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Resumo

“Eu costumava acreditar que o amor era simples. Que era construído sobre anos de promessas, risadas e confiança. Mas agora, dividida entre o companheiro que escolhi e o homem que a Lua destinou a mim, percebi o quão ingênua eu era...” Sorenna tinha sua vida planejada — terminar seu estágio, obter o diploma de enfermagem e ficar ao lado de seu melhor amigo como sua Luna Escolhida quando ele se tornasse o Alfa da alcateia Embercrest. Mas, após um acidente infeliz, tudo o que ela pensava saber mudou. Em um momento, ela estava fazendo seu trabalho, tentando ajudar os necessitados. Então, ele entrou. Sangrando, machucado e segurando uma criança de forma protetora em seus braços. Bastou um olhar, um fôlego, e seu mundo virou de cabeça para baixo. Zevran: o homem cuja alma estava conectada à dela por um vínculo que nunca deveria ter existido. Agora, ela está presa entre dois companheiros e forçada a fazer uma escolha impossível. E a pior parte? O coração nem sempre espera a razão acompanhar.

Status
Completo
Capítulos
54
Classificação
5.0 22 avaliações
Classificação Etária
18+

Chapter 1: Sorenna

Eu mastigava a ponta da minha borracha enquanto folheava a última página da seção de pediatria no meu livro. Minhas anotações estavam espalhadas pela cama — algumas com lembretes rabiscados às pressas, termos destacados e post-its que de tudo tinham, menos de cola.

Eu não tinha um notebook ou sequer um tablet para digitar minhas anotações, e meu celular mal conseguia enviar mensagens sem travar. Mesmo assim, eu dava um jeito... Eu sempre tirava notas boas e me destacava nas aulas práticas e clínicas. Em cerca de dois anos, finalmente serei enfermeira formada.

Assim que terminei de ler, fechei o livro e olhei para o outro lado do quarto, na direção da cama da minha irmã mais nova. Como sempre, o edredom da Ava estava mais no chão do que no colchão, e roupas de vários dias estavam jogadas por cima dele.

Bem... já que terminei de estudar, poderia gastar alguns minutos arrumando nosso quarto. Isso foi até eu olhar para o relógio na mesa de cabeceira entre nossas camas.

9:05

“Ah, não!” eu exclamei, de olhos arregalados.

Pulei da cama, fazendo papéis voarem para todos os lados. Às pressas, tirei meu pijama e vesti um jeans surrado, um top esportivo velho e uma camiseta de algodão.

A última coisa que vesti foi um moletom cinza-claro grande demais. Fechei o zíper até a metade, parando por um momento para sentir o cheiro do tecido. Ainda cheirava a couro e pinho fresco — o cheiro do Tobias. Ótimo. Isso significava que eu não precisaria devolver para ele tão cedo.

Corri para o banheiro no fim do corredor, prendi o cabelo em um rabo de cavalo alto e escovei os dentes com uma mão enquanto tentava lavar o rosto com a outra. Quando terminei, olhei para o meu reflexo — os fios de cabelo loiro que deixei passar e o cansaço nos meus olhos.

Com uma carranca, apaguei a luz e fui para o corredor. O apartamento da minha família não era grande, mas era aconchegante. Nossa sala estava cheia de móveis de segunda mão que pareciam mais usados do que estilosos. Havia uma pequena cozinha escondida de lado e uma mesa de jantar que mal usávamos.

Então, abri a porta da frente e saí para a parte principal da casa da alcateia. Por ser filha do Beta, morávamos no segundo andar, em um dos únicos dois apartamentos. O nosso ficava no lado esquerdo do longo corredor, enquanto o do Alfa e da Luna ficava na outra ponta. O deles era um pouco maior e mais moderno, mas, fora isso, era quase idêntico ao da minha família.

Entre os apartamentos havia vários quartos de hóspedes, que quase sempre estavam vazios. Ninguém nunca vinha de verdade a Embercrest. Na maioria das vezes, eram pessoas que tinham se perdido enquanto passavam pelas estradas sinuosas no Whispering Vale. E, mesmo assim, só quando viam as placas antigas nas nossas fronteiras é que percebiam o erro. Normalmente, as pessoas vêm para a nossa área da região por causa da alcateia Moonfell, mas as florestas tinham o hábito de confundir estranhos.

