empresários, as pessoas que passaram minha vida inteira sussurrando atrás de sorrisos polidos.
Mas a única reação que me importava era a de Charles.
Lentamente, virei-me para ele.
Seu rosto era ilegível, sua expressão forjada em algo próximo da indiferença. Mas eu não fui enganada. Sua mandíbula travada, a rigidez na postura... ele estava furioso.
Jessica, ao lado dele, parecia mais entretida do que qualquer outra coisa, girando o champanhe em sua taça com um ar de diversão desprendida.
“Bem”, ela murmurou, arqueando uma sobrancelha. “Isso foi inesperado.”
Philip agarrou meu pulso e me puxou bruscamente para a saída. “Precisamos conversar sobre isso. De preferência com álcool. Muito álcool.”
Eu mal registrei meus próprios movimentos, ainda surfando na onda da loucura que havia me tomado.
“Fiona.”
A voz do meu pai me parou onde eu estava.
Virei-me devagar.
Ele não parecia zangado. Não abertamente. Isso exigiria emoção. Em vez disso, sua expressão era algo pior.
Descontentamento.
“Isso foi um erro tolo”, disse ele, com o tom medido. “E você vai se arrepender.”
Algo no meu peito se contorceu, mas levantei o queixo, recusando-me a deixá-lo perceber.
“Talvez”, respondi com a voz firme. “Mas, pelo menos, o erro é meu.”
Virei-me para ir embora.
Quando alcancei as portas, a voz dele me seguiu, calma, porém deliberada.
“Você acabou de cometer o pior erro da sua vida”, disse ele.
Não olhei para trás.
“Então me diga, Fiona... quanto tempo vai levar até você vir me implorar para consertar... de novo?”









As always an absolutely blinding first chapter. It grabbed me with a handful of superglue and I know it will be almost impossible to put down
Hey
I just checked out your recent story your storytelling has a really engaging tone.
Quick one: this season, are you putting more energy into connecting with readers or building a wider presence outside this platform?
I’m so tired of rich kids acting like being rich is a curse. How else could she have bought a team for $14M?
with the same money she hates so much, right? if she has a problem with the event, how about she donates the $14M to actual underprivileged children. always yapping on and on and on about others but failing to see how she’s no better than them.