Capítulo 1 ~ Perguntas demais
Um Porsche GT3 RS vermelho-maçã voava pela Interestadual 76 em direção à Filadélfia. Polla Lee havia deixado sua cabana em Wyoming dois dias antes para encontrar as pessoas com quem compartilhava o DNA.
Ela falava ao telefone com Celia, sua assistente pessoal. “Quero cada detalhe sobre Trevor Lee e seus dois filhos na minha caixa de entrada assim que eu chegar ao Rittenhouse. Além disso, ligue para a recepção e peça para agilizarem meu check-in. Não quero perder tempo com essa bobagem. Estou cansada, com fome e mal-humorada.”
Celia riu: “Alguém precisa de um cochilo. Consegui a suíte master para você. Usar o nome do velho é muito prático. Nunca imaginei que você tivesse laços sanguíneos com uma das famílias mais ricas da Pensilvânia.”
Polla rebateu com desdém: “Um perfil alto demais para o meu gosto. Legalmente, não tenho escolha a não ser morar com eles. Isso não significa que estou feliz com isso. Quando fugimos do sistema há dois anos e nos tornamos independentes, nunca pensei que descobriria que venho de uma família com dinheiro.”
Ela jogou o carro na entrada circular do hotel e foi atendida imediatamente. Recebeu o contrato de três noites para assinar e lhe entregaram um cartão magnético.
Ao entrar em sua suíte, ela pediu o serviço de quarto e tirou as botas, o short e a camisa enquanto ia tomar um banho quente.
Secando o cabelo em frente ao espelho, ela encarou o próprio rosto, imaginando com quem se parecia. Seus olhos eram grandes, de um azul vívido com um estranho brilho esverdeado ao redor das pupilas.
Seu cabelo era de um lindo tom loiro-avermelhado, claro na raiz e escuro conforme o comprimento. Ela o tinha cortado logo abaixo das omoplatas antes de sair de casa.
Ela não era baixa, mas também não era alta, com 1,65m. Suas pernas eram longas e bem torneadas, e sua cintura era fina. Mas ela estava convencida de que era uma ilusão, porque seus seios e seu bumbum eram um pouco desproporcionais para sua altura.
Polla não tinha avisado à família exatamente quando chegaria à mansão. Havia algo que a impedia de ficar feliz por tê-los encontrado. Ela sabia que estava lidando com um certo ressentimento. Será que eles a procuraram? Como ela se perdeu, afinal?
Sua família era tão rica. Então, por que nunca encontraram a criança desaparecida? Ela os encontrou depois de dois meses pesquisando em bancos de dados de DNA por todo o país.
Ao revisar o arquivo no e-mail, ela não encontrou nenhuma evidência de que seu desaparecimento tivesse sido registrado. Seus dois irmãos, Tobias e Travis, tinham 20 e 18 anos, respectivamente, então seu instinto inicial foi não guardar ressentimento por eles não a terem encontrado.
A esposa de seu pai era Susan McKee, que trouxe uma filha consigo, Tabitha, que por coincidência era exatamente duas semanas mais nova que Polla.
As informações sobre as duas eram escassas e levantavam mais perguntas do que respostas. Susan era uma divorciada de Dallas, Texas. Ela tinha sido diretora de programas em uma das filiais de design gráfico do Grupo Lee.
O ex-marido de Susan era um ex-fuzileiro naval que foi dispensado por insubordinação e se envolveu com gente perigosa. Tom acabou pegando um tempo de prisão por agressão, e Susan se divorciou dele enquanto ele estava encarcerado.
Mas havia pouquíssimo histórico antes do casamento. Polla encontrou várias barreiras em sua investigação. Celia e sua equipe ainda estavam trabalhando para derrubar essas barreiras.
Perguntas demais. Polla sabia que sua mãe, Pauline Braden Lee, morreu em um acidente de carro. Ela não entendia por que a mãe estaria dirigindo tarde da noite. E sozinha. Ela não entendia por que partes do relatório da autópsia foram censuradas. Sua equipe de advogados esperava seu sinal verde para pedir ao tribunal as cópias originais.
Trevor Lee adotou Tabitha legalmente no dia em que se casou com Susan, tornando-a a mais nova dos filhos Lee. Ela era uma debutante muito bem-sucedida desde que se tornou uma princesa. Balé. Violino. Etiqueta e oratória.
Tudo polido e educado. E tudo o que Polla não era. Polla foi abençoada com um QI alto e era estudiosa. Ela tocava piano e era muito habilidosa com arte. Mas ela foi moldada pela escola da vida, não por uma escola de etiqueta.
Ela aprendeu a sobreviver nas ruas. Ela podia — e iria — lutar ao primeiro sinal de injustiça ou bullying. Ter que lutar por comida a ensinou a sobrevivência do mais apto. Ensinou-a a nunca tomar nada como garantido.
Agora, após dez anos, ela sentia como se estivesse entrando na cova dos leões e não se permitiria, de jeito nenhum, ser pega desprevenida. Tinha que haver motivos ocultos para a morte de sua mãe e para o seu próprio desaparecimento, poucos meses depois.
Por que seu desaparecimento não foi notado? Como a mídia não cobriu que a filha de uma família tão da elite havia desaparecido?
Perguntas demais.