O chão rangia sob meus pés descalços enquanto eu descia as escadas. Mas eu conseguia ouvir antes mesmo de chegar ao primeiro andar... o som inconfundível de talheres raspando nos pratos e pessoas conversando.

Lua Brilhante, me ajuda, estou muito atrasada.

A alcateia inteira já estava reunida no refeitório. Hoje era o Dia da Alcateia, que sempre acontecia em um sábado por mês, antes da lua cheia. Não havia trabalho, nem escola, e poucas responsabilidades. Até as patrulhas de fronteira eram mais leves, feitas apenas por Gammas jovens e ansiosos para provar seu valor.

O café da manhã era a primeira das duas grandes refeições que compartilharíamos hoje. Depois, se algum lobo tivesse se transformado pela primeira vez no último mês, eles iriam para os campos cerimoniais. Lá, eles entrariam no Círculo do Juramento, reivindicando seu lugar como membros de Embercrest. O resto do dia seria preenchido com atividades: a corrida dos lobos, testes da juventude e lutas de exibição.

Minha loba se agitou dentro de mim, ficando mais ansiosa a cada minuto que passava. Katjaa adorava o Dia da Alcateia. Sinceramente, ela provavelmente precisava mais do que eu. Entre a faculdade, as aulas práticas no pronto-socorro e minhas horas acompanhando a Luna Emilee, eu não me transformava há quase duas semanas. Minha loba estava inquieta, pronta para correr, se alongar e respirar.

Assim que entrei no refeitório, mantive a cabeça baixa, tentando não chamar atenção para mim. Não faça contato visual, não diga oi... Só continue andando.

No entanto, isso não durou muito.

“Ah! Aí está a Rennie!”

A voz da Ava ecoou pelo salão como um sino de jantar. E, para meu horror, metade da alcateia se virou para olhar. Senti o calor subir pelo meu pescoço e tive certeza de que minhas bochechas estavam vermelhas como tomate.

Ótimo...

Dei um sorriso tímido enquanto corria para a mesa central destinada aos líderes da alcateia. De um lado, estava minha família. Meu pai, Beta Calder, já estava me encarando com uma expressão séria demais. Minha mãe, Beta Naomi, provavelmente estava notando o quanto minhas roupas estavam amassadas. De cada lado deles estavam meus irmãos mais novos, Kody e Ava.

Do outro lado, sentavam-se o Alfa Gideon e a Luna Emilee, vestidos com suas melhores roupas, mesmo sendo Dia da Alcateia. E ao lado deles estava seu filho, Tobias.

Tobias olhou para cima quando me aproximei, dando-me um sorriso doce. Seu cabelo castanho-claro estava perfeitamente no lugar, e seus olhos cor de esmeralda brilhavam enquanto me encaravam. Olhar para ele, para aquelas covinhas nas bochechas, quase me distraiu da ansiedade que corroía meu estômago.

Sentei na cadeira vazia ao lado dele — aquela que tinha se tornado extraoficialmente minha — e vi um prato já esperando por mim. Havia uma porção de ovos mexidos, metade de uma torrada e uma porção generosa de frutas. Eu não precisei perguntar para saber que o próprio Tobias tinha preparado.

“Desculpe o atraso”, murmurei, usando as mangas do moletom para esconder minhas bochechas vermelhas.

Mamãe não disse nada. Em vez disso, ela apenas balançou a cabeça, me dando aquele olhar de ‘nós vamos conversar sobre isso mais tarde’. Tobias alcançou meu joelho debaixo da mesa, apertando-o gentilmente.

“Você estuda demais, pequena loba”, ele disse com um sorriso brincalhão.

“Se eu não estudasse, poderia reprovar nas provas e perder minha bolsa de estudos”, dei de ombros, incapaz de encontrar seu olhar. “Eu me esforcei muito por ela.”

“Nós sabemos”, meu pai disse antes que Tobias pudesse responder. “E estamos orgulhosos de todo o seu esforço. Mas o Dia da Alcateia também é importante, Ren. Você deveria estar lá embaixo com sua mãe e a Emilee. Como futura Luna, é sua responsabilidade cumprimentar nossa alcateia.”

Baixei o olhar para meus ovos. As palavras futura Luna ainda me deixavam um tanto desconfortável, mesmo depois de dois anos. Não porque eu não me importasse com a alcateia — eu me importava. Sempre me importei. Mas eu não me sentia uma Luna ainda... não de verdade.

“Sim, senhor”, respondi baixinho.

Houve um breve e constrangedor silêncio que tomou a mesa antes que a Luna Emilee falasse, mudando o assunto.

“Ren, você vai participar da corrida dos lobos hoje ou vai tirar uma folga este mês?”

Mordisquei minha torrada para ganhar tempo antes de balançar a cabeça.

“Eu me inscrevi no mural ontem à noite.”

“Claro que se inscreveu”, Tobias riu. “Você tem um título para defender.”

Olhei rapidamente para ele, principalmente porque ele insistia que eu corresse. Como muitos outros, Tobias considerava a corrida dos lobos um assunto sério. Para nossa alcateia, era um evento conjunto que realizávamos com nossos vizinhos, a Alcateia Crescent. Era metade corrida, metade teste, onde os lobos eram divididos por idade e se eram companheiros ou não. Havia uma trilha de cheiro que tínhamos que seguir, que mudava a cada mês e era mantida em segredo até pouco antes da corrida. E para evitar trapaças, havia pontos de controle e vigias observando os lobos durante todo o evento.

Eu corria com as fêmeas sem companheiro desde que fiz dezoito anos. Tirando minha primeira corrida, eu venci todas as competições. As pessoas diziam que era porque eu era uma Luna nata — Katjaa era mais forte e mais rápida do que as outras fêmeas. Eu não sabia se era verdade, mas minha loba adorava o desafio.

No entanto, as corridas regionais eram diferentes das locais. Duas vezes eu já tinha representado Embercrest na corrida anual do Whispering Vale, e duas vezes eu tinha perdido. Não porque eu não fosse rápida o suficiente, mas porque estar cercada por tantos lobos que eu não conhecia tornava difícil respirar ou me concentrar. E eu não gostava de ficar longe de casa... A Katjaa também não.

Dei outra mordida na torrada antes de comer uma uva. Em vez de pensar na corrida dos lobos ou nos meus estudos, minha mente divagou para o Tobias. Daqui a quatro meses, estaremos juntos na cerimônia de escolha de companheiros. Todos já nos tratavam como um casal unido. E, para ser sincera, eu me sentia da mesma forma.

Tobias era meu melhor amigo desde que me entendo por gente. Quando crianças, estávamos sempre juntos, e quando comecei o ensino fundamental, era ele quem me levava até a sala de aula. Ao crescer, eu pensava que seríamos companheiros destinados. Mas no momento em que fiz dezoito anos, esses sonhos foram destruídos.

No entanto, Tobias não deixou que isso o impedisse. Embora não fôssemos destinados, ele ainda veio até mim naquela noite, pedindo que eu me tornasse sua companheira escolhida. E, entre lágrimas, aceitei e disse sim.

Mas nós não éramos unidos... Ainda não.

Eu tinha implorado para ele esperar e deixar eu terminar a faculdade de enfermagem primeiro. No entanto, ele não queria, dizendo que era muito tempo para esperar. Ele me amava e estava ansioso para começar uma família o mais rápido possível. Depois de discutir por alguns dias, finalmente entramos em um acordo: esperaríamos dois anos e depois faríamos a cerimônia. E agora, esse momento estava chegando.

Depois que o café da manhã terminou, a energia mudou no refeitório. Ômegas e voluntários circulavam pelo salão, afastando as cadeiras e recolhendo os talheres e pratos. Levantei-me, pronta para ajudar na limpeza, mas uma das mulheres mais velhas me parou, espantando-me com um aceno de mão.

“Hoje não, doce menina”, ela disse com um sorriso.

Suspirei, mas não discuti. Não importava quantas vezes eu me oferecesse para ajudar, ninguém nunca deixava. Não quando todos olhavam para mim como se eu tivesse as palavras “futura Luna” carimbadas na testa.

Tobias se aproximou do meu lado, pegando uma das minhas mãos e entrelaçando nossos dedos.

“Vamos lá, pequena loba”, ele murmurou, puxando-me em direção à porta.

Saímos para o ar quente da manhã. O sol estava alto no céu, iluminando o pátio frontal da casa da alcateia. A mão do Tobias apertou a minha enquanto ele se inclinava, cheirando meu ombro.

“Vejo que você está usando o meu moletom. Acho que não o via há vários dias...”

Olhei para a peça de roupa, levantando a mão livre para cheirar a manga.

“O que posso dizer?”, dei um sorriso malicioso. “Cheirava muito a você e, como uma loba carente, eu o roubei.”

“Sorte a sua que eu gosto de ver você com as minhas roupas”, ele riu. “Além disso, posso sentir o meu próprio cheiro em você o dia todo.”

“Talvez eu devesse te dar algo meu para vestir”, provoquei. “Para que você possa cheirar a mim por uma vez?”

“Ah é?”, ele ergueu as sobrancelhas, divertido. “O que você me daria para usar?”

Bati no queixo por um momento antes de olhar de lado para ele.

“Estou pensando no meu short de pijama. Aquele que a mamãe diz que é pequeno demais para mim.”

Ele riu alto, balançando a cabeça.

“É, esse com certeza vai me cobrir muito bem.”

“Bom…” murmurei, inclinando-me em direção a ele. “Isso tornaria as coisas mais fáceis de acessar.”

Tobias respirou fundo antes de soltar um rosnado baixo e possessivo. O som causou arrepios na minha espinha, e Katjaa respondeu com um ganido suave e suplicante.

Infelizmente para Tobias, meu pai passou por nós naquele momento. Com um único olhar, meu futuro parceiro colocou espaço entre nós e limpou a garganta.

“Beta Calder”, murmurou ele.

Meu pai não respondeu, apenas bufou enquanto continuava para onde quer que estivesse indo.

“Talvez devêssemos deixar nossos lobos esticarem as pernas”, Tobias sugeriu de repente, soando muito profissional. “Tenho certeza de que Katjaa gostaria de um tempo com Aldric antes da corrida.”

Eu ri, tentando não gargalhar da rapidez com que seu comportamento mudou. Mas Katjaa agitou-se ansiosamente com a sugestão, pressionando dolorosamente as bordas da nossa alma compartilhada.

“Acho que ela adoraria.”

De mãos dadas, caminhamos em direção ao lado da casa da alcateia, onde as áreas de transformação ficavam escondidas da vista da estrada principal. A clareira estava silenciosa esta manhã, com apenas algumas pessoas se reunindo nos dois galpões de madeira que ficavam de cada lado. Áreas de transformação cercadas estendiam-se entre eles, com cortinas de privacidade espalhadas por toda parte.

Quando tentei me afastar para ir em direção ao galpão das mulheres, Tobias se recusou a soltar minha mão. Em vez disso, ele me puxou para mais perto, beijando-me suavemente nos lábios.

“Aldric verá você em alguns minutos.”

Revirei os olhos, mas não consegui conter o sorriso que se espalhou pelo meu rosto.

“Diga a ele para não se atrasar.”

Ele me deu uma piscadela antes de ir para o galpão dos homens, e eu me virei para o da esquerda. Lá dentro, o ar estava quente e úmido com o cheiro de lobos. As mulheres estavam em vários estágios de nudez—algumas já transformadas, enquanto outras estavam tirando camisas pela cabeça ou colocando calças jeans nos armários.

Passei por elas em direção à fileira de armários na parede do fundo. Eles pertenciam a mim, à minha mãe, a Ava e à Luna Emilee, cada um marcado com nossos nomes e um cadeado de latão. Abri o meu, dobrei minhas roupas cuidadosamente e as guardei dentro.

Ficar nua na frente de outras mulheres não me incomodava. Entre lobos, não era algo para se envergonhar. Era natural e, até certo ponto, prático.

Uma vez despida, saí para a área cercada, esperando enquanto outros dois lobos voltavam às suas formas humanas. Quando o espaço estava livre, fechei os olhos e deixei Katjaa assumir o controle.

Transformar-me pela primeira vez em semanas pareceu um alongamento depois de uma longa soneca. Meus ossos se alongaram, minha pele foi esticada e meus músculos se contorceram. Quando finalmente me tornei uma loba, Katjaa sacudiu nossa pelagem prateada antes de flexionar as patas contra a terra.

Ela queria correr. Pular a cerca e entrar correndo na floresta.

Mas não podíamos fazer isso…

Minha mamãe poderia literalmente morrer de ataque cardíaco se eu agisse de forma tão selvagem nos locais de transformação. Então, com um pouco de moderação, Katjaa nos levou para fora, até a clareira, onde o cheiro de couro e pinho nos atingiu instantaneamente.

Aldric… Ele já estava esperando, parecendo alto e bonito como sempre. A luz da manhã brilhava em seu pelo cinza-escuro, que tinha uma mancha branca sob o pescoço e a barriga. Ele agia como um alfa, mesmo que ainda não fosse um.

Katjaa caminhou até ele, roçando nosso corpo contra o lado dele, esfregando nosso cheiro em seu pelo. Sem vergonha e afetuosamente…

Aldric não se moveu e, em vez disso, deixou que ela o marcasse. Mas então, os olhos de Katjaa voltaram-se para o outro lado da clareira, onde um pequeno grupo de machos sem parceiras tinha acabado de sair do galpão de transformação dos homens. Não era como se os lobos estivessem olhando para nós, mas eu soube imediatamente que estávamos em apuros.

Aldric soltou um rosnado de aviso para Katjaa. Depois, ele a cutucou com força, guiando a cabeça dela para longe dos machos com o focinho. Ela piscou, então soltou um bufo brincalhão, lambendo o maxilar dele em sinal de desculpas antes de se afastar dos outros lobos.

Uma vez que estivemos longe da casa da alcateia e fora da vista dos locais de transformação, Aldric e Katjaa correram para as árvores. Não fomos longe—na verdade, não. A corrida dos lobos seria em poucas horas, e eu não podia ir muito fundo na floresta antes da prova. Seria visto como trapaça ou uma vantagem injusta…

Então, em vez disso, fomos para o leste, viajando ao longo de uma das duas estradas que entravam e saíam do território de Embercrest. Estava silencioso a essa hora do dia, apenas com os pássaros acima. Sem carros, sem pessoas—apenas nós quatro.

Eventualmente, a floresta terminou conforme nos aproximávamos do rio. Aldric e Katjaa desceram por um caminho estreito e inclinado ao lado de um pequeno penhasco. E lá no fundo estava nosso lugar escondido—uma pequena praia de cascalho escondida na curva do rio.

Os pinheiros lá de cima faziam sombra, e a água fluía preguiçosamente pela margem. Isso ficava na borda das terras da nossa alcateia, e do outro lado do rio era tudo território neutro.

Humanos viviam lá, na maioria das vezes. Assim como párias ou lobos não registrados em nenhuma alcateia. Mas em nosso pequeno pedaço do Whispering Vale, não havia muito o que ver do outro lado da água—apenas árvores e mais árvores.

A alcateia Crescent compartilhava parte de nossa fronteira norte, mas além disso, a próxima cidade ou alcateia real ficava a pelo menos trinta minutos de carro. Era assim por aqui—as alcateias eram espalhadas, dando umas às outras espaço para respirar e crescer.

E era isso que Tobias sempre queria—crescer. Levar Embercrest de uma alcateia vazia de menos de trezentos lobos e transformá-la em uma alcateia howler.

Katjaa se esticou na costa de pedra, descansando preguiçosamente contra Aldric. Ele se moveu ligeiramente, colocando o queixo sobre o ombro dela.

“Tenho pensado”, Tobias murmurou em minha mente. “Sobre expandir a alcateia.”

Eu murmurei em resposta, mas não falei. Não era como se eu precisasse. Em poucos segundos, ele já estava falando através do elo mental novamente.

“Se queremos que Embercrest tenha um lugar à mesa e realmente tenha voz na região, acho que precisamos focar em adicionar famílias em vez de lobos sem parceiras.”

Enquanto eu ouvia, fechei os olhos. Eu o tinha ouvido falar sobre isso centenas de vezes antes—planos de longo prazo, estratégias e ideias de recrutamento. Tobias queria que Embercrest fosse importante em nossa parte do mundo, e fazer com que não fôssemos menosprezados por causa do nosso tamanho.

“Se pudermos chegar a mais de trezentos membros, finalmente poderíamos conseguir aquele status de howler. E quando meu pai se aposentar, se tivermos os números—”

“Ele poderia se candidatar a um dos assentos do Ancião Regional”, completei por ele com um sorriso. “E sua mãe também.”

“Definitivamente seria uma honra”, sussurrou Tobias. “Não apenas para eles, mas para a alcateia.”

Não disse em voz alta, mas gostei da ideia. Gostei de imaginar nossa alcateia sendo um lugar que outros buscavam por liderança e orientação—um lugar onde os lobos queriam estar.

Ficamos em nossa praia escondida por mais um tempo, apenas deitados à luz do sol. Eventualmente, porém, Katjaa suspirou e se levantou, cutucando Aldric para fazer o mesmo. Estava quase na hora da corrida dos lobos.

A linha de partida ficava na borda oeste das terras da alcateia, e se não voltássemos agora, chegaríamos atrasados. Katjaa deu um último espreguiçamento antes de subir a encosta rochosa em direção à estrada.

Mas, assim que chegamos ao topo do pequeno penhasco, ouvimos um rugido profundo e não natural vindo de cima. As orelhas de Katjaa se achataram enquanto ela olhava para cima. Acima das copas das árvores, caindo pelo céu como um pássaro ferido, estava um avião. Uma de suas asas estava em chamas, com labaredas deixando um rastro atrás dele.

Prendemos a respiração enquanto o avião descia cada vez mais. Indefesos e atordoados, observamos enquanto ele desaparecia atrás da linha das árvores.

Um segundo depois, um estrondo alto ecoou pelo vale. Poeira e fumaça subiram no ar, e centenas de pássaros voaram das árvores, guinchando em pânico.

“Atenção, todos os membros da alcateia Embercrest!” a voz do Alfa Gideon gritou em minha mente, nem um minuto depois. “Um avião caiu em nossas terras! Todos os adultos aptos devem ajudar nos esforços de resgate imediatamente. Encontrem sobreviventes e ajudem onde puderem.”

Assim que o Alfa terminou suas ordens, Katjaa começou a seguir para o oeste, apenas para ser impedida imediatamente por Aldric.

“Não”, Tobias enviou pelo elo. “Você e Katjaa sigam para o sul e vão para o Luna’s Mercy.”

“Por que ir ao hospital quando há pessoas feridas no local da queda?!” retruquei enquanto Katjaa batia uma pata no chão.

“Porque pode ser perigoso!” Ele rosnou, parando firmemente na nossa frente. “Se houver combustível de jato vazando no chão…”

Ele não terminou a frase, mas eu não precisei que terminasse. Eu entendi que ele estava apenas tentando me manter segura e fora de perigo. Embora eu não concordasse necessariamente com isso, talvez ir ao hospital fosse o melhor. Uma vez que os sobreviventes fossem encontrados, eles seriam imediatamente transportados para lá de qualquer maneira.

Sem pensar duas vezes, Katjaa se esfregou contra Aldric antes de seguir para o sul, em direção ao Luna’s Mercy.

N/A: Achei que agora seria um bom momento para entrar em alguns detalhes da mitologia! Embora isso seja discutido mais adiante no livro, achei que eram coisas que valia a pena mencionar agora 🥰

Uma hollow pack (alcateia vazia) é um termo usado para qualquer alcateia com menos de 300 membros. Elas são pequenas, com pouca ou nenhuma voz no que acontece em suas regiões.

Uma howler pack terá entre 300 e 1000 membros. Estas são as alcateias de tamanho mais comum e, tipicamente, compõem a maioria do poder de uma região.

Crown packs (alcateias coroa) têm entre 1000 e 2000 membros. Essas alcateias são consideradas influentes e geralmente possuem cidades maiores com uma população humana mais numerosa vivendo em suas terras. (humanos não contam para a contagem de membros de uma alcateia, mesmo se forem um “parceiro escolhido”)

Titan packs (alcateias titã) são o maior tipo de alcateia, com pelo menos 2000+ membros. Normalmente, uma região terá apenas 1 ou 2 alcateias titã, no máximo.

Sem entrar em muitos detalhes, existem oito regiões nesta terra de lobos fictícia (pense nos EUA, mas em vez de 50 estados, é dividida em regiões). Embercrest está localizada na região de Whispering Vale, que é essencialmente como a área dos Apalaches dos EUA, estendendo-se até a Flórida.

Por último, vou deixar vocês com alguns mapas de Embercrest!